A estética da porrada
O partido Missão tenta captar o ambiente redpill e disputar a hegemonia entre a juventude
Imagem: Amanda Miranda
Renan Santos desfila com um colete à prova de balas. Estreou sua campanha no Largo São Francisco com esse figurino. Compatível com o conjunto do seu repertório.
A alusão a violência serve como prédica e como alerta de que pode ser uma vítima ou um alvo. Seu discurso é marcado pela apologia à violência, especialmente em relação aos mais pobres.
Isso não é um detalhe. A estética da candidatura de Renan, a estética do seu partido, Missão, é cuidadosamente pensada como parte de uma estratégia imagética e comunicacional.
Tal qual o futurismo italiano ou o cuidado estético que tinha o integralismo brasileiro nos anos 30, o Missão quer comunicar algo muito profundo. Quer ser vanguarda, apoiando-se num certo formalismo descolado: seu líder se perfila como um “band leader” interpretando Dylan, para impor um conteúdo extremamente grotesco e violento. Uma embalagem que escapa ao rudimentar que há no clã, para agitar bandeiras ainda mais reacionárias.
Direto da machosfera
Na mesma semana em que Renan lançou sua campanha, chamou a atenção a detenção de uma figura central na extrema direita internacional. Fernando Cerimedo foi preso na Bolívia, acusado de tramar um atentado contra a vida de sua ex-namorada. Cerimedo repetiu uma gestualidade comum na extrema direita, bem como trajado todo tempo com um colete à prova de balas.
Dono e ideólogo do site “Direita Diário”, Cerimedo é uma espécie de símbolo dessa nova geração da extrema direita, interessada em disputar espaço na geração Z. Foi assessor direto de Milei, agora está ladeando a direita na Bolívia, além de manter boas relações com o clã Bolsonaro.
Tais personagens recordam a relação entre extrema direita e misoginia tão bem descrita na trilogia “Milenium”, ficção literária crítica que fez muito sucesso com os livros de Stieg Larson, “Os homens que não amavam as mulheres”.
É com essa estética que o Missão tenta captar o ambiente redpill e disputar a hegemonia entre a juventude. Um perigoso projeto de futuro.
Normalização perigosa
A estratégia “gramsciana” do Missão inclui a tática de “aproximações sucessivas”. Ou seja, a partir de um conjunto de iniciativas, busca se instalar e normalizar sua prática política.
A partir da demonização da esquerda, de Lula, do STF e das instituições da Nova República, vão se instalando com todo seu programa. Não é um detalhe, porque busca ao mesmo tempo coexistir e disputar no ecossistema da extrema direita. E vejamos que, a extrema direita, no âmbito internacional, apesar das derrapagens de Trump, segue sendo resiliente e se fortalecendo, como no caso da vitória da AfD na eleição regional da Saxônia-Anhalt, na Alemanha.
O chamado de Renan é para um “ultraliberalismo” de combate, agitando de forma midiática propostas polêmicas, que superem pela direita o “tesouraço” de Flávio Bolsonaro. Se inspira no ultraliberalismo predatório de Milei, no punitivismo de choque do salvadorenho Bukele.
O neofascismo está presente nas proposta: a violência contra povo é explicita, com a declaração de estado de exceção nas favelas.
Embate aqui, agora e depois
Replicando os novos anos 30, o Missão tenta ser uma alternativa como foi o integralismo no passado, reparando numa estética sofisticada. Inúmeros poetas e escritores vanguardistas abraçaram as ideias da Ação Integralista Brasileira. Nisso difere da pegada “tosca” ou mais vulgar que expressou o bolsonarismo em sua chegada.
O crescimento de Cury conteve um pouco o Missão, que ainda está longe de alcançar seus objetivos, apesar de oscilar entre 3 e 6% em pesquisas de opinião. Ainda segue tentando seduzir parcelas amplas da juventude, cruzando o umbral da cláusula de barreira. Sua estratégia é de longo prazo, visto que já convocaram um congresso do MBL, com pompas e circunstâncias, para depois das eleições.
Quanto maior o risco, maior a necessidade de combate. Agora, eleitoral e socialmente, derrotar os redpills, seu programa e seguir disputando os melhores corações e mentes da juventude brasileira. É a tarefa inadiável da esquerda anticapitalista. E enfrentar, derrotando em toda linha, a estética e a ética da porrada, alimento central para os apoiadores do projeto Missão.