Nova cheia reacende trauma das enchentes de 2024 no RS
Com rios acima da cota de inundação, mais de mil pessoas deixam suas casas e cidades voltam a enfrentar alagamentos; especialistas alertam para a necessidade de preparação diante de eventos climáticos extremos
Foto; Prefeitura de Lajeado/Divulgação
A nova onda de chuvas intensas que atinge o Rio Grande do Sul voltou a expor a vulnerabilidade do estado diante dos eventos climáticos extremos pouco mais de dois anos após a maior tragédia socioambiental de sua história. Com rios transbordando em diversas regiões, municípios dos vales do Taquari, Caí e da Região Metropolitana registram inundações, milhares de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas e autoridades monitoram o avanço das águas em direção ao Guaíba.
Até a noite de quarta-feira (22), a Defesa Civil estadual contabilizava 169 municípios com registros de danos provocados pelas chuvas. Ao menos 1.099 pessoas estavam fora de casa, sendo 728 acolhidas em abrigos públicos e outras 371 desalojadas, hospedadas por familiares ou amigos. O Vale do Taquari concentra a maior parte dos desabrigados, especialmente nos municípios de Lajeado e Cruzeiro do Sul.
Os níveis dos rios ultrapassaram as cotas de inundação em diversos pontos. Em Estrela, o Rio Taquari alcançou 24,3 metros; em Lajeado, chegou a mais de 24 metros, muito acima da cota de inundação de 19 metros. Também houve transbordamentos no Rio Caí, em Montenegro e São Sebastião do Caí, além da elevação do Rio Jacuí, que levou à retirada preventiva de famílias em São Jerônimo e Cachoeira do Sul.
Em Lajeado, quase 500 pessoas passaram a noite no abrigo municipal instalado no Parque do Imigrante. Com o avanço das águas, moradores precisaram abandonar suas residências às pressas para tentar salvar móveis, documentos e eletrodomésticos.
Críticas aos alertas
A prefeita de Lajeado, Gláucia Schumacher, criticou a demora na emissão dos alertas oficiais. Segundo ela, as projeções iniciais indicavam que o rio não atingiria a cota de inundação.
“Nós tínhamos a informação de que o rio não chegaria na cota de inundação. Precisamos ter a informação correta ao menos seis horas antes, para que a gente consiga acionar todo o mecanismo logístico e de acolhida com antecedência”, afirmou.
O alerta vermelho da Defesa Civil Estadual foi enviado durante a madrugada, quando diversos pontos da cidade já estavam alagados.
Apesar de os rios dos vales começarem a apresentar lenta redução do nível nesta quinta-feira (23), a preocupação deslocou-se para o Rio Jacuí e, posteriormente, para o Guaíba. Em Porto Alegre, projeções do Serviço Geológico Brasileiro (SGB), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS) e da Catavento Meteorologia indicam que o lago pode atingir a cota de alerta entre sexta-feira (24) e sábado (25), com maior risco para a região das ilhas.
Memória da tragédia de 2024
As novas enchentes despertam lembranças da catástrofe climática de maio de 2024, quando chuvas excepcionais atingiram praticamente todo o território gaúcho. Na ocasião, os rios Taquari, Caí, Jacuí, Sinos, Gravataí e o Guaíba alcançaram níveis históricos, provocando a inundação de centenas de municípios.
A tragédia deixou 184 mortos, 25 desaparecidos e mais de 800 feridos. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas em 478 municípios, enquanto mais de 600 mil moradores precisaram abandonar suas casas entre desabrigados e desalojados. Porto Alegre permaneceu semanas parcialmente inundada, o aeroporto Salgado Filho ficou fechado por meses e os prejuízos econômicos ultrapassaram dezenas de bilhões de reais.
Desde então, pesquisadores têm alertado que episódios de chuva extrema tendem a se tornar mais frequentes em razão das mudanças climáticas, agravadas por fenômenos como o El Niño e pelo aquecimento global.
Especialistas pedem vigilância permanente
Mesmo com a redução gradual das chuvas em algumas regiões, especialistas defendem que o monitoramento permaneça intenso nas próximas semanas.
O hidrólogo Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, destaca que o solo permanece saturado após vários dias de precipitação.
“Fica a importância de monitorar e já começar a fazer [novas] previsões, tendo em vista a possibilidade de chuvas em cima de solos já encharcados. Ainda é cedo para previsões muito acuradas, mas precisamos seguir cuidando, dadas as condições tanto do solo quanto do El Niño.”
Na Ilha do Pavão, uma das áreas mais devastadas pela enchente de 2024, a população acompanha a elevação do Guaíba com apreensão. A presidente da associação de moradores, Sandra Ferreira, resume o sentimento compartilhado por milhares de gaúchos que ainda tentam reconstruir suas vidas.
“Esperamos que a chuva pare, porque realmente não merecemos outra calamidade. Não estamos preparados para uma nova enchente, ninguém está.”
Enquanto isso, moradores de Arroio dos Ratos atribuem parte das inundações recorrentes à atuação de uma mineradora instalada na região. Integrante da Comissão de Moradores Atingidos pela Enchente, Mateus Barros afirma que alterações promovidas no curso de um arroio agravaram o escoamento das águas.
“Se nós tivéssemos essa abertura ao lado do nosso arroio, se nós não tivéssemos essa barreira produzida pela mineradora gigantesca, a água passaria, como sempre fez”, denunciou.
A repetição de episódios de inundação reforça o desafio enfrentado pelo Rio Grande do Sul: além da resposta emergencial às chuvas, especialistas defendem investimentos permanentes em sistemas de alerta, obras de adaptação, recuperação ambiental das bacias hidrográficas e planejamento urbano capaz de reduzir os impactos de eventos climáticos extremos, cuja frequência e intensidade vêm aumentando nos últimos anos.