Japão: contra a expansão militar e a revisão constitucional do governo Takaichi
A situação japonesa frente ao governo de direita de Sanae Takaichi
Foto: Forças de Defesa do Japão. (Asia Times/Reprodução)
Este artigo foi publicado originalmente na edição de 24 de agosto do “Weekly Kakehashi (Ponte)”, da seção japonesa da Quarta Internacional, e o original possui dois capítulos sobre a situação mundial e as influências internacionais da guerra no Oriente Médio. No entanto, ao traduzir o texto para o inglês, o autor suprimiu essa parte para dar destaque à situação no Leste Asiático e no Japão.
Ao longo do último ano, a situação nacional e internacional passou por mudanças extremamente rápidas e profundas, que continuam em curso até hoje. Após a divulgação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2026, em dezembro do ano passado, este ano foi marcado por uma série de acontecimentos: a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, e de sua esposa e assessora, Cilia Flores, pelas forças norte-americanas, bem como o controle dos EUA sobre aquele país; os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã; o fechamento do Estreito de Ormuz tanto pelo Irã quanto pelos EUA; o genocídio promovido por Israel em Gaza e seus ataques ao Líbano; e o prolongamento e a expansão da guerra no Oriente Médio. Além disso, são numerosos demais para serem mencionados todos os exemplos que ilustram essas mudanças dramáticas — desde a invasão russa da Ucrânia e a política de “América Primeiro” de Trump, que desencadeou uma expansão militar e uma militarização globais na Europa e além dela, até o aprofundamento da crise política nas duas superpotências, Estados Unidos e China.
Além disso, o agravamento da crise climática está sendo ainda mais acelerado por essas guerras sucessivas. Na Europa, ondas de calor recordes mataram milhares de pessoas e provocaram incêndios florestais de grandes proporções com frequência. Inundações devastadoras em países asiáticos e deslizamentos de terra provocados pelo colapso de geleiras no Nepal também são impulsionados pelo aprofundamento dessa crise. Ademais, em meio à crise do sistema capitalista, regimes burgueses em todo o mundo estão avançando em direção ao autoritarismo e ao neofascismo. Em resposta a essa tendência no Japão, foi formado o governo Takaichi e, após sua vitória esmagadora nas eleições gerais, ele iniciou uma “verdadeira mudança estratégica”, colocando em risco a própria sobrevivência do imperialismo japonês.
A rápida aceleração dessas mudanças — muito além das nossas expectativas — reflete a crise multifacetada do capitalismo mundial e marca nossa entrada em uma era extraordinariamente incerta e instável. Nessas circunstâncias, embora compreender o quadro geral da situação seja uma tarefa extremamente difícil, tentar entendê-lo a partir de uma perspectiva global é indispensável para aqueles de nós que têm como objetivo o socialismo ecológico. Este ensaio procura organizar conceitos fundamentais para esse fim e oferecer elementos para o debate.
Balanço das sucessivas cúpulas e a situação no Leste Asiático
Entre maio e junho, o presidente chinês Xi Jinping realizou uma série de reuniões de cúpula com o presidente dos EUA, Donald Trump, o presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário-geral norte-coreano, Kim Jong Un. Os resultados dessas cúpulas refletem mudanças na correlação de forças entre as potências imperialistas após os acontecimentos no Irã e no Oriente Médio, trazendo implicações significativas para a situação no Leste Asiático.
