Serge Goulart, vida dedicada à classe
Nos despedimos de Serge Goulart reconhecendo o lugar dele na história da classe trabalhadora, dos oprimidos do mundo. À OCI e seus companheiros, toda força para seguir o combate. À sua família e amigos nossas condolências e sentimentos
Recebemos um golpe repentino e atroz, a notícia do falecimento de Serge Goulart, ocorrido no final da noite da última sexta-feira, 04 de setembro de 2026. Coloco aqui minha humilde visão, ampla e sincera, sobre o significado dessa perda.
Serge foi um dos revolucionários mais ousados e completos de sua geração. Sua trajetória resumida depõe a favor dessa ideia. Parte desse retrato conheci nas entrevistas que realizei para o projeto de resgate de uma parte da história do trotskismo no Brasil.
Se lançou ao combate como parte da geração da juventude que entrou na luta política entre o grande ascenso operário, popular e democrático dos últimos dois anos da década de 1970. Em meio à convulsão social crescente, se deu conta da necessidade da luta revolucionária a partir dos estertores da ditadura civil-militar. Em 1979/80, assumiu a luta pelo movimento em prol do PT, no qual se somou, para em seguida ingressar na organização OSI, à época conhecida pela presença na juventude através da tendência estudantil Liberdade e Luta. Serge chegou a ser o secretário-geral do PT em Santa Catarina, sendo parte ativa dos seus primórdios. Como parte da política da OSI, se dedicou à construção da CUT, a partir de muitos sindicatos que acabou fundando ou de oposições classistas que apoiou à época, o que resultou em ser delegado ao fundacional Iº Congresso da CUT, em 1983.
Como parte da “exuberante vanguarda” forjada no Brasil dos anos 80, Serge teve lugar na construção da OSI, nos embates internos que acabaram na cisão dessa organização, em 1987; Serge, já figura importante da corrente internacional liderada por Pierre Lambert, ficou com o setor que se recusara a integrar-se na corrente lulista, a “Articulação dos 113”, restabelecendo as bases da seção brasileira do lambertismo, agora sob o nome conhecido de seu veículo de imprensa, Corrente O Trabalho.
Nos anos 90, onde parte do movimento da década anterior se dispersou pela frustração ideológica com a queda do Muro de Berlim; parte se adaptou às prefeituras e mandatos do PT, Serge seguiu o combate por uma via revolucionária, ora separando-se ora se reagrupamento com OT. Chegou a conformar uma pequena liga independente que deu o nome de LCI, para depois voltar, pela influência de Lambert para a direção de OT. Durante certo período buscou diálogos com diferentes organizações, chegando a trocar experiências com organizações da esquerda do PT, de onde datam as primeiras reuniões com Roberto Robaina e a CST.
Nos anos 2000, Serge foi pioneiro ao incentivar, via a Juventude Revolução, a luta pelo Passe-Livre. E foi justamente em Florianópolis, a partir de liderança de Marcelo Pomar, que eclodiram duas rebeliões juvenis, conhecidas como “Revoltas da Catraca”, que antecederiam as lutas de Junho de 2013, inclusive dando impulso à fundação da primeira geração do MPL, Movimento pelo Passe-Livre.
Nos anos seguintes, Serge protagonizou uma dura luta dentro de OT, que se conclui com uma nova cisão, dando origem à Esquerda Marxista. A organização se aproximou da corrente internacional liderada por Alan Woods, tributária de Ted Grant,da antiga organização inglesa The Militant.
Naquele momento, contudo, Serge cumpriu um papel decisivo, sendo o principal dirigente da luta em defesa das fábricas ocupadas, que começou com a Cipla e a Interfibra de Joinville, ganhou força com a Flaskô de Sumaré. Um processo interessante que se chocou com o governo Lula de então. E avança na relação com o governo da Venezuela, que vinha numa importante política de apoio às fábricas ocupadas em outras partes do continente como na Argentina, levando a uma relação entre o movimento e o governo de Chávez, que faria com que jornais da burguesia, como Estadão, acusassem, em matéria citando Serge, que as fábricas ocupadas seriam um passo a favor de trazer o “socialismo chavista “para o Brasil. O movimento de fábricas ocupadas teve destaque no país, chegando a reunir mais de 35 plantas, no auge.
Novamente, a roda da história anda para frente e uma compreensão comum dos acontecimentos do levante popular e juvenil de 2013 aproxima Serge e a EM das posições do MES, potencializadas pela vitoriosa campanha de Luciana Genro à presidência da República.
No biênio de 2015/16, o MES participa de inúmeros esforços e conferências da EM, onde a organização consolida sua ruptura com o PT e seu ingresso no PSOL. Debates frutíferos, num cenário acidentado, onde apesar de certa oposição de setores mais moderados, a EM entrou no PSOL.
Fruto das discussões e aproximação, como parte das celebrações dos 100 anos da Revolução Russa, a Editora Marxista e a Editora Movimento lançam a biografia “Stalin” de Leon Trotsky, em dois extensos volumes. Sob coordenação editorial de Serge Goulart e Roberto Robaina, Alan Woods vem ao Brasil para uma bela jornada de debates e lançamentos nas principais capitais do país, em setembro de 2017.
Os anos seguintes levariam a projetos separados. As vacilações da direção do PSOL levariam a saída de Serge e da Esquerda Marxista, anos mais tarde. Ainda assim, vale o registro das reuniões que mantivemos com a direção da Esquerda Marxista para defendermos juntos no movimento a consigna de “Fora Bolsonaro”.
Afastados pela saída do PSOL, Serge seguiu seu combate, agora com uma nova organização, a OCI, continuadora da Esquerda Marxista.
Serge escreveu ao longo de sua trajetória diversos livros, folhetos, teses e cartilhas. Escreveu sobre a previdência pública, sobre a experiência das fábricas ocupadas, publicou nesses anos um trabalho mais geral acerca do imperialismo. Foi próximo a Estevan Volkov, neto de Trotsky e colaborou com a Casa Museu Trotsky de Coayacan.
Recentemente, um dos combates que Serge e a OCI deram de forma pioneira foi a campanha “Vida Além do Trabalho” e a necessidade da luta pelo fim da escala 6×1. A coincidência da vida fez com que na semana em que seria votado o projeto no Senado encontrasse a última da vida (intensa) de Serge Goulart.
Um internacionalista vivaz, Serge conheceu inúmeros países e processos. Uma das recordações que mais lhe agradava era um presente da COB boliviana, um capacete mineiro, símbolo da organização sindical. Depois de se afastar, por diferenças políticas, da ICR de Alan Woods, Serge estava buscando retomar relações com antigos quadros do CORQUI, como Daniel Gluckstein.
A última atividade que participamos em comum foi o ato que fez o Museu Leon Trotsky pela passagem do 86 º aniversário de morte do fundador de nosso movimento. Serge enviou um vídeo ao evento internacional na qual o MES foi representado por Roberto Robaina.
Nos despedimos de Serge Goulart reconhecendo o lugar dele na história da classe trabalhadora, dos oprimidos do mundo. À OCI e seus companheiros, toda força para seguir o combate. À sua família e amigos nossas condolências e sentimentos.