A guerra contra o Irã e a questão da hegemonia global
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A guerra contra o Irã e a questão da hegemonia global

Uma análise da ação imperialista estadounidense contra o país persa

Marcio Ornelas 17 mar 2026, 10:11

A guerra no Oriente Médio costuma ser absolutamente custosa, por isso nos últimos anos os EUA têm preferido adotar ações por procuração, através de aliados na região que possam cumprir missões militares específicas, dando apoio necessário com suas bases militares espalhadas pelo globo.

Mas a incursão contra o Irã envolve diretamente as forças armadas dos Estados Unidos, colocando as frotas americanas na linha de frente do conflito para alcançar objetivos estratégicos específicos e gerais, que são:

1 – Objetivo específico: forçar o Irã a uma transição de regime que possa estar alinhada politicamente com os EUA (tal como no passado).


2 – Objetivo geral: reforçar o arco de proteção contra a influência chinesa na região e conter o processo de transição hegemônica.

Vamos analisar conjunturalmente a possibilidade desses objetivos serem alcançados seja em sua totalidade ou parcialmente.

O ataque ao Irã e a retaliação

O momento para uma ofensiva contra o Irã era considerado oportuno por Washington. O regime comandado por Ali Khamenei vinha enfrentando manifestações populares poderosas, existia nas ruas de Teerã uma disposição legítima para enfrentar o regime e exigir reformas que proporcionassem mais direitos para a população.

Na madrugada de 28 de fevereiro, EUA e Israel fizeram a primeira ofensiva conjunta contra o Irã. Nas primeiras horas desse mesmo dia Ali Khamenei foi morto num bombardeio que atingiu o seu bunker. A partir daí o conflito se desencadeou com o aprofundamento dos ataques, como forma de ampliar a destruição na capital e colapsar de vez o regime.

Passados mais de duas semanas de conflito, podemos afirmar que a estratégia de derrubada rápida do regime não funcionou e a ascensão do filho de Khamenei ao poder, é uma prova objetiva de que o regime se mantém e esse objetivo específico ainda não foi alcançado.

Nas palavras de Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da PUC-MG: “A resiliência iraniana se mostrou capaz de suportar os violentos golpes recebidos das forças aéreas dos EUA e de Israel. Ao mesmo tempo, conseguiu envolver de maneira sistêmica seus vizinhos e o mundo gerando uma crise energética e de logística tanto para o exército estadunidense e israelense quanto para a distribuição de bens e serviços de energia no mundo.”

Quando o professor menciona o envolvimento de países vizinhos, está se referindo ao fato de que o Irã foi capaz de fazer uma retaliação pesada aos países aliados dos americanos, bombardeando as bases militares dos EUA em vários locais como: Catar, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein, Iraque e Emirados dos Árabes. Essa ação prolongada do Irã, força inclusive uma alteração de percepção no Golfo Pérsico: ter bases militares dos EUA não é mais um sinônimo de segurança, é justamente o oposto.

Mas o que de fato pode decidir essa guerra, o fracasso ou o sucesso, para ambos os lados, reside no elemento mencionado pelo professor Zahreddine que é a crise energética provocada por uma ação extrema do Irã: o fechamento do Estreito de Ormuz.

O Estreito de Ormuz e a crise energética

O Irã bloqueou o Estreito de Ormuz com a ameaça de que “sequer uma gota de petróleo passaria por ali” e sua ação tem sido violenta contra os navios que ousam se arriscar. No seu ponto mais estreito, só há 33 quilômetros de largura de águas navegáveis, é realmente impossível passar por ali sem ser notado.

Com o tráfego parado desde o início de março, podemos dizer que o mundo enfrenta sua maior crise energética desde 1970. Como um dos principais “pontos de estrangulamento” do mundo, vamos ilustrar com alguns dados a importância do Estreito de Ormuz:

1 – Em 2025 o fluxo médio foi de 21 milhões de barris por dia (bpd). Isso representa cerca de 20% de todo o consumo mundial de petróleo e mais de um quarto de todo o petróleo comercializado por via marítima.

2 – O estreito é a única saída para o Gás Natural do Catar, o maior exportador mundial. Aproximadamente 20% do comércio global de GNL passa por Ormuz.

3 – As alternativas à Ormuz que são os oleodutos operados pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos possuem capacidade combinada para desviar apenas uma fração (cerca de 3,5 milhões bpd) da quantidade de petróleo que passa pelo estreito.

A consequência do fechamento do Estreito de Ormuz é a elevação imediata nos preços do barril de petróleo, que já ultrapassa os U$100, mas com analistas afirmando que ele pode rapidamente escalar para U$200 se o bloqueio persistir por mais tempo. A situação do gás é igualmente preocupante, visto que a guerra que a Rússia trava com a Ucrânia já havia prejudicado parte do fornecimento para a Europa e agora a principal alternativa ao gás russo (Catar) está inviabilizada.

