Bancários param em todo o país contra arrocho e cobram avanço nas negociações
Categoria rejeitou proposta da Fenaban, cobra 5% de aumento real, valorização da PLR e do piso salarial e denuncia lucros bilionários dos bancos enquanto salários e condições de trabalho se deterioram
Fotos: Bento José
Bancários de todo o Brasil realizam nesta quinta-feira (20) uma paralisação de 24 horas para pressionar a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) a apresentar uma proposta que avance nas negociações da Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026. Em Porto Alegre e na Região Metropolitana, as atividades foram suspensas a partir das 10h, com mobilização organizada pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), que promove ato na Praça da Alfândega.
A paralisação é uma resposta à proposta apresentada pelos bancos, que previa reajustes diferenciados de acordo com a faixa salarial e o congelamento do piso de ingresso para novos trabalhadores. Diante da reação da categoria, a Fenaban recuou desses dois pontos na oitava rodada de negociação, realizada na terça-feira (18). Os bancos, entretanto, ainda não apresentaram um índice de reajuste para salários e demais verbas.
A rejeição à proposta foi expressiva. Mais de 50 mil bancários participaram das assembleias realizadas em todo o país. Em Porto Alegre e Região, mais de 1,7 mil trabalhadores participaram da votação, com 97% rejeitando a proposta e mais de 90% aprovando a paralisação.
Para o presidente do SindBancários, Luciano Fetzner, o resultado demonstra a disposição da categoria para pressionar os bancos. “Mais de 1,7 mil bancários de Porto Alegre e Região deram uma resposta clara ao rejeitar a proposta apresentada pela Fenaban e aprovar a paralisação do dia 20 de agosto. Esse resultado demonstra a disposição da categoria de lutar por uma proposta que valorize os trabalhadores e atenda às suas reivindicações”, afirmou.
A próxima rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban está marcada para segunda-feira (24). Os trabalhadores esperam que os bancos apresentem uma proposta que contemple a reposição integral da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), além de 5% de aumento real para salários e demais verbas.
A pauta inclui ainda a valorização da Participação nos Lucros e Resultados (PLR), reajustes maiores para os vales-refeição e alimentação e a elevação do piso salarial para o valor do salário mínimo necessário calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), atualmente estimado em R$ 7.999,44.
A reivindicação se dá em um setor marcado por lucros expressivos. Segundo dados apresentados pelo Comando Nacional nas negociações, os cinco maiores bancos brasileiros registraram lucro de R$ 124 bilhões em 2025. Entre 2003 e 2025, o lucro líquido dessas instituições teria crescido 178% acima da inflação.
Na outra ponta, os trabalhadores apontam uma deterioração da remuneração e das condições de trabalho. A massa salarial real dos bancários caiu 17% desde 2014, segundo os dados apresentados nas negociações. Entre 2019 e 2025, as despesas de pessoal dos bancos recuaram 15%, em um cenário que a categoria associa à redução de equipes, à intensificação das metas e ao aumento da pressão por produtividade.
É nesse contraste entre a rentabilidade do sistema financeiro e a realidade vivida nos locais de trabalho que Bento José, integrante da oposição bancária de São Paulo e do Movimento Esquerda Socialista (MES), situa a paralisação desta quinta-feira.
“Os bancários estão fazendo greve de 24 horas em todo o Brasil. Agências, prédios administrativos, centros tecnológicos, escritórios de negócios estão parados. Essa é a resposta da categoria à intransigência dos banqueiros e do governo. Os banqueiros lucram bilhões, mas cada vez exploram mais os trabalhadores. Os salários estão rebaixados, faltam funcionários, as metas e o ritmo de trabalho adoecem a categoria”, declarou.
Para Bento, a paralisação não deve ser encarada como um ponto final, mas como parte de um processo de mobilização para pressionar por mudanças nas negociações.
“As 24 [horas de greve] têm que ser o ensaio para uma greve geral dos bancários por prazo indeterminado. Somente desta maneira os bancários vão conseguir que suas reivindicações sejam atendidas pelos banqueiros e pelo governo Lula”, afirmou.
A retomada da ultratividade da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) também está entre as reivindicações. O mecanismo garantia a manutenção das condições previstas em um acordo coletivo enquanto uma nova convenção não fosse assinada, mas foi retirado pela Reforma Trabalhista de 2017. Os bancários defendem sua retomada, argumentando que a ausência da garantia amplia a pressão sobre a categoria durante o período de negociação, especialmente diante da proximidade da data-base, em 1º de setembro.
A Fenaban rejeitou a reivindicação e voltou a mencionar a possibilidade de levar a negociação ao Tribunal Superior do Trabalho (TST). Em nota, a entidade afirmou esperar um entendimento entre as partes: “A Federação Nacional dos Bancos, que representa há 34 anos os bancos nas negociações trabalhistas, recebeu, em 24 de junho, a pauta de reivindicações referente à campanha salarial deste ano. As negociações seguem o cronograma estabelecido, e esperamos, ao longo desse processo, alcançar um entendimento satisfatório para ambas as partes.”
Para sindicalistas, o recuo dos bancos sobre o congelamento do piso e o reajuste por faixas foi resultado da mobilização da expressiva categoria nas assembleias, que rejeitou de forma quase unânime o modelo proposto pela Fenaban e aprovou a greve do dia 20.
Com a paralisação, os trabalhadores buscam elevar a pressão sobre os bancos antes da próxima rodada de negociação. O movimento expõe uma disputa que vai além do índice de reajuste: envolve a distribuição dos resultados de um setor altamente lucrativo, a valorização do trabalho bancário e a defesa de condições menos precarizadas para uma categoria submetida a metas, pressão por produtividade e redução dos quadros de funcionários.


