Crise migratória leva mais de 40 mil pessoas a Ceuta em 24 horas
Entrada em massa pelo mar e por pontos da fronteira provoca colapso na cidade espanhola, deixa mortos e expõe a tensão entre Madri e Rabat
Foto: Reprodução
Mais de 40 mil imigrantes entraram em Ceuta nas últimas 24 horas, segundo estimativas divulgadas por veículos de imprensa espanhóis e posteriormente confirmadas, em parte, pelo Ministério do Interior da Espanha. A dimensão do fluxo é inédita na história recente da cidade autônoma espanhola, localizada no norte da África e cercada pelo território marroquino.
O governo espanhol chegou a informar que cerca de 49 mil pessoas haviam cruzado a fronteira no período, mas a publicação foi posteriormente retirada. A agência Reuters informou que o dado tinha como base informações do Ministério do Interior. Até o momento, o governo não explicou a razão da exclusão.
A população de Ceuta é de aproximadamente 83,6 mil habitantes. O número de entradas, portanto, corresponde a cerca de metade dos moradores da cidade. O volume supera amplamente a estimativa inicial das autoridades, que apontavam a chegada de entre 2 mil e 3 mil pessoas.
A situação provocou o colapso dos serviços de acolhimento e deixou milhares de pessoas dormindo em ruas, praças e outros espaços públicos. Parte dos imigrantes começou a retornar espontaneamente para o Marrocos, diante da falta de abrigo e alimentação e de relatos de hostilidade e agressões por moradores locais.
A travessia também provocou mortes. Segundo os levantamentos mais recentes, pelo menos 19 pessoas morreram durante a tentativa de chegar a Ceuta a nado, enquanto equipes de resgate continuam procurando vítimas no mar.
Travessia em massa pelo mar
Imagens registradas na região mostram centenas de pessoas deixando o território marroquino e tentando alcançar Ceuta pelo mar, muitas delas utilizando boias, câmaras de ar e outros objetos improvisados para flutuar.
A Guarda Civil espanhola relatou que a chegada ocorreu de forma simultânea e em grande escala, principalmente pela região do quebra-mar de Tarajal. A dimensão do movimento chegou a sobrecarregar as forças de segurança.
O episódio representa a maior entrada simultânea de migrantes em Ceuta desde a crise de maio de 2021, quando aproximadamente 10 mil pessoas conseguiram atravessar a fronteira em meio à redução dos controles marroquinos. A atual onda migratória, no entanto, é muito maior.
Na manhã desta sexta-feira (31), barcos começaram a transportar pessoas de volta ao Marrocos. Segundo o jornal El País, milhares de imigrantes retornaram espontaneamente, enquanto as autoridades dos dois países reforçaram as patrulhas marítimas e as operações de controle na região.
Por que tantas pessoas tentaram atravessar?
Ainda não existe uma explicação única para a dimensão excepcional do movimento. A crise ocorre, porém, poucas semanas depois de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol que alterou as regras para a devolução imediata de pessoas interceptadas ao tentar entrar em Ceuta ou Melilla pelo mar.
Em decisão publicada em 8 de julho, o tribunal determinou que a chamada “devolução a quente” não pode ser aplicada automaticamente a pessoas interceptadas no mar que tentem chegar a Ceuta ou Melilla a nado. Segundo a decisão, o procedimento de rejeição imediata é aplicável aos casos em que a entrada ocorre mediante a superação dos elementos físicos de contenção da fronteira, como as cercas.
A mudança gerou preocupação entre as autoridades espanholas diante do aumento das travessias a nado. Já na semana anterior à crise atual, mais de mil pessoas haviam chegado a Ceuta por essa rota, levando as autoridades locais a declarar uma situação de emergência devido à pressão sobre os serviços de acolhimento.
Especialistas e organizações que acompanham a questão migratória, contudo, alertam que os movimentos de entrada não podem ser explicados apenas pela decisão judicial. A travessia de Ceuta registra aumentos sazonais durante o verão, quando as condições do mar favorecem a tentativa de alcançar a costa espanhola.
Ceuta e Melilla são territórios espanhóis situados no continente africano e fazem fronteira terrestre com o Marrocos. São, por isso, os únicos pontos de fronteira terrestre entre a União Europeia e a África.
Pressão sobre Marrocos e tensão diplomática
A crise também elevou a tensão entre Espanha e Marrocos. O sindicato da Polícia Nacional espanhola Jupol acusou as autoridades marroquinas de não terem atuado para impedir a saída em massa de pessoas em direção a Ceuta.
A entidade classificou a atuação marroquina como de “passividade absoluta” e afirmou que a responsabilidade pela contenção do fluxo acabou recaindo sobre as forças de segurança espanholas.
Do lado marroquino, milhares de pessoas se concentraram na cidade de Fnideq, conhecida como Castillejos durante o período colonial espanhol, próxima à fronteira com Ceuta. Famílias, mulheres, crianças e jovens se juntaram à movimentação em direção ao território espanhol.
A crise ocorre em um momento de relações delicadas entre Madri e Rabat. Embora os dois governos tenham aprofundado a cooperação migratória nos últimos anos, permanecem tensões relacionadas ao Saara Ocidental e às relações de Marrocos com outros países da região. A dimensão excepcional da atual crise reacendeu questionamentos sobre o papel de Rabat no controle da fronteira.
O governo de Pedro Sánchez, por sua vez, evitou até o momento transformar a crise em um confronto público com o Marrocos e priorizou a contenção do fluxo e a assistência às pessoas que chegaram ao território espanhol.
Sánchez visita Ceuta
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, deslocou-se a Ceuta para acompanhar a situação. O centro da cidade foi isolado e uma operação da Polícia Nacional foi montada para garantir a segurança durante a visita.
A Espanha também reforçou a presença policial e militar na região. A mobilização ocorre enquanto milhares de pessoas permanecem nas ruas e os serviços locais tentam administrar uma quantidade de recém-chegados muito superior à capacidade habitual de acolhimento.
A crise coloca novamente no centro do debate europeu a política migratória e a situação das fronteiras externas da União Europeia. Em fevereiro, a Human Rights Watch já havia denunciado dificuldades no acesso à proteção internacional em Ceuta e Melilla e criticado o modelo europeu de transferência do controle migratório para países africanos, como o Marrocos.
A organização defende a ampliação de vias legais de entrada e a garantia do direito de asilo para pessoas que fogem de conflitos e perseguições, além do fim das devoluções imediatas sem avaliação individual dos casos.
O episódio de Ceuta evidencia, mais uma vez, o custo humano das fronteiras fortificadas e da ausência de alternativas seguras para a migração. Enquanto governos europeus ampliam mecanismos de controle e dependem de países vizinhos para conter os fluxos, milhares de pessoas continuam recorrendo a travessias perigosas, muitas vezes colocando a própria vida em risco para alcançar território europeu.