França: depois do sucesso da mobilização contra Macron, rumo à greve geral
Manifestation de la jeunesse

França: depois do sucesso da mobilização contra Macron, rumo à greve geral

Mobilização do último dia 17 de outubro reuniu centenas de milhares de franceses impulsionados pela juventude contra o governo

Antoine Larrache 22 out 2026, 11:43

O dia 17 de outubro foi histórico e, no seu discurso de 18 de outubro, o presidente Macron só conseguiu mostrar sua impotência diante do movimento e se recusar a atender às reivindicações. O dia 17 de outubro sinaliza a possibilidade de uma convergência sem precedentes, de um movimento capaz de mudar as relações de força políticas e sociais. Desde que se fortaleçam seus meios de ação, sua auto-organização e seus objetivos políticos.

A CGT anunciou 800 mil participantes no dia 17 de outubro de 2026. É um número muito significativo, alcançado apesar da repressão e no primeiro fim de semana das férias escolares. Em várias cidades, os militantes contam que todas as ruas estavam lotadas de gente, transbordando dos percursos definidos pelas organizações. Em algumas cidades, essas foram as maiores manifestações das últimas décadas. Nas ruas, no transporte público, no supermercado, os manifestantes recebiam manifestações de apoio. O que chama a atenção é a grande variedade política e social: raramente se vê jovens, tão jovens assim, sindicalistas, moradores de bairros populares e Coletes Amarelos marchando juntos, unidos pela mesma raiva. Com bandeiras da Palestina.

Um apoio maciço

De acordo com uma pesquisa da Elabe para a BFMTV, 69% dos franceses aprovam a mobilização contra o aumento do custo de vida. Para dois em cada três franceses, é preciso se mobilizar agora mesmo e não esperar pelas eleições presidenciais. […] A aprovação do movimento social é bem maior entre os eleitores da Nova Frente Popular (83%) e da Agrupação Nacional (70%) do que entre os dos Republicanos (55%) e do Ensemble (51%). […] É entre os mais jovens que a mobilização faz mais sucesso: 77% dos jovens de 18 a 24 anos e 73% dos de 25 a 34 anos dizem apoiar. Por fim, os moradores de municípios de médio porte (entre 2.000 e 20.000 habitantes) apoiam mais do que os outros, com 74% de aprovação1.

O movimento tem apoio maciço da população. Há vários meses, a intensidade dos ataques do governo e dos patrões gerou um acúmulo de contradições, mal disfarçadas pela apatia que já se podia notar desde o movimento em defesa das aposentadorias de 2023. Agora elas estão explodindo.

As razões imediatas são a mobilização da juventude, desencadeada pelas condições de educação extremamente precárias e pela repressão absurda do governo que atingiu o movimento, além da raiva diante do aumento dos preços dos alimentos e da energia. No final, é a situação concreta das classes populares que se tornou insuportável. O movimento da juventude começou nas periferias e nos territórios de ultramar [os resquícios do império colonial], e outras escolas de ensino médio se mobilizaram. São muitos os relatos sobre as dificuldades para pagar as compras e as contas, o colapso dos serviços públicos, a falta de pessoal, o racismo, a repressão e as abordagens policiais. As mobilizações que estão começando em vários países mostram que estamos diante de uma crise sistêmica.

As imagens mostradas na mídia, de confrontos com a polícia ou de saques a bancos, alguns prédios públicos ou lojas (principalmente de produtos de luxo, perfumes, celulares…), ilustram a magnitude da raiva social, com as brasas sendo alimentadas pela violência policial sistemática (gás, espancamentos…). Elas também são um sinal de formas desespero na busca da estratégia a ser adotada para vencer.

A força do “zbeul”

A amplitude do movimento – essa revolta contra a situação concreta das classes populares – mostra o potencial de desestabilização política que ele carrega em si. Mas a falta de combatividade dos últimos anos, assim como a fraqueza organizacional e as hesitações dos sindicatos e da esquerda, também trazem grandes fragilidades para o movimento.

Ele é muito pouco estruturado: os bloqueios nas universidades e escolas de ensino médio contribuem para frear a auto-organização; os sindicatos estão pouco envolvidos no movimento e, de qualquer forma, estão enfraquecidos; enquanto as organizações políticas (da LFI à esquerda revolucionária) têm capacidades militantes limitadas.

Seus objetivos ainda são vagos: as reivindicações dos jovens estão voltadas para o orçamento (conseguir 10 bilhões, o que, aliás, é muito pouco, a FSU, o principal sindicato da educação, reivindica 50 bilhões em 5 anos), contra a plataforma de seleção Parcoursup, enquanto as reivindicações do mundo do trabalho são limitadas (“poder de compra”, tema da mobilização de 17 de outubro, imposto mais pelas redes dos Coletes Amarelos do que por um trabalho consciente e quantificado das organizações).

Não há uma estratégia comum. Muitos jovens e ativistas do movimento, vendo o fracasso das últimas mobilizações, querem recorrer ao “zbeul” (bagunça, vem do árabe zebl’, que significa “lixo, bagaço”), às manifestações espontâneas, imprevisíveis e supostamente difíceis de reprimir.

A força do “zbeul” está em mostrar pra todo mundo que é preciso entrar em ação. Agir, se envolver, discutir. Todo tipo de assembleia geral está surgindo, em frente às escolas, nos terminais de ônibus, nos parques, nas rotatórias. E isso é extremamente positivo. Mas não é o suficiente.

Nas manifestações de 17 de outubro, ouviu-se “Fora Macron!”. Vamos torcer para que isso inspire as organizações sindicais e políticas.

Quais são os objetivos do movimento?

Até agora, os slogans apresentados pelas organizações envolvidas são basicamente um eco das reivindicações dos jovens, mais na forma de constatações: “todo mundo odeia a polícia”, “a juventude manda a merda a Frente Nacional”, “pela honra dos trabalhadores e por um mundo melhor, mesmo que o Macron não queira, a gente está aqui”.

Um movimento precisa definir objetivos. Objetivos concretos, ou seja, reivindicativos, que atendam às necessidades imediatas, essenciais para mobilizar as massas que ainda não estão na luta. E que, ao mesmo tempo, sejam capazes de ampliar a base social da luta. Desse ponto de vista, o movimento deveria agora se concentrar em alguns pontos:

  • A eliminação da seleção na educação: o fim do Parcoursup e do Mon Master, em particular.
  • A rejeição do orçamento apresentado pelo Primeiro ministro Lecornu, que começou a ser discutido na Assembleia. Com reivindicações a serem afinadas, como 50 bilhões para a educação, um plano geral de contratações nos serviços públicos (1 milhão de contratações?). Precisamos de um orçamento totalmente diferente: rejeitar os gastos militares e para a repressão policial, rejeitar as medidas antissociais sobre aposentadorias e licenças médicas, tirar dinheiro dos cofres dos superricos, das grandes empresas e dos rendimentos financeiros, acabar com as isenções de contribuições sociais para as grandes empresas.
  • Um aumento geral dos salários e de todas as rendas, de 400 euros. O congelamento dos preços da energia, dos aluguéis e dos alimentos.

Mas a mobilização também é um movimento político, que se percebe nas bandeiras palestinas erguidas nas manifestações, nos slogans contra o RN ou contra Macron, ou “dinheiro pras faculdades e pros colégios, não pros policiais nem pro exército”.

O papel dos revolucionários, e dos anticapitalistas em geral, é fortalecer essa politização antirracista, internacionalista e antisistema. De fato, sem cair no radicalismo e no ultraesquerdismo, dá pra mostrar que a situação atual é resultado da ofensiva capitalista global, representada por Macron, e da ascensão do militarismo, e também que a extrema direita propõe intensificá-las ainda mais.

Portanto, temos a responsabilidade de denunciar Macron e Lecornu, de exigir a saída deles, sem esperar as eleições.

Os revolucionários, nas palavras de ordem que defendem nas manifestações, nos jornais, nos panfletos e nos adesivos, precisam ajudar o movimento a se estruturar, a esclarecer suas reivindicações. As massas em movimento só pedem isso: ferramentas disponíveis para expressar claramente suas reivindicações, que tentam formular em cartazes de papelão, por falta de ferramentas oferecidas pelas organizações.

Que rumo(s) para o movimento?

Atualmente, o movimento é essencialmente espontâneo: os alunos do ensino médio e universitários saíram às ruas por iniciativa própria; o dia 17 de outubro surgiu a partir de convocatórias dos Coletes Amarelos. O dia de greve de 5 de novembro foi convocado pelos sindicatos como uma resposta social ao descontentamento que vem de baixo. As organizações ajudam, mas o essencial é a expressão espontânea da raiva.

