Uma resenha para Modesto Carone (e Sorocaba)
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Uma resenha para Modesto Carone (e Sorocaba)

A partir da cinebiografia de Kafka, autor resgata a obra de Modesto Carone e revisita Resumo de Ana, romance que transforma Sorocaba em cenário da memória, da formação da classe trabalhadora e da literatura brasileira

Israel Dutra 18 jul 2026, 08:00

Foto: Clube União Recreativo de Sorocaba. (CMS)

Como um assunto leva a outro, aproveitei minha ida para assistir “Franz”, cinebiografia de Kafka em cartaz, para retomar outro fio. Entre a coincidência e o reconhecimento do lugar da influência de Kafka na cultura brasileira, trago uma resenha sobre um “tesouro escondido”, do principal tradutor de Franz Kafka no Brasil, Modesto Carone.

Numa corriqueira visita a um sebo tradicional na Teodoro Sampaio, entre tantos títulos, fui capturado pelo livro mais conhecido de Carone, “Resumo de Ana”.  Portanto, não se trata aqui de uma resenha de “Franz”, tarefa ainda válida para outros capítulos, mas sim um resgaste do lugar de Carone.

Modesto Carone se notabilizou pela “empreitada” de traduzir a obra de Kafka para o português, tendo a partir de 1997, efetivado a publicação em bela coleção editada pela Cia das Letras. Ali encontramos “Carta ao Pai”, “O Processo”, “A metamorfose”, “O Castelo “entre vários outros títulos.

Carone nasceu em Sorocaba, em 1937, ano que seria decretado o Estado Novo no Brasil. Formado em Direito e Letras pela USP, foi docente na Universidade de Viena, onde aprofundou-se na literatura do escritor tcheco. Foi escritor e ensaísta, voltando; à docência no Brasil na USP e na Unicamp. Faleceu aos 82 anos em dezembro de 2019.

“Resumo de Ana” é o nome dessa sua obra maior. Conformado por duas novelas, o romance ganhou o prêmio Jabuti em 1999.

Me encantei com a obra, estruturada com coerência e sistematicidade, lendo-a em uma só “sentada”.  A primeira novela, constitui, “O Resumo de Ana”, vértebra da história, contando a vida da personagem nascida em um sítio em Sorocaba, região de Itavuvu, perdendo pai e mãe logo cedo. A segunda parte é “Ciro”, seu filho, que processa a continuidade de sua trajetória, desventuras e infortúnios, resiliência e identidade.

É uma combinação entre as próprias histórias escutadas por Carone desde a infância sobre sua avó e família, com o desvelamento dos personagens da vida “comum”, tendo a cidade de Sorocaba como pano de fundo.

Com a vida sofrida, apagada pela condição de classe, tanto Ana quanto seu filho Ciro, são filhos do “século”: a imigração, a urbanização e a “marcha” da indústria e do comércio marcam profundamente suas histórias, famílias e, portanto, suas subjetividades. O que se inicia em 1887 termina com a morte de Ciro, num “verão quente” de 1990.

Um autor, de vida literária bastante posterior à Carone, Luiz Ruffato me foi convocado pela memória, para integrar essa reflexão. Com estilos bastante diversos, no âmbito da escrita, creio que se abre uma ponte ou um fio, do ponto de vista do “objeto”, a trajetória, social e individualizada, do que poderíamos catalogar como “ampla parcela da classe trabalhadora brasileira”. A riqueza dos detalhes, dos trejeitos, dos costumes e dos diálogos é outro ponto de encontro entre esses dois magníficos escritores e intelectuais.

Esse “tesouro perdido”, apresenta Sorocaba pintada em cena inteira: afirma bastante a cidade, na literatura, na história e na minha própria trajetória política, como um itinerário do escritor e da própria escrita. Ali aparecem bairros como Além Ponte, os parques e praças da cidade, as ruas de Santa Rosália, os terminais, as fábricas, o mercado municipal, o mosteiro de São Bento, o distrito Rural Brigadeiro Tobias.

Um pouco do encantamento de Benjamim, “flanando” pelas ruas e ambientes de uma das maiores e mais importantes cidades do estado de São Paulo. Outrora conhecida como rota de viajantes, de tropeiros, hoje apodada como a “Manchester Paulista”, pela presença industrial e por certos ares alternativos de uma “urbe” proletária.

Amei a escrita de Carone, seja porque vi o fogo da paixão da descrição que adoro em Ruffato, seja porque também é uma pena que faz jus ao alcance do olhar de um gigante sob os ombros da tradução definitiva da obra de Kafka, conservando suas reservas na lida de escritor, apesar da fama como tradutor.

Ou, talvez, fruto da própria experiência vivida nessa cidade, motivada e movida pela “profissão política”, que me levou tanto a viver alguns meses na cidade durante um período eleitoral, como a visitá-la quase quinzenalmente por alguns anos, já instalado na capital paulista. Apesar dos dissabores da política, confesso que valeu a pena vivenciar a cidade, seu produto cultural ancorado numa diversidade de tons urbanos e históricos, na amizade com muitos que ali ajudaram a estruturar minha própria subjetividade, e na minha própria condição de “flamante”, nos horários vagos, nas caminhadas, nas pequenas observações e curiosidades.

Como um assunto leva ao outro, Praga, Viena e o que restaram dos batentes e das fortificações da Sorocabana. Tudo tão diverso. Tudo é um.  Da tuberculose de Franz às frustrações amorosas de Ana, das improntas de Joseph K à fadiga de Ciro. Como o próprio Carone explicou, o uso do “resumo” como forma narrativa: Ir ao “osso da história”.


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