‘Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver’ transforma a crise habitacional em tragicomédia
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‘Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver’ transforma a crise habitacional em tragicomédia

Curta-metragem de Filipe Amorim acompanha corretor de imóveis sem teto e usa o mockumentary para expor contradições do mercado imobiliário, a precarização da vida e a cultura do sucesso aparente

Vanderlei Tenório 24 ago 2026, 08:49

Foto: Reprodução

Um corretor de imóveis que passa os dias vendendo a ideia de uma vida confortável, mas que não consegue garantir uma casa para si próprio. Essa é a premissa de Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver, curta-metragem de Filipe Amorim que aborda a crise habitacional a partir de uma personagem marcada pela contradição: alguém que promove uma indústria da qual também é excluído.

A escolha do protagonista nasceu do interesse do diretor por figuras ambíguas e situações paradoxais. “Gosto de tudo que não seja nem branco, nem preto. Sempre me agradou a ideia do paradoxo, do anti-herói, da ambiguidade”, explica Amorim.

Ao pensar em como representar a crise do mercado imobiliário sem recorrer a uma abordagem evidente, o cineasta encontrou no humor uma forma de revelar as contradições desse cenário. “O próprio drama retratado de forma cômica já é, por si, paradoxal”, afirma.

Para o diretor, o personagem sintetiza uma das grandes ironias do mercado atual: “Um profissional que promove uma indústria na qual não consegue vingar enquanto cliente”.

Entre ficção e realidade

A linguagem do falso documentário é uma das principais escolhas narrativas do curta. Inspirado pelo cinema documental e pela entrevista, Amorim buscou uma estética próxima do vérité, aproximando a ficção de situações reais.

“Optei por essa linguagem por ser uma forma punk rock de fazer cinema e de fazer acontecer no espírito de guerrilha”, explica.

A ideia inicial era seguir uma estrutura semelhante à série The Office, mantendo uma narrativa totalmente ficcional com atores. No entanto, durante o processo de produção, o diretor percebeu que trabalhar com espaços e pessoas reais poderia fortalecer a obra.

“Enquanto produtor e diretor, percebi que iria concretizar isso mais facilmente se assumisse espaços e pessoas reais”, conta.

A experiência levou o filme para uma fronteira entre representação e realidade. Durante as gravações em uma imobiliária, alguns trabalhadores chegaram a acreditar que Amorim era realmente um consultor imobiliário.

“De repente, estava em um contexto real, em uma imobiliária real, com trabalhadores reais, em que muitos achavam que eu era mesmo um consultor, porque não conheciam meu trabalho enquanto artista”, relata.

O interesse por esse formato continuou após a realização do curta. Amorim conta que já filmou, também com Rodrigo Tavares AIP, uma série de cinco episódios chamada Se Não Tivesse Acontecido, Não Acreditava, em que assume diferentes personagens em contextos reais.

O mercado das aparências

O personagem Sérgio também representa uma sociedade em que demonstrar sucesso se tornou quase uma obrigação. Para Filipe Amorim, a lógica do fake it until you make it (fingir até conseguir) ganhou novas dimensões com as redes sociais, que muitas vezes escondem dificuldades e fracassos.

“As redes sociais tornaram-se esse espaço que não estimula a partilha das partes menos boas, e isso, além de ser falso e incompleto, é desinspirador”, afirma.

O diretor destaca que existe uma diferença entre acreditar nos próprios objetivos e construir uma imagem enganosa que afeta outras pessoas.

“Eu acredito muito na capacidade do fake it until you make it e que alcançar nossos sonhos requer um traço de estupidez e ilusão, mas isso tem que ser nivelado. Quando envolve outras pessoas, aí já começa a roçar a ética e a ilegalidade.”

Essa tensão aparece no próprio universo imobiliário retratado no filme, em que a aparência de estabilidade funciona como uma ferramenta de convencimento.

Do improviso ao retrato da precariedade

Algumas das cenas mais marcantes do curta nasceram justamente da relação entre planejamento e acaso. O chamado “grito do bicho”, ritual motivacional realizado dentro da empresa, surgiu durante as filmagens.

Segundo Amorim, Jay Oliveira apresentou a dinâmica durante uma reunião matinal da agência e acabou criando uma situação inesperada.

“Eu fui pego completamente desprevenido. Acho que foi a única vez em que corei em personagem, e não quis me desmanchar”, relembra.

A cena, em que o personagem escolhe o falsete de uma gaivota como seu “grito”, acabou sendo reconhecida por espectadores de outros países como uma representação de práticas corporativas semelhantes.

Outro momento de forte carga simbólica é a cena em que Sérgio come vegetais crus na rua. Para Amorim, essa situação tem uma ligação pessoal com experiências de precariedade.

“Já passei por trabalhos mais precários e fases difíceis, em que substituía a refeição por cenouras cruas”, revela.

Embora ressalte que o filme não seja autobiográfico, o diretor reconhece que suas experiências atravessam a criação. “É inevitável levar as experiências que vou tendo para meus roteiros.”

Quando o corpo vira moeda de sobrevivência

Um dos momentos mais impactantes do curta envolve o uso de aplicativos de relacionamento como estratégia para conseguir um lugar onde dormir. A situação leva o personagem a um limite em que a própria vulnerabilidade passa a ser negociada.

“Qual é a moeda final de troca que nos sobra quando ficamos despojados de tudo? O que é que nos serve? É o corpo”, afirma Amorim.

A sequência também amplia o olhar para outros personagens. A colega de Sérgio, interpretada por Ana Lamas, apesar de possuir estabilidade financeira, também utiliza uma identidade falsa em aplicativos de relacionamento.

Para o diretor, essa escolha revela uma outra forma de ausência: “Eles acabam se encontrando nesse sentimento de desconexão geracional.”

Da esperança ao peso da falha

A transformação visual do filme acompanha a trajetória emocional do protagonista. A narrativa percorre um dia inteiro, começando com uma sensação de possibilidade e terminando em um ambiente mais sombrio e claustrofóbico.

“Os inícios do dia ainda estão cheios de esperança e possibilidades. Acreditamos sempre que temos tempo, que estamos ágeis, que somos capazes”, explica.

Com a chegada da noite, surge a percepção dos objetivos não alcançados. “Cai a noite e foi-se o intervalo onde podíamos ter cumprido nossos objetivos e sentimos o peso da falha.”

A construção do personagem também evita uma visão simplista. Para Amorim, Sérgio é, ao mesmo tempo, vítima e participante do sistema que o oprime.

“Acho que é um pouco dos dois. Não acho que o Sérgio esteja de todo no controle da sua vida, mas o fato é que compactua com o sistema que conspira para esse descontrole.”

Um retrato da crise habitacional contemporânea

Mais do que contar a história de um indivíduo, Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver busca refletir sobre uma realidade social em que a habitação passou a ser uma das maiores fontes de insegurança.

Para Filipe Amorim, o debate sobre o acesso à moradia já existe independentemente do filme, mas a obra pretende contribuir para esse registro.

“Essa situação é muito autoexplicativa e não é preciso ser muito inteligente para perceber essas desproporções”, afirma.

Ao abordar a crise imobiliária, o diretor vê o cinema como uma forma de documentar as contradições de um período histórico.

“Este filme é uma forma de tentar deixar minha contribuição ao retratar e reconhecer que essa realidade existiu.”

No fim, Agente Imobiliário Sem Casa Para Viver não está apenas interessado na falta de uma moradia, mas no que acontece quando a promessa de estabilidade se transforma em uma performance permanente. Sérgio vende imóveis, repete discursos de sucesso e tenta sustentar a própria imagem enquanto a realidade insiste em contrariá-lo.

Ao escolher a comédia para tratar de uma questão tão concreta, Filipe Amorim encontra um caminho para revelar o absurdo de uma época em que o acesso à moradia se tornou uma das maiores fontes de ansiedade. O riso surge, mas permanece acompanhado de uma pergunta incômoda: o que sobra quando até a ideia de futuro passa a ser um produto à venda?

O curta está disponível no Youtube 


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