Três orientações equivocadas surgem nesse contexto. A primeira é a ideia – promovida por elementos mais ou menos conscientemente anarquistas – de que o movimento não precisa de liderança, de que é preciso continuar acompanhando a espontaneidade, sem se preocupar em unificar e centralizar o movimento, um trabalho difícil que exige ações decididas. A segunda é construir estruturas de auto-organização sem base real e com um cunho antissindical. Assim, as coordenações de alunos do ensino médio e universitários, nesta fase, reúnem apenas militantes polarizados pelos revolucionários, sem um esforço consciente para incluir outras correntes da esquerda, ou até mesmo em oposição a elas. Assim, o NPA-R, por duas vezes em Paris, organizou percursos de manifestação concorrentes aos dos sindicatos, desinformando as coordenações e, em seguida, desenvolvendo um discurso antissindical. A terceira é a, não formulada, das organizações reformistas, que consideram o jogo institucional como a única saída possível para o movimento: a negociação nos ministérios e/ou as eleições de 2027.

O movimento merece melhor, e a gente precisa ajudar a construir uma liderança auto-organizada, unificadora e radical ao mesmo tempo.

A principal fraqueza do proletariado, hoje em dia, é a sua heterogeneidade. Ser coerente significa, portanto, ser unitário, sem deixar de ser radical: mais do que nunca, a unidade da classe é fundamental e passa, em grande parte, pela unidade de suas organizações, sem criar ilusões sobre as perspectivas institucionais dessas organizações. Precisamos tomar iniciativas para que as organizações trabalhem juntas na estruturação do movimento, no fortalecimento de sua auto-organização na base, por meio de assembleias gerais nas escolas, nos bairros populares, nas empresas, e na formação de coordenações. Com base em um programa mínimo de reivindicações e propondo a unificação em torno da questão do orçamento.

Ao mesmo tempo, desenvolvendo um programa de transição, com slogans anticapitalistas contra a polícia, pela escala móvel de salários, pela requisição das grandes empresas, pela necessidade de tirar Macron do poder, pela Assembleia Constituinte, etc.

Construir uma greve em massa

A burguesia não vai deixar o “zbeul” de 17 de outubro rolar. Ela tá preparando fotos e imagens da França em chamas e provavelmente vai lançar um discurso repressivo sem precedentes. Afinal, ela que achava “melhor Hitler do que a Frente Popular” nos anos 30, vai achar melhor Le Pen do que o “zbeul”. Macron ameaça o movimento com mais repressão, sem dar a menor resposta às reivindicações, limitando-se a dizer que está ouvindo. Essa ofensiva pode se aproveitar das duas semanas de férias escolares e de desvios esquerdistas minoritários que podem se intensificar nesse período. Novos eventos vão rolar nessas duas semanas, principalmente se a mobilização estudantil crescer o comando, e a gente precisa contribuir pra isso.

Precisamos seguir o caminho oposto da burguesia: para garantir que nossas reivindicações sejam atendidas e para tirar Macron do poder, precisamos trabalhar para construir uma greve geral a partir de 5 de novembro. Essa perspectiva ainda parece distante para uma parte importante das classes populares – por isso, é preciso ter paciência e ser didático –, mas já está na cabeça de quem participa do movimento. A energia dos setores militantes, sejam os grupos que já estão em movimento ou as organizações, precisa ser dedicada à construção dessa greve geral: ir às empresas, aos bairros, para prepará-la. Com base nas reivindicações concretas e na perspectiva de deter Macron e o RN, a burguesia radicalizada pela crise mundial.

Se essa estratégia não for assumida pelo movimento, há um grande risco de vê-lo se dividir entre, de um lado, as correntes minoritárias e minorizantes que clamam pela insurreição, por bloquear tudo sem uma estratégia de mobilização em massa, e, de outro, uma ala muito passiva que se contentaria em acompanhar o movimento apenas participando de grandes manifestações, sem greve e sem auto-organização.

Se maio de 68 se apoiava no crescimento econômico e nas possibilidades de transformar a sociedade dentro do quadro do desenvolvimento capitalista, o movimento atual coloca em jogo uma revolta global que se assemelha mais à Comuna de Paris ou a junho de 1936, no contexto da alternativa entre ecossocialismo ou barbárie. As mobilizações em andamento em cada vez mais países (Tunísia, Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, sem falar do Brasil) mostram que a revolta que estamos vivendo não é uma mera coincidência de circunstâncias, mas está profundamente ligada à situação global do sistema. Cabe a nós assumir que se trata de um confronto político e ajudar a revolta a tomar consciência disso.

18 de outubro de 2026

1 “Pesquisa BFMTV. Quase sete em cada dez franceses aprovam a mobilização de 17 de outubro contra o aumento do custo de vida”, Florent Bascoul, 16 de outubro de 2026, BFMTV.


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