Bets: cartolas defendem cassinos às custas do futebol
Clubes dizem depender de patrocínios das plataformas, enquanto governo aponta perdas bilionárias para famílias, endividamento e custos ao SUS; setor articula reação no Congresso e no STF
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
O fim das bets abriu uma nova frente de disputa entre o governo Lula, dirigentes de clubes de futebol, empresas de apostas e parlamentares. A reunião que estava prevista para esta terça-feira (29) entre representantes dos clubes, da CBF e ministros do governo federal foi adiada pelo Ministério do Esporte. O encontro havia sido convocado para discutir os impactos da Medida Provisória (MP) assinada por Lula na última sexta-feira (25), que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil.
Os clubes vêm pressionando o governo sob o argumento de que perderão uma importante fonte de receitas. Segundo levantamento do UOL, as casas de apostas colocaram mais de R$ 1 bilhão em patrocínios nos clubes em 2025. Na Série A, os contratos com empresas do setor representaram 7,9% da receita dos clubes e foram patrocinadores principais de 14 das 20 equipes. No mesmo ano, os clubes da primeira divisão faturaram R$ 14,9 bilhões e acumulavam R$ 14,3 bilhões em dívidas.
O discurso dos cartolas é que, sem o dinheiro das bets, o futebol brasileiro sofrerá um forte impacto financeiro. Os dirigentes também articulam uma alternativa com o governo: uma linha de crédito que poderá chegar a R$ 20 bilhões para clubes e Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), com recursos do BNDES e juros abaixo dos praticados pelo mercado.
O argumento, porém, abre uma questão que vai além das contas dos clubes: por que um esporte de massa, que movimenta bilhões de reais, teria se tornado tão dependente de empresas cujo modelo de negócio está associado ao endividamento e à dependência de seus próprios torcedores?
Na avaliação do governo, não se trata apenas de uma discussão sobre patrocínio. A decisão de Lula foi fundamentada principalmente nos impactos econômicos e de saúde pública provocados pela expansão das apostas online. Em setembro, estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da USP, estimou que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, equivalente a 0,9% a 1,1% do PIB. A pesquisa calcula ainda perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.
Lobby das bets não se limita aos clubes
A reação à MP também acontece dentro do Congresso. Investigação da Agência Pública identificou uma articulação informal de parlamentares favoráveis aos interesses das empresas de apostas, chamada na reportagem de “Bancada das Bets”. Segundo a apuração, deputados e senadores atuaram contra o aumento da tributação e em favor de mudanças que beneficiariam as plataformas.
Um dos episódios destacados foi a retirada da chamada Cide-bets, contribuição de 15% que havia sido incluída no projeto que deu origem ao chamado PL Antifacção. Segundo a Agência Pública, a retirada teria deixado de proporcionar uma arrecadação estimada em R$ 30 bilhões anuais para a segurança pública. A reportagem cita entre os principais articuladores parlamentares nomes como Dr. Luizinho, Felipe Carreras, Isnaldo Bulhões e Ciro Nogueira. Os parlamentares citados negam atuar em benefício das empresas ou apresentam outras justificativas para suas posições.
A pressão do setor também chegou ao Judiciário. Na segunda-feira (28), a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) acionaram o Supremo Tribunal Federal para tentar suspender a MP de Lula. As entidades argumentam que a medida teria sido abrupta e violaria o marco regulatório aprovado pelo próprio Congresso em 2023. O pedido foi encaminhado ao ministro Luiz Fux, relator de ações que já discutem a legislação das apostas no STF.
A ofensiva judicial acontece paralelamente à pressão política sobre o Congresso. A MP tem vigência inicial de 60 dias, prorrogáveis por mais 60, e precisa ser analisada pelo Legislativo para se tornar definitiva. O governo também enviou à Câmara um projeto que pretende transformar em crime a exploração e a publicidade das bets.
Futebol precisa das bets ou as bets precisam do futebol?
A reação dos clubes evidencia uma dependência construída nos últimos anos. As plataformas ocuparam espaços de patrocínio, placas de estádio, transmissões, competições e camisas, transformando o futebol em uma das principais vitrines para um mercado que precisava conquistar milhões de consumidores.
É justamente essa relação que o governo pretende romper. Lula afirmou que o fim das bets não representa uma ameaça estrutural ao futebol. “Esse negócio da gente ter acabado com as bets não traz nenhum prejuízo pro futebol. (…) nos melhores momentos da história do futebol brasileiro não existia bets”, declarou.
A questão, portanto, não é simplesmente substituir um patrocinador por outro. É discutir que tipo de atividade econômica deve financiar o esporte mais popular do país e se o futebol pode continuar dependente de um modelo de negócio cuja expansão tem sido acompanhada por endividamento das famílias, problemas de saúde mental e custos crescentes para o Estado.
O futebol brasileiro movimenta bilhões e possui diversas fontes potenciais de receita. A dependência dos recursos das bets é, nesse sentido, uma escolha econômica construída nos últimos anos – e não uma característica inevitável do esporte. O debate provocado pela MP coloca em xeque justamente essa escolha: se o dinheiro das apostas desaparece, quem deve assumir a conta – o mercado, os clubes ou, novamente, o Estado?