Notas sobre um primeiro de maio: espelho de um mundo em transição
As manifestações do 1 de maio, no Mundo e no Brasil, foram uma fotografia, pelas presenças e ausências de um mundo em transição
As mudanças, conjunturais e estruturais que estão em curso, atingem diretamente à classe trabalhadora; a organização de atos potentes ao redor do Planeta é um sintoma de que há força para ser organizada; a debilidade da data em solo nacional alerta para os problemas que assolam a esquerda brasileira.
I
Passados 140 anos do marco histórico, da grande greve de Chicago, as necessidades da classe trabalhadora seguem mais atuais que nunca. Repousa sobre nossa classe responsabilidades ainda superiores: diante da catástrofe que aflige o Planeta, do ponto de vista social, e agora, a ameaça ambiental, apenas a classe trabalhadora em sua condição múltipla e plural, feminina, diversa e racializada, pode arrastar o conjunto das camadas populares para enfrentar o capitalismo em sua fase/face mais violenta.
E não por acaso, e agora, não só em Chicago, é a classe trabalhadora estadunidense que está a frente da recomposição da força ideológica, subjetiva e material das trabalhadoras e trabalhadores. A grande novidade do 1 de maio – na esteira do processo que teve como ponto alto a luta de Minneapolis que expulsou o ICE e investiu na auto-organização da sociedade e do desgaste do governo Trump- foi a celebração de centenas de concentrações nas cidades dos Estados Unidos. Vale recordar que a greve geral é ilegal e não existe tradição nas últimas quatro décadas de manifestações de 1 de maio nas maiores cidades estadunidenses.
Também na Asia, Europa e África, dentre várias partes do mundo tivemos manifestações como o da Turquia com enfrentamentos – nosso camarada, Erkan Bas, presidente do Partido dos Trabalhadores da Turquia, foi uma referência contra a repressão policial.
Na América Latina, destaque para dois países, Colômbia e Argentina, que estão na vanguarda da luta contra a extrema direita.
Na Argentina, tivemos quatro atos: uma marcha da CGT, que como parte do sindicalismo burocrático, moveu importantes setores, prometendo escalar a luta contra Milei, sem, entretanto, colocar uma data para greve geral; uma plenária com milhares de ativistas sindicais, levada a cabo pela Frente Sindical Unidade (Fresu), que começa a agrupar setores sindicais mais combativos; e dois atos da esquerda radical, que infelizmente divididos, juntaram 10 mil pessoas. O peso da esquerda cresce na Argentina, o que torna a divisão ainda mais trágica. Na histórica Praça de Maio, o MST, junto a outros setores, conclamou a unidade.
Na Colômbia, um multitudinário ato, com a presença do candidato a presidente da esquerda, Ivan Cespeda, apontou como única saída para termos medidas progressivas, a mobilização e a organização popular. Essa aposta de Petro e do Pacto Histórico é decisiva para seguir os próximos passos. A dirigente do PSOL e da Fundação Lauro Campos, Mariana Riscali, esteve lá acompanhando o processo.
II
O Brasil esteve na contramão desse processo internacional.
Mesmo com a pauta quente da redução da jornada de trabalho estar polarizando o debate da sociedade, não se viram grandes atos e passeatas ao redor do 1 de maio.
Chegamos ao cúmulo da maior central sindical do país, a CUT, não realizar atos nas capitais do país; na maior cidade do país, São Paulo, o que se viu foi dispersão e atos pequenos e sem peso político. O Ato da Força Sindical, com figuras como Haddad e Marina Silva juntou cerca de 700 pessoas na sede da entidade, longe dos cerca de 4 mil esperados. Uma cena patética de “políticos” convencionais sem qualquer apelo à luta.
E isso num quadro onde mais de 70% da população, segundo estimativas, apoiam a proposta de derrubar a escala 6×1, tema que pautou as redes e as ruas, correndo por fora das tradicionais estruturas sindicais.
De outra parte, o PT e o governo, acumulam derrotas políticas, perdendo terreno político para os bolsonaristas: Lula acaba de ter uma derrota importante no senado com a recusa de sua indicação de Jorge Messias para o STF; foi seguida da aprovação do projeto de lei que reduz a pena para os golpistas, conhecido como PL da “dosimetria”.
O que se esperava diante desse quadro era que os atos de 1 de maio pudessem se converter em manifestações com dezenas de milhares, unindo todas as centrais sindicais, artistas, figuras de rede, num movimento cívico e democrático para derrubar a 6×1, tal qual foram campanhas nacionais como “Diretas já”, “Fora Collor” ou a luta contra Bolsonaro durante 2020/2021.
A omissão das centrais, o chamado “quietismo” do governo de Lula e do PT cobra e cobrará um preço.
III
O mundo está mudando e rápido. As transições com IA, Trump a guerra do Irã, seus desdobramentos – o rearme nos países centrais – são os elementos mais nítidos dessa transição.
As novas necessidades da nova classe trabalhadora vão se chocar contra a sanha dos patrões em controlar cada vez mais a vida social e o próprio trabalho. Manifestos como os da Palantir de Peter Thier indicam a unidade entre o neofascismo, a necessidade de ampliar a exploração dos trabalhadores e o circulo vermelho das grandes bightechs.
O genocídio contra a Palestina e o Líbano é a realização no “terreno” dessa obra de destruição, que agora persegue os organizadores da Global Summud Flotilha.
E é justamente, a solidariedade à Flotilha e um novo e incipiente movimento internacionalista contra a guerra e a bárbarie que começa a se levantar, que aponta a esperança de um mundo em transição.
E esteve presente, ainda em germe, no 1 de maio, mundo afora. Um novo internacionalismo que se gesta.
IV
Sobre a centralidade da luta de classes.
Dois setores, curiosamente, estão colocando fichas na ideia de que a “luta de classes” move a história. Por um lado, a retomada de fenômenos pela esquerda, ainda minoritário, mas que se combina com um programa “incipiente”, onde entre o tema ambiental e a solidariedade anti-imperialista/internacionalista
Também a extrema direita aposta, com seu techno- fascismo, em algo ainda mais forte: mais que a “luta de classes” aposta numa guerra de classes, para destruir em função de construir não só uma proteção as castas- o pilar da democracia liberal- mas um “círculo restrito” de eleitos. Até seus projetos mais extravagantes, como as expedições espaciais, com Musk a frente, carregam essa definição seletiva e de proteção aos grandes bilionários.
A “ameaça fascista”, portanto, apresenta-se como uma resposta às crises conexas do mundo capitalista, como definiu Safatle em seu novo livro, não sendo possível entendê-la como um corpo estranho das chamadas democracias liberais senão como uma resultante delas e das enormes frustrações que elas acumularam. Essa definição é importante porque assumi-la significa entender que só é possível derrotar em definitivo o fascismo superando a ordem atual.
V
No Brasil, depois das duras derrotas impostas ao governo Lula, isto é, o veto a indicação ao STF e a dosimetria, abriu-se um momento mais crítico. Mas também as recentes revelações do Caso Master, que colocam o Senador Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, no centro dos holofotes, evidenciam a crise de legitimidade do regime político brasileiro.
Diante dos impasses nacionais, que também estão profundamente contagiados pela situação internacional, é necessário apostar decididamente na mobilização social impulsionada por um programa básico de reivindicações, como o fim da escala 6×1.
A mobilização que está se prevendo para o final de maio deve ser construída e estimulada. Algumas lutas “moleculares’ indicam o caminho por percorrer: a greve estudantil da USP, com ocupação da reitoria; a preparação da greve do metro de SP; as greves dos municipais de BH e SP; a greve dos técnicos das universidades federais que já dura meses; a batalha dos entregadores que paralisaram grandes cidades há algumas semanas.
Não há saída sem colocar a classe trabalhadora, em todas as suas determinações, a nova classe trabalhadora, real e contemporânea, em movimento, diante da catástrofe que já nos ameaça.