Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Aos 6 anos de junho de 2013

Pedro Serrano relembra os 6 anos de junho de 2013 e o papel da esquerda brasileira.

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A adaptação da esquerda socialista aos ditames do Estado e da política burguesa pautou a história do século XX e continua atualmente. Quando chega ao poder e começa a governar em nome da classe dominante e não em benefício dos excluídos, uma das primeiras providências que esta esquerda traidora adota é o ataque sistemático – primeiramente, ideológico, mas, quando necessário, também físico, usando o aparelho repressivo do Estado – a tentativas de insurreição ou revolta popular, principalmente no transcorrer dos seus governos.

O que essa esquerda reformista busca convencer a todos, especialmente aos movimentos sociais e aos trabalhadores, é de que o máximo possível de se alcançar, no momento histórico determinado, são “pequenas conquistas” e “avanços”, possíveis apenas num quadro de estabilidade dentro do qual essa mesma esquerda, governando, conceda um pouco para os excluídos (enquanto mantém os privilégios dos dominantes). Então, qualquer tentativa de furar essa lógica rapidamente é taxada de “inconsequente”, “esquerdista” e, em última instância, de cúmplice dos interesses ocultos da direita à espreita, interessada em voltar ao poder. 

No Brasil, estamos completando 6 anos de junho de 2013. Nas discussões políticas dominantes dentro da esquerda, o que chama a atenção, em relação a isso, é a omissão. Na maior parte das análises políticas, essas que foram as principais manifestações de massa desde o impeachment de Collor, uma das maiores de nossa história, são um capítulo passível de ser esquecido, ou secundado. Fala-se muito da inflexão do golpe parlamentar de 2016 (com razão, pois é um evento central para explicar os dias atuais), volta-se até o momento da redemocratização para reivindicar as conquistas inscritas na Constituição de 1988 (de novo, com razão), mas quase sempre se pula 2013. Como se fosse um tabu. 

Vejamos dois dos representantes da esquerda na última eleição: Haddad, do PT, foi e continua sendo inimigo aberto daquele movimento, que ele enfrentou em unidade com o então governador Alckmin, do PSDB. Não falou de 2013 nas eleições e, se tivesse falado, teria sido pra combater. Melhor que tenha ficado calado. Boulos, candidato pelo PSOL porém muito afinado com a política da direção petista, nas eleições jamais mencionou aquela jornada de lutas, que foi, na época, progressivamente apoiada pelo MTST, que ele liderava e lidera.

Por trás da omissão, quase sempre está a defesa (ou a tolerância com ela), algo covarde, porque pouco pública, de que as manifestações teriam sido responsáveis por inaugurar uma era de instabilidade que, ao cabo, derrubou o governo Dilma e elegeu Bolsonaro, bem ao modo do artifício discursivo da esquerda reformista de que falei no início deste texto.
Uma tremenda injustiça e falsificação histórica. Ou ainda, para os que acreditam na importância de leituras históricas corretas para se armar uma política exitosa para os excluídos, uma receita para a eterna derrota. Ou vejamos. Pra quem pensa dessa forma, os jovens que foram às ruas às dezenas e centenas de milhares (a certa altura, milhões) naquele evento histórico, pra reivindicar pautas como saúde e educação pra todos, redução das tarifas de transporte e fim da corrupção nas obras superfaturadas da Copa do Mundo, entre outras, seriam “culpados” pelos problemas atuais do país, que se acentuaram de lá pra cá. Detalhe: mais culpados do que uma tropa de governos de plantão, de diversos partidos – entre eles, com destaque, o PT, que controlava o governo federal -, que foi totalmente insensível ao que “as ruas pediam” e, quando não ignorando suas pautas, reprimiram-nas. 

Da parte da burguesia tradicional, nada de diferente se esperaria. Da parte da esquerda, o que justifica a opção? E por que, depois, colhidas as consequências do que se plantou, a culpa teria sido de quem se manifestava em 2013 e não dos dirigentes dessa esquerda que, à época governando o Brasil, preferiram continuar ao lado da direita mais rastaquera, que depois lhe daria um golpe parlamentar, ao invés de se apoiar em manifestações progressivas e de massa pra mudar estruturalmente o Brasil? Já estavam por demais misturados aos interesses, inclusive materiais, da classe dominante, pra que optassem por tão ruptura e, não optando, seguiram o único caminho possível que era, e segue sendo, o de caluniar os que lutavam, querendo desmoralizá-los.

Tenho 27 anos e 2013, para mim e pra milhões de brasileiros, representou o primeiro evento histórico a comprovar a atualidade das manifestações de massa no Brasil e – já que o Brasil é o nosso mundo… – no mundo. À época como um paulistano havia somente 4 anos, foram naquelas jornadas também que eu passei a conhecer a geografia da enorme cidade até então pouco decifrável pra mim, mas que tive o prazer de conhecer melhor pisando o asfalto das grandes avenidas ao lado de tanta gente que lutava, mesmo tomando bombas e balas de borracha: Rebouças, Radial Leste, Marginal Pinheiros, Avenida Paulista, 23 de Maio e tantas outras…
Toda grande revolta popular tem suas potências e, obviamente, suas limitações. Junho de 2013 teve inúmeras e o debate sobre elas, desde que honesto, além de estimulante, é condição pra analisarmos bem a situação brasileira, seus avanços e retrocessos recentes, a atual correlação de forças e, inclusive, pra não fetichizar um evento histórico apenas porque deles fomos partícipes, sendo que, como qualquer outro, ele deve ser interpretado sob o rigor dos dados concretos.

Mas nenhuma dessas ressalvas – por exemplo, a de que faltou a junho um programa positivo, que fosse além da negação – apaga o aspecto enormemente progressivo das massas brasileiras terem feito uma experiência de mobilização e enfrentamento com um regime político e social injusto. Só os covardes diminuem o valor disso, ignorando, em seu típico “pessimismo da vontade”, o que a própria história nos ensina, insistentemente. As grandes transformações sociais só ocorrem com as massas nas ruas, nunca com a benevolência dos governantes “razoáveis”.
Além disso, para os que fizeram parte daquela jornada de manifestações e seguiram – e seguem – batalhando por novos levantes populares, é quase óbvio notar que todo um destampar de processos de luta, desde então, só pôde existir graças aos influxos das jornadas de 2013: a ocupação de escolas pelos secundaristas, a primavera feminista, greves históricas como a dos garis do RJ, entre muitos outros, até chegar às recentes manifestações de massa por #EleNão nas eleições, ou o tsunami da educação, no mês passado.

Como vivemos numa luta de classes – o que os governos reformistas tentam nos fazer acreditar que não existe -, foi também um período em que novas formas de organização e de manifestação da extrema-direita cresceram, em reação. E triunfaram em grande medida, vencendo inclusive as eleições, mas daí eu já entraria num outro viés de debate, que deveria ser apresentado com mais calma…

Aqui, o que importa é frisar que, pra construir a emancipação definitiva que queremos, muitos mais levantes como aquele de 6 anos atrás devem, sim, ser reeditados. Em simbiose com as outras várias lutas que são forjadas historicamente por nossa classe, com ferramentas potentes como a greve geral, as ocupações e tantas outras. Só desse lado da trincheira e com esses métodos de luta é possível triunfar historicamente. Aqueles que a isso se opõem estão bem mais próximos dos interesses de nossos inimigos do que dos nossos.

Viva junho de 2013!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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