Tal cenário escalaria inevitavelmente para uma inflação global que seria mais um fator de risco de “desestabilização da Pax Hegemônica”. Portanto, o Estreito de Ormuz deixa de ser apenas um ponto de trânsito para tornar-se o campo de batalha da economia global e o fator decisivo dessa guerra.

Para o Irã, Ormuz é a última linha de dissuasão global para o fim das agressões imperialistas. Para os EUA, a reabertura do estreito pode ser uma forma de declarar vitória, ainda que os objetivos iniciais não tenham sido alcançados. Entretanto, garantir a total segurança do Estreito de Ormuz, implicaria na necessidade de aniquilar o Irã por completo, tarefa que não parece possível de ser realizada em curto prazo.

A crise dos EUA e a possível transição hegemônica  

Existe quase que um consenso de que os EUA experienciam uma crise de sua hegemonia. Nem tão consensual assim é a ideia de que o século XXI seja marcado por um processo de transição hegemônica, hipótese defendida firmemente por autores como o marxista Giovanni Arrighi com sua tese dos ciclos de acumulação de longa duração, ou por pesquisadores importantes das relações internacionais como Pecequilo. De toda a forma, a crise hegemônica dos EUA está marcada por uma combinação de uma crise interna profunda e o avanço chinês sobre os mercados globais. 

O professor José Fiori cunhou o conceito de “destruição inovadora” para caracterizar o processo de desestabilização da ordem vigente, causado pelo hegemon, para reconstruir o poder ao seu próprio favor, provocando crises e disrupturas no próprio sistema que ele lidera.

Esse parece ser exatamente o momento histórico dos EUA, acelerado pelo avanço da influência chinesa no mundo. É o momento onde as instituições internacionais criadas para garantir a reprodução da hegemonia dos EUA, não conseguem mais exercer esse papel, cabendo uma reconfiguração na forma de ruptura com o próprio sistema. A ordem mundial criada pelos EUA precisa ser refeita à luz de uma nova conjuntura global multipolarizada.

As ações imperialistas dos EUA ao redor do mundo, se enquadram perfeitamente nesse conceito do Fiori, onde entidades como a diplomacia estão suplantadas pela necessidade de restabelecer o poder global.

Essa nova ofensiva imperialista passa também pela perspectiva de resolver a crise interna dos EUA, provocada em parte pelo peso de sustentar o sistema capitalista, sobretudo a partir da crise de 2008.

Vamos traçar um breve cenário sobre a crise interna americana, pois vai nos ajudar a problematizar ainda mais a situação precária da atual guerra travada contra o Irã:

1 – A política de “socialização das perdas” implementada na crise de 2008, fez o Estado Norte-Americano assumir os passivos do sistema financeiro para evitar um colapso sistêmico, transformando uma crise de crédito privado, numa crise de solvência pública.

2 – Cenário de crise e desemprego que diminui drasticamente a arrecadação, enquanto os gastos com proteção social aumentaram no mesmo período.

3 – A manutenção da hegemonia global exige um gasto militar desproporcional, mesmo em momentos de crise acentuada. 

Como a crise americana está fundamentalmente calcada no problema da dívida pública, isso se agrava no cenário da guerra contra o Irã.

Os dados oficiais do governo americano apontam que nos primeiros 7 dias de guerra, mais de 11 bilhões de dólares foram gastos. O financiamento da guerra contra o Irã vai se dar fundamentalmente pela emissão de novos títulos, ou seja, a ampliação do endividamento americano. O segundo ponto é que o fechamento de Ormuz provoca uma disparada do preço do petróleo, que implica a necessidade de em curto prazo, aumentar a taxa de juros e consequentemente o serviço da dívida pública ficar ainda mais caro.

Por fim, mas não menos importante no aspecto geral da crise dos EUA, consiste na erosão da hegemonia do dólar. Como os EUA já se comporta como um agente de disrupção do sistema internacional, acelera a iniciativa da China de buscar trocas comerciais (sobretudo no setor energético) por fora do dólar. E pode parecer complexo, mas importante ressaltar: se o dólar vai paulatinamente perdendo o status de reserva global, os EUA perdem a capacidade única de financiar sua dívida interna através da impressão de moeda sem sofrer as consequências imediatas de uma desvalorização.

Então, ao mesmo tempo que as ações imperialistas possuem o potencial de atenuar problemas estruturais da crise interna americana, se os objetivos não forem alcançados como aparenta ser o caso nessa incursão contra o Irã, o efeito tende a ser na direção de aprofundamento dessa crise.

Conclusão: a ascensão chinesa

A ação dos EUA no Irã, para além dos motivos já abordados, implica na necessidade de conter o aumento da influência chinesa na região do Golfo Pérsico e com isso frear o processo de integração euroasiática. Sob a ótica da Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Iniciative – BRI), o Irã não é apenas um parceiro comercial, mas o centro geográfico que viabiliza a integração terrestre da Eurásia. Ao atacar o regime de Teerã e desestabilizar a região, Washington busca desarticular o “corredor central” da BRI, forçando o fluxo comercial a retornar para as rotas marítimas, onde sua primazia naval é inquestionável.

A Iniciativa Cinturão e Rota, lançada em 2013, representa a etapa superior da globalização chinesa, visando superar sua vulnerabilidade em depender de estreitos marítimos patrulhados por forças estrangeiras, tais quais o Estreito de Ormuz e o de Malaca. O Irã é o nó que conecta o Cinturão (terrestre) à Rota (marítima), oferecendo à China uma alternativa logística que liga Xinjiang à Europa e ao Oriente Médio por trens de alta velocidade e dutos energéticos. Foram bilhões de dólares investidos pela China no setor de hidrocarbonetos, infraestrutura e oleodutos para transformar o Irã na ponte que vai viabilizar a ampla conectividade terrestre do BRI.

Portanto, para além dos discursos rasos que classificam a ofensiva americana como uma “questão de segurança nacional” ou “contenção nuclear iraniana”, os reais objetivos estão postos na necessidade de desestabilizar o Irã, como uma tentativa direta de implodir a viabilidade econômica desse projeto, transformando os investimentos chineses em ativos “podres”, numa zona de guerra.

Entretanto a China já vem há anos operando numa lógica de precaução estratégica, construindo segundo Pautasso (2019), um sistema de redundâncias para não ficar refém da instabilidade instigada pelos EUA. Alguns dos empreendimentos concretos que apontam nessa direção são:

1 – Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC): com o desenvolvimento do Porto de Gwadar, a China estabeleceu uma saída que conecta o Mar da Arábia ao seu território por terra, mitigando a importância do Estreito de Ormuz.

2 – A Rota Transiberiana e a parceria com a Rússia: a aceleração do uso de ferrovias trans-euroasiáticas e oleodutos russos garante que, mesmo com os oceanos bloqueados, o parque industrial chinês siga operando.

3 – O Porto de Kyaukpyu em Mianmar: constitui uma rota alternativa que permite que o petróleo do Oriente Médio entre na China sem passar pelo Mar do Sul da China.

Em suma, por trás das distintas estratégias chinesas e americanas, a questão central que está colocada é a disputa pela hegemonia global. Enquanto os EUA utilizam sua capacidade destrutiva para tentar manter sua hegemonia centrada na dívida e na coerção (Pecequilo 2024), a China responde com uma capacidade construtiva que busca tornar o poder naval americano obsoleto.

Logicamente muitas questões permanecerão em aberto: até onde vai a capacidade dos EUA de sustentar a estratégia destrutiva de alto custo e os resultados efetivos que podem ser alcançados com isso? Até quando a neutralidade chinesa e a política de não conflito em escalas globais vai perdurar?

O fato é que a guerra do Irã só pode ser compreendida em sua essência como parte da disputa hegemônica global, atacando o eixo estrutural da integração pensada pela China. Mas ao atacar o Irã mirando atingir a China, uma hipótese não pode ser descartada, pois os EUA podem acabar acelerando exatamente o que pretendiam evitar: a consolidação ainda mais rápida de um bloco euroasiático autônomo, desdolarizado e imune ao controle marítimo ocidental.

Referências Bibliográficas

​ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Rio de Janeiro: Boitempo, 2008.

BRITES, Pedro Vinícius Pereira. O Nordeste Asiático como eixo das disputas hegemônicas: competição e desestruturação da ordem regional. Brazilian Journal of International Relations (BJIR), v. 7, n. 3, Edição Especial, p. 1-35, 2018.

​FIORI, José Luís. O Poder Global e a nova geopolítica das nações. São Paulo: Boitempo, 2007.

​HUNG, Ho-fung. A ascensão da China, a Ásia e o Sul Global. Revista de Economia Contemporânea (REC), Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, p. 1-26, jan./abr. 2018.

​PAUTASSO, Diego. A Nova Rota da Seda e seus desafios securitários: os Estados Unidos e a contenção do eixo Sino-Russo. Estudos Internacionais, Belo Horizonte, v. 7, n. 2, p. 85-100, ago. 2019.

​PECEQUILO, Cristina Soreanu. A Reconfiguração do Poder Global. In: A Reconfiguração do Poder Global em Tempos de Crise. Capítulo 5, p. 213-231, 2024.

​PINTO, Eduardo Costa. A Crise Americana: Dívida, Desemprego e Política. Texto para discussão, p. 1-28, 2011.


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