Primeiro, a cúpula EUA–China realizada em 14 e 15 de maio efetivamente colocou de lado as questões fundamentais em torno da rivalidade interimperialista entre Estados Unidos e China, chegando, em vez disso, a uma trégua temporária sob a bandeira da “estabilidade estratégica”. Para Trump, perseguir a política de “América Primeiro” às vésperas das eleições de meio de mandato, então a apenas seis meses de distância, exigia demonstrar resultados concretos e transacionais ao público norte-americano. No entanto, contrariando suas intenções iniciais, ele acabou implorando pela ajuda da China para resolver a guerra com o Irã, sendo forçado a fazer concessões em relação à questão de Taiwan. Xi Jinping apresentou exigências extremamente concretas, pedindo aos Estados Unidos que alterassem sua posição oficial de “os EUA não apoiam a independência de Taiwan” para “os EUA se opõem à independência de Taiwan”, além de interromper as vendas de armas para Taiwan. Ao mesmo tempo, diante de uma prolongada estagnação econômica e sem soluções eficazes, Xi procurou aliviar temporariamente as tensões imperialistas com os EUA para ganhar tempo. Nesse sentido, não foi firmado nenhum acordo que contrariasse as expectativas anteriores. De qualquer forma, o conflito interimperialista entre EUA e China inevitavelmente continuará no médio e longo prazo.
A subsequente cúpula China–Rússia demonstrou claramente a predominância chinesa. Desde a invasão russa da Ucrânia, a relação sino-russa mudou fundamentalmente em direção a uma dependência russa da China. Do ponto de vista econômico, a Rússia tornou-se uma parceira que a China “pode substituir caso seja perdida”, enquanto a China se tornou “insubstituível” para a Rússia (o comércio com a China, incluindo transações realizadas por meio de terceiros países, representa aproximadamente 40% a 45% do comércio total da Rússia). Embora a cúpula China–Rússia tenha enfatizado sua parceria, ela produziu poucos resultados concretos para a Rússia.
Na cúpula China–Coreia do Norte, realizada em junho, Xi Jinping pareceu acomodar Kim Jong Un. Isso ocorreu tendo como pano de fundo uma economia norte-coreana em expansão graças à demanda extraordinária criada pela guerra na Ucrânia. Segundo vários relatos de visitas, a economia está prosperando, pelo menos nos arredores de Pyongyang. A Coreia do Norte forneceu tropas e munições para a guerra na Ucrânia, recebendo em troca da Rússia suprimentos urgentes, como alimentos e petróleo, além de obter uma receita estimada em US$ 10 bilhões (aproximadamente 1,6 trilhão de ienes) ou mais com a venda de armas à Rússia (segundo o Instituto de Estratégia de Segurança Nacional da Coreia do Sul). Fortalecida por essa relação com a Rússia, a capacidade de negociação da Coreia do Norte diante da China aumentou; consequentemente, ao contrário de encontros anteriores, Xi Jinping não fez qualquer menção à “desnuclearização da Península Coreana” durante a cúpula.
Na prática, a China reconheceu tacitamente a Coreia do Norte como um Estado dotado de armas nucleares. O regime do Partido Comunista Chinês tradicionalmente considera a Coreia do Norte um Estado-tampão contra os Estados Unidos. Nesse sentido, historicamente, a presença de bases militares norte-americanas na Coreia do Sul (e no Japão/Okinawa) tem servido como fundamento básico para a existência do Estado norte-coreano. Além disso, a Coreia do Norte alterou sua Constituição para refletir o conceito de “dois Estados” na Península Coreana, introduzindo uma nova cláusula territorial que estabelece: “O território da República Popular Democrática da Coreia inclui o território que faz fronteira ao norte com a República Popular da China e a Federação Russa e, ao sul, com a República da Coreia, juntamente com as águas territoriais e o espaço aéreo estabelecidos com base nisso.” Entretanto, a formulação que se referia à Coreia do Sul como um “Estado hostil” — mencionada por Kim Jong Un durante a Assembleia Popular Suprema em março — acabou não sendo incorporada à Constituição.
