Como a extrema direita tentou instrumentalizar a tragédia de Ceuta
Pelo menos 72 pessoas morreram ao tentar entrar no enclave. Há muitas desaparecidas. A extrema direita exultou com a “invasão” e tentou ligar isso ao processo de regularização de migrantes
Foto: Reprodução
Via Esquerda.net
O executivo espanhol assegura que se vive agora uma situação de “quase normalidade” e que a maioria das dezenas de milhares de pessoas que alcançaram Ceuta a partir de território marroquino nos últimos dias já regressou ao outro lado da fronteira e dá conta do alargamento da barreira marítima que dificulta a passagem e da colocação de vários barcos para impedir mais chegadas.
O seu balanço provisório indica pelo menos 72 mortes por afogamento na tentativa da travessia marítima. Há ainda quem esteja sem cuidados médicos passando fome. Há relatos de uma verdadeira “caça ao homem” e de maus tratos, noticiados pela RFI, e quem mostre os efeitos de bastonadas aos jornalistas do Libération. Já para não falar nos sonhos despedaçados de quem arriscou porque queria chegar a uma vida melhor. Muitos menores. E no desespero dos familiares que esperam notícias dos desaparecidos.
Insensível ao sofrimento, a extrema direita europeia arrasta a direita e esquece o que vivem e viveram os migrantes que atravessaram a fronteira. Todas as suas baterias estão apontadas para Pedro Sánchez. E de acordo com o jornalista Andrea Rizzi, do El País, a direita ficou até “hiperventilando de felicidade” com o sucedido.
Em Espanha, o PP segue a extrema direita
Alberto Núñez Feijóo, líder do PP, o maior partido da oposição, entrou em competição descarada com a extrema direita do Vox. Deslocou-se a Ceuta para falar de uma “Espanha invadida”, numa “ocupação premeditada e sem precedentes de um território”, lançando a dúvida de que o executivo saberia o que iria ocorrer: “não acredito que tenham falhado todas as forças de inteligência de um país”.
Também Santiago Abascal, líder do maior partido da extrema direita espanhola, se fez gravar a passear nas ruas do enclave governado por Espanha. E como quando um diz mata, outro diz esfola, igualmente falou numa invasão mas também num “ato de guerra”. E, como sabe que o PP não o pode fazer, acusou diretamente Marrocos. Para além da “militarização” da fronteira quer o primeiro-ministro no banco dos réus, acusando-o de “corrupto, mafioso e psicopata” e insinuando que é brando com Marrocos porque este país teria “provas” “que ainda desconhecemos” de uma sua alegada corrupção.
Este partido garante ainda nas suas redes sociais que o governo mente e que os migrantes continuam nas ruas de Ceuta enquanto os locais estão “aterrorizados sem poder sair de casa”.
Na competição à extrema direita quer entrar também o eurodeputado Alvise Pérez, do Se Acabó La Fiesta, e os neonazis do “Núcleo Nacional”. Ambos foram a Ceuta montar um número mediático mas enfrentaram resistência local, foram chamados “agitadores” e “cobardes” e ouviu-se “fora fascistas da nossa cidade”. Tentaram ir mudando de rua, mas os contra-manifestantes não desarmaram. O eurodeputado acabou por se resignar e apanhou o ferry de volta para Algeciras.
O ataque à regularização espanhola
Assim que se conheceu a crise humanitária, a extrema direita no poder em vários governos seguiu o instinto do aproveitamento político imediato e tratou de tentar ligar o que estava a suceder com o processo de regularização de migrantes espanhol que tinha nascido da mobilização da sociedade civil e sido imposto ao governo. Uma Iniciativa Legislativa Popular, assinada por 700 mil pessoas, levou o governo a ceder e a negociar com a sua esquerda um processo limitado.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a ministra do Interior da Finlândia, Mari Rantanen, e Donald Trump foram alguns dos titulares de cargos de Estado a tentar aproveitar-se politicamente, exaltando as suas medidas de perseguição comparativamente.
A primeira rapidamente colocou nas suas redes sociais uma imagem de migrante a correr nas ruas de Ceuta com a mensagem: “este é o modelo Sánchez de que a esquerda italiana gosta tanto”.
Do outro lado do oceano, a porta-voz do presidente dos EUA, Anna Kelly, declarou que este “tem vindo a advertir há muito tempo a Europa do que iria acontecer se a Europa continuasse a aplicar políticas globalistas de extrema esquerda, entre as quais as que facilitam a imigração massiva”. E o próprio declarou à Fox News que “o mesmo vai-nos acontecer se não forem eleitos os republicanos só que pior, numa escala maior”.
