Colômbia dividida: a derrota eleitoral e os desafios da resistência democrática
Foto: JOAQUIN SARMIENTO / AFP

Colômbia dividida: a derrota eleitoral e os desafios da resistência democrática

O processo eleitoral colombiano indica que a disputa não encerra o conflito aberto nos últimos anos, marcado pela polarização entre um projeto de continuidade das reformas e uma agenda de restauração conservadora alinhada aos setores tradicionais

Antonio Cunha Neto 23 jun 2026, 09:30

O resultado do segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia revela um país profundamente dividido. A apertada vitória de Abelardo de la Espriella, o rosto da extrema direita, sobre Cepeda, candidato do Pacto Histórico, por uma diferença inferior a 250 mil votos em um universo superior a 25 milhões de votantes, demonstra que o projeto político representado pelo governo de Gustavo Petro mantém uma sólida base social e política, apesar da derrota nas urnas.

Os números são expressivos: Abelardo de la Espriella obteve 12.959.542 votos, contra 12.708.712 alcançados por Cepeda. A diferença estreita indica que a disputa não encerra o conflito político aberto nos últimos anos na sociedade colombiana, marcado pela polarização entre um projeto de continuidade das reformas sociais iniciadas por Petro e uma agenda de restauração conservadora alinhada aos setores tradicionais da política colombiana.

Ainda sob o impacto dos resultados, o Pacto Histórico e os movimentos sociais farão um balanço dos resultados e dos desafios para o próximo período. Entre os elementos que chamam atenção está o protagonismo da juventude nos momentos finais da campanha. Segundo relatos de militantes e dirigentes políticos em Bogotá, a adesão de milhares de jovens à campanha de Cepeda e Aída cresceu de maneira significativa na reta final, ainda que sem tempo suficiente para alterar o resultado eleitoral.

As manifestações ocorridas poucas horas após a divulgação do pré-conteo são um sinal importante dessa disposição de luta. Nos arredores do Museu Nacional e ao longo da Avenida 13, em Bogotá, centenas de jovens se concentraram e marcharam em direção à Universidade Nacional e às instalações da autoridade eleitoral. A cena remete a outros momentos recentes da política internacional, quando nos Estados Unidos após a primeira vitória de Donald Trump, milhares de jovens organizados com a palavra de ordem “Not My President” (“Não meu presidente”), rechaçaram Trump e sua agenda reacionária.

No local escolhido pelo Pacto Histórico para acompanhar a apuração, a atmosfera era marcada por uma combinação de expectativa, apreensão e, posteriormente, de uma frustração carregada de disposição para a continuidade da luta política. Mesmo quando os números apontavam uma tendência praticamente irreversível favorável a Abelardo de la Espriella, centenas de militantes permaneceram no espaço para ouvir as orientações de Ivan Cepeda e reafirmar sua disposição em seguir lutando, nas ruas, para preservar as conquistas do governo de Gustavo Petro.

O momento mais simbólico ocorreu quando, com a apuração próxima da conclusão, Cepeda subiu ao palco diante de um auditório com mais de mil pessoas. O ambiente sintetizava sentimentos contraditórios: o orgulho de uma campanha que mobilizou milhões de colombianos e a frustração diante de uma derrota que abre um novo período de mobilizações iniciado com as rebeliões de 2020.

Cepeda não reconheceu a vitória de Abelardo de la Espriella, tratou os números do pré-conteo como resultados preliminares e anunciou que vai aguardar a contagem oficial e que vai interpor todos os recursos disponíveis. por outro lado, ao dirigir-se a extrema direita e a seus eleitores o candidato do Pacto deixou claro que haverá resistências nas ruas a qualquer tentativa de revogar direitos sociais conquistados. Cepeda também recordou que, no parlamento colombiano, o Pacto Histórico, constitui as maiores bancadas, tanto na Câmara quanto no Senado.

O principal desafio para os colombianos e para o Pacto é transformar esta possível derrota eleitoral em capacidade de reorganização social e política. Manter mobilizados os trabalhadores e as trabalhadoras, os setores populares e as juventudes, o movimento indigenas, de negritude. Durante seu governo, Petro enfrentou os limites de governar sem uma maioria parlamentar estável e, diante dos bloqueios institucionais, recorreu à mobilização popular como instrumento de pressão para aprovar sua agenda de reformas.

Se confirmado o resultado eleitoral pode encerrar um ciclo de governo, mas não resolve a polarização aberta com o ascenso de 2020 e a vitoria de Gustavo Pedro na eleição posteriore. A polarização se confirmou com a votacão deste domingo 21 de junho o que se segue será a disputa contra a imposição de uma agenda regressiva e ultra liberal mas que arranca com uma noite de protestos que aponta um caminho, na Colombia haverá resistencia.


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