Entre pressões externas e impasses internos, economia desafia Lula rumo à reeleição
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Entre pressões externas e impasses internos, economia desafia Lula rumo à reeleição

Precarização do trabalho, endividamento e cenário global instável tensionam popularidade do governo e expõem limites da política econômica

Tatiana Py Dutra 10 abr 2026, 07:00

Foto: Ricardo Stuckert/PR

A poucos meses de um novo ciclo eleitoral, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um cenário complexo em que economia e política se entrelaçam diretamente na disputa pela reeleição. Apesar de indicadores macroeconômicos considerados positivos – como baixo desemprego e crescimento da renda média -, a percepção social, especialmente entre os mais jovens, aponta para insatisfação crescente, revelando uma desconexão entre números oficiais e a vida cotidiana da população.

Para a pesquisadora Bianca Valoski, doutoranda em Políticas Públicas pela UFPR, essa contradição tem raízes estruturais. 

“Como a população jovem vai estar satisfeita com o governo, sendo que os empregos que são destinados para a população jovem são o quê? Empregos da escala 6 por 1 ou empregos pejotizados, terceirizados, com baixíssima estrutura de direitos trabalhistas”, afirma.

Segundo ela, a qualidade do emprego é hoje um dos principais fatores que moldam a percepção popular sobre o governo. Mesmo com taxas historicamente baixas de desemprego, o avanço da informalidade e da precarização reduz o poder de compra e aprofunda a sensação de insegurança econômica. Outro elemento central é o endividamento das famílias. Em um país onde a renda média segue distante do necessário para garantir condições dignas – estimado em cerca de R$ 7.700 pelo Dieese para uma família de quatro pessoas -, grande parte da população compromete seus ganhos com juros e dívidas. 

“Se as pessoas estão endividadas e o poder de compra delas diminui, esse sentimento de impotência é jogado para o governo – e com razão”, diz Valoski.

No plano internacional, o Brasil também enfrenta riscos. A possibilidade de uma estagflação global – combinação de baixo crescimento com inflação elevada – pode agravar ainda mais o cenário doméstico. Conflitos internacionais, como os que afetam o mercado de petróleo, também têm impacto direto na cadeia econômica. 

No campo político, medidas como a taxação dos mais ricos, a redução da jornada de trabalho e a ampliação de direitos trabalhistas ganham centralidade no debate eleitoral e enfrentam resistência do empresariado. Ao passo em que mudanças estruturais — como reindustrialização, reforma tributária progressiva e fortalecimento dos serviços públicos — exigem tempo e enfrentam um Congresso conservador. 

Na entrevista a seguir, Bianca Valoski analisa o cenário político e econômico, projetando possibilidades a curto, médio e longo prazos para lidar com problemas econômicos e traduzir as ações em melhoria real das condições de vida – fator decisivo para reconstruir sua base de apoio e enfrentar uma eleição que promete ser marcada pela disputa de projetos para o país.

Uma pesquisa recente revelou que a gestão de Lula é reprovada por mais de 70% dos eleitores entre 16 e 24 anos. Em que medida indicadores como inflação, emprego e renda podem interferir na popularidade do governo? 

Como a população jovem vai estar satisfeita com o governo, sendo que os empregos que são destinados para a população jovem são o quê? Empregos da escala 6 por 1 ou empregos pejotizados, empregos terceirizados, empregos com baixíssima estrutura de direitos trabalhistas.Então, de fato, se a população estivesse dentro de um mercado de trabalho muito mais estruturado, com indústrias fornecendo bons empregos, bons acessos, com certeza a percepção seria outra. Da mesma forma, a questão da inflação. A inflação no Brasil nem está tão alta, mas se as pessoas estão endividadas e o poder de compra delas diminui por conta desse endividamento, se elas não conseguem acessar coisas básicas, se o salário mínimo ainda é muito baixo para satisfazer as necessidades das pessoas, esse sentimento de impotência é jogado para o governo – e com razão, porque realmente é culpa do governo.

