Lutar e vencer no “terceiro turno”
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Lutar e vencer no “terceiro turno”

Os próximos passos devem ser coordenados com as ruas e lutando em duas frentes: contra o golpismo e em defesa dos direitos sociais com os quais Lula se comprometeu

Israel Dutra 30 out 2026, 09:12

Foto: Comemoração da vitória de Lula em São Paulo. (Ricardo Stuckert/Flickr Lula Oficial) 

Quem viveu o último 25 de outubro jamais se esquecerá. Foi um levante democrático na forma eleitoral que garantiu a maior das vitórias de Lula, derrotando a extrema direita e o miliciano Flávio.

Foi um momento singular da história nacional, um acontecimento histórico que terá repercussões e desdobramentos ao longo do tempo. Um salto de qualidade na situação, um salto na consciência popular. Uma vitória que dá exemplo para o mundo.

Após o triunfo, enquanto debatemos e examinamos os elementos que levaram a esse desfecho, o cenário político segue frenético. Já se instaurou um “terceiro turno”, ainda que com contornos um tanto diferentes do esperado.

A dinâmica combina, agora, os efeitos imediatos da vitória de Lula com os novos passos da luta política, onde o Brasil, a luta de classes e o PSOL ingressam numa nova etapa.

Efeito imediato: Flávio fugiu

Foi uma vitória profunda e intensa, apesar da disputa renhida. Profunda porque, apesar da disputa apertadíssima, foi um resultado superior ao de 2022, quando era Jair candidato, com um nível de mobilização e consciência expresso nas ruas e redes. Intensa porque a mudança na situação política foi muito rápida e surpreendente, com Lula muito respaldado e Flávio com menos margem para seu discurso golpista.

A fuga de Flávio, com ares de improviso, denota as relações com a extrema direita internacional, com Milei e Trump como aliados de primeira ordem. Tal medida, porém, o debilitou no cenário nacional: seus aliados e seu partido reconheceram o resultado eleitoral, se separando de suas declarações desastradas, que foram refeitas algumas vezes, sobre o não reconhecimento do pleito.

Duas dinâmicas estão postas: se Trump perder as eleições midterms marcadas para a próxima semana, o pêndulo da situação política mundial vai se inclinar contra a extrema direita, objetivamente fazendo com que a vitória de Lula tenha um componente internacional como ponto de virada; a outra dinâmica é nacional, com a extrema direita seguindo resiliente, mas com seu núcleo dirigente até aqui – encarnado no clã Bolsonaro – sofrendo uma duríssima derrota que pode abrir um período de reorganização e disputa fraticida nesse campo político.

O fato é que os próximos acontecimentos, no que dizem respeito a esse “terceiro turno”, podem levar a uma consolidação de um novo momento na luta antifascista no mundo, onde o lugar do Brasil já é central.

É rua, rua e rua!

E agora? Os próximos passos devem ser coordenados sem perder o pé das ruas e lutando em duas frentes: contra o golpismo, que precisa ser parado e posto para fora da legalidade, em defesa dos direitos sociais e da pauta de mudanças com as quais Lula se comprometeu no segundo turno. Esses são os desafios do terceiro turno.

Flávio não agiu sozinho. Qualquer medida que envolva acordos por anistia ou formas de mediar com os setores golpistas deve ser rechaçada e combatida. Devemos ir na direção de combater o núcleo golpista atuante dentro do PL e de outros partidos, seus financiadores, combatendo as big techs e exigindo que o governo use do expediente institucional para sufocar setores declaradamente golpistas. Temos que barrar as iniciativas de perseguição aos trabalhadores que setores patronais querem fazer como vingança contra o voto popular, estimulando as “demissões políticas” agitadas pelos bolsonaristas nas redes. Ao mesmo passo, lutar contra os ataques que os governadores reacionários já preparam contra o povo.

A outra batalha deve ser a defesa de um programa que garanta demandas populares que foram referendadas pelas ruas e pelas urnas: aplicar a redução da jornada de trabalho, garantir aumentos salariais e das aposentadorias, ampliar o passe-livre do transporte público, anistiar as dívidas das famílias e dos pequenos e médios empresários, investir maciçamente em saúde através do SUS e na educação pública, gratuita e universal, bem como em outra orientação na política econômica, para baixar juros e acabar com a austeridade fiscal que entrega grande parte do orçamento público para especuladores.

A burguesia e setores do governo anunciam que vão querer seguir elementos de ajuste, o que vai se chocar diretamente com a imensa energia popular, ávida por respostas, de uma classe trabalhadora mobilizada, consciente e com confiança em si mesmo.

A resposta para essa equação passa pelas ruas. É “rua, rua e rua”, como se ouviu de multidões nas praças e avenidas do país nas últimas três semanas. É a partir das ruas, dos locais de estudo, trabalho, moradia e diversão, que vamos ter uma maior auto-organização da própria sociedade, para mudar os rumos por completo. Foi nesse sentido que o MES-PSOL atuou na linha de frente desse processo, assim como fez o o Juntos! no movimento estudantil e muitos outros movimentos que construímos no cotidiano.

O lugar do PSOL: a trincheira das ruas

O PSOL teve um papel destacado no segundo turno. Suas lideranças foram animadoras da virada de Lula e parte integrante desse amplo levante democrático. Tivemos muitas filiações ao longo de toda eleição, surgindo como um polo independente e socialista na construção da unidade com Lula, representando uma alternativa não só eleitoral, mas também organizativa, para muitos e muitas que agora buscam se organizar politicamente.

Superamos a cláusula de barreira, conforme decidido por unanimidade no TSE nesta semana. Uma norma antidemocrática feita para barrar partidos como o PSOL, mas que foi derrotada mais uma vez perante o amplo crescimento da votação do partido.

Nessa nova etapa, o PSOL pode e deve se fortalecer com novos desafios. O primeiro deles é sua localização, sua necessidade de responder a estes desafio tendo centralidade na “trincheira das ruas”, ou seja, definindo por priorizar a ação política como organizador das demandas da sociedade, batalhando no Congresso a partir da conexão direta com as lutas sociais . Para isso, o PSOL deve preservar sua independência, não participando com ministros e cargos de confiança no governo federal.

A disputa do futuro começou. A inflexão positiva na relação de forças deve vir acompanhada da construção de um projeto partidário anticapitalista e internacionalista, orientado para lutar e vencer através de uma radicalidade que ouça aos anseios das ruas e respondam aos problemas reais da população.


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Israel Dutra | 30 out 2026

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