Trump — tudo ou nada
Se Trump partir para o tudo ou nada, é preciso estar a postos para defender a democracia e as liberdades, reservando a ele o que merece: a lata de lixo da história
Estados Unidos Hoje da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco
Todo início de ano, o presidente dos Estados Unidos profere diante do Congresso Nacional o discurso “State of the Union”, apresentando um balanço e as perspectivas do país.
O discurso recente de Trump, em 24 de fevereiro, foi um show de horrores. Não surpreende, em se tratando de Trump. Mas é preciso notar que o presidente intensificou sua retórica em um momento de isolamento crescente da sua política e redução da sua popularidade, diferentemente do quadro de um ano atrás.
Há duas formas de encarar a postura do republicano. De um lado, pode ser que o tom adotado se revele um enorme erro, levando a mais isolamento e a uma derrota nas eleições de meio de mandato (midterms), em novembro próximo. De outro lado, o presidente pode ter dado pistas de que, consciente da queda da sua popularidade, tentará estimular o movimento de extrema-direita a ir para o tudo ou nada.
Alguns eixos expressaram a possibilidade de “fuga pela frente” de Trump, ainda que às vezes de forma ambígua.
Na economia, o presidente recusou-se a encarar a realidade do país, na qual a maioria da população continua queixosa sobre a inflação e o alto custo de vida. Pelo contrário, atacou a Suprema Corte por bloquear as tarifas e reforçou a reimposição delas, agora numa faixa entre 10% e 15% para todo o mundo. O eixo do discurso seguiu sendo o nacionalismo e a ideia de uma “era de ouro” para os Estados Unidos, ressoando a retórica neofascista.
Além disso, as afirmações sobre política externa alinharam-se à nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada em dezembro. Trata-se da afirmação de um novo patamar de agressividade e neocolonialismo do imperialismo estadunidense, com refração especial nas Américas, como demonstrado no ataque à Venezuela. Poucos dias depois do discurso, os Estados Unidos, aliados ao Estado genocida de Israel, deram início à guerra agora em curso no Irã.
Mas foi especialmente na política doméstica que a insinuação de um tudo ou nada trumpista se expressou. Além da contumaz vulgaridade e agressividade com que se dirigiu aos opositores, Trump dobrou a aposta em dois temas: imigração e eleições.
Embora derrotado na batalha de Minneapolis e atualmente sem patrocinar outra ação concentrada semelhante do ICE (que segue, no entanto, agindo ao redor do país), o presidente de novo proferiu ataques racistas a imigrantes, inclusive à comunidade somali de Minneapolis. Em reação, as bravas deputadas Ilhan Omar e Rashida Tlaib gritaram em direção ao presidente, acusando-o pelas mortes de Renee Good e Alex Pretti. Ficou claro que a batalha em torno da política repressiva do ICE terá sucessivas fases e está apenas começando.
Quanto às eleições — a ameaça à democracia burguesa que paira no ar —, Trump mais uma vez insinuou a existência de fraudes eleitorais, afirmou que democratas só vencem se roubarem e conclamou a uma “ação urgente” do Congresso (de maioria republicana) a respeito das midterms. Dias antes, o perfil oficial da Casa Branca nas redes sociais havia publicado um vídeo sugerindo um “apelo popular” para um terceiro mandato trumpista.
Ao se tratar de Trump, sempre é difícil distinguir jogo de cena e ofensiva real. Ao mesmo tempo, a política fascista é caracterizada pelas múltiplas aproximações e insinuações, até que se tente efetivamente a virada de mesa. Lembre-se, ainda, de que em 2020 Trump foi gravado ordenando que “encontrassem” votos extras de que ele precisava para vencer as eleições em que foi derrotado por Joe Biden. Uma tentativa de fraude eleitoral por parte de Trump não seria novidade, mas reincidência.
Independentemente de especulações, o fundamental agora é que o amplo movimento em oposição ao neofascismo trumpista esteja preparado para agir. Isso passa pela organização eleitoral para as midterms, por um lado, mas por outro, pela continuidade das ações de rua. Há um próximo No Kings Day convocado para 28 de março, que deverá incorporar à sua política o rechaço à guerra no Irã. As organizações de resposta rápida ao ICE estão se ramificando pelo país, inspiradas por Minneapolis. Greves recentes, como a das enfermeiras de Nova York e a de professores de São Francisco, alcançaram vitórias. Tem crescido a preparação para mobilizações em larga escala no próximo 1º de maio. A consciência política nacional, por imposição da realidade, tem avançado.
Se Trump partir para o tudo ou nada, é preciso estar a postos para defender a democracia e as liberdades, reservando a ele o que merece: a lata de lixo da história.