O Dieese libera todo o mês quanto deveria ser um salário mínimo para sustentar uma família de quatro pessoas. O salário mínimo para esse mês ficou em torno de R$ 7.700. A diferença do que o Dieese estuda e estipula para ser o básico para uma família viver decentemente é muito diferente daquilo que é a renda média da população brasileira – 90% dela vive com menos de R$ 5 mil por mês. Então, nesse cenário de salários baixos, empregos precários, terceirização, pejotização, de muita informalidade, você tem realmente um lugar muito desconfortável para a população no sentido de acessos que ela está tendo à empregabilidade, a recursos, a como a sua renda vai vir, que é uma renda baixa – isso tudo vai ser colocado para o governo. 

Então, de fato, é um desafio para o governo Lula fazer com que esse apego que ele tem por políticas fiscais, essa coisa do déficit fiscal zero, superávit primário. Isso daí, para a população, não diz muita coisa. A população quer, de fato, saber de ter uma renda digna, ter empregos com direitos trabalhistas, ter direito a descanso. Então é completamente compreensível se você olhar por uma ótica não só numérica, mas de qualificação dos dados, do porquê de a população brasileira estar insatisfeita economicamente. 

Há ainda o risco de um cenário de estagflação global (inflação alta com baixo crescimento). O Brasil está mais protegido ou vulnerável a esse cenário?

Depois que o Brasil aderiu à paridade internacional dos preços dos combustíveis, isso lá em 2016, com o governo Temer, o Brasil se tornou mais vulnerável porque o preço do combustível passou a se movimentar conforme as oscilações internacionais. Então isso é muito bom para os sócios das empresas de combustíveis, porque eles vão estar recebendo conforme as alterações dos preços internacionalmente; mas internamente isso é ruim, porque significa que a gente não tem um controle e, de fato, o Brasil não precisaria nem estar sendo tão afetado assim, porque tem a produção toda do seu petróleo para a produção dos seus combustíveis.Mas o que que isso acaba afetando na economia brasileira? Por que isso é tão importante? 

Um outro cenário que aconteceu a partir de 2015: a privatização das refinarias. A gente tem várias refinarias de petróleo que não estão mais na mão do governo. Isso também é importante, porque também deixa os preços dos combustíveis oscilando conforme os fornecedores e não mais conforme a política do governo para esse tipo de produto, dessa mercadoria que é tão importante para o Brasil.

Então, sim, você pode ter um cenário onde você vai ter uma inflação mais alta mediante uma infraestrutura que o Brasil tem nos últimos tempos, que veja, ela não tem como produzir um autocrescimento devido a toda uma infraestrutura da própria economia brasileira que é muito dependente do mercado externo. Enquanto a gente não tiver um mercado interno mais valorizado para a economia nacional, no sentido de a economia interna – veja, o Brasil é um país com mais de 200 milhões de habitantes, seria completamente possível que a gente tivesse um mercado econômico voltado para a nossa economia interna. Só que não. O que sustenta o PIB brasileiro são as exportações e essas exportações vão oscilar conforme a demanda do mercado internacional. Então, sim, a gente pode sim ter um cenário de um crescimento econômico menor, vulnerável ainda e ainda com a inflação maior. Tudo isso pode acontecer.

Pode também não acontecer mediante as políticas econômicas que o governo pode estar fazendo para evitar esse tipo de situação. Mas isso demanda uma flexibilidade do governo em relação principalmente às suas metas fiscais, porque isso exige investimento, exige rupturas como, por exemplo, com o arcabouço fiscal, para você superar essas limitações que a gente tem hoje.

O desemprego gira em torno de 5% no Brasil – um dos menores níveis da série histórica – enquanto a renda média atinge recordes. Mas na prática, a gente não tem uma impressão tão saudável do mercado de trabalho, com crescimento da precarização e informalidade. O que está acontecendo?

