O Manifesto Tecnofascista da Palantir: o fim da política e o início da era da dominação por IA

O Manifesto Tecnofascista da Palantir: o fim da política e o início da era da dominação por IA

O que o manifesto da Palantir nos revela sobre os interesses bélicos e geopolíticos das Big Techs diante da crise de hegemonia dos Estados Unidos?

Davi Barbosa 28 abr 2026, 15:40

Na última semana, repercutiu na internet um resumo de 22 tópicos do novo livro de Alex Karp, CEO da Palantir Technologies. Intitulado A República Tecnológica: Tecnologia, Política e o Futuro do Ocidente (Ed. Intrínseca, 2025), o livro foi sintetizado pelo perfil oficial da empresa no X (antigo Twitter). Os pontos apresentados foram rapidamente identificados como um manifesto tecnofascista. 

Antes de se debruçar na análise do porque esses 22 pontos funcionam como um manual de dominação mundial fascista por meio dos dados e da Inteligência Artificial, é preciso compreender o que é a Palantir, uma empresa que figura hoje como a espinha dorsal do sistema de segurança e guerra dos Estados Unidos. 

A Palantir foi fundada em 2003, por Peter Thiel, Alex Karp e alguns engenheiros de software e programadores. Peter Thiel foi cofundador do PayPal e é amplamente conhecido como uma pessoa que flerta com os ideais nazistas. Peter concebeu a Palantir para superar o que ele identificou como um fracasso das forças de segurança dos Estados Unidos diante dos episódios do 11 de setembro. Para ele, o serviço de inteligência norte-americano possuía uma infinidade de dados, mas não tinha capacidade para processá-los e coordená-los.

Pouco tempo depois da fundação da Palantir, a empresa obteve um investimento de capital da CIA (Serviço de Inteligência norte-americano) e logo passou a ser uma organização central no Departamento de Defesa dos Estados Unidos, mas também nas políticas internas de segurança pública e de vigilância. O serviço mais bem-sucedido da Palantir é o programa Gotham, um software capaz de reunir e integrar dados, analisar redes e padrões que são utilizados em aplicações bélicas e operações militares, na identificação de alvos e mapeamento de tropas inimigas, além de serviços algorítmicos de policiamento preditivo. 

Os serviços da Palantir foram os responsáveis pela identificação e assassinato de Osama Bin Laden em 2011 e servem hoje à cruzada anti-imigrante de Trump em todo o território estadunidense por meio do ICE. Não se pode esquecer que a Palantir é parte da máquina de massacre do Mossad israelense, além de ter sido contratada pelas Forças Armadas de Israel após o 7 de outubro de 2023, quando o regime sionista aprofundou seu extermínio na Faixa de Gaza. 

O primeiro dos 22 tópicos publicados pela Palantir no X começa invocando o Vale do Silício a abandonar seus preceitos fundadores e se incorporar ao complexo militar-industrial-dataficado dos Estados Unidos, pois possuem uma “dívida moral para com o país que tornou possível sua ascensão”. ​O Vale do Silício já é peça-chave no aparato que emprega alta tecnologia para vigilância, desestabilização democrática e exacerbação do lucro das Big Techs. Entretanto, o manifesto conclama engenheiros, programadores e cientistas californianos, mas em especial os CEOs dessas Big Techs, a darem um passo além, abandonarem o desenvolvimento do “Iphone e do email gratuito” e voltarem seus esforços ao fortalecimento da defesa estadunidense, à construção de sua soberania baseada em dados e ao combate ao crime violento.

O manifesto também aponta que é preciso se desvencilhar do multilateralismo e do diálogo como meio de intermediação entre interesses nacionais. “Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido”, diz. Localizando o Ocidente e os Estados Unidos como salvaguarda dos valores e da moral, defende que enquanto existem algumas nações superiores, existem também nações inferiores e “regressivas”, o que precisamos compreender como uma justificativa para tê-las como alvos de guerra.

O multilateralismo como conhecemos hoje também não responde aos anseios do povo, mas a superação da ordem internacional vigente que o manifesto busca construir é para colocar no lugar uma mega máquina capaz de subjugar inúmeras nações ao seu poderio militar e tecnológico, orientada por uma ideologia fascista, como a empreendida por Donald Trump. 

