Defesa da Palestina gera crise em turnê de Ed Sheeran
Após pressão de arenas pelo afastamento do rapper que fez discurso em defesa da Palestina, cantor diz querer uma turnê “sem política”, mas perde atos de abertura e enfrenta reação de artistas e público
Foto: Reprodução
A decisão de retirar Macklemore da turnê de Ed Sheeran nos Estados Unidos, depois de uma manifestação pública do rapper em defesa da Palestina, desencadeou uma crise que rapidamente ultrapassou os limites de uma disputa entre artistas. Em poucos dias, todos os atos de abertura previstos para as próximas apresentações e a banda irlandesa que acompanha Sheeran anunciaram sua saída da turnê em solidariedade a Macklemore.
O episódio também colocou em evidência a força econômica dos proprietários de grandes arenas e estádios sobre a indústria musical: segundo a promotora Messina Touring Group, alguns dos locais que receberiam a turnê avisaram que não realizariam os shows caso Macklemore permanecesse na programação.
A crise começou em 4 de setembro, quando Macklemore subiu ao palco do MetLife Stadium, em Nova Jersey, e declarou apoio à Palestina diante de cerca de 90 mil pessoas. O rapper afirmou que queria que palestinos em Gaza e na Cisjordânia ocupada soubessem que não haviam sido esquecidos e repetiu: “Free Palestine”.
Na sequência, apresentou “Hind’s Hall”, música que denuncia a ofensiva israelense em Gaza e homenageia os estudantes que ocuparam um prédio da Universidade Columbia em protesto contra a guerra. Imagens da destruição em Gaza foram exibidas nos telões.
Pink entra na polêmica
Ela compartilhou nas redes sociais uma publicação da conta StopAntisemitism que criticava duramente a manifestação de Macklemore em defesa da Palestina durante o show da turnê de Ed Sheeran. A publicação compartilhada questionava o fato de Macklemore usar o palco para fazer declarações políticas e defendia que Sheeran se desculpasse e oferecesse reembolso aos espectadores.
Depois da forte reação negativa que recebeu, Pink publicou uma declaração própria para explicar sua posição. Ela disse que o repost não representava integralmente suas opiniões, afirmou que considera o Hamas uma organização terrorista e, ao mesmo tempo, declarou que os palestinos têm direito a um futuro digno e seguro. Também defendeu o diálogo e afirmou que o conflito não poderia ser reduzido a slogans ou memes.
“Eu nunca pedi que outro artista fosse silenciado e não estou pedindo agora”, disse a cantora, acrescentando que queria poder dizer, como “uma mãe judia”, que havia ficado assustada com as manifestações sem ser acusada de apoiar o genocídio.
Estádios ameaçaram cancelar shows
Macklemore estava escalado para participar de oito das dez apresentações restantes da etapa americana da Loop Tour. A promotora Messina Touring Group afirmou que recebeu avisos de locais que não aceitariam a realização dos shows caso o rapper continuasse no elenco.
Em comunicado, a empresa afirmou que a permanência de Macklemore poderia provocar o cancelamento da turnê e atingir “centenas de milhares de fãs”.
Entre os proprietários que se posicionaram está o bilionário Robert Kraft, dono do New England Patriots e do Gillette Stadium. Kraft afirmou que sua oposição a Macklemore estava relacionada às manifestações recentes do rapper e ao que classificou como um histórico mais amplo de “retórica e imagens antissemitas”.
Macklemore, por sua vez, afirmou que Kraft teve papel importante na pressão para sua retirada e que outros proprietários de estádios foram mobilizados. O episódio evidencia uma questão que ultrapassa a carreira de dois músicos: até que ponto proprietários de grandes espaços privados podem determinar quais posições políticas podem ser expressas por artistas em seus palcos?
Sheeran diz que tentou manter Macklemore
Ed Sheeran reagiu à crise afirmando que a decisão não foi sua, mas da promotora, depois das ameaças dos locais de apresentação:
“Macklemore saindo da turnê foi uma decisão do promotor, não minha.”
O cantor disse ainda que tentou encontrar uma solução e conversou com diferentes envolvidos, mas que não conseguiu impedir a retirada.
“Passei esta semana tentando construir pontes, encontrar uma solução e, infelizmente, não consegui”, justificou.
Segundo Sheeran, os locais das próximas datas haviam informado que retirariam os shows do calendário caso Macklemore permanecesse na programação.
O cantor também afirmou estar “chocado” com o conflito entre Israel e Palestina e classificou o sofrimento causado aos “dois lados” como uma “tragédia humana”. Ao explicar sua posição, defendeu a ideia de que seus shows deveriam permanecer fora das disputas políticas: “Quem vai aos meus shows não espera um fórum político.”
Sheeran afirmou que prefere que seus espetáculos sejam um “lugar de segurança e refúgio” e que busca manter espaço para diferentes perspectivas.
A justificativa, contudo, não encerrou a controvérsia. Para Macklemore, a tentativa de se manter “apolítico” diante da pressão sobre sua manifestação significou, na prática, aceitar que interesses econômicos determinassem quais posições poderiam ocupar o palco.
O rapper ironizou a própria perda dos shows: “Eu não precisava de 10 shows do Ed. Eu precisava de dois”, e completou que queria apenas ter a oportunidade de estar diante de milhares de pessoas e dizer “Free Palestine”.
Efeito dominó
A resposta de Macklemore ganhou força com uma reação em cadeia dentro da própria turnê. Finneas, irmão de Billie Eilish e um dos artistas que abririam os shows de Sheeran na América do Sul, anunciou que não participaria mais das apresentações.
“Artistas não podem ser silenciados quando se manifestam pelos oprimidos”, disse o artista, que também declarou: “Eu apoio a Palestina e seu povo.”
Lukas Graham também abandonou a turnê. O vocalista Lukas Forchhammer questionou a ideia de que dinheiro pudesse determinar os limites da manifestação artística: “Dinheiro não dá a você o direito de dominar a conversa.”
E acrescentou que artistas deveriam poder falar sobre “guerra, civis sendo mortos e crianças que merecem crescer”, independentemente da bandeira sob a qual vivem.
Aaron Rowe, por sua vez, relacionou sua decisão à história da Irlanda e afirmou que não poderia aceitar que bilionários utilizassem sua posição para silenciar pessoas que denunciam a morte de crianças e o que classificou como genocídio israelense.
A banda irlandesa Beoga, que acompanhava Sheeran havia mais de uma década, também deixou a turnê. O grupo afirmou que continuaria amigo do cantor, mas que acreditava no diálogo para defender os direitos dos palestinos.
Com isso, os quatro atos de apoio previstos para as próximas datas – Finneas, Lukas Graham, Aaron Rowe e Beoga – deixaram a turnê.
Macklemore transforma retirada em palanque
A tentativa de impedir a participação do rapper acabou produzindo o efeito inverso no debate público: Macklemore passou a receber manifestações de solidariedade de artistas, personalidades e ativistas, como Greta Thunberg, Hannah Einbinder, Kehlani, Zara Larsson, Paloma Faith, Miguel, Penélope Cruz, Florence Pugh, Bella Hadid, Amanda Seyfried e Rachel Zegler, Hozier, Hayley Williams e Noah Kahan.
O próprio Macklemore passou a apresentar sua retirada como uma forma de ampliar a discussão sobre a Palestina.
“Se essas palavras me custaram o palco, enquanto fizeram a conversa voltar para a Palestina, então foi a turnê mais bem-sucedida que já fiz”, disse.
O rapper também procurou diferenciar sua crítica ao governo israelense de qualquer ataque a judeus. Em uma apresentação posterior no MetLife Stadium, afirmou, dirigindo-se ao público judeu:
“Crítica a Israel, crítica ao apartheid, ser contra o genocídio de forma alguma é uma crítica a vocês”. Segundo ele, sua mensagem era de “paz, amor” e de defesa de que todos fossem tratados com “dignidade, respeito e igualdade”.
Uma crise que expõe o poder do dinheiro na música
O episódio coloca em choque duas concepções sobre o papel político da música. De um lado, Sheeran sustenta que seus shows devem ser espaços de entretenimento, segurança e união, e afirma que tentou preservar a participação de Macklemore diante da pressão dos locais.
De outro, Macklemore e os artistas que deixaram a turnê sustentam que a neutralidade também pode ter consequências políticas, especialmente diante de uma guerra que já provocou dezenas de milhares de mortes palestinas e uma enorme crise humanitária em Gaza.
O que tornou o episódio particularmente explosivo foi o poder econômico envolvido. Não se tratava apenas de uma discussão entre músicos: proprietários de estádios com capacidade para dezenas de milhares de pessoas passaram a condicionar a realização dos espetáculos à presença – ou ausência – de um artista.
A controvérsia, portanto, deixou de ser apenas sobre Macklemore. Passou a envolver liberdade de expressão, dinheiro, poder empresarial e os limites da neutralidade artística diante da guerra em Gaza. E, nesse embate, a retirada do rapper produziu uma consequência inesperada: em vez de encerrar sua manifestação sobre a Palestina, ampliou exponencialmente a discussão.
Para a própria turnê de Sheeran, o episódio também teve um efeito concreto. Além de perder Macklemore, o cantor ficou sem os demais atos de abertura e sem a banda Beoga para as datas anunciadas.
A crise, portanto, está longe de ser apenas uma discussão sobre quem sobe ao palco. Ela transformou uma fala de duas palavras – “Free Palestine” – em uma disputa internacional sobre quem tem o poder de decidir quais palavras podem ser ditas diante de milhares de pessoas.