OMS alerta para avanço sem precedentes do ebola
Surto na República Democrática do Congo já matou mais de 2,3 mil pessoas, e Organização Mundial da Saúde teme disseminação para países vizinhos
Foto: Reprodução
O surto de ebola que atinge a República Democrática do Congo (RDC) avança em ritmo sem precedentes e representa um risco elevado de disseminação para outros países, alertou nesta terça-feira (18) o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. A epidemia já provocou mais de 2.300 mortes entre quase 5 mil casos, tornando-se a mais letal da história recente da doença no país.
“Precisamos ser francos: a epidemia está longe de estar sob controle”, afirmou Tedros durante uma reunião de emergência da OMS. “Ela teve uma grande vantagem inicial, e ainda estamos tentando alcançá-la.”
Declarado oficialmente em 15 de maio, o atual surto provavelmente já estava em circulação havia semanas. O vírus alcançou regiões do norte e do leste da RDC marcadas pela fragilidade da infraestrutura de saúde, presença limitada do Estado, conflitos armados e intenso deslocamento da população.
O cenário dificulta o rastreamento das cadeias de transmissão e a oferta de atendimento médico. Segundo Tedros, o surto “está sendo alimentado pela insegurança e pelo deslocamento de pessoas, além da intensa movimentação populacional por estradas, rios e rotas de mineração”.
Velocidade preocupa autoridades
O vírus do ebola é transmitido principalmente pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infectadas e pode provocar uma grave febre hemorrágica. Segundo a OMS, o atual surto “está avançando mais rapidamente do que qualquer surto anterior de Ebola”.
A dimensão do avanço aparece na comparação com outras epidemias. Três meses após a declaração do surto, a RDC havia registrado sete vezes mais casos e cinco vezes mais mortes do que nos primeiros três meses da maior epidemia de ebola já registrada, que atingiu a África Ocidental entre 2013 e 2016 e matou mais de 11.300 pessoas, principalmente na Libéria, em Serra Leoa e na Guiné.
Na própria RDC, o surto de 2018 a 2020, até então o mais letal registrado no país, matou 2.299 pessoas entre 3.381 casos confirmados. O atual episódio já ultrapassou esse número de mortes.
Esta é a segunda reunião do comitê de emergência da OMS desde que a organização classificou o surto, em maio, como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, um dos níveis mais elevados de alerta da entidade.
Risco ultrapassa as fronteiras
A preocupação não se restringe ao território congolês. A OMS classifica atualmente o risco à saúde pública como “muito alto” na RDC e “alto” em Uganda e outros países vizinhos. Para o restante da África e para outras regiões do mundo, a avaliação é de risco “baixo”.
Já foram identificados casos em seis províncias congolesas, inclusive em áreas próximas à fronteira com o Sudão do Sul, além de registros em Uganda.
“O risco de uma maior disseminação nacional e internacional continua alto”, afirmou Tedros.
A situação é agravada pelo fato de que não existe atualmente vacina ou tratamento específico para a cepa Bundibugyo, responsável pelo surto. Ensaios clínicos, entretanto, estão em andamento.
Mortes fora do radar
Para a OMS, um dos maiores problemas está justamente nas mortes que acontecem longe dos centros de atendimento e dos mecanismos oficiais de vigilância.
“A minha maior preocupação é onde as pessoas estão morrendo: em casa, em suas comunidades, fora dos centros de tratamento e fora das listas de contatos conhecidos”, disse Tedros.
“Cada morte desse tipo aponta para uma cadeia de transmissão que ainda não encontramos”, acrescentou. “Até que todas as cadeias sejam encontradas e interrompidas, a epidemia continuará.”
A organização tenta, por isso, descentralizar a resposta e aproximar os serviços de saúde das comunidades afetadas. Entre as medidas está o reforço da proteção e da participação dos mototaxistas que transportam pacientes, incorporando-os aos sistemas de vigilância epidemiológica.
Para Thierno Balde, especialista da OMS, ampliar a resposta e levá-la para mais perto das comunidades é essencial para conter a transmissão. Ainda assim, a organização não consegue estabelecer uma data para o controle da epidemia.
“A OMS e seus parceiros esperam observar um impacto da ampliação da resposta nos próximos meses, mas não podem estabelecer um prazo para quando a epidemia estará sob controle”, afirmou.
O avanço do ebola na RDC evidencia, mais uma vez, como conflitos, deslocamentos forçados, pobreza e sistemas públicos de saúde fragilizados podem transformar surtos locais em emergências de grandes proporções. A velocidade da atual epidemia aumenta a pressão sobre as autoridades congolesas e sobre a comunidade internacional para ampliar rapidamente os recursos destinados à vigilância, ao atendimento e à prevenção.