100 anos do geógrafo Milton Santos
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100 anos do geógrafo Milton Santos

Para uma outra globalização, será necessária uma mudança radical também no meio técnico-científico-informacional

Ricardo Almeida 12 maio 2026, 11:29

Foto: Milton Santos na Argentina. (Marcelo Escobar/AfroFile)

Milton Santos nasceu na Bahia, formou-se em Direito e posteriormente tornou-se doutor em Geografia. Também foi professor da Universidade Católica de Salvador e da Universidade Federal da Bahia. Como muitos, foi exilado durante o golpe civil-militar de 1964. Viveu na França e foi professor em algumas universidades, como a Sorbonne, em Paris. Além disso, foi professor e pesquisador em diversas universidades de países do continente americano, da Venezuela aos Estados Unidos.

Em 1977, regressou ao Brasil, inicialmente como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, depois, ingressou como professor concursado na Universidade de São Paulo (USP), onde atuou até 1997. Nesse período na USP, teve grande contribuição na formulação da geografia crítica, que transita de uma geografia hegemônica, baseada em métodos das ciências naturais, para uma geografia da formação socioespacial. Ao longo de sua vida, publicou dezenas de livros, mas neste texto dialogamos com o mais famoso deles: “Por uma Outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal”.

Como todo geógrafo, Milton Santos amava uma tríade. No livro mencionado, escreveu sobre a globalização em três aspectos: fábula, perversidade e uma outra globalização.

Primeiro, a globalização enquanto fábula, pois o discurso neoliberal propaga um mundo como uma aldeia global, ou seja, de todos e para todos, com o advento de novas tecnologias que possibilitaram uma comunicação instantânea e permitiram que uma parcela da população viajasse pelos continentes em menos tempo. Em tese, as distâncias seriam encurtadas. A globalização facilitou principalmente a produção e a circulação de mercadorias; contudo, seguem existindo fronteiras muito bem definidas para imigrantes — como exemplo atual, a política do ICE nos EUA, que promove prisões e deportações de milhares de pessoas. É exemplo da fábula da globalização a maior prisão do mundo, que é Gaza, cujo carcereiro é o Estado genocida de Israel, enquanto quase todo o resto do mundo assiste.

Segundo, a globalização como perversidade, ou seja, a forma real geradora de fome, desemprego, consumismo, doenças etc. Sobre essas últimas, Milton Santos menciona algumas enfermidades que marcavam aquele momento histórico mundial, relacionando-as ao processo de globalização. Agora, para o momento que vivemos, a Covid é, sobretudo, uma doença sintoma da globalização enquanto perversidade, pois seus efeitos foram desiguais: morreram principalmente pessoas pobres e racializadas, vítimas da doença e/ou do negacionismo e da perversidade de alguns governantes (como Bolsonaro, no Brasil).

Em terceiro lugar, por uma outra globalização: Milton acreditava que a mistura de povos, culturas, filosofias, gostos etc. poderia gerar uma globalização mais humana, aproveitando as bases em que a própria globalização perversa está alicerçada (outra tríade: unicidade da técnica, convergência dos momentos e conhecimento do planeta — leiam o livro), obviamente controlada por outros fundamentos sociais e políticos.

No livro, Milton Santos segue formulando críticas contundentes à globalização como ela se apresenta, mas gostaríamos de deixar algumas reflexões inspiradas pela produção de um dos maiores intelectuais brasileiros, sobretudo para o momento atual.

Vivemos um momento em que uma empresa privada, a Starlink, lança milhares de pequenos satélites em órbita (mais de 10 mil até o momento), financiada juntamente com as demais empresas do lunático Elon Musk pelos Estados Unidos. Isso gera uma concentração de poder sobre o espaço mundial e de conhecimento do planeta em outra escala, além do lixo espacial que esse tipo de exploração predatória pode acarretar.

Ainda sobre as bases da globalização: nunca tivemos uma convergência de momentos como a atual. Voltando ao exemplo do massacre em Gaza, acompanhamos quase em tempo real o genocídio do povo palestino por meio de vídeos e fotos aterrorizantes. Contudo, o alcance das publicações foi diminuído pelas grandes big techs, como o Instagram, que impuseram a propaganda sionista (Nesse momento que escrevemos esse texto o brasileiro Thiago Ávila é vítima de sequestro e tortura pelos mesmos algozes).

Por fim, alguns enxergam a China como modelo de uma outra globalização, já que ela não bombardeia nem invade diretamente nenhum país. Com isso, fazemos algumas perguntas: com as atuais técnicas produtivas globais, é possível a vida no planeta sobreviver? Onde são produzidos os iPhones, equipamentos eletroeletrônicos e veículos elétricos, e de onde vêm os recursos necessários para eles? A soja consumida na China é produzida onde? Com qual técnica? Quais são os efeitos das mudanças climáticas e nas vidas dos povos subalternos? São muitas perguntas, mas podemos imaginar que, para uma outra globalização, será necessária uma mudança radical também no meio técnico-científico-informacional (outra tríade do homem). Viva Milton Santos, um dos grandes brasileiros.

Referências

1 – https://miltonsantos.com.br/site/

2 – “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, Milton Santos – 23 ed. – Rio de Janeiro: Record, 2013


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