O rearmamento do Japão e a mudança estratégica iniciada pelo governo Takaichi
Após uma vitória esmagadora nas eleições gerais, a primeira-ministra Takaichi priorizou uma série de agendas políticas: pacotes econômicos impulsionados por uma política fiscal expansionista; fortalecimento das capacidades de defesa por meio da revisão dos Três Documentos de Defesa; criação de uma Agência Nacional de Inteligência e aprovação de legislação antiespionagem; reconsideração, se necessário, dos Três Princípios Antinucleares; endurecimento das políticas de controle sobre estrangeiros; legalização do uso oficial dos nomes de solteira; e preparação para revisar a Lei da Casa Imperial e alterar a Constituição. Além disso, como ponto de partida para enfrentar uma opinião pública profundamente dividida, a abolição das “Cinco Categorias de Exportação de Armamentos” — concedendo assim autorização completa para exportações de armas, incluindo armamentos letais — tinha como objetivo reforçar as alianças militares em todo o Leste Asiático e transformar a indústria de defesa em um motor do crescimento econômico.
Em Okinawa e nas Ilhas Nansei, a construção de bases das Forças de Autodefesa (FAD) e o deslocamento de unidades de mísseis e de guerra eletrônica avançam em ritmo acelerado. No território continental japonês, estão sendo preparadas bases de apoio na retaguarda integradas às Ilhas Nansei, por meio da construção de depósitos de munição para mísseis, do deslocamento de mísseis de longo alcance e Tomahawks e do reforço da capacidade de transporte mediante o uso militar de portos e aeroportos comerciais. No ano fiscal de 2026, o exercício militar conjunto EUA–Japão “Resolute Dragon”, concebido para fortalecer a coordenação e as capacidades de resposta conjunta entre as forças norte-americanas e japonesas, concentrou-se inteiramente em Okinawa e Kyushu como áreas de exercício, com treinamentos voltados à defesa de ilhas remotas.
Além disso, as FAD participaram repetidamente de exercícios militares conjuntos entre EUA e Filipinas nas Filipinas. O “Balikatan 26” (20 de abril a 8 de maio) mobilizou mais de 17 mil militares das Filipinas, Estados Unidos, Austrália, Japão, Canadá, França e Nova Zelândia. As FAD contribuíram com aproximadamente 1.400 militares, juntamente com os destróieres Ise e Ikazuchi, o navio de desembarque Shimokita, aeronaves de transporte e aeronaves anfíbias de resgate. No “Kamandag 26” (15 de junho a 1º de julho), a Força Terrestre de Autodefesa mobilizou a 1ª Brigada Aerotransportada, a Unidade Central de Defesa contra Armas Nucleares, Biológicas e Químicas, a Unidade Médica de Defesa contra Armas NBC e a Escola de Defesa contra Armas NBC, ao lado dos fuzileiros navais dos EUA e das Filipinas, realizando treinamento de lançamento aerotransportado. O objetivo declarado desse exercício era “manter e aprimorar as capacidades operacionais integradas das FAD no que diz respeito às operações multidomínio, contribuindo para a criação de um ambiente de segurança que não permita tentativas unilaterais de alterar o status quo pela força”. Juntamente com as exportações de armas em larga escala para as Filipinas, essas ações refletem a intenção de fortalecer as redes de alianças militares em todo o Leste Asiático, indo além do Extremo Oriente Asiático. Essa série de mudanças políticas e manobras das FAD deve ser reconhecida como o início de uma verdadeira mudança estratégica do governo Takaichi.
Sobre o caráter político do governo Takaichi: tendência a um regime “autoritário”
Temos caracterizado o governo Takaichi — tendo como pano de fundo a ascensão global de regimes autoritários — como tendo o “potencial de se tornar um ‘regime autoritário eleito’ sob uma aparência branda”. Entre os indicadores dessa guinada autoritária estão a tomada de decisões de cima para baixo conduzida pelo Gabinete do Primeiro-Ministro, que desconsidera o Parlamento; a criação de um crime de “profanação da bandeira nacional”; o maior controle sobre estrangeiros; e os preparativos para estabelecer uma Agência Nacional de Inteligência e aprovar uma legislação antiespionagem. Entretanto, é necessário acompanhar de perto os acontecimentos futuros para avaliar a possibilidade de uma transição para um “regime autoritário” plenamente consolidado.
