Debate da Band transforma ausência de Lula e Flávio em protagonista
Primeiro debate presidencial de 2026 reúne apenas Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, enquanto líderes das pesquisas ficam de fora; encontro é marcado por ataques, discursos radicais e pouco conteúdo capaz de alterar a disputa
Foto: Renato Pizzutti/Band
O primeiro debate entre candidatos à Presidência nas eleições de 2026, realizado pela Band neste domingo (23), terminou sendo menos um confronto de projetos para o país e mais um retrato das contradições da campanha eleitoral. Sem Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder das pesquisas, sem Flávio Bolsonaro (PL), segundo colocado, e, de última hora, também sem Romeu Zema (Novo), o encontro reuniu apenas Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Foi o debate inaugural com o menor número de participantes desde a redemocratização.
O resultado foi um programa em que os candidatos presentes falaram muito mais sobre os ausentes do que sobre os adversários que estavam diante deles. A imagem dos púlpitos vazios de Lula e Flávio, mantidos pela organização, acabou sendo um dos elementos mais simbólicos da noite. A própria Band resumiu o encontro como um debate marcado por “cadeiras vazias” e ataques à polarização.
A ausência dos dois líderes não é um detalhe. Segundo o Datafolha divulgado às vésperas do debate, Lula tinha 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Caiado aparecia com 5%, Renan Santos com 4% e Zema com 3%. Ou seja: os dois candidatos ausentes concentravam 72% das intenções de voto, enquanto os três que efetivamente participaram somavam apenas 12% nessa pesquisa.
Por isso, a avaliação predominante da imprensa foi de que o debate teve dificuldade para cumprir sua principal função: colocar frente a frente projetos com capacidade real de disputar o comando do país.
O colunista Josias de Souza, do UOL, resumiu a percepção de maneira irônica ao afirmar que “quem dormiu antes de Kassab venceu o debate presidencial”. Para ele, o encontro foi marcado pela ausência de conteúdo relevante, pela monotonia e pela falta de um embate capaz de modificar o cenário eleitoral.
A Folha de S.Paulo foi ainda mais contundente ao classificar o encontro como um “debate-mico”, destacando o que chamou de “pastelão” de Cury, “verborragia” de Renan Santos e a insistência de Caiado em apresentar sua experiência em Goiás como principal credencial.
A estratégia de Lula e Flávio
A ausência dos dois principais candidatos foi justificada de maneiras diferentes. Lula argumentou que não havia igualdade de condições no debate, diante da participação de candidatos que, pelas regras eleitorais, não necessariamente precisariam ser convidados. A estratégia do petista foi evitar um encontro que poderia oferecer grande exposição a candidaturas de menor peso eleitoral sem que os principais adversários estivessem submetidos às mesmas condições.
Flávio Bolsonaro adotou uma justificativa essencialmente eleitoral. Em vídeo divulgado antes do debate, afirmou que preferia enfrentar o seu “verdadeiro adversário”, em referência a Lula. A estratégia é coerente com a tentativa de reproduzir, na campanha de 2026, a lógica da polarização entre bolsonarismo e lulismo que marcou as últimas eleições presidenciais.
Há, porém, um problema democrático nessa escolha: quando os líderes das pesquisas faltam a um debate televisionado, o eleitor perde a oportunidade de comparar diretamente suas propostas com as dos demais candidatos. E os candidatos menores, por sua vez, perdem justamente a oportunidade de confrontar aqueles que ocupam o centro da disputa.
O resultado é uma espécie de círculo vicioso: os favoritos evitam debates para não oferecer palanque aos adversários, enquanto os adversários usam sua ausência como argumento para atacá-los.
Foi exatamente o que aconteceu na Band.
Renan Santos transforma o debate em espetáculo
Quem mais explorou a ausência dos favoritos foi Renan Santos. Antes mesmo de entrar no estúdio, ele apareceu diante das câmeras segurando fraldas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro. A provocação foi apenas o início de uma atuação baseada em ataques pessoais, linguagem agressiva e tentativa de se apresentar como o candidato antissistema.
