China é atingida por “fenômenos climáticos mortais”
China-Floods-2026-credits-via-LUSA

China é atingida por “fenômenos climáticos mortais”

A China está enfrentando eventos extremos intensificados pela crise climática

Pierre Rousset 24 jul 2026, 11:19

Foto: Inundações recentes na China. (Plataform Media/Reprodução)

Via International Viewpoint

Durante os primeiros dez dias de julho, ciclones (tufões), tornados, tempestades, condições meteorológicas severas, inundações e deslizamentos de terra causaram estragos nas regiões central e sul do país — e além delas. A China está enfrentando eventos climáticos extremos intensificados pela crise climática.

Desastres naturais são comuns na China, especialmente no verão, quando algumas regiões sofrem com chuvas intensas enquanto outras são assoladas por calor extremo. No entanto, a frequência e a magnitude desses eventos estão aumentando à medida que o aquecimento global se acelera — impulsionado, em particular, pelo uso de combustíveis fósseis. Entre as regiões afetadas estão Guangxi, Guizhou e Hunan, no sul e no centro do país, onde vive uma população de mais de 150 milhões de pessoas — mais do que na Rússia.

Na verdade, uma parte significativa do país está sendo afetada por essa série de eventos climáticos. O Maysak, o primeiro tufão da temporada, atingiu o continente em 6 de julho na província insular de Hainan, no sul, tendo se originado no Vietnã. Em Nanning, capital da região de Guangxi, e nas áreas vizinhas, as águas da enchente romperam as barragens de três reservatórios, segundo as autoridades locais. A cidade de Nanning e suas áreas vizinhas ficaram alagadas, forçando muitos moradores a se refugiarem em telhados, com cerca de 55 mil pessoas evacuadas. No mesmo dia, um tornado atingiu a cidade de Ezhou, na província de Hubei (centro-leste). Na verdade, dois tornados destrutivos varreram a China central naquela noite, quando o ar quente do sul, impulsionado pelo tufão Maysak, colidiu com o ar frio do norte.

Em 9 de julho, ocorreu um deslizamento de terra em Gansu (noroeste) após violentas tempestades e chuvas torrenciais, deixando 39 mortos, 9 desaparecidos e centenas de feridos, segundo reportagens da imprensa. O deslizamento foi causado por “um episódio severo de convecção atmosférica” (ou seja, um contraste de temperatura) que desencadeou “tempestades e ventos fortes” que varreram cidades como Huangshi e Huanggang, segundo a mídia estatal.

Na cidade de Guigang, uma área metropolitana na Região Autônoma de Guangxi (no sul), as águas da enchente transformaram uma importante rodovia em um lago, submergindo carros e descendo a encosta como torrentes de lama antes de invadir um canteiro de obras.

Em 11 de julho, o tufão Bavi, originário das Filipinas e de Taiwan, atingiu a costa mais a leste, levando à evacuação de quase 2 milhões de pessoas. Pouco antes disso, chuvas torrenciais na capital Pequim (no nordeste) levaram as autoridades a evacuar mais de 100 mil pessoas.

Também era esperado um tufão no fim de semana na costa leste, ao sul de Xangai, trazendo consigo rajadas violentas de vento.

No sul e no centro da China, tempestades violentas e chuvas torrenciais deixaram cerca de 17 mortos e centenas de feridos. A província central de Hubei também foi afetada. Dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas na região sul de Guangxi, onde cerca de 40 rios e córregos transbordaram e torrentes de água se espalharam após a ruptura das barragens de um reservatório, segundo a televisão estatal CCTV.

Em um episódio inusitado, cerca de 800 a 900 cobras (incluindo cobras-de-cabeça-de-leão) escaparam depois que uma fazenda de cobras foi destruída pelas enchentes na cidade de Hangzhou.

De acordo com autoridades governamentais, chuvas torrenciais eram esperadas em meados de julho para atingir certas áreas costeiras e do leste de Guangxi, bem como o sudoeste da província vizinha de Guangdong — sede de um importante polo industrial —, colocando à prova a integridade de reservatórios e diques e potencialmente provocando novas evacuações da população.

A imprensa chinesa relata esforços eficazes de prevenção e socorro. Os alertas certamente permitiram evacuações preventivas em algumas áreas, mas não em todas, como evidenciado por esses relatos coletados por um correspondente da Agence France-Presse que conseguiu visitar a cidade de Liulan (Guangxi), onde as enchentes destruíram casas, levaram o gado e causaram o colapso de uma grande barragem (e de outra, menor, perto da cidade de Gantang). As paredes da barragem ruíram, liberando torrentes de água barrenta rio abaixo, com um balanço preliminar de 26 mortos e sete pessoas desaparecidas.

Muitos dos moradores afetados nessa cidade não haviam compreendido totalmente a gravidade da situação. Segundo o Sr. Huang, “nunca foi tão ruim assim antes”. “Não recebemos nenhum aviso. Se tivéssemos recebido, não teríamos sofrido tantas perdas.” Até mesmo os pertences no andar superior de sua casa foram destruídos pelas águas da enchente. “Em várias centenas de anos, esta é a primeira vez que as águas da enchente atingiram o primeiro andar”, disse Bi Yunchun, outro morador de Gantang, à AFP.

O sistema de indenização da China para vítimas de enchentes foi ampliado em 2025 para incluir áreas de retenção, onde as autoridades desviam deliberadamente as águas para reduzir as enchentes a jusante. O escopo da indenização para pessoas que moram ou trabalham nessas áreas de retenção foi ampliado. Anteriormente limitado a animais de tração, agora inclui gado e aves que não puderam ser evacuados, com o governo central cobrindo 70% dos custos e os governos locais, 30%. A indenização continua sendo condicional e não cobre todos os riscos.

Além disso, pode haver uma grande discrepância entre a lei e a realidade. A seleção das zonas de retenção envolve, obviamente, uma dimensão política (bairros residenciais abastados ou distritos comerciais ligados aos detentores do poder serão poupados). A corrupção é endêmica em todos os níveis da administração, e a repressão é comum. Na ausência de organizações sociais mais ou menos independentes, é muito difícil garantir a defesa coletiva dos direitos das comunidades da classe trabalhadora, camponesa e popular a longo prazo. Nessas condições, a cada evento climático extremo, novos segmentos da população são mergulhados na pobreza — uma situação da qual lhes será cada vez mais difícil escapar à medida que os desastres climáticos se sucedem.

De maneira mais geral, os desastres relacionados ao clima ameaçam aniquilar o equivalente a dezenas de bilhões de dólares em atividade comercial a cada ano devido a inundações urbanas, paralisação da atividade industrial, plantações submersas e gado levado pelas águas da enchente — tudo isso enquanto a economia chinesa já se encontra em desaceleração.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 16 jul 2026

Super El Niño: crônica de uma tragédia anunciada

Para enfrentar a catástrofe climática, acelerada pelo negacionismo neofascista, o freio de emergência está na luta e na mobilização de maioria social
Super El Niño: crônica de uma tragédia anunciada
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores