Comunidades tentam resistir à poderosa máquina de propaganda da Petrobras na Foz do Amazonas

Comunidades tentam resistir à poderosa máquina de propaganda da Petrobras na Foz do Amazonas

Engrenagem publicitária inclui apresentações para comunidades e visita de influenciadores a projetos ambientais da empresa na Região Norte

22 jun 2026, 14:32

Publicado em Clima Info

“A Petrobras precisa ter respeito por nós. Nós, que estamos aqui no Marajó por gerações, com ancestralidade indígena e africana, sempre na miséria, na pancada, na sobrevivência mesmo, nós merecemos respeito.”

Essa foi a fala do pescador e ativista ambiental Nelson Bastos, de 58 anos, em um evento da Petrobras para cerca de 50 moradores da cidade de Cachoeira do Arari, na Ilha de Marajó, no Pará, em 24 de novembro do ano passado. O encontro visava explicar as etapas da exploração de combustíveis fósseis no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas – que começara com a perfuração do poço Morpho, em meados de outubro, após receber licença do IBAMA

Antes da sua chegada, as duas funcionárias da Petrobras que comandavam o evento haviam dito aos presentes que a empresa cumprira todas as exigências do IBAMA para prevenir possíveis derramamentos de óleo. Pouco mais de um mês depois, porém, houve o vazamento de 18.000 litros de fluido de perfuração durante a perfuração de Morpho. O que jogou por terra a segurança que a empresa tentou – e continua tentando – vender em sua narrativa.

Para chegar à reunião, Bastos pediu emprestado o carro de um amigo e dirigiu por duas horas, desde Salvaterra, onde mora, até Cachoeira do Arari. Levou mais 30 minutos para encontrar a associação de pescadores, que sediava o encontro em uma cabana de madeira sobre palafitas, escondida no fim de uma estrada. Ele sabia que, se não estivesse lá, o discurso da petrolífera provavelmente não seria contestado.

Revista Piauí e o DeSmog escancaram a dificuldade para populações do Amapá afetadas pela exploração do Bloco 59 de resistir à narrativa da Petrobras, com sua pesada máquina de propaganda. Isso inclui a cooptação de jornalistas e lideranças locais; vultosos investimentos em publicidade em rádio, TV, jornais e revistas – como a campanha “Transição Energética Justa”, que começou com a atriz Camila Pitanga e o músico Diogo Nogueira e agora é protagonizada pela atriz Tânia Maria, do filme “O Agente Secreto” – e na contratação de influenciadores digitais – como Felipe Castanhari, com 7,1 milhões de seguidores, que divide as telas com Tânia Maria -, no intuito de convencer principalmente a geração Z.

Em 2025, a empresa investiu R$ 372 milhões em publicidade – cinco vezes mais que o valor gasto em 2020. A Petrobras informou que seus gastos com comunicação foram menores em 2020 por ter entrado em uma fase de venda de ativos para reduzir o endividamento, e que a partir de 2023, sob nova gestão, os gastos retornaram a “níveis compatíveis com a escala, o alcance e a responsabilidade institucional da maior empresa do Brasil”.

A engrenagem publicitária inclui desde apresentações para comunidades, como a que foi feita em Cachoeira do Arari, até encontros com jornalistas e a visita de influenciadores digitais a projetos ambientais da petrolífera na Região Norte. O portfólio de patrocínios inclui R$ 16,4 milhões destinados a um programa de conservação dos manguezais – justamente aqueles que, segundo comunidades locais e organizações da sociedade civil, seriam devastados em um eventual derramamento de óleo na Foz do Amazonas.

Diante de tamanho bombardeio, é difícil para a população local não se deixar levar pelo discurso de riqueza e de desenvolvimento. “Alguns acham que vão ficar ricos”, conta Patricia Faria Ribeiro, moradora de Pesqueiro, no Marajó, que costuma representar a comunidade em questões ambientais. “O que eu digo a eles é que esse poço não vai trazer nenhum benefício para nós. Nenhum benefício em saúde, educação, trabalho, emprego. É uma ilusão.”

Em Oiapoque, no extremo norte do Amapá – a cidade mais próxima do Bloco 59 -, novos assentamentos já surgiram, na expectativa de empregos. “Existe essa ideia de que Oiapoque pode se tornar a nova Dubai. O processo de desinformação é gigantesco”, diz Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP).


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