Ilan Pappé: “Israel sempre considerou que deve dominar o mundo árabe”
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Ilan Pappé: “Israel sempre considerou que deve dominar o mundo árabe”

Entrevista com o intelectual antissionista realizada para o Mediapart

Ilan Pappé 11 maio 2026, 10:55

Via Sin Permiso

Enquanto Israel continua suas ações assassinas na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e na Síria, com o apoio dos governos ocidentais, Ilan Pappé, historiador israelense, publica em francês um pequeno livro impactante, Breve história do conflito israelo-palestino. Em menos de 200 páginas, o professor da Universidade de Exeter resume décadas de trabalho dos chamados “novos historiadores” israelenses — dos quais faz parte — que reescreveram a história oficial do conflito entre Israel e Palestina.

Ilan Pappé, nascido em Israel de pais alemães que fugiram da Alemanha nazista, transformou-se, por meio de suas descobertas históricas, em um homem engajado, antissionista e defensor dos direitos dos palestinos. Atualmente, dirige o Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina da Universidade de Exeter.

A entrevista, realizada por Gwenaelle Lenoir para Mediapart, destaca de maneira impressionante a continuidade ideológica entre os primórdios do sionismo e a política atual do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no restante do Oriente Médio.


Mediapart: O que o levou a escrever esta Breve história do conflito israelo-palestino, e por que agora?

Ilan Pappé: Escrevi em inglês há um ano e meio, depois de uma feira do livro em que percebi que as pessoas buscavam uma explicação para o contexto dos acontecimentos desde outubro de 2023. Achavam os livros disponíveis grandes demais, especializados demais. Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas não estava satisfeita com o contexto apresentado pelos meios de comunicação e queria mais informações, sem precisar embarcar em estudos universitários sobre o tema.

E é por isso que este livro vende bem: porque traz, de certa forma, histórias que os grandes meios de comunicação não apresentam, muito menos os políticos tradicionais. Estes últimos se curvam à narrativa israelense de que os acontecimentos de 7 de outubro são fruto de um antissemitismo islamista e de que foram orquestrados pelo Irã. Israel quer que sejam tratados dessa forma e exigiu que o contexto histórico do 7 de outubro não fosse analisado.

Sobre o pessoal político ocidental, o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, citou a frase atribuída à primeira-ministra israelense Golda Meir — “Podemos perdoar os palestinos por matarem nossos filhos, mas nunca os perdoaremos por nos obrigarem a matar os deles” — a respeito da nova lei israelense sobre pena de morte para palestinos. Ele queria destacar que o espírito do Estado de Israel seria humanista. O que isso lhe inspira?

[Risos] Eu desconhecia esse episódio! Mas o que disse o seu ministro é um completo contrassenso! Essa é a interpretação mais estranha que já vi dessa frase, porque ela não mostra o humanismo de Israel, mas exatamente o contrário. Golda Meir disse isso em Haifa, em 1948, depois que Israel realizou a limpeza étnica da cidade. A um jornalista que perguntou: “Você não acha que o que está vendo aqui se parece com os pogroms cometidos contra os judeus no Leste Europeu?”, ela respondeu: “Sim, isso me entristece muito, e jamais perdoaremos os palestinos por nos obrigarem a fazê-los passar por isso”.

É uma frase que revela a hipocrisia, a pretensão de virtude e a incapacidade dos israelenses de aceitar que os palestinos sejam vítimas, pois acreditam que apenas Israel pode ser vítima. É como alguém que agride violentamente outra pessoa, quase a matando, e depois diz: “A culpa é sua. Você me deixou tão irritado que quase te matei. E nunca vou te perdoar por me empurrar a quase te matar”. Fico muito surpreso que seu ministro tenha mencionado isso para justificar uma visão positiva de Israel.

Voltemos ao seu último livro. Ao percorrer os capítulos dedicados às origens do sionismo e à sua implantação na Palestina histórica, frequentemente temos a sensação de que existe uma forte continuidade entre aquele período e os dias atuais. É assim mesmo?

Há uma pequena diferença, mas não de fundo. Para que o sionismo se tornasse realidade, era necessária uma coalizão muito forte que aceitasse a ideia de que a única solução para a questão judaica na Europa era um Estado judeu no coração do mundo árabe, às custas dos palestinos, e que, se os palestinos e o mundo árabe se opusessem, teriam de enfrentar uma coalizão global. Isso não mudou.

Os palestinos perceberam a ideia de que deveriam ser substituídos, deslocados e suplantados pelos judeus da Europa — e mais tarde também por judeus dos países árabes e orientais — como uma ameaça existencial, e formaram seu próprio movimento de resistência. E esse movimento continua ativo até hoje. Portanto, para manter Israel, sempre foi necessária uma ampla coalizão.

Essa coalizão é composta por membros que não concordam em tudo, mas concordam com o projeto sionista. Por exemplo, os sionistas cristãos ainda acreditam que se trata de um programa divino, que trará a segunda vinda do Messias. Os conservadores americanos ou “neoconservadores” acreditam que Israel é importante porque é o bastião do Ocidente e dos Estados Unidos numa região considerada hostil. As multinacionais que comercializam material militar enxergam nisso uma grande oportunidade. E depois, claro, há o sentimento judaico — provavelmente o mais autêntico entre os membros dessas alianças — segundo o qual é necessário um novo Estado-refúgio para onde se possa ir caso as coisas deem errado, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial.

Mas durante décadas foi possível ter a sensação, caso não se acompanhassem as notícias diariamente, de que a brutalidade era menor do que nos primeiros tempos. Até dois ou três anos atrás, com o retorno de Netanyahu ao poder.

Acho que aconteceram duas coisas. Em primeiro lugar, a comunidade internacional não reage à brutalidade cotidiana. Ela reage a brutalidades muito dramáticas. Mas não houve um único dia desde a chegada dos sionistas à Palestina em que os palestinos não tenham sido expostos à brutalidade sionista — ainda que nem sempre em grande escala.

Em segundo lugar, a internet e as visitas de jovens do mundo todo à Cisjordânia e à Faixa de Gaza começaram a revelar a realidade da opressão israelense.

E algo claramente diferente aconteceu depois de novembro de 2022, quando, pela primeira vez, os elementos mais fundamentalistas, extremistas e racistas da sociedade judaica israelense começaram a tomar o poder. Não se tratava apenas de Netanyahu. Tratava-se da aliança de Netanyahu com essas forças.

Eles têm muito menos escrúpulos do que a geração anterior para usar armas e estratégias ainda mais mortais e destrutivas contra os palestinos. Isso está em toda parte desde 7 de outubro. Embora, como eu disse, isso já existisse antes. Os palestinos sempre estiveram à mercê de um exército muito poderoso, moldado em muitos aspectos para vigiá-los, controlá-los e ocupá-los durante décadas.

Levando em conta o que analisou em seu trabalho, o senhor vê pontos de comparação entre o passado e a situação atual na Faixa de Gaza, por um lado, e na Cisjordânia, por outro?

Vejo muitas semelhanças, mas também diferenças. O que testemunhamos hoje em Gaza me lembra as fases finais da Nakba, as operações conduzidas por Israel em 1948, quando o país era incapaz — ou não estava disposto — a ocupar toda a Palestina histórica. Foi assim que cresceram a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Os israelenses deslocaram tantos palestinos quanto puderam, tanto para a Cisjordânia quanto para Gaza. Depois construíram uma espécie de muro ao redor de Israel para se separar dessas áreas palestinas, esperando que jordanianos e egípcios cuidassem delas.

Hoje, os palestinos de Gaza não podem ir a lugar algum, enquanto metade da Faixa de Gaza está vazia e totalmente controlada por Israel. Não têm nenhuma proteção e continuam enfrentando as operações militares israelenses. Há uma escalada em termos de desumanidade, barbárie, vontade aberta de dizimar populações — e não apenas obrigá-las a partir.

A situação atual é muito mais preocupante, acredito, do que durante a Nakba, em 1948. Porque, em 1948, as pessoas puderam, apesar de terem perdido tudo, reconstruir suas vidas nos campos de refugiados, na diáspora, na Cisjordânia e em Gaza. Hoje, elas correm risco de extinção. É possível que Israel não consiga levar adiante esse genocídio, mas o sofrimento é imenso.

Quanto à Cisjordânia, os palestinos dizem que a Nakba é um processo contínuo. Concordo totalmente. Na Cisjordânia, trata-se de uma limpeza étnica progressiva e gradual. E vemos apenas o primeiro passo. Ele consiste em tentar expulsar os palestinos da área C, segundo os Acordos de Oslo, que representa cerca de 60% da Cisjordânia, para transferi-los às áreas B e A; depois expulsá-los da área B e criar uma espécie de Faixa de Gaza na área A, isto é, sob cerco. Então será: “Se vocês se comportarem bem, poderão se mover e desfrutar de certa autonomia. Se não se comportarem bem, vejam o que aconteceu com Gaza”.

Essa é a estratégia de Bezalel Smotrich, oficialmente ministro da Defesa responsável pela Cisjordânia, mas que na prática é o governador-geral de fato da região. Ele fala disso muito abertamente. Conta com o apoio da maioria dos membros do Likud e de Netanyahu.

Há dois meses assistimos a dois novos conflitos, contra o Irã e contra o Líbano. O senhor acredita que esses conflitos fazem parte do que chama de conflito israelo-palestino?

Acredito que exista uma ligação. Para alcançar a ambição sionista fundamental — controlar toda a Palestina histórica com um número muito reduzido de palestinos, e palestinos que, caso permaneçam, não tenham nenhum desejo de resistir à realidade da opressão — Israel sempre considerou que precisava dominar o mundo árabe e se opor a qualquer um que pudesse ajudar os palestinos, seja por cinismo ou por convicção.

Sempre foi assim. Israel tentou derrubar os regimes progressistas do Egito e da Síria antes de 1967, porque entendia que líderes como Gamal Abdel Nasser e o Partido Baath eram pró-palestinos.

Hoje há atores diferentes. Mas a hegemonia na região, aos olhos dos dirigentes israelenses, continua sendo um pré-requisito para completar a transformação total da Palestina histórica em um Estado puramente judeu. Portanto, não se trata apenas de derrotar o Irã pelo prazer de derrotá-lo.

A isso soma-se o fato de que os partidários do sionismo messiânico, que agora constituem uma parte muito importante do governo, acreditam que estão reconstruindo o reino bíblico de Davi e Salomão, que era temido e respeitado por todo o Oriente Médio. E isso anda junto com a visão de que Israel deve se tornar, na verdade, uma teocracia, porque, se você é uma teocracia, faz o que Deus quer; e, se faz o que Deus quer, também terá sucesso em suas políticas em relação ao mundo árabe.

Em entrevistas anteriores, o senhor afirmou que Israel estava à beira de uma guerra civil fria, até mesmo de uma implosão, devido ao conflito entre o Estado da Judeia teocrática, que acaba de descrever, e o Estado de Israel, que considera mais laico e liberal. Isso ainda é verdade dois anos e meio após 7 de outubro?

Sim, porque o Estado de Israel e o Estado da Judeia não estão realmente em desacordo sobre a questão palestina, nem sobre a necessidade de atacar o Irã ou o Líbano. Esses não são os pontos de discórdia. O conflito diz respeito ao futuro da sociedade judaica em Israel. Será uma sociedade laica e liberal ou uma sociedade teocrática? Esse é o conflito. E, nessa disputa, acredito que o Estado da Judeia esteja levando vantagem. E continuará levando até que tudo se torne absurdo e assustador demais, inclusive para aqueles que hoje o apoiam.

E já podemos ver, nos Estados Unidos, uma mudança radical na atitude em relação a Israel, inclusive entre os jovens judeus. Vemos na Europa os primeiros sinais de conscientização. A nova geração de políticos começa a entender que o perigo no Oriente Médio não é o fato de o Irã querer desenvolver uma arma nuclear, mas o fato de Israel possuir 220 bombas nucleares e se tornar esse Estado agressivo com traços teocráticos, exercendo ainda mais opressão sobre os palestinos.

O senhor acredita que estamos assistindo à fase final do sionismo?

Sim. Mas, como historiador, devo observar que a fase final de um processo histórico pode durar vinte ou trinta anos. Não estou falando de um período de cinco ou seis anos a partir de agora. Infelizmente, não espero nenhuma mudança fundamental dentro de Israel.

Mas vemos, no exterior, um movimento que começa a relacionar a política interna na Europa e nos Estados Unidos com as posições sobre Israel. Por exemplo, nas eleições municipais na Grã-Bretanha, existe um partido importante disputando o município de Birmingham chamado Coalizão por Gaza. No entanto, o problema em Birmingham não é Gaza. O problema em Birmingham é a incapacidade da prefeitura de administrar lixo, esgoto etc. Mas, aos olhos de muita gente, isso está relacionado. A posição moral diante de Gaza está ligada à posição moral diante de questões importantes para os habitantes de Birmingham.

O senhor concorda?

Sim, concordo, está relacionado. Acho que existe uma ligação entre políticos que perderam qualquer valor moral, que só pensam na própria carreira, nas próximas eleições e se afastam dos problemas reais da sociedade, e aqueles que não são assim. Creio sinceramente que uma pessoa que afirma que a defesa dos palestinos é uma obrigação moral também se dedicará sinceramente às questões que dizem respeito à sua própria comunidade e ao seu eleitorado.


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