Agosto brasileiro
Nossa tarefa é barrar Trump, reelegendo Lula e construindo mobilização para o futuro, derrotando o imperialismo e a extrema direita nas ruas e nas urnas
Foto: Javier Milei e Flávio Bolsonaro. (Vittor Sales/PL)
Agosto é sempre um paradigma para a política brasileira. No ideário, foi o mês que marcou o declínio de Vargas, imortalizado na novela de Rubem Fonseca, que chegou a virar minissérie da Rede Globo. O mês em que o levante da campanha da legalidade impediu o golpe militar de 1961, no Rio Grande do Sul. O mês em que o estudandato se moveu para começar a derrubar o corrupto Collor, em 1992. Na literatura, o “Mês dos cães danados”, para Moacyr Scliar.
O que este Agosto nos reserva? Terminou a Copa do Mundo. Quase findando o período de convenções partidárias, os candidatos se apresentam para a disputa eleitoral que será concluída em outubro. As discussões internas vão desde composições de chapa, passando pelo financiamento eleitoral, cada vez mais milionário e desigual para os grandes partidos, chegando na própria estratégia de campanha dos principais líderes. A convenção que aprovou Flávio Bolsonaro, por exemplo, foi um verdadeiro “show de horrores” com Jair em formato de IA, Milei fazendo um discurso a favor de uma cruzada contra o socialismo e até um vídeo de Netanyahu . Michelle apareceu buscando apaziguar os ânimos, mas sem muito entusiasmo a favor do seu enteado.
A eleição se insere, como estamos insistindo, no quadro internacional. Esse será um dos grandes temas da eleição. Os Estados Unidos têm um plano, com Trump à cabeça, apoiado por Israel e por seus aliados políticos, para interferir na região. Parte desse plano, envolve o tarifaço de 37,5% contra produtos brasileiros. Organizar as milicias digitais, como assistimos com o avanço da Palantir na Argentina. Organizar a luta política ungindo seus candidatos prediletos, como fez na recente eleição colombiana, com Abelardo de la Espriella.
O candidato preferido de Trump, Netanyahu e Milei é Flávio Bolsonaro. É até aqui o candidato que conseguiu unir a frente de extrema direita mais sólida para disputar o apoio dos pesos pesados da burguesia para aprofundar o modelo agro-exportador, rentista e transformar o Brasil numa colônia dos Estados Unidos. O pântano de Trump no Oriente Médio, combalido com sua agressão ao Irã, coloca em tela o problema do controle da América Latina. A eleição brasileira se insere nesse contexto. O próprio Trump se defronta com eleições estratégicas em novembro.
O quadro político da eleição, contudo, deixa dúvidas sobre a capacidade de Flávio de levar o leme até o final. As mais recentes pesquisas indicam o candidato do clã Bolsonaro estacionado. Lula tampouco consegue crescer muito, mas aparece com 6 a 7 pontos na frente de Flávio no primeiro turno, repetindo a vitória sem tanta folga, nos cenários projetados de segundo turno. A crise com Michelle e do Bolsomaster jogaram dúvidas sobre a capacidade de vitória de Flávio. Zema, Caiado e Renan, se lançam, esperando ansiosamente para que algum “fato político” desinfle o mais cedo possível o nome do clã. Não é o mais provável. A Faria Lima e parte do mundo da finança, desconfiados com Flávio, flertam com Caiado e com Renan. E assim o faz em outras parcelas da burguesia, urbana, rural, comercial e industrial. Sabendo disso, buscam também seguir influenciando o governo, ora criticando ora tutelando Lula e Alckmin.
Assim, que ao lado do quadro dos candidatos e da preparação da campanha que se inicia em 16 de agosto, os problemas do “mundo real”, falam mais alto. A soberania tão solapada pelos Bolsonaros e Trump levará a mais dificuldades na economia, encarecendo custos, diminuindo empregos e trazendo sofrimento para quem vive do trabalho. A crise climática é uma dura realidade. Enchentes, temporais e tornados deixaram dezenas de mortos e milhares de desabrigados, no sul do país, no interior de São Paulo e mesmo no Rio de Janeiro nos últimos dias. A incapacidade de prevenção e adaptação dos governos deixa as populações mais pobres vulneráveis à crise ambiental. O modelo de privatização é questionado. Em São Paulo, o próprio governador Tarcísio, aliado dos Bolsonaro, teve que encampar provisoriamente o serviço ferroviário, privatizado, depois do caos que paralisou a cidade na semana passada. Os trabalhadores da CPTM convocam assembleia para discutir uma greve para os próximos dias, com a ideia de defender empregos e a reestatização permanente.
Portanto, a disputa política eleitoral é decisiva, envolvendo dois níveis de ação: por um lado criar um muro de contenção, reelegendo Lula e lutando nos estados para barrar a extrema direita e o Centrão, no primeiro ou segundo turno; e desde o PSOL, com suas novas configurações, apresentar uma alternativa independente que arme o caminho da mobilização e do programa.
O PSOL tem o desafio de superar a cláusula de barreira e superar contradições internas, com o setor que defendeu a integração ao governo de conciliação e a federação com PT, anunciando que deve sair em breve do Partido. Isso exige que tenhamos mais firmeza na defesa do voto nos candidatos do PSOL, para ampliar nossas bancadas, superar a cláusula de exclusão e defender um programa e uma estratégia que vá além de Lula e do lulismo.
De imediato, a luta pela soberania nacional, pela aprovação do fim da escala 6×1, por um plano de emergência climática, pela taxação das grandes fortunas, pelo imediato fim da violência contra as mulheres, derrotando os redpills, a reestatização dos serviços públicos essenciais como o transporte, o saneamento e a distribuição de água e luz, o fim do genocídio da juventude negra, a regulação das redes sociais e a luta pelo passe livre. Essas são bandeiras imediatas, que nos marcos da unidade devemos defender e mobilizar para evitar o retorno do clã genocida e garantir os direitos básicos de democráticos.
De outra parte, devemos avançar para medidas mais profundas, que rompam com o atual modelo, político, social e econômico, controlado pelo agro, pelas mineradoras, pelas finanças, para romper com orientação social- liberalismo, abrindo caminho para outra modelo, de caráter social, voltado para a maioria, em caminho à uma transição ecossocialista. O papel dos candidatos do MES e do PSOL será afrontar essa dupla tarefa: lutar no aqui e agora para barrar Trump, reelegendo Lula e construindo volume de força, programa e mobilização para o futuro. Derrotar o imperialismo e extrema direita, nas ruas e nas urnas.