Argentina, instabilidade em movimento
A situação política argentina teve um ponto de inflexão no primeiro semestre, com Milei caindo na opinião pública e enfrentando a resistência popular contra seu governo
Foto: Manifestação contra Milei em Buenos Aires. (CTA/Reprodução)
Se levantamos os três governos mais importantes para o alinhamento da extrema direita mundial, além de Trump e de Netanyahu, um favorito ao posto seria Javier Milei. Esse fato por si só já nos levaria a um acompanhamento mais detido e constante da situação política na Argentina. Ali se gesta um laboratório fundamental, no cenário de um país dependente e sob jugo do imperialismo, de como a extrema direita pretende estabelecer uma nova hegemonia política e social.
A recíproca é, contudo, interessante e verdadeira. Do tamanho do desafio de Milei se pode considerar a expectativa no acúmulo de forças do povo argentino. Porque a contradição de Milei, como em outros exemplos, é um governo que não corresponde à relação de forças “por baixo”, ainda que opere de forma perigosa para mudá-la e mudar o regime.
Se considerarmos o calendário político regional, Colômbia e Brasil tem eleições decisivas nos próximos meses; a Argentina, apesar das eleições estarem marcadas para outubro de 2027, começa a debater seus rumos, a partir da perda de popularidade de Milei. Mesmo sem eleições neste ano, os rumos do cenário político argentino terão influência decisiva no continente. Sem exagero, tanto para a extrema direita quanto para a esquerda que aposta na mobilização social, o futuro se joga na Argentina.
A situação política argentina teve um ponto de inflexão no primeiro semestre. Milei se tornou minoritário na opinião pública por conta da enorme bronca com as condições de vida, a crescente percepção da corrupção em seu governo e pelas inúmeras frentes de resistência que estiveram presentes na primeira metade de seu mandato. A força de sua vitória eleitoral ao final de 2025 se esvaiu ao longo dos últimos meses, em que pese a falta de uma maior oposição consistente e combativa, no parlamento e na direção dos maiores sindicatos.
A enorme manifestação de 24 de março foi uma ilustração dessa barreira que Milei não logrou superar, a da defesa das conquistas democráticas e do repúdio massivo entre o povo argentino à experiência da ditadura milita r- que completou 50 anos.
Milei buscou recuperar terreno: uma ampla unidade ao redor dos planos de ajuste, com os setores extrativistas, a abertura do país para as big techs, a relação privilegiada com Trump e a falta de um plano coordenado de lutas por parte das centrais (que convocaram greves gerais durante a reforma trabalhista, mas foram incapazes de oferecer um plano sustentável para derrotar o governo) explicam certa estabilidade, durante os dois últimos meses. Os “mercados” celebraram com a queda do risco-país e com a nova nota de qualificação da dívida argentina, com aplausos do capital financeiro.
Contudo, novamente, a bola voltou ao centro do campo, parafraseando o esporte que apaixona brasileiros e argentinos, agora com os olhos voltados para a Copa do Mundo.
A combinação de novas mobilizações de rua, algumas de caráter espontâneo e cultural (ligadas ao funeral do músico Índio Solari), com novas revelações de escândalos de corrupção voltaram a preocupar o governo. Sobretudo, pelo cenário de instabilidade internacional que pode potencializar a polarização argentina.
Mesmo sem um plano de lutas, as ruas voltaram à falar. Além da forte manifestação universitária de maio, o movimento de mulheres voltou às ruas, contra o feminicídio da jovem Agostina Vega, em 3 de Junho, coincidindo com o aniversário de 11 anos do Movimento “Ni Una a menos”. E alguns dias depois, o funeral de Índio Solari se transformou num fato nacional. Os governo federal e da capital não dispuseram estrutura para os ritos de despedida do ídolo, que cativou gerações a frente da banda de Rock “Los redondos de la Ricota”, recaindo à província de Buenos Aires organizar um ato cultural que juntou centenas de milhares. Foi um gesto de protesto e rebeldia.
E agora, o segundo funcionário mais importante do governo, chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, figura tão importante que encabeçou a lista do partido nas eleições da capital federal, voltou a se exposto. Após desmentidos de relatos e da sua declaração de renda, ficou nítido que recebeu “por fora” grandes quantias de valores oriundas de investimentos em criptomoedas. Paira sobre ele a sombra do enriquecimento ilícito, levando inclusive a especulações que pode ser demitido em breve.
Como no Brasil e em outras partes do Planeta, o mundo político tem uma certa “pausa” durante o período da Copa do Mundo. A dúvida é qual dinâmica se seguirá depois.
O cenário internacional é uma variável que não pode ser considerada menor. Se por um lado, o acordo que põe fim à guerra do Irã pode ser lido como um alívio no preço dos combustíveis, inclusive na Argentina, por outro está escancarado o debilitamento de Trump e de seu aliado Netanyahu para amplos setores de massas no mundo.
A polarização na região irá aumentar. A recente eleição do Peru não fechará as feridas, com uma crise latente pelo apertado resultado eleitoral. A disputa no Brasil e na Colômbia vai opor candidaturas democráticas e progressistas versus o núcleo duro da extrema direita. E a rebelião boliviana, que supera 45 dias, terá impactos diretos na consciência do povo e do ativismo na Argentina.
Qual a resultante desse cenário?
Podemos ter vários prognósticos e previsões. Milei conseguirá levar até 2027 a polarização, apostando nas eleições para revalidar um governo que vai se debilitando? Poderemos ter novas jornadas de lutas ou até mesmo levantes nas províncias mais pobres e afetadas pelo ajuste? O que fará a esquerda, que aparece com bom desempenho nas pesquisas de opinião com a figura da deputada Miryam Bregman?
Essas respostas são parte do próprio debate político. A Frente de Esquerda debate, com diferentes setores e partidos, como aproveitar esse momento para dar um passo adiante na organização partidária da esquerda argentina, marcada pela fragmentação. A dinâmica dos movimentos sociais também está em discussão, com novas ferramentas sindicais e sociais se projetando.
O que podemos afirmar como respostas dizem respeito a crescente instabilidade do cenário argentino, a necessidade de construir pontes como a que tivemos na Conferência Antifascista de Porto Alegre com a presença de mais de 200 delegados argentinos e a certeza na aposta em seguir a combatividade do povo argentino, justamente cinquentenário de uma ditadura militar que foi derrotada e 25º aniversário do Argentinazo.