Kast e a inevitabilidade da “batalha cultural”
EuropaPress_7372372_16_march_2026_chile_arica_chilean_president_jose_antonio_kast_arrives_at-1

Kast e a inevitabilidade da “batalha cultural”

Embora o presidente chileno tenha sido pragmático durante a campanha, muitos de seus colaboradores entendem que este governo é passageiro e que a batalha cultural é de longo prazo

Cristóbal Bellolio Badiola 12 maio 2026, 11:10

Foto: Kast cumprimentando militares no posto de Observação Fronteiriça no complexo Chacalluta, em Arica. (Presidência do Chile)

Via Nueva Sociedad

Na campanha eleitoral que o levou à Presidência, José Antonio Kast prometeu abandonar a chamada “batalha cultural” para se concentrar nas “emergências” da ordem pública e da economia, temas mais mundanos e transversais. A promessa deu resultados: Kast reduziu sua rejeição entre aqueles segmentos — especialmente mulheres jovens — que costumam vê-lo como um retrocesso civilizatório em questões como o aborto, os direitos das minorias sexuais ou o papel da religião nas políticas públicas, e assim venceu a eleição com folga. Embora nunca tenha escondido suas convicções conservadoras, Kast argumentou que as reservaria ao plano pessoal, pois as prioridades eram, de fato, outras. Dois meses após o início de seu governo, o que restou dessa promessa?

A batalha cultural: uma definição operativa

Uma das características mais marcantes da nova direita radical que deslocou a versão convencional em várias partes do mundo é sua postura frontal em relação à chamada batalha cultural. Em sua visão, uma sociedade não é governada apenas a partir da institucionalidade política e econômica, mas é preciso influenciar ideologicamente sua base cultural. Caso contrário, o poder é efêmero. Segundo essa narrativa, a esquerda — que teria aprendido isso com Antonio Gramsci — foi bem-sucedida em impregnar a vida dos povos com marcos narrativos, códigos linguísticos e referências populares favoráveis à mentalidade progressista, preparando o terreno para seu posterior êxito eleitoral e político. Assim, deslocou os limites do possível para lugares que há 20 ou 30 anos seriam inimagináveis, como o casamento igualitário, as terapias de redesignação sexual ou políticas de inclusão racial nas empresas.

A febre woke não seria outra coisa senão o último elo dessa estratégia: mover — ou melhor, estreitar — a janela de Overton1 para deixar fora do senso comum os hereges que não se adequaram aos novos marcos. A direita convencional, presa ao seu tradicional economicismo ou simplesmente por ignorância, não teria reagido a tempo. Quando reagiu, aderiu à tendência para não parecer antiquada — ou pior, ser “cancelada”. Então, conclui essa narrativa, surgiu uma direita corajosa disposta a combater sem rodeios o avanço progressista, reivindicando os valores tradicionais e o verdadeiro senso comum, e que tem sido tão bem-sucedida nas urnas quanto culturalmente atraente para as novas gerações, exaustas da “correção política” imposta pela esquerda.

O problema da expressão “batalha cultural” é sua vagueza. Tudo poderia fazer parte da batalha cultural a partir de uma perspectiva expansiva, mas, nesse caso, o conceito perde utilidade analítica. Por outro lado, uma perspectiva muito restritiva — por exemplo, limitada à indústria cinematográfica ou musical — corre o risco de simplificar o fenômeno e deixar de fora muitos casos relevantes.

O uso comum do termo no debate público costuma se referir a uma de duas coisas. A primeira está relacionada ao âmbito em que ela se produz. Nesse sentido, a batalha cultural é aquela travada no que John Rawls denominava background culture: o espaço da vida social, desde as universidades e as igrejas até a sociedade civil em geral, incluindo o “mundo da cultura” em sentido estrito. Dessa perspectiva, o que ocorre no governo ou no Congresso não seria batalha cultural. A segunda entende que a batalha cultural está mais vinculada ao conteúdo do que ao lugar da disputa. E, geralmente, esse conteúdo se refere a temas morais, como o aborto, ou então “identitários”, ligados a questões imateriais de reconhecimento. Divergências econômicas — por exemplo, um debate tributário — seriam de outra natureza.

