‘O sindicato tem papel protagonista na unidade da esquerda’
metalrgicos-de-campinas

‘O sindicato tem papel protagonista na unidade da esquerda’

Dirigente reeleito do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, Tonhão Brother fala sobre automação, salários, organização sindical e do combate ao avanço da extrema direita

Tatiana Py Dutra 12 jun 2026, 07:30

Foto: Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas

Com quase 98% dos votos válidos e participação expressiva da categoria, a chapa que dirige o Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região foi reconduzida para mais quatro anos à frente de uma das mais importantes entidades sindicais do país. O resultado da eleição, realizada no fim de maio, consolidou a confiança dos trabalhadores na atual direção e abriu um novo ciclo de debates sobre os desafios enfrentados pelos cerca de 70 mil metalúrgicos representados pela entidade em nove municípios da região.

Em um cenário marcado pela automação crescente das linhas de produção, pela introdução da inteligência artificial nos processos industriais, pela pressão patronal para reduzir custos e pelo achatamento salarial imposto ao longo dos últimos anos, o sindicato terá a tarefa de fortalecer a organização da categoria e defender direitos históricos da classe trabalhadora.

Entre os dirigentes reeleitos está Antônio Carlos da Cruz, o Tonhão Brother, histórico militante sindical e integrante do Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) e da Tendência de Luta Socialista (TLS). Com uma trajetória iniciada nas lutas populares de Campinas ainda nos anos 1980, Tonhão participou de greves gerais, enfrentou perseguições políticas e acompanhou algumas das principais transformações vividas pelo movimento sindical brasileiro nas últimas décadas.

Nesta entrevista, ele analisa os impactos da reestruturação produtiva sobre os metalúrgicos, avalia o papel do sindicato diante das mudanças na indústria e discute os desafios da nova gestão. Tonhão também aborda a necessidade de ampliar a organização nos locais de trabalho, recuperar o poder de compra dos salários e fortalecer a mobilização da categoria em um contexto de disputa política e ideológica cada vez mais presente dentro das fábricas.

A eleição do sindicato acontece num momento de mudanças na indústria da região. Como você avalia hoje a situação da categoria em Campinas e nas cidades da base sindical e de que forma esse cenário influenciou o debate eleitoral? 

Esse sindicato sempre teve um papel bastante significativo na disputa, na época dentro do PT, do bloco de esquerda, na disputa dentro da CUT. É um sindicato grande. Não temos o número preciso agora, mas são em torno de 70 mil trabalhadores na categoria e nós estamos localizados em nove cidades na região de Campinas. E o sindicato no passado teve papel fundamental na disputa interna da CUT – até a saída da CUT, porque o sindicato inteiro saiu – e a gente trabalha na perspectiva de retomada do papel do sindicato na unificação da esquerda para o futuro. Nosso sindicato é um dos maiores da América Latina, e o sindicato tem um papel protagonista na unidade da esquerda, uma nova esquerda que tem que surgir do movimento sindical.

Nos últimos anos, os metalúrgicos enfrentaram desafios com reestruturações produtivas, automação, pressão por redução de direitos. Quais são hoje as principais preocupações dos trabalhadores da região e como elas apareceram durante a campanha eleitoral?

A reestruturação produtiva sempre foi um gargalo, um problemão para nós. De uma certa forma, a gente não conseguiu evitar que isso acontecesse em diversas empresas. Não vou dizer que a nossa perspectiva é de superar, porque essa, infelizmente, é a origem de toda a reformulação da política do capital, mas a ideia é construir uma correlação de forças que possa impor para o capital derrotas nesse sentido.

A gente está vendo aí, com a inteligência artificial, isso vai ter impacto. Já houve o processo de robotização na categoria. As fábricas de ponta, como as montadoras, o setor de autopeças, que são as fábricas multinacionais que têm uma política mais definida nesse sentido, todas automatizaram. E isso trouxe desemprego, apesar das recontratações e ampliações e teve muito impacto na questão econômica. O salário dos trabalhadores reduziu muito. No passado, o piso salarial era em torno de R$ 3,5 mil, R$ 4 mil. Hoje estão contratando por R$ 2,2 mil, R$ 2,5 mil. Isso é o salário de contratação das empresas multinacionais grandes, como Bosch, Magneti Marelli, KS Customs, a própria Ito aqui, que era a antiga Clark. São autopeças de ponta, que tinham um piso elevado, e hoje, com a reestruturação, eles reduziram demais o salário. Uma de nossas brigas é para tentar recuperar o poder aquisitivo dos trabalhadores. Para você ter uma ideia, os trabalhadores que têm mais de 15 anos de empresa, a média salarial está em torno de R$ 6 mil, R$ 7 mil.