Claro, o processo de regularização de migrantes em Espanha decorreu entre 16 de abril e 30 de junho, regularizou até ao momento cerca de 11.000 pessoas que viviam há muito anos no país e não se aplica a quem agora entre no país sem documentos.
A retórica da “invasão” e a manipulação do medo
Ligado a este tema, não podia deixar de ser agitado o fantasma da “invasão do Ocidente”. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, agradeceu na sua conta a Deus por Trump ter sido eleito e “a nossa fronteira já não se parecer assim”, também ele associando as políticas do social-liberal Pedro Sánchez a “políticas das extrema esquerda radical globalista que permitiram a Invasão do Ocidente”.
Mas a exploração do medo foi também feita pelos partidos de extrema direita que não estão no poder. Alice Weidel, da AfD, exigiu que o seu país implementasse imediatamente uma restrição da naturalização, uma agilização de deportações e que se endurecessem as condições para aceder a asilo político.
Marine Le Pen, por seu turno, veio dizer que a França deve reforçar o controlo de fronteiras. E o seu número dois, Jordan Bardela, foi mais um dos que fez a ligação com o processo de regularização de “centenas de milhares de clandestinos” que teria “aberto as portas da Europa a todos os perigos”, sendo o sucedido por estes dias em Ceuta o “resultado” disso. Como outros dos seus parceiros, agitou o fantasma de chegada desses migrantes à França: “eles estarão amanhã nas nossas ruas contra a vontade do povo francês”.
No Reino Unido, Nigel Farage, líder do Reform U.K., fez o mesmo, assegurando que estes migrantes, “muitos deles perigosos”, avaliou, não só chegariam à costa francesa como iriam atravessar o canal da Mancha. Tal só poderia ser travado, com o governo do seu partido. Na rede social X escreveu ainda: “isto é uma invasão. É tempo de acordar”.
Em Portugal, André Ventura, chefe do Chega, seguiu a mesma cartilha, dizendo sem provar que “muitos” dos que entraram agora em Ceuta são “criminosos”. Também ele escreve nas suas redes sociais que “Portugal vai necessariamente ser afetado”.
O ultra-direitista publicou ainda uma imagem com uma tentativa de ironizar com o alegado assalto do seu gabinete parlamentar na qual escreve “ouvem-se os políticos e as autoridades a dizer que é preciso fechar os gabinetes e trancar as portas. Mas acham bem deixar as fronteiras abertas a toda a escumalha que queira entrar…”
De Schengen como arma de arremesso ao pretexto para “endurecer” ainda mais políticas migratórias
A suspensão do tratado europeu de “livre circulação” de pessoas, o tratado de Schengen, face a supostas consequências que chegassem ao seu território foi outra das armas de arremesso neste confronto. Meloni anunciou-o desde logo a 31 de julho para “salvaguardar a segurança nacional e prevenir possíveis repercussões para a nossa nação”. O governo finlandês fez o mesmo a seguir.
Só que, como tem sido recordado amplamente por muitos meios de comunicação social, a Ceuta e Melilla continuam a aplicar-se os controlos de fronteiras. Ou seja, seria impossível estes migrantes utilizarem o tratado para chegarem àqueles países.
Itália e Dinamarca (que tem um governo liderado por sociais-democratas mas com políticas migratórias semelhantes às da extrema-direita) quiseram aliás ir mais longe e expulsar, ou suspender sem prazo, Espanha do espaço Schengen (sem base de acordo com o próprio pacto assinado pelos países). Andrej Babis, da República Checa, juntou-se-lhes.
Estes dois primeiros países são vistos como líderes por detrás da carta de 22 países que apontam ao processo de regularização espanhol, exigem mão dura contra a imigração, blindagem de fronteiras face ao sucedido e mais dinheiro público para este efeito.
Assinam ainda o documento os governos da Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Chipre, República Checa, Estónia, Finlândia, Grécia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Países Baixos, Polónia, Roménia, Eslováquia, Eslovénia e Suécia.
O primeiro-ministro espanhol respondeu de forma indireta também pelas redes sociais escrevendo que “a solidariedade e a empatia são opcionais” mas “o respeito aos tratados europeus e os dados não”. Acrescentando estes: “Número de entradas irregulares entre 2021 e 2026, segundo a Frontex: Via Itália: 478.600; Via Balcãs Ocidentais: 340.600; Via Grécia: 259.800; Via Espanha: 234.760; Via fronteira leste: 48.000.”