Derrotado, Flávio foge após ordem judicial e segue para os EUA
Bolsonaristas em fuga

Derrotado, Flávio foge após ordem judicial e segue para os EUA

Senador não entregou os passaportes após ser proibido de sair do país; investigações envolvem suspeitas relacionadas ao filme Dark Horse, a negócios com apostas. Ele se junta a outros nomes do bolsonarismo que fugiram no exterior em meio a processos judiciais

Tatiana Py Dutra 28 out 2026, 09:40

Fotos: Montagens feitas por IA

A derrota eleitoral durou menos de dois dias para produzir uma mudança de cenário: Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos, onde já vive seu irmão Eduardo Bolsonaro. A viagem ocorreu na terça-feira (27), depois de o senador ser intimado a entregar seus passaportes e proibido de deixar o território nacional por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O caso acrescenta mais um capítulo à relação conturbada da família Bolsonaro com a Justiça brasileira.

A operação foi cercada de sigilo. Segundo o UOL, Flávio viajou com a mulher e as duas filhas, sem avisar previamente nem mesmo aliados próximos. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial, afirmou que havia conversado com ele no dia anterior e que, na última mensagem recebida, Flávio dizia que iria “dar um tempo”.

O detalhe é que, na véspera da viagem, o senador havia publicado um vídeo contestando a decisão judicial e afirmando: “Eu nunca pensei em sair do país”. Menos de 24 horas depois, estava a caminho dos Estados Unidos. A declaração, confrontada com os acontecimentos seguintes, tornou-se um dos aspectos mais emblemáticos do episódio.

A situação exige uma distinção jurídica: até a manhã desta quarta-feira (28), não havia mandado de prisão expedido contra Flávio, de modo que ele não era formalmente considerado foragido. Isso não altera o fato de que deixou o país depois de uma ordem judicial que o proibia de fazê-lo e não entregou os documentos no prazo determinado.

Por que Flávio Bolsonaro está sendo investigado?

O senador é alvo de apurações no STF que envolvem diferentes suspeitas. Flávio nega qualquer irregularidade.

1. O financiamento do filme Dark Horse

Uma das investigações apura suspeitas de irregularidades no financiamento do filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Flávio procurou Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para obter recursos para a produção.

As apurações envolvem suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O UOL noticiou negociações de pelo menos US$ 24 milhões para o projeto, com referência a um fundo nos Estados Unidos ligado a Eduardo Bolsonaro. Flávio nega ter combinado vantagens indevidas com Vorcaro e sustenta que os recursos seriam privados. 

2. Suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo apostas

Outra frente envolve o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio e investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a negócios com apostas online.

Segundo a Agência Brasil, a Polícia Federal identificou referências ao senador em apurações sobre uma conta vinculada à empresa Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. Teriam sido feitas movimentações financeiras de aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, consideradas incompatíveis com as atividades econômicas conhecidas no contexto investigado. Flávio e Tomaz negaram, em nota, ter compartilhado a conta bancária mencionada em reportagens.

3. A investigação por suposta calúnia contra Lula

A CNN Brasil também noticiou um inquérito relacionado a uma publicação de Flávio nas redes sociais, em janeiro de 2026. Na postagem, o senador atribuiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva crimes como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O caso foi encaminhado ao STF para apuração de possível calúnia.

A existência dessa investigação amplia o conjunto de questões judiciais relacionadas ao senador, embora tenha natureza distinta das apurações financeiras.

Uma lista crescente de bolsonaristas no exterior

Flávio não é o primeiro nome do entorno político de Jair Bolsonaro a deixar o Brasil em meio a investigações ou decisões judiciais. A lista inclui ex-parlamentares, ex-integrantes do governo e influenciadores que passaram a viver nos Estados Unidos ou em países europeus.

Imagens de iA

Os casos são diferentes entre si, tanto pelas acusações quanto pela situação processual. Em comum, mostram como investigações e decisões judiciais envolvendo integrantes do bolsonarismo passaram a ter desdobramentos internacionais.

De perseguição política a disputa internacional

A expectativa é de que Flávio tente apresentar sua saída como parte de uma situação de perseguição política. Segundo o UOL, aliados articulavam sua aproximação com integrantes do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a possibilidade de buscar asilo político. Até o momento, essas articulações não equivalem à concessão de asilo.

O presidente norte-americano tem questionado publicamente o resultado das eleições brasileiras, sem apresentar provas de fraude. A chegada de Flávio aos Estados Unidos abre espaço para que a disputa política brasileira seja levada também ao campo diplomático, em um contexto de aproximação entre a família Bolsonaro e setores do trumpismo.

Após o segundo turno, o senador não reconheceu a vitória de Lula e anunciou que pediria a anulação do pleito. A saída do país após a derrota acrescenta uma nova frente de tensão ao cenário político.

Para quem construiu parte de sua identidade política em torno de discursos sobre patriotismo, soberania nacional e rigor contra adversários, a decisão de buscar abrigo no exterior enquanto enfrenta investigações no Brasil produz uma contradição difícil de ignorar. A ironia política, porém, não substitui o que importa juridicamente: as suspeitas precisam ser apuradas, as decisões judiciais devem ser cumpridas e qualquer responsabilidade criminal deve ser estabelecida com provas e devido processo legal.

A mudança de endereço não encerra os inquéritos. Enquanto permanecerem sob competência do STF, as investigações poderão avançar independentemente de Flávio estar no Brasil ou nos Estados Unidos. A questão central, agora, é como a Justiça brasileira responderá ao descumprimento da ordem de entrega dos passaportes e à saída do senador do território nacional.


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