A mobilização dos trabalhadores costuma ser um termômetro de confiança na organização sindical. O que a participação dos metalúrgicos nesse processo eleitoral revela sobre o grau de organização e disposição de luta da categoria atualmente? 

Pois é, a gente está numa perspectiva positiva. A gente teve uma votação expressiva, mesmo sendo chapa única, que acaba não tendo muita polarização. E num cenário de 10 mil votos, a gente teve mais de 7 mil, então foi uma votação expressiva, a categoria respondeu ao chamado e para nós isso foi muito importante. Então há, de certa forma, uma reversão, porque no passado estava muito parado. O bolsonarismo na categoria cresceu muito, e hoje a gente está conseguindo reverter isso. Então é uma perspectiva de demanda muito boa, de mobilização, o pessoal tem trabalhado, a diretoria tem uma capacidade de intervenção, é um pessoal que trabalha muito. Ainda há uma dificuldade, no meu ponto de vista, de fazer a intervenção mais ideologizada. Tem muitas assembleias muito específicas dos problemas de fábrica, do campo econômico, mas acho que é preciso dar um salto e também fazer a ponte entre as reivindicações imediatas e as questões históricas da categoria. Mas está sendo um trabalho muito bom, temos discutido ampliar a organização para delegados sindicais, para comissões de fábrica. Há uma boa perspectiva de um trabalho mais amplo na categoria.

Na tua avaliação, esse “resgate” de operários bolsonaristas, está acontecendo por quê? 

Porque hoje está havendo mais intervenção e debate na categoria, mesmo com essa limitação que mencionei, mas está tendo mais atividade. Temos falado sobre o que é o bolsonarismo, o que é o fascismo nas fábricas. Está havendo mais assembleias nas fábricas, mais assembleias no sindicato, está tendo muito mais atividade do que tinha no passado. Havia uma concepção muito fechada, não tinha atividades e não se expressavam as posições do movimento de esquerda na categoria. E na visão deles [operários], todo mundo era pelego, você entendeu? E isso abre um espaço para a direita crescer. Hoje não, hoje se abre esse debate com crítica no PT. Nós fazemos a crítica, embora defendamos e apoiemos a eleição de Lula, tanto internamente na direção como nas assembleias. Então há um espaço de debate mais ampliado e, nisso, a categoria também avança. Ela passa a entender melhor o papel dela. E isso tem criado dificuldade para a manutenção desse pensamento bolsonarista. Tem mais atividade, tem mais greve, e isso tudo combate essa visão do neofascismo.

Diante dos desafios que teremos nos próximos anos, como a defesa do emprego, 6×1, acordo de PLR, as campanhas salariais, as condições de trabalho, quais são as expectativas da categoria em relação à nova direção que vai vir das urnas?

Olha, a perspectiva da categoria eu não sei te dizer. A categoria, como disse antes, está bastante atenta à nossa ação e, ao mesmo tempo, acompanhando e atendendo o chamado dessa diretoria. Mas há uma lacuna, há um espaço de disputa pela esquerda ainda muito bom, e a gente aposta nisso. Na possibilidade de também disputar, porque na disputa hoje se dá a culto e PT de um lado, mas com muita fragilidade em função de uma política que não responde os anseios da categoria, do outro lado a CTB, em menos condições, que também não apresenta uma proposta que dialoga, e é mais governo do que o próprio governo. A CTB e o PC do B têm perdido muito espaço político no último período, embora, não sei se em função do processo eleitoral, estão se apresentando de forma um pouco mais à esquerda e tal. E nós trazemos uma política, eu acho, mais contundente, mais próxima da realidade da luta de classe em si, e que faz esse debate com maior qualidade, no sentido do resgate mesmo do sindicato classista, um sindicato que prioriza de fato a organização no local de trabalho. 

A gente também aposta que o processo eleitoral aqui de Campinas  com a eleição da companheira Mariana [Conti], que é uma figura pública aqui da região muito importante, que também tende a influenciar nesse processo. É uma companheira que tem muita simpatia da maior parte da categoria por sua ação aqui na região. Então isso tudo tende a nos ajudar, influenciar nesse debate dos rumos do sindicato para o futuro. A gente aposta nessa articulação política entre o institucional, a luta partidária e a luta sindical mais específica. A gente vai conseguir fazer com que os companheiros entendam a necessidade de que o sindicato possa retomar de fato o seu papel protagonista da luta de classe no período que nos avizinha. 


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 10 jun 2026

Uma eleição à sombra de Trump

É necessário defender a soberania nacional e articular uma pauta internacional comum para resistir aos ataques do imperialismo
Uma eleição à sombra de Trump
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores