Uma vitória inédita para a classe trabalhadora brasileira
A posição dos trabalhadores da USP militantes do MES-PSOL sobre as eleições presidenciais e as tarefas dos trabalhadores
Foto: Mobilização da campanha de Lula na Avenida Paulista, em São Paulo. ( Ricardo Stuckert/Reprodução)
A classe trabalhadora brasileira é forte e corajosa. Foi ela quem derrubou a escravidão e a ditadura militar, ainda que essas vitórias carreguem o peso da demora e da conciliação. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e a abolição veio sem terra, sem reparação e sem direitos para os libertos, mas como resultado de séculos de luta. A ditadura caiu depois de duas décadas de enfrentamento, mas numa transição negociada pelo alto, com anistia aos torturadores, derrota das Diretas Já e um presidente escolhido no Colégio Eleitoral.
Nesse sentido, a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro neste 25 de outubro é gigantesca. Com 51,78% dos votos válidos contra 48,22%, Lula protagonizou a primeira virada da história das eleições presidenciais brasileiras, depois de terminar o primeiro turno atrás. Foram mais de 64 milhões de votos, a maior votação da história do país.
Uma vitória maiúscula, por dois motivos. Primeiro, porque os inimigos eram fortíssimos e estavam unificados. E segundo, quem decidiu o jogo foi a própria classe trabalhadora, que tomou a campanha para si e em apenas três semanas virou o resultado. Daqui para frente, nossa prioridade segue firme: combater a extrema-direita, que segue enraizada, além do desafio histórico de superar a tradição de vitórias conciliadas. Esse desafio exige a mobilização da própria classe trabalhadora que, organizada, garantiu a eleição de Lula.
Derrota categórica dos poderosos
O primeiro motivo da grandeza da vitória foi a organização dos nossos inimigos. Do outro lado, estava um bloco poderoso e unificado como poucas vezes se viu: o agronegócio, a Meta e as demais big techs, o governo Trump, as bets, o sionismo, o capital financeiro e as milícias. Era a coalizão do atraso, que arrastou oligarquias como Skaf e Caiado e juntou os dois BBBs: o boi, a bala e a bíblia, mas também os banqueiros, as bets e os bilionários. Flávio saiu do primeiro turno na frente, com 47% dos votos válidos contra 45% de Lula, e os mercados comemoraram. Trump agiu abertamente pela sua vitória, e as plataformas digitais, principalmente a Meta e a Palantir de Peter Thiel, jogaram pesado, funcionando efetivamente como um partido.
O projeto era claro: anistiar Jair, cercar as instituições e entregar o país como colônia de Trump. Seus apoiadores nem disfarçavam, a ponto de levar à Paulista um míssil inflável pedindo a Trump uma “intervenção nuclear” no Brasil.
Esse bloco sofreu uma derrota categórica. Nem os problemas no transporte público no dia da votação, denunciados como boicote em capitais como Salvador e São Paulo, impediram o povo de chegar às urnas. A maioria se deparou com esse projeto e disse não.
O mundo olhava para o Brasil. Uma vitória de Flávio fortaleceria Trump e Netanyahu e abriria as terras raras, os minerais críticos, o petróleo e a água do país ao projeto neocolonial de Washington. Sua derrota põe Trump na defensiva, às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA, e ecoa a mobilização da geração Z por direitos que hoje sacode a Europa.
A classe tomou as rédeas
O segundo motivo é ainda mais importante. Diante das insuficiências da direção da campanha, a classe trabalhadora tomou para si as rédeas da disputa. Fez a campanha oficial perder o controle e impôs, com as próprias mãos, uma vitória histórica. Os grandes atos em São Paulo e no Rio surpreenderam até integrantes da campanha petista.
O grupo “Exército do Lula” é um símbolo dessa mobilização, ao mesmo tempo voluntarista e organizada. Apesar do caráter um tanto folclórico (e, é preciso que se diga, questionável na política) da figura de André Janones, o canal reuniu quase 11 milhões de pessoas e levou a campanha muito além dos canais oficiais, no trabalho de formiguinha de cada um em seus grupos. Vieram também as vaquinhas para levar eleitores de volta aos seus estados, as caronas solidárias, os estudantes acompanhando colegas e familiares idosos até as urnas.
Mas, de longe, o mais importante foram os atos massivos. O protagonismo foi, mais uma vez, da juventude. A UFF e o Colégio Pedro II foram a vanguarda: a reação começou na noite seguinte ao primeiro turno e, em poucos dias, se espalhou por mais de 40 universidades em 14 estados e no DF. Não é por acaso que a educação esteve no centro, pois foram os estudantes que transformaram a angústia em movimento. O próprio Lula reconheceu quando venceu: “Devo essa vitória à juventude rebelde que se levantou em defesa da democracia”.
A faísca acesa na UFF foi atiçada pelo próprio Flávio, que, na euforia do primeiro turno, chegou a falar em mudar a Constituição. A resposta veio nos maiores atos da história do país. As duas mobilizações na Avenida Paulista reuniram, segundo algumas estimativas, entre 1,2 e 1,5 milhão de pessoas, e o efeito se repetiu de Porto Alegre a Belém, de Curitiba a Fortaleza. Pelo tamanho e pela politização, essa onda de lutas se coloca ao lado das greves do ABC de 1978 e 1979, das Diretas Já, do Fora Collor e das Jornadas de Junho de 2013.
Esses atos criaram um clima de maioria social que se impôs sobre a realidade. Provaram, nas ruas, que o projeto neofascista não é aceito pela população. O resultado apareceu nos números. A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, a menor num segundo turno presidencial desde 2006. Cerca de três milhões de pessoas que não tinham votado no primeiro turno foram às urnas no domingo. Lula virou o resultado em 212 cidades. Comunidades rurais, quilombolas, ribeirinhos e indígenas venceram as dificuldades de transporte para votar, e as rodoviárias do Nordeste lotaram desde a noite de sábado.
A força e os limites de um símbolo
Essa mobilização mostra, ao mesmo tempo, a força e as fraquezas da campanha de Lula. A força está no símbolo. Foi o peso de Lula no imaginário coletivo que permitiu que ele aparecesse como a saída clara para derrotar a extrema direita, e é por isso que defendemos o voto no atual presidente desde o primeiro turno.
Mas as fraquezas também adviram desse peso da figura. O governo Lula 3 foi um governo fraco para a classe trabalhadora. Aceitou o arcabouço fiscal, um novo teto de gastos que estrangulou saúde e educação. Fez cortes que atingiram o salário mínimo e o BPC, e conviveu com juros entre os mais altos do mundo. Comprou governabilidade com emendas ao Centrão. Respondeu à greve das universidades e institutos federais de 2024 com reajuste zero naquele ano. Viu estourar o escândalo dos descontos ilegais nas aposentadorias do INSS e autorizou a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. E não revogou nem a reforma trabalhista nem a da previdência.
Na campanha, a orientação do primeiro turno foi celebrar o legado e as conquistas do governo, que o povo reconhecia, com razão, como frágeis. A eleição virou um plebiscito sobre o governo Lula, e a resposta veio em forma de desânimo e desmobilização. Presa a prognósticos errados e a uma linha moderada e burocrática, a direção da campanha faltou em iniciativa e até em materiais.
A virada começou quando a possibilidade real da volta do bolsonarismo, desta vez pelas mãos de um criminoso assumido, colocou diante do povo a perspectiva de um projeto de destruição e falta de solidariedade. E o povo não esperou para se colocar em movimento. Foi marcante que ele se pautou (além de pelos evidentes absurdos da candidatura Flávio) não só pela defesa de direitos estabelecidos, como o Farmácia Popular e o Bolsa Família, mas centralmente pela conquista de novos direitos.
O fim da escala 6×1 deu chão a essa disposição. Aprovada por unanimidade na Câmara em maio, a PEC passou no Senado em 14 de outubro, em plena campanha, por 75 votos a 1. Até Flávio votou, envergonhadamente, a favor. A medida deu confiança a milhões que trabalham no comércio, nos shoppings, no telemarketing, nos fast-foods e nas farmácias. Com ela no horizonte, lideranças passaram a pautar temas como a tarifa zero no transporte. A campanha, ao ver isso em movimento, respondeu corretamente e deu amparo a essa mobilização. Lula subiu o tom contra Flávio, apoiou-se na juventude e nas mulheres e assumiu um programa de segundo turno com redução da jornada, reajuste de salários e aposentadorias, renegociação das dívidas, passe livre nos fins de semana e defesa do SUS, da educação pública e da soberania nacional. Na prática, uma nova campanha começou no segundo turno.