A base política que sustenta o governo Takaichi depende de fatores externos, como os altos índices de aprovação, a confusão e o recuo da oposição de centro e a marginalização da esquerda parlamentar. No que diz respeito às forças centristas, enquanto a integração do Partido Democrático Constitucional e do Komeito na Aliança de Reforma Centrista, na Câmara dos Conselheiros e nas assembleias locais, avançava lentamente, uma série de dissidentes — principalmente ex-membros do Partido Democrático Constitucional que perderam seus mandatos nas eleições gerais — deixou o realinhamento das forças centristas em torno da Aliança de Reforma Centrista sem uma perspectiva clara. Isso culminou na dissolução efetiva da Aliança de Reforma Centrista em 31 de agosto. Na esquerda parlamentar, o Partido Social-Democrata perdeu suas cadeiras na Câmara dos Representantes, enfrentando uma crise existencial. Enquanto isso, o Reiwa Shinsengumi atravessa uma crise interna contínua após a renúncia de seu líder carismático, Taro Yamamoto, acompanhada pela eleição de uma nova direção, pela mudança do nome do partido e pela saída de vários parlamentares.
Embora a primeira-ministra Takaichi tenha sido sustentada por altos índices de aprovação de seu gabinete, pesquisas de opinião realizadas em julho mostraram um declínio amplo e acentuado do apoio. Em uma pesquisa do Mainichi Shimbun, os índices de desaprovação finalmente superaram os de aprovação. Foi particularmente notável a queda do apoio entre as gerações mais jovens e as mulheres. Em relação a essa queda no apoio ao gabinete Takaichi, alguns fatores fundamentais merecem atenção:
O impulso inicial gerado pela popularidade da primeira-ministra Takaichi, pelas altas expectativas e pelo entusiasmo nacionalista em torno de um “Japão forte” já atingiu seu auge, e a atenção do público voltou-se para realidades como os erros cometidos no Parlamento e as dificuldades econômicas cotidianas.
As elevadas expectativas temporárias em torno da primeira-ministra Takaichi não se traduziram necessariamente em aprovação de sua plataforma de direita ou de sua postura autoritária.
Surgiu uma divisão clara dentro do campo conservador entre conservadores liberais e nacionalistas reacionários.
Entre as “grandes potências” ocidentais, o governo Takaichi permanece isolado ao seguir as ações descontroladas de Donald Trump. Isso ampliou a sensação de alarme inclusive dentro do próprio setor dominante da burguesia, sentimento refletido em recentes editoriais de jornais. Em particular, deve-se observar como veículos burgueses tradicionais, como o Nikkei e o Yomiuri, criticaram duramente a condução do Parlamento pela primeira-ministra Takaichi.
As políticas econômicas do governo Takaichi e o futuro da bolha da IA
No que diz respeito à política econômica, a primeira-ministra Takaichi manteve rigorosamente uma postura expansionista e uma política fiscal ativa, concebendo a inteligência artificial e a indústria de armamentos como os principais pilares do crescimento econômico. Seu governo demonstrou relutância em enfrentar a escassez de matérias-primas e a alta dos preços; em vez de promover a economia de energia, formulou um orçamento suplementar centrado em subsídios para gasolina, eletricidade e gás.
“O núcleo desse sistema — que se estende dos Estados Unidos à Europa e ao Japão — continua preso a taxas de crescimento modestas ou à estagnação. No caso dos Estados Unidos, o crescimento econômico tem sido sustentado quase inteiramente por investimentos maciços das gigantes da tecnologia em centros de dados de IA e pela consequente bolha do mercado acionário” (do artigo de Smith mencionado anteriormente). Um fenômeno econômico semelhante está ocorrendo no Japão. O índice Nikkei chegou a ultrapassar temporariamente a marca de 70 mil ienes, impulsionado por uma enorme entrada de capital em ações de empresas de IA e semicondutores, fazendo com que o grau da bolha seja ainda maior devido à concentração em ações desses setores, superior à dos EUA. Como “o grau de concentração em setores específicos é maior do que no mercado norte-americano, e os benefícios dos preços elevados das ações não estão se espalhando por todas as partes do Japão” (Nikkei Shimbun), forma-se uma estrutura que concentra cada vez mais a riqueza nas mãos de uma pequena parcela dos mais ricos.
