Ponto de não retorno
A batalha recém começa. Vamos tomar as ruas com nossas campanhas combativas, fazendo todos os esforços tanto para reeleger Lula como para fortalecer um polo programático anticapitalista
Foto: Lançamento oficial da campanha de Lula no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). (Ricardo Stuckert/Reprodução)
Muitos candidatos têm afirmado – muitas vezes para animar a militância – que essa é a “eleição das nossas vidas”. Apesar do uso e abuso do termo, a presente situação internacional combinada com a configuração eleitoral da disputa presidencial, tornam essa máxima dramaticamente real.
Em 2018 e 2022 estivemos confrontados com a hipótese – vitoriosa na primeira vez e derrotada na segunda – de um presidente com apoio de setores da classe dominante e peso de massa, disposto a mudar o regime se necessário e possível fosse, com fins de uma “regressão autoritária”.
Agora, tal ameaça ganha tração por uma nova contradição, ainda mais perigosa: a de Trump e sua ofensiva aberta neocolonial. O vídeo assinado pelo Departamento de Estado dos EUA é mais que um alerta, é um programa de ação. Destruir a soberania dos países latino-americanos para convertê-los em protetorados é seu objetivo. É sso que está em jogo na eleição de outubro.
Trump quer controlar o Brasil
Depois do Oriente Médio, Trump quer derrubar o regime cubano, combinando a asfixia política e econômica com as sucessivas ameaças de um golpe/intervenção. E quer construir seu caminho na América do Sul, onde já tem como cabeça de ponte o governo do Equador, vide o assassinato de centenas de pessoas, entre elas balseiros e pescadores, com a justifica de guerra ao narcotráfico.
E o Brasil conserva reservas estratégicas do ponto de vista natural, sendo um dos maiores países do mundo. Petróleo, lítio, diversos minerais críticos, abundância em rios, hidrovias, lençóis freáticos; uma capacidade de produção de alimentos invejável. E o maior PIB disparado do continente. Não são poucos os motivos para Trump querer controlar o Brasil.
A batalha das big techs e da “extração de dados” é o outro capítulo que justifica a sanha trumpista e do seu círculo de bilionários do Vale do Silício sobre nosso país. Trump fez essa escolha por conta da disputa com a China. A relação com os BRICS coloca a parceria com a China como central para o Brasil, desde a exportação de soja e passando por relações de investimentos, infraestrutura, datas centers e logística.
A disputa pelo Brasil é central para o futuro das cadeias tecnológicas, produtivas, alimentares, energéticas e comunicacionais; é disso que se trata, uma verdadeira “guerra”, ainda velada, mas cada vez mais violenta.
Para dar um passo, vide a estratégia do “Escudo da Américas”. Trump precisa remover Lula da presidência, aproveitando as eleições e vai usar de todas as ferramentas disponíveis para derrotar o presidente e impor seu projeto.
A recíproca é real já que uma derrota de Trump no Brasil, com Lula reeleito, teria um efeito decisivo. Questionado em várias frentes, atolado no Oriente Médio, com sua popularidade em queda, com a força moral de soldados e marinheiros caindo, Trump se encontra às vésperas de eleições decisivas nas midterms de novembro.
Um país fraturado
As pesquisas mostram uma disputa apertada, com nove pontos de vantagem para Lula sobre Flávio no primeiro turno; a vantagem cai no segundo e decisivo turno, algo entre três e cinco pontos percentuais. Essa “fratura” reflete algo mais profundo. O Brasil está fraturado em muitas dimensões.
Um país que tem a desigualdade e a violência como marca. O mais recente estudo da Oxfam traz o dado aterrador que o 1% mais rico do Brasil detém um quarto de toda renda do país.
A fratura entre a disputa de futuro e influência, onde China e os BRICS atuam por um lado, os Estados Unidos com as big techs respondem com ameaças à soberania nacional, ao Pix e impõe um tarifaço abusivo. O neocolonialismo é um caminho sem volta para a extrema direita, como deixou nítido o Estado de Israel em sua incursão sobre Gaza, Cisjordânia e Líbano. É um ponto de não retorno.
Há uma fratura entre a classe dominante, visto que uma parte não aceita o retorno dos Bolsonaros devido a sua condição existencial de gerar instabilidade; a Faria Lima não quer Bolsonaro, prefere Caiado e quer tutelar Lula. A campanha midiática contra Lulinha é parte dessa ofensiva: apontar a pistola contra o governo para que ele mantenha a política econômica de altos juros, a impunidade com os negócios escusos dos banqueiros, do qual Vorcaro é o maior símbolo. O editorial da Folha de São Paulo do último domingo não deixa dúvidas: fiscalismo ou morte, eis sua palavra de ordem. Dario Durigan negocia com as big techs e com economistas do time de FHC para ser, junto com Alckmin, a ponte com a classe dominante que tolera Lula desde que contido. Porém, outra parte do empresariado, do varejo, da indústria, mas sobretudo da nova casta do agro, dos lobistas das finanças, das fintechs e das bets, não arreda pé em apoiar Bolsonaro. Quer mesmo um programa de guerra contra o povo, com figuras dantescas como o genocida Jair e o dono da Havan.
A terceira e mais preocupante fratura está na classe trabalhadora, dividida, confundida pela frustração com o projeto de Lula, pela degradação das condições de trabalho, pela destruição da subjetividade e dos cuidados emocionais, com as fakenews e a parte corrupta do fundamentalismo religioso manipulando afetos e desespero. Isso explica porque Lula não consegue se impor no primeiro turno e porque o bolsonarismo é tão perigoso.
A disputa também está na juventude, onde a machosfera dos redpill quer aproveitar da frustração crescente para recrutar cada vez mais, tendo o MBL/Missão como alternativa política mais nítida.
Nada será como antes
A ofensiva de Trump é duradoura, assim como a batalha pela soberania. O imperialismo estadounidense continuará a acossar o Brasil de forma ainda mais intensa enquanto seu atual estiver em pé. O resultado das eleições brasileiras indicará o futuro nível de resistência a esta ameaça, mas não mudará a sanha colonial que avança contra nosso país.
A disputa eleitoral brasileira é crucial como um primeiro passo de resistência contra esta situação colocada. Não há dúvidas de que uma vitória da extrema direita representaria a abertura das portas do Brasil para a ação de rapina de Trump e que Lula representa a única possibilidade de impedir esse eventual enorme retrocesso.
A luta política no Brasil seguirá num outro ritmo e padrão, com condições mais polarizadas, giros abruptos, abrindo novas hipóteses e riscos. Ao mesmo tempo que a ameaça imperialista cresce, pautas econômicas importantes para a classe trabalhadora crescem em popularidade no conjunto da população, como fica evidente no caso do fim da escala 6×1. A juventude da geração Z se mobiliza ao redor do planeta, indicando uma tendência que pode chegar ao Brasil.
Nossa tarefa central é vencer em outubro. A largada da campanha coloca a esquerda radical em mobilização para reeleger Lula lutando ao redor das quatro bandeiras: defesa da soberania, fim 6×1, direitos das mulheres e combate à emergência climática.
Neste contexto, eleger parlamentares da bancada da esquerda do PSOL é muito importante já que este é o setor mais viável e coerente para levar adiante essas lutas nas casas legislativas federal e dos estados. Reeleger referências da resistência e eleger novas lideranças desse campo é estratégico não só para fortalecer bancadas em defesa da soberania nacional como também para fortalecer posições em favor dos interesses concretos dos trabalhadores e trabalhadoras.
A batalha recém começa. Vamos tomar as ruas com nossas campanhas combativas, fazendo todos os esforços tanto para reeleger Lula como para fortalecer um polo programático anticapitalista. As próximas semanas serão decisivas e não pouparemos esforços para essa batalha.