Mobilizar por direitos
A lição é clara, e difícil justamente por ser tão simples: a mobilização por direitos é a saída para vencer a extrema direita. Não foi a moderação, nem a frente ampla com o Centrão, nem a celebração do legado. Foi a disputa aberta por uma vida melhor, levada às ruas.
Quando dizemos que a vitória foi da classe trabalhadora, é preciso dizer também que ela se expressou por formas organizativas próprias. Grupos de WhatsApp, plenárias estudantis, coletivos de bairro, vaquinhas e caronas respondem a uma nova morfologia da classe, que o movimento sindical ainda não conseguiu abarcar por inteiro. Mesmo assim, os trabalhadores não se furtaram a tomar a luta para si. Por isso as organizações tradicionais da classe participaram, mas não protagonizaram, a mobilização.
Na USP, os trabalhadores reunidos em assembleia, a partir da orientação do Conselho Diretor de Base do Sintusp, se posicionaram corretamente pelo voto em Lula 13. A categoria realizou um conjunto de ações capilarizadas pelos campi, que nós, que construímos o coletivo Mover USP, tivemos orgulho de construir em conjunto.
Mas acreditamos que a diretoria do nosso sindicato poderia ter atuado de forma mais substantiva. Faltou afirmar um calendário de lutas constante, à altura de todo o potencial que os trabalhadores da USP têm para pautar essa disputa. A categoria que dobrou a Reitoria na greve deste ano podia, e pode, muito mais.
As tarefas que vêm
Essa batalha será decisiva nos próximos dias. Já se fala em banqueiros no Ministério da Fazenda, em pressões por um novo ajuste fiscal e até em redução da maioridade penal. E Lula vai governar diante de um Congresso ainda mais à direita, com o PL somando 23 cadeiras a mais na Câmara e 13 no Senado.
Os inimigos do povo seguem atuando. Na manhã seguinte à vitória, o mercado respondeu com terrorismo na Bolsa e no dólar. Flávio se autodeclara presidente eleito sem apresentar provas de fraude, com o eco de Trump. E a extrema direita segue com quase metade do eleitorado, incluindo amplas camadas da própria classe trabalhadora.
Se o governo Lula embarcar nesse programa, corre o risco de provocar uma desilusão gigantesca justamente na camada que se mobilizou para elegê-lo. Na pior das hipóteses, abriria caminho para uma reedição, agora como farsa, do segundo governo Dilma. Reeleita em 2014 contra o ajuste, Dilma entregou a Fazenda a um banqueiro, aplicou o ajuste e viu sua base se dissolver às vésperas do golpe.
A maneira de evitar isso é seguir impondo a luta pelas nossas próprias mãos, de forma independente do governo, em defesa dos direitos conquistados e sem medo de ir atrás de mais. Isso começa por garantir que o fim da 6×1 saia do papel sem redução de salário, contra as manobras do pagamento por hora trabalhada que setores do PL já anunciam para 2027.
A tarefa imediata é defender o resultado. Nenhuma tentativa de um novo 8 de janeiro pode passar, e o golpismo do clã Bolsonaro precisa ser punido exemplarmente, prendendo Flávio Bolsonaro pelos seus crimes comuns, e também, agora, por atentar contra a democracia.
A segunda é manter a mobilização em torno do programa do segundo turno: investimento pesado no SUS e na educação pública, das universidades e institutos federais à educação básica; passe livre em todo o transporte; redução real da jornada; reajuste de salários, aposentadorias e benefícios; fim das bets e taxação dos bilionários; anistia das dívidas das famílias; combate ao feminicídio e um plano de emergência climática. Isso inclui disputar a parcela da classe trabalhadora que votou em Flávio, para reconectá-la com a consciência de classe.
Na noite da vitória, Lula prometeu mais canais de participação e “governar de outra forma”. Mas promessas não garantem mudanças estruturais. Elas terão de ser arrancadas nas ruas, inclusive contra o arcabouço fiscal que o próprio governo privilegiou no terceiro mandato.
É também por essa luta que vamos derrotar os futuros candidatos a porta-voz da direita. Tarcísio é o principal deles, e os trabalhadores da USP, que o enfrentaram na greve e nas ruas, têm um papel estratégico nesse combate. E é da luta que sairão os candidatos da esquerda pós-Lula, que, na nossa opinião, devem ser comprometidos com a defesa radical da classe trabalhadora e com a mobilização como tática e estratégia.
A vitória foi nossa. Agora é preciso não devolvê-la.