A bolha da IA não durará para sempre. Se novas inovações tecnológicas tornarem desnecessários os gigantescos centros de dados de IA, ou se ficar claro que os enormes investimentos neles realizados não produzem lucros, a bolha poderá desmoronar de uma só vez. De fato, assim que foi anunciada uma IA generativa de alto desempenho desenvolvida por uma startup chinesa, os preços das ações de empresas de IA e semicondutores despencaram tanto nos Estados Unidos quanto no Japão. As ações da gigante de semicondutores Kioxia — cuja capitalização de mercado havia ultrapassado temporariamente a da Toyota Motor — caíram para menos da metade de seu valor de uma só vez. O índice Nikkei também registrou uma queda de mais de 10 mil ienes em pouco mais de um mês em relação ao recorde de 72.366,34 ienes alcançado em 25 de junho. Uma política econômica dependente de uma bolha acionária de IA drasticamente desconectada da economia real está fadada ao fracasso.
Pobreza crescente, desigualdade e agravamento das dificuldades provocados pela escalada da inflação
Com os ataques dos EUA e de Israel ao Irã e o subsequente bloqueio do Estreito de Ormuz, que praticamente interrompeu os embarques de petróleo bruto do Oriente Médio, o governo japonês respondeu à escassez de petróleo e à disparada dos preços liberando reservas estratégicas de petróleo. Ainda assim, persistem aumentos de preços e escassez localizada de produtos derivados do petróleo. Mesmo que o bloqueio do Estreito de Ormuz seja suspenso e as importações de petróleo bruto do Oriente Médio sejam retomadas, a reconstrução das instalações petrolíferas na região provavelmente levará tempo. Ao contrário das declarações triunfalistas de Trump, é improvável que os preços do petróleo bruto retornem aos níveis anteriores à guerra. Consequentemente, o Japão enfrenta um forte aumento do custo das importações de petróleo bruto, criando condições para déficits comerciais, uma nova desvalorização do iene e a continuidade das pressões inflacionárias. Em 16 de junho, o Banco do Japão decidiu elevar sua taxa básica de juros para cerca de 1,0%, decisão motivada pela avaliação de que “era necessário controlar a inflação por meio de aumentos das taxas de juros, priorizando os riscos crescentes de inflação decorrentes dos altos preços do petróleo bruto em relação ao risco de deterioração econômica causado pela situação no Oriente Médio” (Mainichi Shimbun).
No entanto, a desvalorização do iene não cessou, ultrapassando a marca de 160 ienes por dólar. Em resposta, as autoridades monetárias norte-americanas e japonesas realizaram intervenções cambiais coordenadas, fortalecendo temporariamente o iene em quase 10 ienes; contudo, isso está longe de ser sustentável. Os aumentos de preços provocados pela inflação global e pela desvalorização do iene geraram enormes lucros para os grandes monopólios — como demonstrado pelas empresas listadas que registraram um aumento de 68% nos lucros líquidos consolidados em relação ao ano anterior no trimestre de abril a junho de 2026. Ao mesmo tempo, esses aumentos estão acelerando a pobreza e as dificuldades cotidianas entre a população trabalhadora, especialmente entre grupos vulneráveis como mulheres, idosos e jovens. A trajetória de crescimento econômico do governo Takaichi, baseada na expansão fiscal, está alimentando ainda mais essa inflação.