“A questão não é se armas de IA serão construídas; é quem as construirá e com que propósito”, diz o manifesto. A aposta na aplicação de Inteligência Artificial para armas de guerra e de combate doméstico vem junto com a reivindicação de que o serviço militar se torne universal nos Estados Unidos, além de que possam se desenvolver de forma permanentes softwares e armas que estejam a serviço da ampliação dos campos de batalha e de extermínio.

É nítido que para não serem deixados para trás por outras potências militares e tecnológicas como China e Rússia, Alex Karp defende que os Estados Unidos devem antecipar-se e construir desde já uma sociedade inteiramente a serviço da autoproteção e do combate, utilizando para isso todo o aparato tecnológico possível e imaginável. 

Dentre tantas outras questões, destaco por fim o chamado que o autor do livro faz à necessidade de colocar fim à “era atômica e iniciar a era da dissuasão baseada em IA”. Ou seja, é uma busca por romper a ordem e os vínculos sociais construídos entre os povos para que eles sejam substituídos por softwares e algoritmos, que sejam controláveis, mas também controladores.

O manifesto brada assim a vontade de construir um sistema capaz de estabelecer uma vigilância que se estenda a tudo e a todos, de interferir nos processos sociais, políticos e econômicos, públicos e privados e de estabelecer a hegemonia dos Estados Unidos por meio de aparatos militares cada vez mais automatizados e dataficados por todo o mundo. 

Mesmo não citando todas as reflexões do manifesto, fica claro que suas aspirações são nitidamente fascistas, ou melhor, tecnofascistas. A sanha por hegemonia, controle e expansão baseada no uso da violência e da tecnologia, relegando países a uma subcategoria de humanidade poderia ser um programa de governo de um líder fascista. Na verdade, é exatamente isso que pretende ser. A Palantir e seu CEO, inspirados por Trump, não buscam mais apenas o lucro, mas a simbiose absoluta e definitiva entre o Estado e as Big Techs, mesmo que para isso seja preciso dissolver as fronteiras entre o cidadão, o soldado e o alvo de guerra. 

O que estamos chamando de manifesto tecnofascista é, portanto, um ponto de inflexão na conjuntura internacional. Se antes era possível depreender que os objetivos por trás da aliança entre Inteligência Artificial, dados e armas de guerra feita pelos Estados Unidos era parte da busca para inaugurar um regime fascista de novo tipo, agora esses objetivos estão escritos e delineados para todos aqueles que quiserem ver, como uma espécie de aviso ou de mapa do tesouro, que caso não tenha respostas à altura poderá levar a uma reconfiguração do mundo como conhecemos hoje. Para pior. 

É de se espantar, portanto, que às vésperas de uma eleição decisiva para impedir que a extrema-direita se aposse do nosso país e abra caminho para uma intervenção de Trump, o Governo Federal mantenha hoje contratos milionários com a Palantir para gestão de dados do FNDE, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. O governo, que se justifica dizendo que usa apenas os softwares de gestão de dados da Palantir mantendo toda a privacidade necessária, na verdade está ajudando a financiar uma máquina tecnológica de destruição em massa que em breve estará apontada para nós e que funciona como um cavalo de troia, rodando dados críticos do nosso país num ecossistema digital estrangeiro. 

Esses contratos com a Palantir não se resumem apenas ao Governo Federal. Estão presentes nas Secretarias de Segurança Pública de São Paulo e do Rio de Janeiro, no Ministério da Justiça, na Polícia Federal, no Exército e até mesmo na gestão de dados de imunização do Instituto Butantan. Isso significa que dinheiro público brasileiro está sendo útil à construção de uma estratégia tecnofascista por parte da Palantir que nos terá certamente como alvos, não como aliados

É preciso intensificar a reivindicação pelo rompimento do contrato entre Governo Federal e Palantir, como bem está fazendo o mandato de Sâmia Bomfim (MES-PSOL), assim como todos os demais contratos. Mas também levantar a bandeira de que o enfrentamento ao fascismo no século XXI precisa passar pelo enfrentamento às BigTechs, às suas estruturas de vigilância e controle e aos seus CEOs, que ora se comportam como gestores, ora se comportam como ideólogos de uma reconfiguração tecnofascista no mundo.

Acesse os 22 pontos aqui: https://x.com/PalantirTech/status/2045574398573453312?s=20 


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 24 abr 2026

Lula e Trump: um debate inevitável

Não há nenhuma possibilidade de vitória real contra a extrema direita sem levantar a bandeira da soberania e parar a mão de Trump
Lula e Trump: um debate inevitável
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores