O que é Neofascismo?
O fascismo não deve ser compreendido como desvio ou exceção, mas como uma forma historicamente situada de resposta às crises do capitalismo
Foto: Manifestação bolsonarista em Santa Catarina contesta as eleições em 2022. (EA/Reprodução)
Partimos de uma experiência concreta e recente. A dificuldade de nomear a extrema direita e as políticas que vêm sendo implementadas em todo o mundo por esse setor tem deixado, não raras vezes, setores progressistas paralisados. Diante desse impasse, na conferência antifascista que realizamos, lançamos o primeiro número da revista Retomada, organizado em torno de um dossiê cujo título não deixa margem para ambiguidades: “O nome é Fascismo”. Ao nomear dessa forma o eixo central da revista, afirmamos uma posição política diante do nosso tempo. Falamos de fascismo porque ele voltou a se colocar como um problema real, presente e atuante, não como repetição mecânica do passado, mas como possibilidade inscrita nas contradições do presente.
Esse ponto de partida nos obriga, desde já, a enfrentar uma ideia amplamente difundida: a de que o fascismo pertence ao passado, mais especificamente à década de 1920 e 1930, como um fenômeno excepcional associado a circunstâncias irrepetíveis. Essa leitura, ao confiná-lo a um episódio encerrado, cumpre uma função ideológica precisa: impede que o reconheçamos em suas metamorfoses atuais. Ao transformá-lo em peça de museu, neutraliza-se sua dimensão política ativa e obscurecem-se os mecanismos que permitem sua reatualização.
Nosso ponto de vista segue outra direção. O fascismo não deve ser compreendido como desvio ou exceção, mas como uma forma historicamente situada de resposta às crises do capitalismo. Longe de representar uma ruptura com o sistema, ele opera como um de seus possíveis rearranjos em momentos de instabilidade aguda. É nesse contexto que ganha sentido: quando as instituições liberais deixam de oferecer mediações eficazes e já não conseguem administrar as tensões sociais que estruturam a própria ordem que sustentam.
Esse é o ponto central que orienta esta reflexão. As democracias liberais, sobretudo no capitalismo ocidental, foram historicamente capazes de administrar conflitos por meio de mecanismos de mediação, como eleições, parlamentos, direitos formais e políticas públicas. No entanto, essas mediações dependem de determinadas condições materiais e simbólicas para se sustentarem. Quando essas condições se deterioram, como ocorre em contextos de crise econômica prolongada, aumento da desigualdade, precarização do trabalho e esvaziamento da representação política, as instituições passam a perder legitimidade.
É nesse terreno que se abre espaço para soluções autoritárias. Quando a política deixa de oferecer respostas concretas às angústias sociais, cresce a disposição para formas de mobilização que operam fora dos marcos tradicionais da democracia liberal. O fascismo, nesse sentido, não substitui simplesmente um regime por outro. Ele reorganiza a própria lógica da política. Em vez da mediação, propõe a mobilização direta das massas. Em vez da universalidade abstrata dos direitos, afirma identidades excludentes. Em vez do conflito social mediado, constrói inimigos a serem eliminados.
A força desse projeto reside justamente na sua capacidade de operar no plano da subjetividade social. Ele não se limita à repressão ou à suspensão de garantias institucionais. Atua, sobretudo, na produção de sentido. Canaliza frustrações difusas, reorganiza percepções e constrói pertencimentos baseados no medo, no ressentimento e no ódio. Ao fazê-lo, desloca o eixo do conflito. Em vez de dirigir a crítica às estruturas que produzem a desigualdade, direciona-a contra grupos específicos, convertidos em responsáveis pela crise.
No capitalismo contemporâneo, esse processo assume formas particulares. A reestruturação produtiva, a financeirização da economia e a crise das formas tradicionais de trabalho aprofundaram a insegurança social em larga escala. Ao mesmo tempo, as instituições políticas mostraram-se incapazes de oferecer respostas à altura desses desafios. Em muitos casos, limitaram-se a administrar a crise dentro dos marcos existentes, reforçando a percepção de que não há alternativas reais. Esse esvaziamento do horizonte político cria um terreno fértil para o avanço da extrema direita.
A extrema direita contemporânea se apresenta, frequentemente, como força antissistêmica. No entanto, essa aparência esconde sua função real. Não se trata de romper com o sistema, mas de reorganizá-lo sob novas bases. Ao mobilizar setores sociais descontentes, constrói uma base de apoio que combina elementos heterogêneos, desde frações do capital até segmentos precarizados da classe trabalhadora. Essa articulação não se dá em torno de um projeto de transformação estrutural, mas de uma agenda que mistura autoritarismo político, conservadorismo moral e nacionalismo excludente.
O elemento decisivo aqui é a relação entre crise e mobilização. O fascismo não surge apenas porque há crise, mas porque a crise não encontra outros projetos. Quando as forças que se colocam como alternativa não conseguem disputar o senso comum nem oferecer um horizonte de transformação, abrem espaço para soluções regressivas que prometem ordem, pertencimento e estabilidade.
É a partir dessa constatação que se define o caráter deste texto. Não buscamos aqui realizar uma análise acadêmica exaustiva, que demandaria um tempo de elaboração incompatível com a urgência da conjuntura. O fenômeno que enfrentamos está em curso, em transformação, e exige respostas que articulem reflexão e ação. Nosso objetivo é mais delimitado e, ao mesmo tempo, mais imediato. Estabelecer paralelos, identificar padrões e definir parâmetros que contribuam para armar a militância antifascista no enfrentamento do nosso tempo.
Esse é o esforço que o MES tem acumulado através de experiências e reflexões que buscam contribuir para essa tarefa. Os trabalhos recentes desenvolvidos por Roberto Robaina (2025), em “A Ascensão da Extrema Direita e o Freio de Emergência”, e por Luciana Genro (2024), em “A Alemanha da Revolução ao nazismo: reflexões para a atualidade”, são expressões mais acabadas desse processo. Mais do que análises isoladas, constituem esforços de elaboração coletiva que procuram compreender o fenômeno em sua complexidade e, ao mesmo tempo, extrair dele lições estratégicas para a ação.
Este texto não pretende esgotar o tema, nem oferecer uma síntese definitiva. Busca, de forma mais direta, reunir elementos que ajudem a formar a militância e a consolidar alguns consensos políticos indispensáveis para orientar o enfrentamento à extrema direita no presente.
A modernização reacionária
Um erro comum ao analisar as formas atuais de autoritarismo é tratá-las como algo estranho à democracia ou como um retorno ultraconservador a um mundo do passado. Essa leitura pode até parecer convincente, mas não dá conta do problema. O que vemos hoje não é a simples volta de formas antigas, e sim o surgimento de uma nova maneira de reorganizar a sociedade capitalista em meio à crise. É nesse sentido que propomos entender o momento atual a partir da ideia de modernização reacionária.
Ao contrário de leituras que opõem modernidade e reação, o que observamos é sua combinação dialética. A extrema direita não rejeita a modernidade; ela a reorganiza. Incorpora suas formas institucionais, seus dispositivos técnicos, seus mecanismos de mobilização e comunicação, ao mesmo tempo em que reconfigura seu conteúdo político em direção a formas mais autoritárias, hierárquicas e excludentes de organização social. Essa síntese não é contingente. Ela emerge de um processo mais amplo, marcado por uma crise estrutural que atravessa o mundo do trabalho, as formas de representação política e a própria legitimidade das instituições.
Partimos, assim, de um primeiro elemento fundamental: a transformação da crise em princípio organizador da política. Não se trata apenas de crises episódicas, mas de uma condição estrutural que reconfigura permanentemente as formas de governabilidade. Nesse contexto, aquilo que outrora era concebido como exceção tende a se tornar regra. A suspensão de direitos, a flexibilização de garantias e a ampliação do poder coercitivo do Estado deixam de ser respostas extraordinárias e passam a integrar o funcionamento ordinário das democracias contemporâneas. A exceção não interrompe a norma; ela a constitui.
Essa transformação tem implicações profundas. Ao naturalizar a exceção, a ordem democrática passa a operar sob uma lógica autoritária internalizada. O Estado não abandona suas formas legais; ele as utiliza para legitimar práticas que corroem seu próprio conteúdo. Trata-se, porém, de um movimento com direção: essas mudanças não são apenas defensivas, mas participam da construção de uma nova ordem, capaz de garantir os novos padrões de acumulação e preservar os ganhos dos setores mais dinâmicos do capitalismo contemporâneo. É nesse ponto que algumas leituras se perdem ao falar em “tecnofeudalismo”, como se estivéssemos diante de uma ruptura com o capitalismo, quando, na realidade, o que se observa é sua reconfiguração sob novas condições. O autoritarismo, nesse sentido, não se impõe apenas pela ruptura, mas pela continuidade: infiltra-se nas instituições, reconfigura seus usos e redefine seus limites.
O deslocamento fundamental que caracteriza o neofascismo contemporâneo pode ser apreendido justamente na forma como ele se relaciona com as instituições democráticas. Diferentemente do fascismo clássico, que se afirmou como ruptura aberta e violenta com a ordem liberal, o neofascismo tende a operar por dentro dela, preservando suas formas enquanto transforma seu conteúdo. Trata-se de uma estratégia que não busca, ao menos em um primeiro momento, a derrubada revolucionária do regime, mas sua reconfiguração progressiva. Como aponta Álvaro Bianchi e Roberto Robaina, a ideologia pós-fascista abandona seu impulso abertamente insurrecional e assume um caráter reformista, aderindo formalmente às regras do jogo ao mesmo tempo em que trabalha para esvaziá-las. A democracia não é destruída de imediato; ela é corroída, tensionada e reprogramada para servir a um projeto autoritário.
Esse reformismo autoritário se expressa em uma dinâmica específica de poder. Ao invés de suspender frontalmente a legalidade, o neofascismo a instrumentaliza, convertendo dispositivos institucionais em ferramentas de exceção permanente. Ele amplia prerrogativas do Executivo, tensiona os limites do Judiciário, captura órgãos de controle e transforma o Legislativo em arena de legitimação de medidas regressivas, tudo isso sem necessariamente romper com a aparência de normalidade institucional. Ao mesmo tempo, mobiliza permanentemente sua base social contra essas mesmas instituições, criando um movimento duplo de utilização e desgaste. O resultado é um processo cumulativo em que a democracia continua existindo formalmente, mas perde sua capacidade efetiva de mediação, sendo gradualmente convertida em um invólucro jurídico de práticas autoritárias. É precisamente nesse sentido que o neofascismo não se apresenta como negação externa da democracia liberal, mas como sua decomposição interna.
Esse processo não se dá no vazio. Ele se articula com uma segunda dimensão decisiva: a reconfiguração do campo político e, em particular, a atuação das forças que se reivindicam democráticas. Um dos traços mais marcantes do período é a capitulação silenciosa dessas forças diante do avanço autoritário. Não se trata, na maioria dos casos, de adesão explícita, mas de uma combinação de cálculo político, apego à legalidade formal e recusa ao conflito. Em nome da estabilidade, aceita-se a regressão. Em nome da governabilidade, tolera-se a exceção.
Essa dinâmica produz um efeito cumulativo. Ao não enfrentar frontalmente as tendências autoritárias, as forças democráticas contribuem, ainda que involuntariamente, para sua normalização. O espaço político se desloca progressivamente, e aquilo que antes era impensável torna-se aceitável, depois necessário e, por fim, inevitável. O autoritarismo, articulado a essa nova superestrutura institucional voltada à acumulação capitalista, avança menos por sua própria força do que pelas lacunas deixadas por seus adversários.
A esse quadro soma-se uma terceira dimensão, talvez a mais decisiva: a transformação do mundo do trabalho. A precarização, a fragmentação e a perda de formas coletivas de organização não constituem apenas fenômenos econômicos; fazem parte de uma ofensiva direta contra a classe trabalhadora. Trata-se de um processo de destruição das formas históricas de organização e luta, que atinge sindicatos, vínculos estáveis, identidades coletivas e qualquer base de solidariedade. O trabalhador precarizado, “uberizado”, isolado de referências comuns, é lançado em um ambiente de insegurança permanente. A promessa de ascensão é substituída pela gestão individual do risco. A solidariedade cede lugar à competição.
Essa transformação produz efeitos subjetivos e políticos de grande alcance. Ao dissolver mediações coletivas, ela desorganiza a experiência comum e fragiliza a capacidade de ação coletiva. Nesse terreno reconfigurado, a extrema direita encontra condições favoráveis para avançar. Sua retórica da ordem, da disciplina, da nação e do pertencimento oferece respostas simplificadas a experiências complexas de desamparo e insegurança.
Não se trata, portanto, de mera manipulação ideológica. O que está em jogo é a capacidade de articular uma narrativa que dê sentido a uma experiência social efetiva. Nesse aspecto, o paralelo histórico com o período entre guerras é instrutivo. Assim como a classe média empobrecida e desestabilizada após a Primeira Guerra Mundial constituiu uma base social decisiva para o fascismo clássico, o trabalhador precarizado contemporâneo se apresenta como um sujeito particularmente suscetível à retórica autoritária. Em ambos os casos, a desorganização material da vida social cria as condições para a adesão a projetos regressivos que prometem ordem, estabilidade e reconhecimento.
É nesse ponto que a noção de modernização reacionária revela toda sua potência explicativa. O neofascismo contemporâneo não se limita a explorar ressentimentos difusos; ele se articula a interesses materiais concretos. Aqui emerge um quarto elemento central: o papel do capital.
Assim como o fascismo histórico contou com o apoio decisivo de setores industriais que viam nele um instrumento para conter o avanço do movimento operário, o neofascismo contemporâneo se apresenta como um verdadeiro “cão de guarda” do capital. A analogia não é meramente retórica. Ela expressa uma função estrutural. Em contextos de crise, nos quais a manutenção das taxas de lucro exige a intensificação da exploração e a retirada de direitos, o autoritarismo se torna funcional.
Esse quadro não pode ser plenamente compreendido sem considerar a dinâmica da disputa interimperialista, que historicamente tem operado como um dos motores da radicalização autoritária. No período entre guerras, a ascensão do fascismo na Alemanha, Itália e Japão esteve diretamente vinculada à tentativa dessas potências de romper sua posição subordinada na hierarquia internacional, confrontando a hegemonia estabelecida por potências como Inglaterra e, em ascensão, os Estados Unidos. O fascismo, nesse contexto, não foi apenas uma resposta interna à crise social, mas também uma estratégia de reorganização nacional para a competição externa, articulando mobilização de massas, militarização e expansão territorial. No presente, embora em condições distintas, observamos uma dinâmica análoga na crescente tensão entre os Estados Unidos e a China. O avanço econômico, tecnológico e geopolítico chinês tensiona a ordem internacional estabelecida, produzindo deslocamentos nas cadeias produtivas, nas formas de acumulação e nos equilíbrios de poder. Esse cenário de transição hegemônica intensifica a instabilidade global e alimenta respostas nacionalistas, protecionistas e autoritárias no interior das principais potências capitalistas.
Ao mesmo tempo, essa ordem internacional não se sustenta apenas pela disputa entre grandes potências, mas por uma hierarquia estruturada em torno da centralidade do capital financeiro e do padrão dólar. A hegemonia dos Estados Unidos não se expressa somente em termos militares, mas na capacidade de organizar o sistema monetário e financeiro internacional, impondo mecanismos de dependência que condicionam as demais economias. Mesmo potências relevantes operam, em grande medida, de forma subserviente a essa arquitetura, seja pela integração aos fluxos financeiros dominados por Wall Street, seja pela necessidade de acesso ao dólar como moeda de referência global. Essa subordinação limita margens de autonomia e ajuda a explicar por que, em muitos casos, respostas autoritárias e nacionalistas convivem com a manutenção de estruturas econômicas profundamente dependentes.
O neofascismo, nesse sentido, não pode ser entendido apenas como fenômeno doméstico: ele também expressa, em chave regressiva, as tentativas de reconfiguração das posições nacionais em um sistema internacional em disputa, mobilizando ideologias de grandeza nacional, guerra comercial, securitização e conflito civilizacional como formas de resposta à crise da hegemonia ocidental.
No cenário atual, esse apoio assume novas formas. Não se trata apenas da indústria tradicional, mas de uma articulação entre capital financeiro, agronegócio e grandes plataformas tecnológicas. Esses setores compartilham interesses convergentes: desregulação, flexibilização de direitos, abertura de novos espaços de acumulação e enfraquecimento de mecanismos de controle social. O neofascismo, ao mobilizar massas em torno de agendas regressivas, cria as condições políticas para a implementação dessas medidas.
Nesse sentido, a relação entre capital e autoritarismo não é acidental. A retirada de direitos não se sustenta apenas por meio do consenso; ela exige coerção. Aqui se insere o quinto elemento de nossa análise: a articulação entre austeridade e autoritarismo.
A ideologia da “liberdade econômica”, frequentemente apresentada como defesa do mercado contra o Estado, revela seu caráter profundamente contraditório quando confrontada com suas condições de existência. A desregulação, a flexibilização e a precarização só podem ser implementadas e mantidas por meio de um Estado forte no plano repressivo. O Estado mínimo na economia corresponde, na prática, a um Estado máximo na coerção.
Essa combinação não é nova, mas assume contornos particularmente agudos no presente. A ampliação do aparato policial, o endurecimento das políticas penais, a criminalização de movimentos sociais e a vigilância ampliada constituem os pilares de uma ordem que precisa conter os efeitos sociais de sua própria lógica econômica. A liberdade proclamada é, na realidade, a liberdade do capital; sua contrapartida é a restrição da liberdade social.
Esse processo se articula ainda com transformações nas estruturas de poder. A ascensão de multibilionários e o peso crescente de grandes conglomerados econômicos não apenas influenciam a política; eles contribuem para sua reconfiguração. A captura de instituições, a influência sobre agendas públicas e a redefinição de marcos regulatórios indicam uma tendência de adaptação das estruturas estatais às necessidades de novas frações do capital. A modernização reacionária, nesse sentido, implica também uma reorganização do Estado para incorporar e proteger esses interesses.
Se reunirmos esses elementos, torna-se possível delinear um quadro mais amplo. A crise do mundo do trabalho produz desagregação social e subjetiva. A normalização da exceção reconfigura o funcionamento das instituições. A capitulação das forças democráticas abre espaço político. O capital encontra no autoritarismo um instrumento para aprofundar sua agenda. A austeridade exige coerção. As estruturas estatais se adaptam aos novos centros de poder. Nesse conjunto, o neofascismo emerge não como desvio, mas como forma específica de reorganização da ordem.
A modernização reacionária, portanto, não é apenas um conceito descritivo. Ela expressa uma dinâmica histórica em que a modernidade capitalista, confrontada com seus próprios limites, recorre a formas regressivas para se reproduzir. A técnica, a racionalidade administrativa, os dispositivos de comunicação e as estruturas institucionais não são abandonados; são reconfigurados. O resultado é uma forma de dominação que combina sofisticação tecnológica com brutalidade política, integração econômica com exclusão social, legalidade formal com exceção permanente.
Se a modernização reacionária nos permite compreender o neofascismo como forma específica de reorganização autoritária da ordem capitalista em crise, torna-se necessário diferenciá-lo de outras formas históricas de dominação que, em determinados momentos, também assumiram feições autoritárias, em especial o bonapartismo. Este último emerge, classicamente, em situações de equilíbrio instável entre as classes, quando nenhuma delas consegue impor plenamente seu projeto. Nesses contextos, a figura bonapartista se eleva como uma espécie de árbitro, apoiada fundamentalmente no aparato estatal e sustentada por uma base social conservadora, frequentemente camponesa, como no caso de Napoleão III. Seu papel consiste em centralizar o poder político para garantir a reprodução da ordem social, retirando momentaneamente a direção direta da burguesia, mas preservando seus interesses fundamentais. Trata-se, portanto, de uma forma de dominação que opera sobretudo por cima, por meio da máquina estatal, combinando repressão, administração e uma certa promessa de estabilidade e progresso nacional.
O neofascismo contemporâneo, por sua vez, apresenta diferenças qualitativas decisivas. Ele não se constitui como árbitro, mas como instrumento ativo da contrarrevolução social, apoiando-se não apenas no aparato estatal, mas em um movimento de massas mobilizado a partir da desagregação social, do ressentimento e da radicalização de setores intermediários. Diferentemente do bonapartismo clássico, que tende a buscar uma unidade nacional sob a autoridade centralizada do líder, o neofascismo opera muitas vezes por meio da fragmentação, da polarização permanente e da mobilização contínua do conflito, tal como analisa Robaina (2025). Além disso, enquanto o bonapartismo frequentemente preserva e reorganiza as instituições sob uma nova centralização, o neofascismo tende a manter as formas republicanas, esvaziando-as por dentro, corroendo suas funções e convertendo-as em instrumentos de disputa permanente. Sua relação com a violência também é distinta: não se limita ao controle burocrático e policial, mas pode avançar, em determinadas conjunturas, para formas de perseguição sistemática e tentativa de destruição das organizações populares.
Ideologia, Racismo e Comunicação de massas
Se há um elemento que permite apreender a especificidade da ideologia fascista para além de suas formas históricas particulares, este elemento é o seu caráter profundamente pragmático. Diferentemente de tradições ideológicas mais sistemáticas, que procuram se organizar a partir de princípios relativamente estáveis, o fascismo se constitui como uma ideologia plástica, capaz de mobilizar, abandonar ou recombinar conteúdos conforme as exigências concretas da luta política e, sobretudo, das necessidades estruturais do capital em cada momento histórico. Como destacam Álvaro Bianchi (2026) e Leandro Konder (2009) em suas interpretações clássicas sobre o fascismo, não se trata de uma doutrina coerente no plano teórico, mas de uma forma de intervenção ideológica orientada pela eficácia, pela capacidade de organizar forças sociais e responder a situações de crise.
Esse pragmatismo não deve ser confundido com ausência de conteúdo. Ao contrário, ele é precisamente o modo específico de funcionamento da ideologia fascista, uma lógica de adaptação permanente que lhe permite operar em contextos distintos, articulando elementos aparentemente contraditórios. O fascismo pode, conforme a conjuntura, assumir um discurso antissistêmico ou se apresentar como defensor da ordem; pode mobilizar a retórica populista ou alinhar-se diretamente aos interesses do grande capital; pode reivindicar valores tradicionais ou incorporar formas modernas e tecnológicas de controle e mobilização. Essa capacidade de recomposição contínua não é um traço acidental, mas a condição de sua eficácia política.
É nesse ponto que a articulação com a teoria do sistema sociometabólico do capital, tal como desenvolvida por Lukács e aprofundada por Mészáros (2002), torna-se decisiva. Como se observa no material que estamos trabalhando, o capital não opera a partir de um plano consciente previamente definido, mas segundo uma lógica de reprodução que impõe adaptações constantes como condição de sua própria sobrevivência. Trata-se de um sistema que, para continuar existindo, precisa expandir-se, reorganizar suas formas de extração de valor e reconfigurar suas mediações sociais. Nesse sentido, as transformações do capitalismo não são meramente escolhas políticas ou ideológicas, mas respostas necessárias às suas contradições internas.
A ideologia fascista, nesse quadro, pode ser compreendida como uma forma particularmente eficaz de tradução política dessas necessidades. Se, como afirma Mészáros (2002), o capital é um controlador incontrolável, que ajusta suas formas de funcionamento para manter o processo de acumulação, então a ideologia que melhor se adapta a esse movimento é justamente aquela que não se fixa em princípios rígidos, mas que acompanha essas mutações. O pragmatismo fascista expressa, no plano ideológico, a própria dinâmica metabólica do capital, sua capacidade de absorver, neutralizar ou reconfigurar elementos diversos para garantir a continuidade da acumulação.
Isso permite compreender também por que, no capitalismo contemporâneo, o fascismo pode se apresentar como mais eficiente do que as formas ideológicas associadas ao liberalismo clássico ou à globalização neoliberal. Durante um determinado período, essas correntes ainda operavam com mediações discursivas que buscavam conciliar a expansão do capital com certos limites normativos, como a defesa dos direitos humanos ou das instituições multilaterais. No entanto, à medida que o sistema sociometabólico do capital aprofunda suas tendências destrutivas, seja na precarização do trabalho, na financeirização ou na crise ecológica, tais mediações passam a funcionar como entraves.
Nesse novo contexto, o fascismo emerge como uma ideologia capaz de operar sem essas amarras. Sua força reside justamente na possibilidade de descartar essas mediações quando elas deixam de ser funcionais e substituí-las por formas mais diretas de dominação, baseadas na autoridade, na violência simbólica e material e na reorganização regressiva do consenso social. Em outras palavras, o fascismo não rompe com o capitalismo, mas radicaliza sua lógica ao eliminar os elementos que, em determinados momentos, atuavam como freios parciais à sua dinâmica.
É nesse sentido que o caso brasileiro recente oferece uma expressão particularmente elucidativa desse pragmatismo. Durante o governo Bolsonaro, observou-se um deslocamento significativo na forma de condução da política econômica, com a transferência crescente de poder decisório para o Congresso Nacional. Longe de representar uma perda de controle, esse movimento expressou uma forma de adaptação funcional: ao descentralizar a gestão econômica institucional, o governo permitiu que frações do capital encontrassem canais ainda mais diretos e capilarizados de influência sobre o Estado, reduzindo mediações e ampliando a capacidade de resposta às demandas imediatas da acumulação. Trata-se de um exemplo concreto de como o pragmatismo fascista não se prende a formas institucionais fixas, mas reorganiza o próprio funcionamento do Estado conforme as necessidades do momento.
Portanto, o pragmatismo fascista não é apenas uma característica superficial, mas a expressão ideológica de uma transformação mais profunda no regime de acumulação. Ele corresponde a um momento em que o capital, diante de seus limites estruturais, necessita de formas políticas e ideológicas mais flexíveis, mais agressivas e menos mediadas para garantir sua reprodução. O fascismo aparece, assim, não como um desvio anômalo, mas como uma possibilidade inscrita no próprio desenvolvimento do sistema.
É justamente a partir desse ponto que se coloca o segundo elemento fundamental da ideologia fascista, que não pode ser reduzido ao pragmatismo, a necessidade de mobilização ativa das massas. Se o pragmatismo explica a capacidade de adaptação do fascismo às exigências do capital, é a mobilização que explica sua força social e sua capacidade de transformar essa adaptação em um projeto político efetivo. É sobre esse segundo elemento que nos debruçaremos a seguir.
Se há um elemento central que organiza a capacidade de mobilização do fascismo, ontem e hoje, é a construção sistemática de inimigos capazes de produzir coesão social em meio à fragmentação. Não se trata de um aspecto secundário ou meramente retórico, mas de um mecanismo estrutural de agitação que responde diretamente às crises do capitalismo. Quando as formas tradicionais de integração social entram em colapso, seja pela intensificação da exploração, seja pela desagregação das identidades coletivas, o fascismo opera reconstruindo artificialmente uma unidade. Essa unidade não se dá pela superação das contradições, mas pela sua reorganização em torno do conflito.
No fascismo clássico, esse processo se estruturava a partir de uma dupla operação. Externamente, a luta de classes era deslocada para a disputa entre Estados Nacionais. Internamente, as contradições sociais eram dissolvidas em nome da unidade nacional. O inimigo externo cumpria a função de justificar a centralização do poder e a destruição das organizações de classe, enquanto o inimigo interno era eliminado como ameaça à coesão do corpo nacional. O Estado aparecia como mediador supremo dessa unidade, concentrando em si a capacidade de organizar a guerra e a sociedade. A nação, nesse sentido, não era apenas um pertencimento, mas um dispositivo político que permitia reorganizar o conflito sob a forma de guerra entre povos.
No entanto, essa forma específica de mobilização encontra limites no capitalismo contemporâneo. A financeirização e a internacionalização do capital deslocaram parcialmente o centro da acumulação para além dos Estados nacionais, ao mesmo tempo em que fragmentaram as formas clássicas de pertencimento social. Nesse novo cenário, o neofascismo não abandona a lógica do inimigo, mas a reconfigura. O que se observa é a passagem de uma lógica centrada no Estado Nacional para uma lógica centrada na “civilização”.
O inimigo externo deixa de ser apenas outro Estado ou outra nação e passa a ser construído como ameaça civilizacional. Não se trata mais simplesmente de defender fronteiras nacionais, mas de proteger um suposto modo de vida. É nesse ponto que emerge a ideia de um bloco civilizacional ocidental, frequentemente definido como judaico-cristão, que se apresenta como portador de valores universais ameaçados por forças externas. Essa construção não é neutra. Ela reorganiza o imperialismo em termos culturais e simbólicos, permitindo que a dominação global seja percebida como defesa da civilização.
O alinhamento a esse bloco não se limita às potências centrais. Como visto em outros textos, mesmo países periféricos passam a integrar esse imaginário de forma subordinada. As elites latino-americanas, historicamente vinculadas às estruturas de dependência, passam a se identificar como parte desse Ocidente ampliado. Não se trata de uma integração real, mas de uma identificação ideológica que reforça a própria subordinação. Nesse sentido, a presença de bandeiras dos Estados Unidos ou de Israel em mobilizações da extrema direita brasileira não é um elemento exótico, mas a expressão concreta dessa reconfiguração. A identidade nacional é parcialmente deslocada e subordinada a uma identidade civilizacional mais ampla, que opera como eixo de mobilização.
Essa transformação não elimina o Estado, mas altera sua função. Ele deixa de ser o centro exclusivo da mobilização e passa a operar como um dos elementos de uma rede mais ampla, na qual corporações, plataformas digitais, igrejas e aparelhos ideológicos desempenham papel decisivo. A guerra, nesse contexto, também se transforma. A própria doutrina militar passa a identificar novos campos de batalha, deslocando o foco para territórios urbanos periféricos e populações consideradas excedentes. A guerra deixa de ser apenas entre Estados e se torna difusa, permanente e direcionada a segmentos específicos da população.
É justamente nesse ponto que a construção do inimigo interno adquire centralidade renovada. Se o inimigo externo organiza a identidade civilizacional, o inimigo interno organiza a gestão cotidiana da crise. E aqui o racismo assume um papel decisivo. Não como resquício histórico ou preconceito individual, mas como tecnologia de governo. Ele permite identificar, classificar e administrar populações consideradas indesejáveis. Como trabalhei no texto “A gestão dos indesejáveis”, o capitalismo contemporâneo não elimina essas populações, mas as gerencia, produzindo mecanismos de controle, confinamento e eliminação seletiva.
Nesse mesmo movimento, a misoginia ocupa um lugar estruturante na engrenagem neofascista. Assim como o racismo permite classificar e hierarquizar populações, a misoginia opera como tecnologia de disciplinamento dos corpos e reorganização das relações sociais em chave autoritária. Não se trata de um resíduo cultural ou de um excesso retórico, mas de um mecanismo central de mobilização. Ao transformar mulheres em alvo privilegiado de ataque, o neofascismo não apenas produz um inimigo interno funcional à sua lógica de coesão, mas também reorganiza simbolicamente a ordem social a partir da reafirmação de hierarquias patriarcais. O ataque às mulheres cumpre, nesse sentido, uma dupla função: identifica um adversário a ser combatido e, ao mesmo tempo, produz um padrão normativo de autoridade, masculinidade e poder.
Esse processo se intensifica no capitalismo contemporâneo, especialmente a partir da articulação entre plataformas digitais, cultura do ressentimento e formas reativas de subjetivação. Como se observa na expansão de comunidades organizadas em torno do ódio às mulheres, a frustração social e a perda de referências coletivas são frequentemente canalizadas para uma narrativa que atribui à autonomia feminina a responsabilidade pela crise. A igualdade aparece como ameaça, e a emancipação como desordem. Nesse terreno, a misoginia deixa de ser apenas preconceito e se converte em linguagem política, em rito de pertencimento e em critério de lealdade. Ridicularizar mulheres, deslegitimar sua presença na esfera pública e naturalizar a violência simbólica tornam-se práticas que organizam identidades e consolidam vínculos no interior do campo neofascista. Assim como o racismo estrutural na gestão dos indesejáveis, a misoginia participa da forja dos sujeitos que irão sustentar, reproduzir e legitimar essa ordem autoritária.
O inimigo interno, portanto, não é apenas aquele que se opõe politicamente, mas aquele que encarna a ameaça à ordem social. Pobres, negros, migrantes, indígenas, dissidentes políticos e sexuais são convertidos em figuras de risco. Essa conversão não é espontânea. Ela depende de um trabalho ideológico contínuo que associa essas populações ao crime, ao caos e à desordem. A guerra às drogas, a militarização das periferias e a criminalização dos movimentos sociais são expressões concretas desse processo. A violência deixa de ser exceção e passa a ser apresentada como forma legítima de gestão.
Mas para que essa lógica funcione de maneira estável, ela precisa ser internalizada pelas próprias massas. É nesse ponto que a dimensão religiosa se articula ao processo. O neofascismo contemporâneo não se sustenta apenas pela coerção ou pelo medo, mas pela produção de sentido. A religião, especialmente em sua forma fundamentalista, oferece exatamente esse elemento. Ela fornece uma gramática moral capaz de organizar o mundo em termos simples, absolutos e emocionalmente mobilizadores.
A ideia de povo escolhido cumpre aqui uma função estratégica, ao converter uma identidade social em missão histórica. Não se trata apenas de pertencer a um grupo, mas de se afirmar como portador de uma verdade e de um destino. Essa narrativa opera em duas frentes simultâneas: reforça a coesão interna e legitima a exclusão do outro. Se há um povo escolhido, há necessariamente aqueles que não pertencem, convertidos em ameaça ou obstáculo. A política, nesse movimento, assume a forma de cruzada. Não por acaso, o caráter excepcional atribuído à chamada civilização ocidental é frequentemente justificado pela combinação entre a racionalidade herdada da tradição greco-romana e a moral judaico-cristã, apresentada como fundamento ético universal, o que contribui para naturalizar hierarquias e reforçar a pretensão de superioridade histórica.
No caso brasileiro, essa dinâmica se expressa de forma particularmente intensa na articulação entre neofascismo e neopentecostalismo. A teologia da prosperidade, ao individualizar o sucesso e moralizar a pobreza, despolitiza as contradições sociais. Ao mesmo tempo, a ideia de guerra espiritual transforma conflitos sociais e políticos em enfrentamentos entre o bem e o mal. O adversário deixa de ser apenas um opositor e passa a ser uma encarnação do inimigo. Isso permite uma radicalização da mobilização sem necessidade de mediação racional.
Essa dimensão religiosa se articula diretamente com a construção do inimigo interno. O racismo e a criminalização ganham uma camada moral e espiritual. O inimigo não é apenas perigoso, mas impuro. A exclusão deixa de ser apenas necessária e passa a ser justa. Ao mesmo tempo, a identidade civilizacional externa se reforça. O Ocidente cristão aparece como bastião de valores ameaçados, legitimando tanto o alinhamento internacional quanto a repressão interna.
O resultado é uma engrenagem relativamente coerente. O inimigo externo organiza a identidade civilizacional e legitima o imperialismo. O inimigo interno organiza a gestão da crise e legitima a violência cotidiana. A religião fornece a gramática moral que transforma essas operações em sentido compartilhado. E o racismo funciona como tecnologia que permite identificar e administrar os corpos sobre os quais essa violência será exercida.
Essa articulação não elimina as contradições do sistema, mas as reorganiza. Ao deslocar o conflito de classe para conflitos identitários e civilizacionais, o neofascismo consegue mobilizar setores amplos da população, inclusive aqueles que são diretamente prejudicados pelas políticas que defende. É por isso que ele se mostra particularmente eficiente no capitalismo contemporâneo. Ele não resolve a crise, mas oferece uma forma de vivê-la e interpretá-la.
Por fim, essa forma de mobilização não se sustenta apenas no plano ideológico, mas se ancora em práticas concretas de governo e em dispositivos contemporâneos de comunicação. A construção do inimigo deixa de ser apenas discursiva e passa a se materializar em políticas de segurança, tecnologias de vigilância, encarceramento em massa e formas renovadas de segregação territorial. Ao mesmo tempo, esse processo é amplificado por um ecossistema digital altamente concentrado, no qual as grandes plataformas tecnológicas operam como mediadoras da experiência social, organizando fluxos de informação, modulando percepções e potencializando dinâmicas de polarização e engajamento. Nesse entrelaçamento entre ação estatal e infraestrutura comunicacional, consolida-se um novo padrão de controle, em que imperialismo, colonialismo e racismo se atualizam sob formas digitais e securitárias. O neofascismo, assim, afirma-se não apenas como ideologia, mas como uma forma de organizar a vida social a partir da gestão permanente do conflito, sustentada tanto por políticas públicas quanto pela arquitetura algorítmica das bigtechs.
Partindo do eixo que se construiu até aqui, inimigo externo, inimigo interno, racismo e religião, a dimensão da comunicação emerge como o dispositivo que articula e operacionaliza essa engrenagem no plano cotidiano. Ela não se reduz a um meio de difusão ideológica, mas constitui um elemento estruturante do próprio funcionamento do fascismo, tanto em sua forma histórica quanto em sua reconfiguração contemporânea. É por meio dela que se produz a adesão, se organiza a percepção do conflito e se estabilizam as fronteiras simbólicas entre pertencimento e exclusão. No presente, essa centralidade se intensifica: mediada por plataformas digitais, a comunicação passa a operar de forma contínua, personalizada e algorítmica, convertendo a mobilização em um processo permanente, no qual afetos, medos e ressentimentos são constantemente reativados e direcionados, assegurando a reprodução cotidiana dessa lógica de enfrentamento.
No fascismo clássico, a comunicação cumpria uma função relativamente direta e centralizada. Organizada a partir do Estado, ela operava como instrumento de unificação simbólica e eliminação da incerteza. A propaganda de massa não buscava apenas convencer, mas produzir uma realidade compartilhada, na qual as contradições eram dissolvidas sob a forma de certezas absolutas. A mensagem precisava ser simples, repetitiva e emocionalmente mobilizadora. A verdade não era algo a ser disputado, mas imposto.
Nesse contexto, a comunicação estava diretamente subordinada à lógica da gestão política. Ela organizava o consenso, produzia adesão e legitimava a repressão. Ao mesmo tempo, ainda que de forma menos evidente do que hoje, também se articulava à economia, na medida em que integrava a sociedade à lógica da produção e do consumo sob controle estatal. No entanto, essa dimensão econômica da comunicação permanecia relativamente mediada pela centralidade do Estado.
O deslocamento que ocorre no capitalismo contemporâneo altera profundamente esse quadro. Como aparece em diversos estudiosos das redes sociais como Sergio Amadeu e Eugênio Bucci, a passagem para o neofascismo digital implica uma mudança estrutural na forma de gestão da informação. O centro da comunicação deixa de ser o Estado e passa a ser o híbrido entre capital e técnica, isto é, as grandes plataformas digitais. Isso não significa que o Estado desapareça, mas que ele passa a operar em associação com essas estruturas privadas de poder.
Essa transformação redefine o próprio papel da comunicação. Se no fascismo clássico ela buscava eliminar a incerteza, no neofascismo ela passa a administrá-la. A incerteza deixa de ser um problema a ser suprimido e se converte em recurso a ser explorado. A dúvida, a desinformação e a desorientação tornam-se ativos de mercado. O que está em jogo não é mais a imposição de uma narrativa única, mas a produção de um ambiente permanente de instabilidade cognitiva.
Essa mudança é decisiva porque permite compreender o caráter duplo da comunicação no capitalismo contemporâneo. Por um lado, ela continua cumprindo uma função de gestão social. Ao produzir desinformação, polarização e fragmentação, ela reorganiza a percepção da realidade e impede a formação de consciências coletivas capazes de confrontar o sistema. A construção de inimigos, que discutimos anteriormente, se alimenta diretamente desse ambiente. Logo, narrativas conspiratórias, fake news e campanhas de ódio não são desvios, mas mecanismos centrais de mobilização.
Por outro lado, essa mesma dinâmica é fonte direta de acumulação de capital. A comunicação se torna um campo privilegiado de extração de valor. As plataformas lucram precisamente com a captura da atenção, com a amplificação do conflito e com a produção de engajamento. A desinformação não é apenas útil politicamente, ela é rentável economicamente. O caos informacional, longe de ser um efeito colateral, é parte do modelo de negócios.
Essa articulação entre gestão e acumulação se materializa no papel dos algoritmos. O controle não se dá mais pela imposição visível de uma autoridade, mas pela opacidade dos sistemas técnicos. Os algoritmos conhecem profundamente o comportamento dos usuários, enquanto permanecem inacessíveis e incompreensíveis para eles. Trata-se de uma assimetria radical de informação, na qual o poder se exerce de forma difusa, invisível e contínua. É nesse ponto que a noção clássica de indústria cultural ganha nova atualidade. Longe de ter sido superada, ela se radicaliza nas condições do capitalismo digital contemporâneo.
A atualização da indústria cultural no capitalismo contemporâneo encontra nas bigtechs e nas redes digitais sua forma mais acabada. Longe de representar uma democratização da comunicação, como prometia a ideologia inicial da internet, o que se observa é o aprofundamento da lógica monopolista e a unificação das formas de produção simbólica. A circulação de informação, entretenimento e interação social passa a ser mediada por um número extremamente reduzido de empresas, que organizam não apenas o fluxo comunicacional, mas também os próprios regimes de visibilidade e afecção. Nesse sentido, a indústria cultural deixa de ser apenas um setor e passa a se confundir com a própria infraestrutura da vida social, produzindo uma integração cada vez mais estreita entre economia, tecnologia e subjetividade (SAFATLE, 2016).
Esse processo implica uma transformação qualitativa na forma de produção e recepção dos conteúdos. A lógica das plataformas opera uma radical indiferenciação entre esferas anteriormente distintas, dissolvendo as fronteiras entre informação e entretenimento, política e espetáculo, experiência e imagem. O resultado é a constituição de um fluxo contínuo e homogêneo de conteúdos que produz um regime de dessensibilização generalizada. A violência política, por exemplo, passa a ser consumida sob a mesma gramática estética dos produtos culturais, o que não apenas banaliza seus efeitos, mas contribui para sua naturalização. Trata-se, portanto, de uma reorganização profunda da sensibilidade social, na qual a própria capacidade de distinguir, reagir e atribuir sentido é progressivamente corroída.
Ao mesmo tempo, esses sistemas não são neutros. Eles reproduzem e amplificam as estruturas sociais existentes, incluindo o racismo e a desigualdade. A própria lógica de funcionamento dos algoritmos, orientada pela maximização do lucro, tende a privilegiar conteúdos que geram maior engajamento, o que frequentemente significa conteúdos mais polarizadores, violentos ou discriminatórios. O racismo, nesse sentido, não é apenas uma ideologia que circula na comunicação, mas um elemento incorporado à própria arquitetura dos sistemas.
Essa dimensão técnica aprofunda a capacidade de mobilização do neofascismo, mas exige uma mediação analítica: se, por um lado, os fluxos de comunicação se apresentam como descentralizados, capilarizados em redes de influenciadores, grupos, comunidades e bolhas informacionais, por outro, a arquitetura que sustenta esses fluxos é altamente centralizada, concentrada nas grandes plataformas tecnológicas. Diferentemente do fascismo clássico, que dependia de aparatos explícitos de propaganda centralizada, o neofascismo combina essa aparência de dispersão com um controle estrutural concentrado, no qual algoritmos, infraestruturas e regimes de visibilidade são definidos por poucos agentes. A mobilização, assim, se dá em rede, mas não de forma espontânea ou horizontal: ela é permanentemente modulada por essas estruturas. A propaganda não desaparece, mas se reconfigura. Torna-se personalizada, contínua e integrada à vida cotidiana, operando de maneira difusa na superfície, ao mesmo tempo em que permanece ancorada em uma base técnica profundamente centralizada, o que amplia sua eficácia na produção e reprodução do engajamento político reacionário.
É nesse ponto que a comunicação se conecta novamente com os elementos trabalhados anteriormente. A construção do inimigo externo e interno é permanentemente alimentada por esse ambiente informacional. O racismo é amplificado e naturalizado. A religião encontra um terreno fértil para difundir narrativas simplificadoras e moralizantes. A ideia de povo escolhido, por exemplo, ganha potência quando circula em redes que reforçam identidades e isolam os indivíduos em comunidades homogêneas.
Ao final, o que se observa é uma convergência entre três elementos centrais. O pragmatismo, que permite ao neofascismo adaptar seu discurso conforme as necessidades do momento, utilizando diferentes narrativas sem compromisso com a coerência. O racismo, que opera como tecnologia de classificação e gestão das populações, definindo quem deve ser protegido e quem pode ser eliminado. E a comunicação, que articula esses elementos, produzindo sentido, mobilizando afetos e garantindo tanto a estabilidade política quanto a acumulação econômica.
A comunicação, portanto, não é apenas um instrumento do neofascismo contemporâneo, mas um de seus pilares estruturais. Ela organiza a percepção da realidade, sustenta a mobilização permanente e, ao mesmo tempo, integra-se profundamente à lógica de reprodução do capital. É nesse entrelaçamento que reside uma das principais forças do neofascismo atual: a capacidade de transformar a própria crise em mercadoria e a desordem em forma de governo.
Por fim, essa dinâmica não se sustenta apenas pela produção de conteúdos ou pelo controle dos fluxos de informação. Ela implica também uma transformação mais profunda nas formas de adesão ideológica.
Nesse sentido, a generalização do cinismo aparece como um elemento decisivo para compreender o funcionamento ideológico do neofascismo contemporâneo. Diferentemente da hipocrisia clássica, que operava a partir da dissociação entre discurso e prática, o cinismo se caracteriza pela explicitação dessa contradição sem que isso comprometa sua eficácia. Os sujeitos já não precisam acreditar plenamente nos conteúdos que reproduzem. Ao contrário, passam a sustentar uma relação distanciada, irônica e, ao mesmo tempo, funcional com aquilo que dizem e compartilham. Essa clivagem interna permite a circulação de discursos violentos, contraditórios ou flagrantemente inconsistentes sem que isso produza ruptura ou crise. A inconsistência deixa de ser um problema e se converte em recurso. Nesse regime, a ideologia não se impõe pela crença, mas pela repetição performática de enunciados que continuam a operar mesmo quando reconhecidos como frágeis ou exagerados. O resultado é uma forma particularmente estável de adesão, na qual a crítica perde sua força, pois já se encontra previamente incorporada e neutralizada no interior do próprio funcionamento ideológico. (SAFATLE, 2016)
O enfrentamento ao neofascismo e o projeto nacional-popular
Se a análise histórica do fascismo italiano revela que sua ascensão esteve ligada tanto à crise das classes dominantes quanto às insuficiências estratégicas das forças progressistas, então a questão do enfrentamento ao neofascismo contemporâneo não pode ser reduzida a uma dimensão exclusivamente defensiva. Trata-se de um problema que articula, de forma indissociável, estratégia política, disputa hegemônica e construção de projeto histórico. É nesse terreno que o diálogo entre a tradição revolucionária, particularmente em Leon Trotsky (2019), e as reflexões contemporâneas, como as desenvolvidas por Luciana Genro (2024), adquire centralidade para pensar as tarefas do presente.
