Parlamentares do PSOL-DF pedem investigação de Celina por caso Vorcaro
Mensagens atribuídas ao ex-banqueiro sobre a atuação da governadora nas tratativas do Master com o BRB levam oposição a cobrar investigação e responsabilização; Fábio Felix pede apuração pela PGR
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
A divulgação de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro colocou a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), no centro da crise envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Diante dos novos elementos, deputados da oposição na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) anunciaram medidas para investigar a eventual participação da governadora nas negociações que envolveram o banco público e a instituição de Vorcaro.
Na terça-feira (15), o deputado Gabriel Magno (PT) anunciou o protocolo de um pedido de abertura de processo de impeachment contra Celina por crime de responsabilidade. A iniciativa veio após a divulgação, pela Folha de S.Paulo, de mensagens trocadas em 2025 entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda. Na conversa, o ex-banqueiro afirma que Celina, então vice-governadora, participou das tratativas para a aquisição do Master pelo BRB.
A governadora nega. Celina sustenta que nunca participou das negociações e afirma que sempre foi contrária à operação. Em manifestação divulgada após a reportagem, o governo do DF disse que “não é verdade que a governadora tenha participado de qualquer tipo de negociação”.
Para Magno, entretanto, as mensagens precisam ser investigadas pela CLDF.
“Nós estamos protocolando o pedido de impeachment da governadora Celina Leão. Ela não tem nenhuma condição moral ou política de continuar governando essa cidade. É muito grave as mensagens que vêm a público colocando a governadora no meio e no centro do processo criminoso, o maior escândalo de corrupção da história dessa cidade”, afirmou.
A representação sustenta que as mensagens atribuídas a Vorcaro devem ser analisadas em conjunto com outros elementos relacionados às operações entre o BRB e o Banco Master. O documento também cita pagamentos que somariam R$ 1,4 milhão da Real JG Facilities para a Faceng Engenharia, ligada à família de Celina, além de uma relação patrimonial privada de R$ 500 mil envolvendo a governadora e um dirigente de empresa concessionária do transporte público do DF.
O pedido de impeachment ressalta que a representação não pretende antecipar uma conclusão sobre eventual responsabilidade de Celina, mas abrir espaço para a produção e análise das provas. “A denúncia deve ser recebida não porque a conclusão já esteja pronta, mas porque os documentos apresentam matéria juridicamente apta a ser submetida à instrução constitucional”, afirma o texto.
Fábio Felix leva caso à PGR
A oposição também levou o caso ao Ministério Público Federal. O deputado distrital Fábio Felix (PSOL) entregou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma representação pedindo a abertura de procedimento investigatório contra Celina.
O documento solicita que sejam apurados eventual conhecimento prévio, participação, influência ou interferência da governadora nas operações entre o BRB e o Banco Master. Também pede investigação sobre possíveis vínculos, comunicações e relações de interesse entre integrantes do governo do DF, dirigentes do BRB, Vorcaro e outros personagens citados nas investigações.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Fábio Felix afirmou que o caso não pode ser tratado apenas como uma disputa política em ano eleitoral:
“Qualquer pessoa envolvida nesse caso tem que ser investigada, especialmente os agentes políticos do DF que fizeram do BRB a pior vítima nacional desse escândalo de corrupção e querem que a população do DF pague essa conta. Isso nós não podemos tolerar e a população do DF pede justiça”, disse.
A manifestação ocorre em meio ao agravamento da crise financeira do BRB. Relatório do Banco Central apontou um rombo potencial de R$ 11,4 bilhões decorrente das operações com o Master, valor superior aos R$ 8,8 bilhões considerados pelo governo do Distrito Federal. A Polícia Federal, por sua vez, identificou cerca de R$ 17,5 bilhões em operações envolvendo o BRB e o Master, segundo informações divulgadas nesta semana.
A dimensão do problema aumenta a pressão sobre o governo do DF, que tenta viabilizar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões para enfrentar a crise do banco público. O pedido enfrenta obstáculos e depende de garantias e manifestações de diferentes instituições.
“Não ficou de fora”, diz Max Maciel
O deputado Max Maciel (PSOL) também contestou a versão de que Celina teria permanecido distante das negociações por ocupar o cargo de vice-governadora durante o período em que o negócio foi construído.
“Não ficou de fora, não. Isso aí é jogo para se preservar na política. A população do Distrito Federal pode estar sendo enganada na véspera da eleição. Porque a governadora, de certa forma, finge que não fazia parte do governo Ibaneis, que ela era vice-governadora eleita, ela finge que não era parte do projeto político que afundou o Banco de Brasília”, afirmou.
As mensagens divulgadas pela Folha não constituem, por si só, uma comprovação da participação de Celina na negociação. A reportagem registra que não há, no material divulgado, diálogos diretos entre Vorcaro e a governadora. O conteúdo, contudo, contradiz a versão pública de que ela teria ficado completamente fora das tratativas e passou a ser usado pela oposição como fundamento para pedir investigação.
Oposição também quer revogar autorização para empréstimo
Além do pedido de impeachment, Gabriel Magno apresentou o PL 2.482/2026, que propõe revogar integralmente a Lei nº 7.845/2026, responsável por autorizar medidas de fortalecimento financeiro do BRB, incluindo uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões.
Na justificativa, o parlamentar argumenta que as informações disponíveis quando a lei foi aprovada foram superadas por dados posteriores das investigações. O texto questiona se o valor autorizado pelo Distrito Federal seria suficiente diante das perdas apontadas no caso Master e cobra uma conciliação auditável entre as estimativas de prejuízo, a necessidade de capitalização e o endividamento público.
Durante a sessão, Magno também criticou as declarações de Celina sobre o tamanho do problema enfrentado pelo BRB:
“A Celina está mentindo desde o dia em que assumiu o governo do Distrito Federal. Porque ela disse que o empréstimo de R$ 6,5 bilhões resolve o problema do BRB. Mentiu. Mentiu porque o relatório da Polícia Federal traz à tona operações entre o BRB e o Banco Master. […] O relatório complementar da Polícia Federal aumenta o valor para mais de R$ 20 bilhões”, declarou.
A crise do BRB ganhou novas dimensões nesta semana. Além das investigações sobre as operações com o Master, o banco afastou cinco funcionários, incluindo dois ex-diretores, em meio às apurações internas sobre as transações. Segundo a Folha, R$ 21,9 bilhões em carteiras adquiridas do Master apresentam indícios de irregularidades em parte significativa das operações.
Procurada, a assessoria de Celina Leão informou que não comentaria o pedido de impeachment nem a representação apresentada por Fábio Felix à PGR.