A principal medida anti-inflacionária do governo Takaichi, inicialmente apresentada como “zerar o imposto sobre o consumo de alimentos por dois anos”, foi finalmente definida em uma decisão do Gabinete de 5 de agosto como “reduzir o imposto sobre o consumo de alimentos para 1% por um período limitado de dois anos, a partir de abril de 2027”. No entanto, o Nikkei Shimbun, falando em nome da burguesia dominante, criticou duramente a medida em um editorial de 6 de agosto, após a decisão, afirmando que “insistir dogmaticamente nas promessas de campanha das eleições para a Câmara dos Representantes para impor cortes de impostos repletos de efeitos colaterais e riscos nada mais é do que uma política insensata que deixará problemas para o futuro”. O editorial do Nikkei apresentou várias razões para sua oposição: “é totalmente irresponsável decidir primeiro pelos cortes de impostos enquanto se adia até o fim do ano a definição de fontes alternativas de financiamento — no valor de 5 trilhões de ienes anuais”; “o efeito como medida contra a alta dos preços é limitado”; e “uma gestão fiscal na corda bamba corre o risco de provocar uma nova desvalorização do iene e aumentos das taxas de juros, ameaçando, em última instância, os meios de subsistência da população”. Até mesmo o Nikkei aponta que essa política não consegue enfrentar a pobreza e as dificuldades econômicas em curso.
Para defender o padrão de vida, temos defendido a abolição do imposto sobre o consumo — financiada por uma tributação maior sobre as grandes corporações e os ricos — juntamente com aumentos radicais dos salários, particularmente um aumento significativo e uniforme do salário mínimo em todo o país. Entretanto, o governo adiou substancialmente o prazo previsto para elevar o salário mínimo médio nacional a 1.500 ienes por hora, buscando manter sua política de contenção dos salários dos trabalhadores não regulares.
Unir o movimento contra a expansão militar e a revisão constitucional do governo Takaichi à defesa das condições de vida dos trabalhadores — construir uma ofensiva em direção ao ecossocialismo
Diante dos movimentos do governo Takaichi em direção à expansão militar e à revisão constitucional, desenvolveram-se grandes mobilizações de protesto em uma escala não vista desde os protestos contra a legislação de segurança de 2015. Começando com a “Ação de Emergência contra a Guerra” diante do Parlamento Nacional — iniciada após as eleições gerais principalmente por jovens e mulheres, crescendo a cada ato e se espalhando por todo o país —, iniciativas como a manifestação mensal do dia 19, “NÃO À GUERRA! Não mudem a Constituição! Ação no Portão Principal do Parlamento” (coorganizada pelo “Comitê Executivo da Ação de Emergência contra a Guerra e a Destruição do Artigo 9” e pela “Ação Nacional dos Cidadãos contra a Alteração do Artigo 9”), mobilizaram um grande número de participantes, juntamente com ações coordenadas realizadas em todo o país no mesmo dia. Para sustentar e desenvolver o impulso desse movimento, precisamos fortalecer as ações de base em nível local e dedicar todos os nossos esforços a esse objetivo. Em particular, é indispensável construir solidariedade com o movimento contra as bases em Okinawa e nas Ilhas Nansei — onde a militarização e a construção de bases avançam rapidamente —, assim como com os movimentos de oposição à expansão das bases das FAD em todo o país.
Ao mesmo tempo, devemos nos opor às políticas do governo Takaichi que priorizam os interesses do grande capital e dos ricos, construindo um movimento em defesa das condições de vida da ampla maioria trabalhadora como uma luta para revitalizar o movimento sindical. Fundamental nessa luta é o processo pelo qual os próprios trabalhadores se organizam, levantando reivindicações como um salário mínimo uniforme em todo o país, um aumento substancial do salário mínimo, a indexação dos salários à inflação e a interrupção de novas desregulamentações das leis trabalhistas, incluindo a Lei de Normas Trabalhistas.
Essas lutas pela paz e contra a guerra, pela defesa das condições de vida da população trabalhadora e pela justiça climática diante do aprofundamento da crise climática estão se desenvolvendo em resposta às crises multifacetadas do sistema capitalista. À medida que essas crises convergem para uma única frente unificada, nossos movimentos e nossas lutas também devem se interconectar para formar uma poderosa corrente única. A situação atual exige nada menos que isso.