Renan chamou Lula e Flávio de “criminosos que fazem negócios com o crime organizado” e afirmou: “vocês não estão vindo porque vocês são criminosos”. Durante o debate, voltou a atacar Lula e chegou a chamar o presidente e parte de seus eleitores de “canalhas”.
O tom provocador garantiu a Renan aquilo que provavelmente era seu principal objetivo: visibilidade. Mas visibilidade não significa necessariamente bom desempenho.
A imprensa destacou justamente o caráter excessivamente agressivo e verborrágico de sua participação. O UOL, por exemplo, chamou atenção para a sucessão de ofensas e para a estratégia de choque adotada pelo candidato.
Renan também apresentou propostas extremamente duras na área de segurança pública, incluindo a defesa de intervenção federal em estados dominados pelo crime. O discurso procurou ocupar um espaço político radicalizado, apostando na sensação de insegurança e no descrédito de parte da população em relação às instituições.
É justamente nesse ponto que o debate merece uma leitura crítica. Transformar segurança pública em uma disputa de quem promete a medida mais brutal não significa apresentar uma política eficiente de combate ao crime. Tampouco resolverá problemas estruturais relacionados às organizações criminosas, ao sistema prisional, à desigualdade social, à circulação de armas ou à corrupção policial. O discurso de Renan apostou mais no impacto da frase do que na complexidade do problema.
Caiado: experiência, mas sem romper a bolha
Ronaldo Caiado teve uma postura bastante diferente. O candidato do PSD procurou se apresentar como gestor experiente, utilizando repetidamente sua passagem pelo governo de Goiás como cartão de visitas. Falou sobre segurança pública, economia e educação e tentou construir uma imagem de administrador capaz de apresentar resultados concretos.
Foi, entre os três, o candidato que adotou uma performance mais tradicional.
Caiado também criticou os ausentes e defendeu que os candidatos sejam obrigados a comparecer aos debates. Segundo ele, o PSD pretende apresentar uma proposta nesse sentido. A proposta tem um componente claramente eleitoral: Caiado é justamente um dos candidatos que mais teria a ganhar com a exposição diante de Lula e Flávio.
Mas há também uma questão democrática legítima. Se debates são instrumentos importantes de prestação de contas ao eleitor, sua utilização seletiva pelos líderes das pesquisas pode transformar esses encontros em eventos condicionados às conveniências das campanhas.
Ainda assim, Caiado não conseguiu produzir um momento capaz de alterar sua posição na corrida presidencial. Sua participação foi mais funcional do que marcante.
Augusto Cury e o discurso de autoajuda
Augusto Cury teve uma participação ainda mais peculiar. O candidato chegou a anunciar que não participaria do debate, mas voltou atrás e decidiu comparecer. Depois, pediu desculpas à imprensa pela possibilidade de não ter ido.
No palco, apresentou-se como uma alternativa moderada, pacificadora e centrada em educação e saúde emocional. O problema é que sua estratégia acabou sendo recebida com ironia por parte da imprensa.
A Folha destacou o uso de frases de efeito, a postura de “pacificador” e até a promoção de seus próprios livros de autoajuda, classificando sua atuação como um dos momentos mais caricatos do debate. Cury também defendeu propostas como transformar corrupção em crime hediondo e falou sobre inclusão de alunos neurodivergentes e desempenho escolar.
Sua participação, portanto, teve propostas concretas, mas foi prejudicada pela dificuldade de transformar seu discurso em uma alternativa política claramente identificável para o eleitor.
Os erros também chamaram atenção
Outro problema do debate foi a circulação de informações imprecisas. A Agência Lupa apontou erros nas falas dos três candidatos em assuntos como Banco Master, Casas Bahia e segurança pública.
O episódio é particularmente relevante porque debates eleitorais deveriam funcionar também como espaço de esclarecimento. Quando afirmações factualmente incorretas são apresentadas sem contestação imediata, o eleitor pode sair do programa com mais desinformação, e não com mais elementos para decidir seu voto.
Isso é especialmente grave em uma eleição marcada pela polarização e pela circulação massiva de conteúdo político nas redes sociais.
O grande vencedor foi a polarização — mesmo sem Lula e Flávio
Existe uma ironia no resultado do debate. Lula e Flávio não estavam presentes, mas foram os personagens centrais da noite. Renan falou deles. Caiado falou deles. Os púlpitos vazios lembravam deles. Os jornalistas perguntavam sobre eles. E a imprensa, ao analisar o programa, voltou repetidamente à ausência dos dois.
Ou seja: os candidatos que compareceram não conseguiram escapar da polarização que pretendiam superar.
A própria Band apresentou o encontro como uma vitrine de propostas de “terceira via” e críticas à chamada “polarização burra”. Mas a dinâmica do debate mostrou justamente a dificuldade de construir uma alternativa eleitoral relevante quando a maior parte da disputa continua organizada em torno de Lula e do bolsonarismo.
Nesse sentido, o debate da Band é revelador. A chamada terceira via não consegue simplesmente declarar que a polarização acabou. Ela precisa convencer o eleitor de que existe um projeto político capaz de disputar espaço com os dois polos que concentram a maior parte das preferências.
Até agora, isso não aconteceu.
Quem perdeu?
Se a pergunta for quem teve o pior desempenho individual, Renan Santos aparece como o principal alvo das críticas. Seu excesso de agressividade, as ofensas pessoais e o uso de provocações como as fraldas produziram repercussão, mas também reforçaram a percepção de uma candidatura baseada no espetáculo e no confronto permanente.
Augusto Cury foi criticado pelo caráter caricatural de sua participação e pelo excesso de autoajuda. Caiado foi menos atacado individualmente e teve uma atuação mais convencional, mas tampouco conseguiu transformar o debate em um salto eleitoral.
Zema, embora nem sequer tenha participado, também saiu desgastado. Sua desistência ocorreu poucas horas antes do programa, depois que a ausência de Lula e a mudança na data do debate alteraram, segundo sua justificativa, o sentido original do encontro.
Mas apontar apenas um candidato como perdedor seria perder o aspecto mais importante da noite. O grande perdedor foi o próprio debate como instrumento democrático.
Um programa destinado a colocar diante do eleitor os projetos de quem pretende governar o Brasil terminou dominado por ausências, provocações e ataques. Os dois candidatos que concentram a maior parte dos votos não se enfrentaram. Os três que foram ao estúdio disputaram espaço com os fantasmas dos ausentes.
E, enquanto a política real envolve salário, emprego, saúde, educação, moradia, segurança, meio ambiente, impostos e direitos sociais, boa parte do espetáculo acabou reduzida à velha lógica da provocação e do “quem bate mais forte”.
Para a esquerda, há uma questão ainda mais importante nesse episódio: não basta rejeitar a polarização por princípio. É preciso discutir qual projeto de sociedade está por trás de cada candidatura. A democracia não se fortalece quando a eleição vira uma competição de frases de efeito, insultos ou performances para redes sociais. Ela se fortalece quando o eleitor consegue comparar propostas, prioridades e concepções de Estado.
O debate da Band, nesse sentido, ofereceu um alerta para a campanha de 2026: se os principais candidatos continuarem escolhendo cuidadosamente quando e com quem querem debater, o eleitor corre o risco de receber cada vez mais espetáculo e cada vez menos confronto programático.
E, paradoxalmente, a ausência dos líderes das pesquisas não diminuiu a polarização. Apenas deixou duas cadeiras vazias para que ela continuasse falando por eles.