Pela forma específica como Kast foi questionado sobre a batalha cultural durante a campanha, entendo que seu uso no Chile remete sobretudo à segunda acepção. Aceitando que se trata de uma definição operativa — e certamente incompleta —, utilizarei assim o termo neste artigo: a batalha cultural é a disputa orientada a influenciar os marcos culturais, morais e estéticos que estruturam o senso comum de uma sociedade, tanto por meio da ação direta do poder político — por exemplo, através de um decreto ou corte orçamentário — quanto de sua ação indireta por meio de padrões discursivos ou recursos simbólicos; aquilo que alguns chamam de “capacidade expressiva do Estado”.

Kast e a batalha cultural na campanha

Na América Latina, o presidente argentino Javier Milei tem sido provavelmente o líder político mais explícito em articular a batalha cultural como eixo central de seu projeto político. Seu inimigo não é apenas o marxismo old school, mas o marxismo “cultural”, que agrupa agendas contemporâneas como o feminismo, o ambientalismo e as políticas de diversidade, mas também ideias econômicas keynesianas. Isso porque Milei possui uma visão expansiva da batalha cultural, na qual poucas coisas ficam de fora. Por isso, reuniu seu ministro da Economia, Luis Caputo, e o presidente do Banco Central, Santiago Bausili, assim como outros altos funcionários da área econômica, com o polemista chileno Axel Kaiser, crítico ferrenho da passividade intelectual das direitas diante do avanço “progressista”, para que lhes explicasse como funciona a batalha cultural.

Embora com um tom menos estridente, um estilo mais sóbrio e provavelmente com uma compreensão mais restrita da batalha cultural, seu equivalente chileno, José Antonio Kast, articulou um discurso semelhante. Na recente cúpula da Political Network for Values [Rede Política pelos Valores], realizada na Bélgica, Kast também atacou “o ambientalismo extremo, o animalismo radical, o feminismo ideológico e o indigenismo”. A “ideologia de gênero”, por exemplo, é um vilão recorrente tanto no discurso de Milei quanto no de Kast.

No entanto, diferentemente de Milei, Kast reduziu consideravelmente a intensidade da batalha cultural em sua última campanha, justamente a que o levou ao poder. Em suas tentativas anteriores de chegar ao Palácio de La Moneda (em 2017 e 2021), o líder do Partido Republicano combinou o conhecido roteiro populista de direita contra as elites progressistas desconectadas do senso comum com uma forte reivindicação de valores tradicionais, cristãos e patrióticos. Em 2025, seja pela convicção de que as mudanças culturais experimentadas pelo Chile — sua acelerada secularização, por exemplo — são irreversíveis, seja porque aprendeu com o fracasso do projeto constitucional que seu partido liderou à base de “excessos identitários”, seja como tática para se tornar mais aceitável aos setores moderados que decidem o segundo turno, o fato é que Kast modificou sua estratégia.

Se em 2021 sua proposta incluía a eliminação do Ministério da Mulher, defendia a revogação da lei que permite a interrupção da gravidez em três circunstâncias extraordinárias e colocava em dúvida a existência das mudanças climáticas, em 2025 apresentou um programa centrado na gestão, com foco quase exclusivo no combate à criminalidade, na expulsão de imigrantes ilegais e na reativação da economia. Se em 2021 era explícito quanto à necessidade imperiosa de “retomar a batalha cultural, ideológica e programática para recuperar o caminho da verdadeira dignidade humana”, em 2025 manteve um silêncio escrupuloso sobre as liberdades individuais e até mesmo sobre sua admiração pelo ex-ditador Augusto Pinochet.

Kast não disse ter mudado de opinião sobre esses e outros assuntos que normalmente fazem parte da disputa valorativa e identitária, mas foi enfático ao afirmar que um governo de quatro anos é muito curto para travar batalhas em todas as frentes e que o “estado calamitoso da nação” exigia concentrar energias nas urgências identificadas.

