“Para quem defende conciliação de classes, é importante que o PSOL não exista”
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“Para quem defende conciliação de classes, é importante que o PSOL não exista”

Uma entrevista exclusiva com a vereadora Luana Alves, do PSOL de São Paulo

Letícia Chagas 5 mar 2026, 14:09

É comum a ideia de que mulheres negras são a “base” da pirâmide social, já que sofrem com a opressão de classe, raça e gênero. Se a exploração das mulheres negras é fundamental para o modo de produção capitalista, a luta dessas mulheres também é fundamental para destruí-lo. Não à toa, mulheres negras têm protagonizado importantes lutas de nosso tempo. Luana Alves é um exemplo disso. 

Luana é uma das mais jovens vereadoras da história de São Paulo, a primeira mulher negra a se reeleger na capital. Esses feitos poderiam provocar nela um personalismo perigoso, mas Luana escolheu o caminho da luta coletiva: além de vereadora pelo PSOL, ela é uma dirigente do Movimento Esquerda Socialista, diretamente envolvida na elaboração programática de nossa organização, ciente de que não há “salvadores da pátria” e que é a luta da classe trabalhadora que transforma o mundo. 

Nessa entrevista, Luana comenta a polêmica da federação entre PT e PSOL. A proposta, que é amplamente rechaçada pelo partido e apoiada apenas pelo grupo de Guilherme Boulos e Érika Hilton, pode significar a perda da autonomia do partido e de seu compromisso com as lutas de nosso tempo. 

Letícia: O PSOL nasceu como uma alternativa ao projeto petista de conciliação de classes, com um perfil mais jovem e combativo. Nos últimos anos, contudo, o partido tem se aproximado cada vez mais do governo Lula. Inclusive, nesse momento em que gravamos, há uma tentativa de fazer uma federação entre o PSOL e o PT. Como você avalia essa aproximação entre os dois partidos? Você acha que essa aproximação fortalece ou diminui o PSOL?

Diminui, sem sombra de dúvida. Então, indo para o começo da sua pergunta. A existência do PSOL tem a ver com uma necessidade histórica de luta por pautas da classe trabalhadora.

O PT é um partido que tem uma história fundamental no Brasil. E o PT é um partido que, desde a sua essência, sempre foi amplo. Quando eu digo que sempre foi amplo, [significa] desde movimentos sindicais, movimentos eclesiais de base, grupos comunistas, sindicalistas, professores, toda a categoria. Mas amplo, inclusive, com uma parte de uma esquerda que não aposta em uma tentativa revolucionária. O PT sempre foi, na verdade, essa mistura de grupos, de tendências, de formas de atuação política na realidade. E quando o Lula chega ao poder, em 2002, a realidade é que o campo do PT, que a gente chama de mais liberal, um campo do PT que acredita na conciliação de classe, ganhou força.

Então a existência do PSOL é uma consequência. O PSOL surgiu como um racha do PT numa necessidade histórica de ter um partido político que expressasse as demandas, as exigências da classe trabalhadora. Em termos de lei trabalhista, em termos de reformas sociais, de políticas públicas… inclusive em termos de horizonte socialista. E a real é que essa necessidade histórica segue existindo.

Não existiu uma ida do PT à esquerda, não tem nada na realidade que coloque o fim da necessidade histórica do PSOL. Tem grupos que acham que o avanço da extrema-direita justificaria o PSOL deixar de existir na sua essência pra somar forças ao petismo, que é o campo da conciliação de classe. Só que isso é um erro histórico muito forte.

A gente sabe que tá tendo um crescimento da extrema-direita nas bases, mesmo, isso é real e ninguém diz que isso não é real. Agora, qual é a saída da esquerda? Vai ser propor uma saída mediana pra população? Pelo contrário, tem que ser dialogar com o sentimento das pessoas, inclusive com o sentimento antissistema das pessoas, de revolta das pessoas, e aí reforçar o nosso programa de defesa radical dos trabalhadores. Então é por aí, e eu acho que na verdade aumenta a necessidade histórica do PSOL, a conjuntura atual.

Então, a questão da federação é muito preocupante, por quê? Porque a federação, dentro do que o TSE propôs, é um tipo de aliança que não é simplesmente estar numa coligação em conjunto. Porque a gente já teve coligação com o PT antes. As coligações são territorializadas, elas são de uma determinada eleição.

A federação é na prática funcionar como um partido só. Então, por exemplo, eleição de vereadora, eleição de deputado, a pessoa que vai votar no candidato do PSOL, ele vai ajudar no quociente eleitoral de todos que estão na federação. Vai ter uma necessidade, uma obrigatoriedade de estarem nas mesmas chapas, a nível federal, estadual e municipal.

A própria ideia da federação, o TSE afirma isso, é na tentativa de criar ensaios pra unificação de partidos. É no sentido de diminuir o número de partidos políticos no Brasil, isso foi declarado. Então, é uma nova modalidade que foi criada como uma possibilidade de uma atuação em conjunto pra ver se vai dar certo ou não. No sentido de juntar os partidos. Então, não é simplesmente uma coligação, é muito mais do que isso. É perder, de fato, a possibilidade de independência.

Não vai ter como, se o PSOL estiver numa coligação, falar seriamente contra uma possível medida neoliberal de um governo do PT. Não vai ter como, simplesmente. Porque a gente vai ser parte de um mesmo conjunto partidário.

L: A federação envolve voto de bancada também? 

Não envolve voto de bancada. O voto do deputado é livre sempre, inclusive dentro do mesmo partido. Tanto que o PSOL já teve votação dividida.