Tivemos um crescimento do (salário mínimo e do salário médio brasileiro bastante retraído nos últimos tempos. Ele até chegou a crescer, mas cresceu muito pouco comparado a outras rendas que existem no Brasil como, por exemplo, quem vive de rendimentos financeiros e tem um ganho muito maior, incomparável  a quem vive do trabalho. E a gente tem um mercado de trabalho muito baseado na informalidade e na pejotização, que é o quê? As pessoas se tornarem MEIs, então as pessoas acabam trabalhando muito para ter rendimentos bastante pequenos, ainda comparado ao quanto elas trabalham.

Então eu acho que isso também é importante. Outro fator importante para essa questão, dessa sensibilidade do brasileiro à questão do cenário econômico – e mesmo estando muitas pessoas empregadas, para além dessa coisa do trabalho ser um trabalho informal, com poucos direitos trabalhistas, com poucos acessos -, é a questão do endividamento. A população brasileira é muito endividada, e isso também faz as pessoas terem uma percepção menor do quanto elas podem gastar porque muito do seu dinheiro acaba indo para pagamento de juros, de dívidas.

Tanto que o presidente Lula tem até comentado sobre isso, se fala muito de como criar estratégias para tratar da questão do endividamento da população brasileira pode ser uma das estratégias para se ganhar a eleição, porque a população brasileira está de fato muito endividada e isso faz com que o poder de compra da população fique reduzido também nesse cenário. Então acho que são duas coisas, o endividamento e essa questão da informalidade. A gente tem uma grande parte da população empregada, mas empregada em setores informais, empregada sem direitos trabalhistas, empregados com salários médios baixos. Tudo isso gera não só uma impressão, mas a realidade de que as pessoas estão piores do que o cenário econômico aparenta ser.

A taxa de juros está associada a essa questão do endividamento das famílias e também é sempre apontada como um freio para o crescimento da economia nacional. Como ela impacta o investimento e o consumo hoje? 

Os juros altos impactam de diversas formas – tanto pela ótica fiscal, de o governo estar drenando recursos que poderiam estar sendo utilizados na saúde, na educação, na segurança pública, na previdência social, para pagar rentistas – quanto pelo aspecto de que você aumentando a taxa de juros básica, se ela for alta, todas as outras taxas de juros do país também vão ser. Com isso, você cria um cenário que favorece ainda mais para que os bancos cobrem taxas de juros exorbitantes das pessoas. O spread bancário, que é a diferença entre o quanto um banco paga para tomar dinheiro e o quanto ele cobra para emprestar dinheiro do Brasil, é um dos mais altos do mundo. A taxa de juros do Brasil é uma das mais altas do mundo. E tudo isso vai criando um cenário que desfavorece as famílias no sentido de elas ficarem endividadas quando tomam dinheiro, e desincentiva as empresas a tomarem dinheiro emprestado para investir – porque as empresas também tomam para fazer investimentos. Então a taxa de juros tem esses vários aspectos negativos, por ela ser muito alta.

O atual conflito no Oriente Médio tem pressionado os preços do petróleo. Como isso tende a impactar a inflação no Brasil?

Para o Brasil, impactar nos combustíveis significa impactar em todas as esferas.

Por quê? A nossa matriz logística no Brasil é uma matriz rodoviária, que depende do combustível para movimentar os caminhões que transportam todas as mercadorias. Então, quando a gente está falando de uma alta dos preços dos combustíveis, a gente está falando uma alta dos preços de, na verdade, tudo. Porque como tudo vai circular mediante ao transporte feito via a necessidade de combustíveis, então a gente está falando de uma inflação generalizada. Se aumenta o preço do combustível, aumenta o preço de tudo. É claro que vão ter setores que vão ser mais afetados, principalmente aqueles que demandam de uma transferência maior, que demandam uma infraestrutura maior, mas de fato tudo é afetado no Brasil quando se trata de uma alta de preço de combustíveis. 

Até que ponto fatores externos – como guerras e crise global – podem afetar politicamente o governo, mesmo estando fora do seu controle direto?

O governo não tem como controlar esses aspectos externos, mas ele tem como criar ferramentas internas para lidar com as consequências desses atos. Ele tem feito nos últimos dias movimentações em relação aos tributos em cima dos combustíveis, para tentar baratear. Só que é tudo muito complexo porque, de fato, ele reduzindo o imposto não significa – justamente pelas refinarias estarem privatizadas -, que esse repasse vai ser feito lá no final na bomba de combustível. Não há qualquer segurança disso se você não fizer  uma parceria muito integrada com esses fornecedores e com esses vendedores de combustíveis. E com isso a culpabilização da população cai sobre o governo. Então o governo tem ferramentas, mas se ele não souber como utilizá-las, a responsabilização que vai cair sobre ele é muito maior. Dito isso, essas questões de tributação são importantes, mas sem um bom acordo com os fornecedores não vai gerar os frutos que o governo quer. 

Também tem outro lado, que é o das amarras fiscais que o governo se coloca em relação a isso: o arcabouço fiscal. Ele acaba por limitar muito a capacidade do governo de agir perante cenários onde a economia global está demonstrando uma retração, porque o arcabouço fiscal prevê aumento de despesas se há crescimento mas, se a gente faz uma análise mais cuidadosa, é no cenário em que não está havendo crescimento que o governo precisaria estar atuando mais para conseguir remediar as situações que vão sendo colocadas, as crises que vão sendo colocadas. Como o governo vai fazer isso com uma amarra fiscal que ele mesmo criou para si, lá no seu primeiro ano de governo? 

Então, se essa crise, se a guerra se estende por mais tempo e for gerando mais crises, é preocupante como o governo conseguirá dar conta de sair disso, tendo em vista o arcabouço fiscal e como ele limita suas ações em relação a políticas econômicas contracíclicas nesse sentido. 

Curiosamente, o arcabouço fiscal foi criado para satisfazer um desejo da elite econômica. E hoje uma das bandeiras que o governo parece assumir é uma proposta para acabar com a escala 6 por 1, que desagrada justamente a essa elite – que tem se esforçado para levar pânico aos trabalhadores também. Mas na prática, a redução da jornada de trabalho trará que tipo de impacto econômico? 

Eu acho que o governo tem que se preparar para ajudar os pequenos negócios porque, de fato, para os pequenos negócios pode, sim, ter um impacto econômico e eles vão precisar de alguma ajuda por um tempo para conseguir se restabelecer. Mas, veja, desde o término da escravização, a criação dos direitos trabalhistas – como 13º, férias, férias de 15 dias, férias de 30 dias -, sempre houve o discurso de que a economia iria quebrar se fossem aderidos a esses direitos, da mesma forma está sendo feito agora.

Desconfio muito de que grandes redes – como, por exemplo, as farmácias – têm uma fragilidade econômica tão grande assim, que vão ser afetados dessa forma a ponto de quebrar para satisfazer  esse direito conquistado pela classe trabalhadora. O empresariado precisa criar um modelo de negócio que não superexplore as pessoas. Que modelo de negócio é esse seu que não consegue sustentar que a pessoa tenha dois dias de descanso? Então também é colocar contra a parede essas amarras sociais, essas ideias que as pessoas têm em mente, quando no final das contas, muitas empresas funcionam e são lucrativas trabalhando na escala 5 por 2. Por que a tua empresa não vai conseguir fazer isso? Que modelo de negócios que você tem que você precisa superexplorar as pessoas para poder funcionar? 

Então, acredito nesses dois aspectos: de uma conscientização em relação à precariedade ( que a escala 6 por 1 proporciona para as pessoas, e que não dá mais para sustentar esse discurso; e esse auxílio que o governo vai ter que bancar para as pequenas e médias empresas num pequeno momento para facilitar e deslanchar a 6 por 1 sem maiores problemas para a economia brasileira. 

Outras bandeiras que também geram escândalo entre o empresariado são a taxação dos mais ricos e a ampliação de direitos trabalhistas. Na tua avaliação essa crítica tem fundo ideológico? É resquício de escravagismo? 

È resquício de uma elite que não aceita ceder em nada. A elite brasileira é beneficiada de diversas formas. O agronegócio tem acesso a um plano safra gigantesco anualmente para facilitar o seu modelo de negócio. Tem o rentismo que se beneficia da taxa de juros brasileira, que favorece quem tem dinheiro aplicado e quem tem dinheiro aplicado com o governo. Você tem um sistema tributário totalmente regressivo, no qual quem ganha menos paga mais do que quem ganha mais. Então é um discurso ideológico, sim. Mas ideológico também porque não assumem os benefícios que têm.  Não assumem que quando eles falam de um Estado mínimo é um Estado mínimo para a população em relação a acesso a direitos e não em relação ao que eles têm acesso – que é por exemplo uma taxa de juros exorbitante, a um plano safra bilionário, a um sistema tributário que facilita. 

Até o ano passado, quem ganhava acima de R$ 50 mil pagava muito menos de imposto de renda. Então é muito sério como a elite brasileira (22:31) é beneficiada por todo o cenário econômico brasileiro fiscal brasileiro de diversas formas. É uma elite que não está disposta a democratizar os acessos aos direitos em nada. Só querem que o Estado garanta a eles.

Essas regras fiscais criadas – o arcabouço fiscal, o superávit primário – foram tudo para garantir que o rentismo continue acontecendo, que as rendas deles e os empréstimos que eles fazem ao governo continuem sendo bem remunerados, enquanto que o orçamento  para saúde, educação, segurança pública, previdência vão ficando cada vez mais reduzidos. Temos uma elite que não está disposta a ceder em nada para diminuir as desigualdades, o que pode, sim, ser uma característica que se arrasta desde o fim da escravização no Brasil. 

Em sua avaliação esses esses planos de redução de escala e jornada de trabalho, taxação dos mais ricos e ampliação de direitos seriam uma resposta efetiva para a redução das desigualdades ou ainda não se criou um plano que traga resultados práticos para a classe trabalhadora?

Acho que são aspectos bem importantes. O avanço que o governo Lula fez no ano passado em relação à tributação do imposto de renda foi muito importante. O fim da escala 6 por 1 é muito importante. Mas há um aspecto que talvez ele seja um dos mais relevantes na percepção da classe trabalhadora, que é o governo conseguir gerar uma economia que crie bons empregos, que crie empregos que sejam atraentes para as pessoas, empregos formais. Empregos para os quais as pessoas sejam atraídas pela sua escolaridade, empregos que fomentem a indústria brasileira. É conseguir criar toda uma estrutura de empregabilidade. Que o governo fomente indústrias, sejam elas públicas ou privadas, para a criação de empregos de qualidade. 

Quando você tem empregos baseados nas indústrias,  você consegue ter uma renda melhor, porque o setor puxa os salários para cima – o que não tem acontecido nos últimos anos no Brasil. O país tem se desindustrializado nos últimos anos  e isso afeta completamente a estrutura de empregabilidade e de como as pessoas vão ser colocadas no mercado de trabalho no sentido de que vagas elas terão acesso. Do que adianta eu fazer uma faculdade de engenharia se, no final das contas, vou acabar sendo Uber? Se eu não tenho uma estrutura produtiva no país que abarque essas pessoas, que consiga colocá-las no mercado de trabalho, que seja realmente mais vantajoso para elas e não só em vagas PJ ou vagas de aplicativos e assim por diante?

É, com certeza, uma mudança muito mais estrutural, mas é uma mudança muito importante. Uma outra questão também que eu acho que afeta muito a sensibilidade das pessoas em relação ao governo é que a tributação brasileira é muito regressiva. Por exemplo, os impostos que a gente paga sobre consumo – sobre as mercadorias, sobre o gás, sobre um veículo, sobre os remédios. São os mesmos para quem ganha um salário mínimo e para quem ganha R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 40 mil por mês, e isso pesa muito para a população brasileira. Isso é muito importante. Também acho que falta uma reforma tributária mais  profunda no Brasil, e há a questão de como os serviços públicos vêm sendo precarizados com o passar do tempo. O orçamento das universidades públicas  caiu muito nos últimos tempos, a saúde tem sido precarizada tem sido cada vez mais terceirizada, assim como a educação. Tudo isso tem a ver com serviços públicos robustos, que são uma forma de as pessoas não gastarem seus dinheiro. Se eu tenho um serviço público bom, eu não vou precisar gastar com o plano de saúde, por exemplo.

Então são esses três aspecto: uma reforma tributária mais profunda, que mudasse a regressividade do nosso sistema; uma estrutura produtiva mais inovadora, mais industrial, que fornecesse mais empregos de qualidade para as pessoas; e também serviços públicos mais robustos, mais qualificados,) que fizessem com que as pessoas tivessem que gastar menos do seu dinheiro com serviços privados e a dar para as pessoas uma sensibilização maior em relação à qualidade, de como seu dinheiro vem por meio dos empregos, de como elas vão ter mais recursos para gastar em outras coisas, não só para sobreviver. 

Você acredita ser possível promover essa mudança com o cenário – e o Congresso – que nós temos hoje?

Realmente, o cenário que a gente tem hoje é um cenário bastante complexo bastante limitador, politicamente falando. Mas eu acho que o governo acaba criando amarras para si mesmo bastante desnecessárias. E aqui eu vou insistir no arcabouço fiscal novamente, porque o arcabouço fiscal, a proposta que veio foi do próprio governo. O governo poderia ter encaminhado para o Congresso uma proposta mais audaciosa e esperar o debate que ia ser feito em cima disso. Mas não. O governo por si só mandou para o Congresso uma resposta a uma proposta bastante retraída, bastante retrógrada, por assim dizer, que cria limitações na questão de investimentos, por exemplo. O governo fica muito limitado em relação a como ele vai conseguir investir sendo que ele tem as amarras do arcabouço fiscal. Sim, é um cenário difícil. Mas eu acho que o governo acaba também sendo muito retraído nas propostas que ele faz. Da mesma forma com a reforma tributária, que aconteceu ali em 2023, 2024, e que poderia ter sido muito mais progressiva, mais avançada do que realmente foi. E tudo porque também o governo se retraiu em fazer um debate mais avançado em relação ao sistema tributário brasileiro. Nesse sentido eu concluo que é um cenário difícil, mas o governo do PT também tem muito receio em fazer propostas mais audaciosas para o Congresso, também.

Diante desse cenário (crise internacional, crescimento moderado e disputas políticas internas) qual é o principal desafio da economia brasileira hoje e que deveria ser bandeira de Lula na disputa eleitoral?

No sentido de uma resposta rápida para a população, e para que as pessoas consigam entender mais rapidamente também, é a questão do endividamento. Porque todas as outras coisas que falei, como a questão de uma infraestrutura produtiva mais qualificada, com melhores empregos, demanda tempo, demanda recursos. Não é tão fácil assim de se estabelecer. Uma forma tributária mais avançada também, mas eu acho que a questão do endividamento ela é central nesse sentido, porque pega muito as famílias, principalmente as famílias de classe média baixa. Então acho que o governo focar nisso seria uma forma de agradar, para assim dizer, o eleitorado e, de fato, resolver um problema econômico brasileiro.


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