Trotsky (2019), ao analisar a ascensão do nazismo na Alemanha, insistiu que o fascismo não poderia ser derrotado apenas por meio da denúncia moral ou da resistência institucional fragmentada. Para ele, tratava-se de um movimento de massas reacionário, enraizado em setores sociais desorganizados, especialmente na pequena burguesia arruinada, que precisava ser enfrentado por meio de uma estratégia igualmente massiva e politicamente orientada. Daí a centralidade da tática da frente única: a unidade de ação entre organizações da classe trabalhadora, independentemente de suas diferenças programáticas, para barrar concretamente o avanço fascista.
Essa formulação mantém plena atualidade. Diante de movimentos neofascistas que combinam mobilização social, guerra cultural e inserção institucional, a fragmentação das forças progressistas tende a funcionar como um fator objetivo de fortalecimento do adversário. A incapacidade de construir ações comuns, mesmo em torno de objetivos imediatos, abre espaço para que a extrema direita se apresente como a única força capaz de agir com coesão e determinação. Nesse sentido, a frente única não é apenas uma tática conjuntural, mas uma condição mínima de eficácia política em contextos de polarização aguda.
Entretanto, como o próprio Trotsky alertava, a frente única não pode ser confundida com diluição programática nem com conciliação estratégica. Sua função é permitir a luta comum, preservando a independência política das organizações envolvidas. Quando essa distinção se perde, o que se observa é a transformação da unidade em adaptação, abrindo caminho para processos de desmobilização e desorientação das bases sociais. A história do século XX oferece inúmeros exemplos em que alianças defensivas, ao se tornarem permanentes e desprovidas de horizonte transformador, contribuíram para aprofundar a crise de representação das forças populares.
É precisamente nesse ponto que a contribuição de Luciana Genro (2024) se articula com essa tradição, ao enfatizar que o avanço da extrema direita contemporânea não decorre apenas de sua capacidade ofensiva, mas também da frustração acumulada com experiências políticas identificadas com a esquerda que não foram capazes de alterar estruturalmente as condições de vida das maiorias. A questão central deixa de ser apenas como barrar o neofascismo, para se tornar também como impedir que ele se alimente do esgotamento de expectativas produzidas no interior do próprio campo progressista.
Essa formulação recoloca o problema da hegemonia em um nível mais profundo. Não se trata apenas de vencer disputas eleitorais ou de preservar instituições democráticas formais, mas de reconstruir a capacidade de direção moral e política sobre a sociedade. Isso implica oferecer respostas concretas às transformações do mundo do trabalho, à precarização generalizada, à insegurança social e às crises identitárias que atravessam amplos setores da população. Sem essa dimensão, o combate ao neofascismo tende a assumir um caráter reativo, sempre correndo atrás de seus movimentos, sem conseguir alterar as condições que possibilitam sua expansão.
O neofascismo contemporâneo, diferentemente de suas formas clássicas, opera muitas vezes por dentro das instituições, ao mesmo tempo em que mobiliza permanentemente o conflito social. Ele não busca necessariamente destruir de imediato a democracia liberal, mas esvaziá-la progressivamente, corroendo seus mecanismos e convertendo-os em instrumentos de legitimação de um poder autoritário. Isso exige que o enfrentamento se dê em múltiplos níveis: institucional, social, cultural e ideológico.
No plano institucional, é evidente a necessidade de defender direitos democráticos, combater medidas autoritárias e impedir retrocessos imediatos. No entanto, como a experiência histórica demonstra, essa dimensão é insuficiente quando não está articulada a um movimento social mais amplo. A aposta exclusiva nas instituições tende a reproduzir a ilusão já observada na Itália liberal e na Alemanha de Weimar: a de que mecanismos formais seriam capazes de conter forças que operam, em grande medida, fora ou contra essas próprias regras.
No plano social, a questão central é a reorganização das classes trabalhadoras em sentido amplo, incluindo não apenas o proletariado tradicional, mas também os setores precarizados, informais e aqueles que transitam entre diferentes formas de inserção no mercado de trabalho. O neofascismo tem sido particularmente eficaz em dialogar com esses segmentos, oferecendo explicações simplificadas e respostas regressivas para problemas reais. Enfrentá-lo exige disputar esses mesmos setores, não apenas com crítica, mas com propostas que dialoguem com suas experiências concretas.
No plano cultural, a disputa assume um caráter decisivo. Como já indicava Gramsci, a hegemonia se constrói também no terreno do senso comum, das representações e dos afetos. O neofascismo opera intensamente nesse campo, mobilizando medo, ressentimento e pertencimento. A esquerda, quando se limita a uma linguagem tecnocrática ou excessivamente abstrata, tende a perder essa disputa. Recuperar a capacidade de falar a amplos setores da sociedade, sem abdicar do conteúdo transformador, é uma das tarefas mais complexas e decisivas do período.
Por fim, no plano estratégico, a questão decisiva reside na construção de um projeto nacional-popular capaz de reorganizar expectativas sociais em torno de um horizonte emancipatório. Como procuramos desenvolver em nosso ensaio sobre o tema publicado na revista Movimento, não se trata de recuperar uma fórmula do passado, mas de enfrentar uma tarefa histórica em aberto: disputar o sentido da nação em um contexto de crise orgânica, articulando anti-imperialismo, enfrentamento ao fascismo e transição socialista em uma mesma estratégia (HENRIQUES, 2026). Nesse ponto converge uma lição fundamental, presente tanto em Leon Trotsky quanto nas elaborações contemporâneas: não basta conter o fascismo; é necessário superá-lo por meio de uma alternativa histórica capaz de responder às contradições materiais que o produzem e alimentam.
Isso implica enfrentar diretamente as estruturas que sustentam a desigualdade, a financeirização e a superexploração do trabalho, bem como romper com as formas políticas que se mostraram incapazes de representar os interesses das maiorias. Sem essa dimensão, o combate ao neofascismo tende a se limitar à contenção defensiva, permanecendo preso a ciclos recorrentes de avanço autoritário. A experiência histórica demonstra que o fascismo não é derrotado apenas quando recua no plano político, mas quando perde as condições sociais que garantem sua base de apoio. Isso exige mais do que crítica: exige direção, organização e projeto.
Nesse sentido, a tarefa do presente é particularmente exigente. Ela demanda combinar unidade de ação com clareza estratégica, defesa das liberdades democráticas com transformação estrutural, disputa institucional com reorganização das classes subalternas como sujeito político nacional. Se o neofascismo se alimenta das lacunas deixadas por seus adversários, enfrentá-lo implica preenchê-las com uma alternativa capaz de produzir hegemonia, reorganizar a vida social e abrir um novo horizonte histórico. É nesse terreno que o nacional-popular se afirma não como herança, mas como tarefa viva: a construção consciente de um povo organizado, capaz de converter sua diversidade em força política e de projetar um país radicalmente distinto.
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