Mas, por exemplo, vou te dar um exemplo muito concreto: com a federação, uma pessoa que vota no candidato do PSOL que tem um programa à esquerda, que tem um programa mais independente, aquele voto, se esse deputado federal do PSOL não for [bem] votado, o voto daquela pessoa vai ajudar a eleger um possível perfil do PT de conciliação de classe. Vai entrar na mesma contagem eleitoral, mesmo quociente [eleitoral]. 

Tem gente que fala “ah, mas vice-versa também é verdade”. Também vai contar pro PSOL. Ok, mas do ponto de vista de recado que a gente passa pra população, de mensagem que a gente coloca, qual que é? Qual que é o nosso programa? Não vai ter mais fronteira nisso. Na minha opinião, é muito complicado.

Então, não tem condição de fazer uma coisa dessa, entendeu? E sem contar que eu acho que seria a mesma coisa que dizer “olha, aquela conjuntura de surgimento do PSOL, que apresentava condições que tornavam necessária a existência do PSOL, não existe mais. É o momento da gente se unificar contra a extrema-direita”. 

Nós temos que nos unificar contra a extrema-direita, é óbvio, mas nós não podemos diluir a nossa defesa da classe trabalhadora no caminho, porque isso vai se voltar contra todo mundo, inclusive contra o PT. Porque vai ser aumentar a base onde a extrema-direita trabalha, a base de descontentes, de indignação, e que vão achar uma alternativa que vai ser antissistema, que vai se apresentar pra eles. Enfim, em resumo, eu acho que é isso. 

L: Outra coisa da federação que me parece um problema é que o PT tem muitos quadros homens brancos mais velhos, é um partido que não conseguiu se renovar. Eu queria entender um pouco como você avalia isso dentro do PT e como você avalia a política do governo atual em relação à pauta da negritude. 

Olha, o perfil de grande parte dos parlamentares, das figuras públicas, mas em especial dos campos de comando do PT, é um reflexo da política que eles têm tomado nos últimos anos. Não é um acaso do destino, não é culpa só do racismo estrutural, não é culpa só do patriarcado.

Claro que também é, mas se fosse isso, o PSOL não teria [se renovado também]. Tem a ver com uma política de conciliação de classe e de fazer acenos ao campo do centrão. Então, eu acho que é uma escolha, não só uma escolha, mas uma consequência das avaliações políticas do PT.

Agora, eu acho que uma federação, na prática, em alguns contextos, em algumas regiões, poderia significar que, por exemplo, pessoas negras, pessoas LGBT muito bem votadas do PSOL, vão ajudar a eleger figuras que talvez, inclusive o campo progressista, não ache mais que é o caso de estar no parlamento. Falando de forma bem concreta. É possível que isso aconteça.

Claro que, num contexto de federação, funciona para os dois lados, mas se você for ver, inclusive, a tendência de votos, funcionaria mais para o lado do PT. Então, eu acho que é algo que temos que tomar bastante cuidado. As pessoas têm direito de colocar ali na urna o seu voto.

Enfim, eu, sinceramente, acho que a maneira como isso está sendo construído, como está sendo colocado, é uma tentativa de… Para mim, não é nem o cálculo eleitoral que eles estão fazendo. Acho que eles também estão fazendo, mas para mim, não é nem só isso. Eu acho que eles estão preocupados com uma coisa mais de concepção.

Para o campo que aposta que a melhor saída é fazer acenos ao centrão, é a conciliação de classe, é diminuir os passos da esquerda radical, para esse campo, do ponto de vista conceitual, é importante que o projeto do PSOL não exista mais. Ou, se existir, que ele não seja apresentado como é apresentado, com mandatos combativos, que têm visibilidade. Então, eu acho que esse é o principal problema.

Esse não é um julgamento moral sobre esse campo do PT. Eu acho que eles avaliam que a melhor forma de derrotar a extrema-direita é esse, pronto. Então, teria que retirar o espaço da esquerda radical para conseguirem fazer o discurso aguado, o discurso de conciliação que eles fazem para a população. Eu acho que eles, de fato, acham isso.

Então, para eles, a derrota do projeto do PSOL é necessária. 

L: É, em uma federação o PT é o maior partido, né? Então, o PSOL ficaria muito pequeno ali na coisa. 

Exato, o PSOL não teria possibilidade, por ser menor que o PT, ter menos tempo de existência, e – é importante ter crítica ao PSOL também –  de ter falhado no enraizamento, no ganho de referência nas massas, o fato é que o PSOL não teria correlação de forças internas numa federação para definir pontos programáticos.

Assim, tem o programa da federação. Como é que o PSOL, sendo menor, vai poder ter correlação de força nesse programa? Entende? Então, acho que é complicado. Sem contar que, assim, é plenamente possível, sem a federação, fazer unidade de luta contra a extrema-direita, contra os governos de direita.

A gente faz aqui na Câmara Municipal. Tranquilo, não precisa de federação. Direto, a gente vota junto com o PT. A gente faz aliança de articulação com o PT para derrubar tal projeto, para fazer obstrução. Isso é comum. A gente se reúne com o PT toda semana.

E a gente faz. Quando não tem acordo, a gente não faz. Quando não tem acordo, a gente não tem o compromisso de estar junto.

Então, eu não acho que a federação… Esse argumento de que precisa da federação para a gente ter unidade de luta contra a extrema-direita não cola. Porque a gente já faz em grande parte do tempo. A gente combate o bolsonarismo.

A gente foi para a luta pela prisão do Bolsonaro, contra a anistia. Então, não precisa de federação. Esse argumento não cola, é um pouco, inclusive, fazer pouco da inteligência das pessoas esse tipo de argumento. 


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