Kast e a batalha cultural no governo

Os primeiros meses de Kast no poder não foram a lua de mel sonhada. Embora tenha começado com vento a favor — iniciou seu mandato com 57% de aprovação —, a guerra de Donald Trump no Oriente Médio encareceu o preço do petróleo e levou seu governo a adotar medidas impopulares: nesse contexto, o aumento dos combustíveis foi repassado sem anestesia aos consumidores, gerando um quadro de descontentamento social agravado pela ameaça inflacionária. Isso se somou a uma série de desorganizações na instalação do governo e a falhas de comunicação de média gravidade, e as primeiras pesquisas revelam que Kast já perdeu a adesão de uma parte importante do eleitorado que votou nele no segundo turno. Atualmente, sua principal aposta é que o Congresso aprove um ambicioso pacote de reformas voltadas para reativar a economia por meio de alívios tributários às grandes empresas, incentivos à criação de empregos e flexibilização de licenças para agilizar projetos de investimento.

Sem prejuízo da prioridade dada à reativação econômica, a batalha cultural encontrou maneiras de se infiltrar na agenda. A composição de seu gabinete ofereceu os primeiros indícios. À frente do Ministério da Mulher, Kast nomeou uma jovem militante evangélica, Judith Marín, cujas posições colidem abertamente com as demandas históricas do feminismo local. No Ministério da Justiça e Direitos Humanos, escolheu Fernando Rabat, advogado que defendeu Augusto Pinochet em processos patrimoniais, o que gerou natural mal-estar entre familiares das vítimas da ditadura e pessoas ligadas à preservação da memória. Com essas nomeações, o presidente Kast tensionou, desde o início de seu mandato, a relação com dois setores progressistas, em temas que pouco têm a ver com a agenda de “emergência”.

Poucos dias após assumir, o governo acrescentou outro adversário: o ecologismo. Em um único ato, retirou 43 decretos ambientais — herdados do governo de Gabriel Boric — que estavam na etapa final de tramitação. A notícia gerou reações negativas na opinião pública porque entre eles estava o decreto que protege a “pererequinha” de Darwin e o pinguim-de-Humboldt, além de colocar em alerta geral o ativismo ambiental.

Embora as razões apresentadas para justificar essa decisão tenham sido diversas, uma interpretação coerente com a própria narrativa de Kast sugere que as preocupações ambientais não podem atrapalhar o desenvolvimento das forças criativas do capitalismo. Foi isso que indicou o senador e presidente do Partido Republicano, Arturo Squella, ao reconhecer que “se alguém considera que as pererecas são políticas de Estado, bem, aqui mudou a visão”. Nesse sentido, o governismo tentou se manter dentro dos limites de um governo de emergência, embora a medida tenha transbordado para o campo da batalha cultural.

O que ocorreu com os decretos ambientais, no entanto, foi um prenúncio de outras medidas que podem ser interpretadas nos dois níveis (governo de emergência e batalha cultural). Alegando a necessidade de melhorar a gestão dos recursos públicos, o governo Kast tomou várias decisões que possuem uma dimensão simbólica e identitária impossível de ignorar. Uma delas foi a interrupção do processo de desapropriação dos 117 hectares da antiga Colônia Dignidad — comunidade sectária que operou durante décadas como um feudo autônomo repleto de abusos, liderada pelo alemão Paul Schäfer, e que durante a ditadura de Pinochet também funcionou como centro clandestino de detenção e tortura —, em cujo terreno se projetava construir um memorial oficial da memória. Da mesma forma, alegando razões de eficiência, o governo introduziu mudanças no Plano Nacional de Busca de desaparecidos políticos que afetam a continuidade do programa.

Em outro campo, mas invocando a mesma falta de recursos, o Ministério da Habitação e Urbanismo paralisou a construção da maior ciclovia do país, no eixo Alameda-Providencia, projeto há muito desejado pelos ciclistas para melhorar a mobilidade dentro da cidade de Santiago. A mesma restrição orçamentária foi usada para ordenar a suspensão da ampliação do icônico Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM), localizado no coração da capital.

Embora cada caso possa ser avaliado por seus próprios méritos, em conjunto eles sugerem que o governo escolhe cortar o financiamento de projetos vinculados a seus adversários no plano identitário: o campo dos direitos humanos, da mobilidade sustentável, da cultura. De fato, um polêmico ofício da Direção de Orçamento — posteriormente relativizado pelo governo — antecipa a eliminação de programas como Apoio à Identidade de Gênero, Saúde Trans, bolsas de pós-graduação no exterior, Plano de Eficiência Energética e Difusão e Fomento das Culturas Indígenas, assim como as Escolas de Música Popular Chilena, todos alvos habituais da batalha cultural que a direita afirma travar.

