Willer Tomaz: os negócios suspeitos e a ligação com Flávio Bolsonaro
CPMI-JBS - Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da JBS

Willer Tomaz: os negócios suspeitos e a ligação com Flávio Bolsonaro

Amigo do candidato à Presidência aparece em apuração da PF sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. Documentos também apontam viagens em jatos privados, compartilhamento de conta bancária e conexões empresariais entre os dois

Tatiana Py Dutra 22 out 2026, 10:23

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O advogado e empresário Willer Tomaz ganhou destaque no noticiário político e policial após a Polícia Federal identificar movimentações financeiras bilionárias envolvendo empresas ligadas a ele e plataformas de apostas online. Amigo próximo de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, Tomaz está no centro de uma investigação que apura possíveis crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O senador também passou a ser investigado em um procedimento relacionado às suspeitas.

As informações foram divulgadas com base em documentos e relatórios de investigação. A apuração tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Segundo reportagem do UOL publicada em 18 de outubro, a Polícia Federal investiga cerca de R$ 1,4 bilhão em transações financeiras envolvendo Tomaz, empresas relacionadas a ele e a operadora da plataforma Blaze. Os investigadores suspeitam que apostas e transferências entre diferentes contas possam ter sido utilizadas para dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.

Tomaz nega irregularidades e afirma que os valores movimentados têm origem lícita. A empresa responsável pela Blaze também nega vínculo societário com o advogado.

Quem é Willer Tomaz

Willer Tomaz é advogado e empresário com atuação em Brasília, onde construiu relações profissionais e pessoais com políticos e integrantes de diferentes círculos de poder. Seu nome já havia aparecido em investigações anteriores. Em 2017, ele foi preso pela Polícia Federal na Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato relacionado à delação de executivos da JBS. Na ocasião, foi acusado de intermediar pagamentos indevidos. 

O advogado também passou a ser investigado na Operação Sem Desconto, que apura um esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nessa frente, a Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações patrimoniais relacionadas ao senador Weverton Rocha (PDT-MA) e a pessoas próximas a ele.

A defesa de Tomaz nega envolvimento em irregularidades. O advogado também contesta a divulgação de informações relacionadas às investigações e afirma que seus negócios são lícitos.

Mas foi a partir da análise de dados financeiros, empresariais e de dispositivos eletrônicos apreendidos pela PF que surgiram novos elementos sobre suas atividades no setor de apostas e suas relações com Flávio Bolsonaro.

Apostas de R$ 5 bilhões e suspeitas sobre a Blaze

Um dos pontos centrais da investigação envolve a movimentação de recursos em plataformas de apostas. Segundo reportagem do UOL de 20 de outubro, uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda identificou Tomaz como a pessoa física que mais movimentou dinheiro em apostas no Brasil em 2025.

O advogado teria depositado mais de R$ 258 milhões na Foggo Entertainment, empresa responsável pela operação brasileira da Blaze, e movimentado aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas ao longo do ano.

A Polícia Federal suspeita que parte dessas operações possa ter servido para fazer recursos circularem repetidamente pela plataforma, criando um volume de transações desproporcional ao dinheiro originalmente investido. Os investigadores também levantam a hipótese de que Tomaz tenha participação societária oculta na empresa, o que ele nega.

A Secretaria de Prêmios e Apostas apontou possíveis falhas nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro da Blaze. Segundo a documentação divulgada pela imprensa, a plataforma não teria submetido as movimentações do advogado ao nível de análise exigido pelo volume e pelo padrão das operações.

A secretaria recomendou a abertura de processo administrativo contra a empresa e a avaliação de eventual suspensão temporária de suas atividades. A existência dessas recomendações não significa que a lavagem de dinheiro tenha sido comprovada, nem estabelece responsabilidade criminal da plataforma.

Em sua defesa, Tomaz afirma que atuava apenas como cliente da Blaze e que os recursos utilizados nas apostas são lícitos, compatíveis com seus rendimentos e declarados à Receita Federal. Ele também contesta o cálculo de R$ 1,4 bilhão atribuído às transações investigadas.

Empresas, transferências e indícios sob análise

A investigação financeira não se limita às apostas. Os investigadores analisam operações envolvendo empresas como Embrasis, Cathedral Holdings, Alcazar Holdings e RioPag, além de contas pessoais e de outras pessoas jurídicas relacionadas ao advogado.

A PF identificou transferências sucessivas, movimentações de valores elevados e operações fracionadas entre diferentes contas. Em um dos exemplos descritos no relatório, recursos que entraram na conta pessoal de Tomaz foram transferidos em parcelas para a Foggo, operadora da Blaze.

Os investigadores também levantaram dúvidas sobre a estrutura operacional de algumas empresas relacionadas ao advogado, incluindo o compartilhamento de endereços, contatos e responsáveis financeiros. A hipótese é que determinadas estruturas empresariais possam ter sido utilizadas para dificultar o rastreamento dos recursos.

A RioPag, empresa de processamento de pagamentos que passou ao controle da Embrasis em etapas entre 2023 e 2024, também aparece nas apurações. A PF analisa as conexões empresariais e os fluxos financeiros para determinar se houve ocultação de patrimônio ou dissimulação da origem dos valores.

A relação com Flávio Bolsonaro

A amizade entre Tomaz e Flávio Bolsonaro é reconhecida publicamente pelos dois. O vínculo, porém, passou a ser examinado pela Polícia Federal diante de documentos que indicariam conexões financeiras, empresariais e patrimoniais.

Uma das informações mais relevantes, revelada pelo UOL, diz respeito a e-mails apreendidos pela PF que indicariam o compartilhamento de uma conta no banco Santander. Em uma mensagem, Flávio aparece identificado como “usuário master” de uma conta relacionada ao advogado. Essa credencial permitiria administrar a conta e movimentar recursos. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam que tenham dividido uma conta bancária.

Outro ponto envolve viagens internacionais. Reportagens de O Globo, CNN Brasil e UOL informaram que o senador e o advogado viajaram juntos em diferentes ocasiões, inclusive em jatos privados. Dados examinados pela PF indicariam que uma holding de apostas ligada a Tomaz pagou ao menos três voos para Flávio viajar entre Portugal e França em 2025.

Em janeiro daquele ano, Flávio, sua esposa, suas filhas e Tomaz viajaram dos Estados Unidos a Brasília em uma aeronave cuja propriedade estava dividida entre Tomaz e uma empresa ligada ao então banqueiro Daniel Vorcaro.

A relação com o setor de apostas também aparece na trajetória empresarial dos dois. A PF investiga se estruturas empresariais e financeiras relacionadas a Tomaz teriam sido utilizadas em operações das quais Flávio pudesse ter participado. 

Apartamento usado na campanha e conexão com Vorcaro

A ligação entre o advogado, Flávio Bolsonaro e o círculo empresarial de Daniel Vorcaro também aparece em uma transação imobiliária. Flávio utilizou, em agosto de 2025, um apartamento de propriedade de Tomaz, localizado na Vila Nova Conceição, em São Paulo, para reuniões estratégicas e gravações relacionadas à campanha eleitoral.

O imóvel havia pertencido anteriormente a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Tomaz comprou o apartamento por R$ 3,5 milhões, cerca de R$ 2 milhões abaixo do valor que Zettel teria pago aproximadamente um ano antes.

A operação imobiliária passou a integrar o contexto examinado pela imprensa sobre as relações entre os envolvidos. A investigação busca esclarecer a natureza das relações financeiras e empresariais, bem como a eventual existência de recursos de origem ilícita.

Flávio Bolsonaro também é alvo de uma investigação distinta relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro, que recebeu recursos associados ao Banco Master. 

PF também apura tentativa de remover reportagens

Em outra frente, documentos apreendidos pela Polícia Federal indicariam que Tomaz contratou um serviço para remover ou desindexar links de reportagens que o relacionavam a Flávio Bolsonaro. Segundo o relatório, uma planilha listava 12 links que teriam sido removidos dos resultados de busca. As mensagens analisadas indicariam pagamentos pelo serviço.

Tomaz afirmou que a iniciativa foi uma ação judicial contra o Google para desindexar conteúdos antigos e desatualizados, e não uma tentativa de retirar reportagens dos sites jornalísticos. Ele também negou ter buscado se afastar politicamente do senador e criticou a divulgação de informações sigilosas.

O que está comprovado e o que ainda precisa ser esclarecido

Até o momento, as reportagens apontam fatos documentados, como as viagens compartilhadas, as relações pessoais, as transações empresariais sob análise e os volumes movimentados em plataformas de apostas. Também há hipóteses da Polícia Federal sobre possível lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e eventual participação societária não declarada.

A principal questão é determinar se as operações financeiras correspondem a atividades legítimas ou se foram utilizadas para dissimular a origem e o destino de recursos – e a última hipótese é muito forte. A investigação também busca esclarecer a natureza das relações entre Tomaz e Flávio Bolsonaro e se houve participação do senador nas operações suspeitas. E, mais uma vez, a última hipótese é muito forte.


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