O governo Kast também escolheu infligir uma ferida dolorosa à esquerda chilena ao não apoiar a candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa decisão, no mínimo curiosa do ponto de vista diplomático, foi justificada com base nas poucas chances de a ex-presidenta ser eleita. Mas é evidente que a decisão expressa uma rejeição ao que representa a principal líder do socialismo chileno em sua história, tanto pelo significado de seu segundo governo — considerado no entorno de Kast como o início da decadência do país — quanto pelos temas que mais a identificam, como igualdade de gênero e direitos reprodutivos.

Kast combina essa desfeita a Bachelet com sua rejeição à forma como operam a ONU e os fóruns multilaterais em geral, em sintonia com o discurso da direita populista radical em todo o mundo, que os acusa de serem ineficientes, “globalistas” e — em referência à tão criticada Agenda 2030 — veladamente progressistas.

Mas, ao mesmo tempo, Kast utiliza esses fóruns para contra-atacar na batalha cultural: o Chile alinhou-se com Estados Unidos, Paquistão e República Democrática do Congo para impulsionar uma resolução que define “gênero” exclusivamente como “homens e mulheres”. Enquanto isso, o Palácio de La Moneda abriga missas matinais diárias — instauradas por Kast — e se ilumina de azul-claro para comemorar o Dia da Criança por Nascer, que busca defender a vida humana desde o momento da concepção. Embora essas declarações e símbolos não impliquem ação legislativa nem atenção prioritária, fazem parte da capacidade expressiva do Estado no marco da batalha cultural.

Por fim, antes de completar seu primeiro mês à frente da nação, Kast participou da final do Campeonato Nacional de Rodeio na cidade de Rancagua, ocasião em que defendeu a preservação das tradições patrióticas, enquanto a primeira-dama, María Pía Adriasola, cantou a canção folclórica “Chile lindo”. Como o rodeio é uma prática equestre controversa, defendida por seu valor patrimonial e identitário — associado à vida rural e à estética do huaso chileno — e fortemente criticada por grupos animalistas preocupados com os maus-tratos aos novilhos, ele costuma ser outra linha divisória na batalha cultural. Nesse contexto, a ministra do Esporte, Natalia Duco, reiterou o status do rodeio como “esporte nacional”, definição que o Conselho Constitucional controlado pelo Partido Republicano de Kast tentou constitucionalizar em 2023, mas que acabou rejeitada pelo plenário devido ao seu caráter polêmico.

Fidelizar a “tribo”

Em resumo, é muito difícil para o governo de José Antonio Kast não travar a batalha cultural, mesmo que não lhe atribua prioridade. Isso se deve a vários fatores. O primeiro é que governar implica lidar com muitas frentes que ultrapassam as áreas declaradas de emergência (segurança e economia). Quando se aventura nesses terrenos, inevitavelmente faz prevalecer sua visão ideológica. Mesmo sob o pretexto legítimo de impulsionar sua agenda de emergência — por exemplo, em matéria de reativação econômica ou austeridade fiscal —, o governo adota medidas que, consciente ou inconscientemente, ferem a sensibilidade progressista.

A batalha cultural se revela como um subproduto estrutural do exercício do poder. Em segundo lugar, embora Kast tenha sido pragmático durante a campanha, muitos de seus colaboradores entendem que este governo é passageiro e que a batalha cultural é de longo prazo: sempre que possível, mesmo nos menores detalhes, é preciso conter o avanço do “marxismo cultural”. Por fim, se as coisas não correrem tão bem quanto o esperado no controle do crime e no crescimento econômico, o manual da polarização afetiva recomenda consolidar a própria base de apoio. Nesse caso, travar a batalha cultural não será uma alternativa, mas uma obrigação para fidelizar e manter mobilizada a tribo, pensando nos confrontos que ainda virão.

Nota


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 10 maio 2026

Duas táticas para enfrentar a extrema direita

É preciso apoiar-se nos setores mais dinâmicos, nas bandeiras programáticas, nas lutas em curso e na força das mulheres para conquistar maioria social, buscando uma inflexão na relação de forças e ampliando o espaço para esquerda que luta
Duas táticas para enfrentar a extrema direita
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores