Jaques Wagner e o caso Master
Jaques Wagner deve sair imediatamente do cargo de liderança no Senado, assim como qualquer outro alvo de investigações de corrupção que componha o governo
Foto: Jaques Wagner, líder do governo no Senado. (Waldemir Barreto/Agência Senado)
As recentes revelações sobre o suposto envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no escândalo de corrupção do Banco Master colocaram um problema grave para Lula. Após semanas de desgaste de Flávio Bolsonaro e seus aliados no que já é conhecido como “caso Bolsomaster”, a ação da Polícia Federal contra Wagner abriu um flanco na campanha eleitoral de Lula que só pode ser resolvido com a saída imediata do senador da liderança do governo.
Até o momento, Jaques Wagner fez o contrário. Mesmo consciente do dano que pode causar à luta contra a extrema direita, ele se recusa a sair da posição estratégica no Senado em uma postura intransigente que pode sair caro para Lula. Ao contrário, o senador declarou ter a confiança do presidente e entrou com recurso solicitando ao STF barrar as investigações da Polícia Federal contra ele. Uma reunião no Planalto para decidir seu futuro está marcada para a próxima quarta-feira (24/06) e seu resultado será uma decisão de “foro íntimo” de Lula e Wagner, segundo José Dirceu.
A exposição de Wagner, que é acusado de utilizar seu mandato para atuar em favor do Banco Master e ter recebido vantagens pessoais por isso, reforça as tentativas da extrema direita de colar o escândalo no governo federal ao utilizar o argumento de que o esquema teria começado na Bahia governada pelo petista Rui Costa, grande aliado do senador. Mesmo sendo obviamente falaciosa, esta versão dos fatos promovida pelo bolsonarismo pode cumprir seu objetivo distracionista se não houver apoio total por parte do governo às investigações, e é por isso que a postura de Jaques Wagner afeta diretamente a campanha de Lula.
Um legítimo representante da direita petista
O senador Jaques Wagner pode ser definido como um legítimo representante dos campos internos mais à direita no PT, reproduzindo o fisiologismo e proximidade com a direita tradicional que marcaram boa parte dos governos de seus aliados. Ex-governador da Bahia e ex-ministro de Lula e Dilma, o senador é reconhecido pelo seu bom trânsito entre setores do Centrão e da burguesia, além de defensor ferrenho das políticas macroeconômicas liberais do governo. Não por acaso, nos últimos dias recebeu prontamente a solidariedade de outro dos acusados, o presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP).
Sionista declarado e apoiador da recente campanha genocida contra a Palestina, em seus oito anos de governo estadual Wagner também foi um dos formuladores da falida política de segurança pública que se ampliou nos governos de Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, fazendo da polícia militar baiana uma das mais letais do país ao mesmo tempo em que o estado viu um enraizamento cada vez maior de facções criminosas.
Além disso, o grupo político ao redor de Wagner também é notório dentro do PT por defender políticas de direita recusadas por outros setores do partido, como no caso das privatizações. A privatização do supermercado estatal Cesta do Povo, um dos pivôs de corrupção do Master através do cartão de crédito consignado Credcesta, demonstra bem como o jogo de interesses do mercado financeiro é terreno fértil para uma típica forma de corrupção totalmente disseminada nas castas partidárias brasileiras.
A privatização do Cesta do Povo
O Cesta do Povo era parte da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), estatal fundada em 1979, em uma tentativa do governo baiano de conter a inflação, e contava também com frigoríficos, armazéns e centros de processamento. Enquanto supermercado público, o Cesta do Povo esteve presente na periferia de Salvador e em mais da metade dos municípios baianos oferecendo itens de primeira necessidade mais baratos. Sua ampla presença e seus preços menores o tornaram o 2º supermercado na Bahia e o 5º no Nordeste em 2014, segundo a Abras (Associação Brasileira de Supermercados), gerando grande incômodo entre os empresários do setor.
O Cesta do Povo foi então sucateado e a Ebal foi posteriormente privatizada pelo governador petista Rui Costa, em um roteiro muito conhecido nos estados governados pela direita. A venda após o sucateamento só foi possível porque junto ao deficitário Cesta do Povo foi vendida também a operação do Credcesta, cartão de benefícios que permitia compras de servidores públicos estaduais no Cesta do Povo. O Credcesta funcionava de forma simples: os servidores faziam compras com o cartão no Cesta do Povo e tinham a fatura descontada na folha de pagamento, sem operadoras privadas de crédito nem cobrança de juros.
É nesse processo que as duas formas de corrupção capitalista – legal e ilegal – uniram previamente os interesses de Wagner e Vorcaro ao redor da privatização da Ebal. Como haviam restrições na operação do Credcesta e exigências de manutenção da operação dos mercados, as primeiras tentativas de privatização não foram bem sucedidas. Então Wagner, na época chefiando a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Rui Costa, operou mudanças no edital para que o governo assumisse todas as dívidas da Ebal, além de reduzir o preço mínimo do leilão para menos de 20% do valor original, estender de cinco para quinze anos o prazo de gestão do Credcesta e transferir o controle financeiro do cartão para o novo gestor.
No mesmo esforço privatista, o governo de Rui Costa colocou a cereja do bolo: ampliou a utilização do Credicesta para qualquer comércio, garantiu exclusividade na margem da consignação salarial e permitiu ao gestor do cartão também a cobrança de juros, venda de seguros e outros serviços. Na prática, transformaram uma ferramenta pública sem fins lucrativos em uma operação financeira bem lucrativa e baseada no endividamento das famílias. Um processo muito corrupto em favor dos interesses empresariais, mas feito de forma totalmente legal por um governo dito “progressista”.
Augusto Lima, amigo de Wagner e sócio de Vorcaro
É aí que entra Augusto Lima, nome bastante próximo de Wagner e ex-sócio de Vorcaro. Lima foi dono do Banco Pleno (liquidado pelo Banco Central há poucos dias) e esteve diretamente associado à operação do Credcesta. O leilão da Ebal aconteceu em 2018 e foi vencido pelo grupo NGV, única na disputa e provavelmente uma empresa laranja, fundada no mesmo ano com capital social de R$500. Pouco tempo depois, a NGV vendeu a Ebal para a PKL, empresa controlada por fundos ligados a Lima.
Logo após adquirir os direitos do Credcesta, Lima parece ter oferecido a “oportunidade” para diversos bancos e foi aí que o Master entrou no negócio. Após a união, a operação do cartão cresceu vertiginosamente, chegando a 176 municípios de 24 estados em 2024. Ao contrário dos empréstimos consignados ligados ao INSS, os convênios com governos estaduais e municipais não tem teto de juros e a fiscalização é mais frágil. Da mesma forma, as taxas cobradas pelas empresas de tecnologia que operam o sistema costumam ser muito maiores.
O cartão Credcesta ampliou bastante a atuação do Master nos serviços de consignados para servidores públicos, chegando a São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados, em um resultado muito significativo para um banco que não tinha operações de consignação até 2018. Em estados como Rio, Amazonas e Amapá o absurdo foi ainda maior já que os sócios Lima e Vorcaro venderam títulos do banco para fundos de pensão de servidores, jogando as garantias de aposentadoria do funcionalismo no cassino do mercado financeiro.
Após todas estas movimentações bastante “lucrativas”, hoje a Polícia Federal investiga se Wagner atuou no parlamento em prol de Vorcaro nas tentativas de ampliação de créditos consignados e na chamada “emenda Master”, a famosa proposta de Ciro Nogueira apresentada pelo senador bolsonarista Ciro Nogueira (PL-PI) que consistia em ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$250 mil para R$1 milhão. O FGC é um fundo que existe para a compensação de instituições financeiras que não conseguem pagar seus investidores.
As investigações da Polícia Federal demonstram que houve uma série de contatos entre o gabinete de Wagner e a equipe de Vorcaro sobre a emenda, com ligações entre Lima e o senador no dia em que o texto da proposta foi apresentado, assim como o encaminhamento da emenda para Wagner, encontros presenciais com ele logo durante o período. e registros sobre o interesse de Wagner na situação do Master. As mesmas investigações indicam que os contatos entre os grupos de Wagner e de Vorcaro aconteceram também através de Guilherme Sodré Martins, pai do enteado de Wagner e muito próximo do senador.
E mais uma série de possíveis vantagens financeiras também estão sendo analisadas, como as suspeitas sobre repasse de um imóvel de luxo em Salvador, pagamentos de viagens e shows, empréstimo de jatinho, além do recebimento de R$3,5 milhões feitos para a BN Financeira (empresa da nora de Wagner) em uma suposta operação de lavagem de dinheiro ligada ao Master.
Derrotaremos a extrema direita assim?
Longe de reproduzir ilações, nossa reflexão aqui é objetiva. A unidade eleitoral antifascista contra o bolsonarismo abrange desde organizações e movimentos da esquerda radical até setores democráticos da burguesia contrários ao avanço da extrema direita. Sendo assim, teremos nessa frente muitos daqueles que operam mecanismos legalizados de corrupção (desde dentro ou de fora do estado), como qualquer grande empresário ou investidor capitalista.
Porém, estes setores burgueses e suas operações estão completamente desmoralizados no conjunto da opinião pública e não tem nenhum capacidade de derrotar os neofascistas, podendo inclusive vacilar em momentos críticos. Mesmo que seja inocente do ponto de vista legal – o que parece improvável – está totalmente provado que Jaques Wagner é um defensor das mesmas práticas e interesses burgueses que desmoralizaram totalmente a Nova República e abriram espaço para a ascensão da extrema direita.
As vanguardas para a derrota da extrema direita devem ser as esferas mais combativas em defesa dos reais interesses da classe trabalhadora, não representantes da velha política que lucram através de suas relações com empresários e o estado. Para derrotar Flávio Bolsonaro em outubro, a política mais eficaz no comando da campanha de Lula deverá ser aquela que toca nos anseios populares. Perante a possibilidade concreta do fim da escala 6×1 e de uma opinião pública majoritariamente a favor da defesa da soberania nacional contra o entreguismo, casos como o de Wagner vão no sentido totalmente contrário e realmente podem colocar a campanha de Lula em risco.
Jaques Wagner deve sair imediatamente do cargo de liderança do governo no Senado, assim como qualquer outro alvo de acusações do tipo no governo. E a esquerda não deve ignorar o tema da corrupção, precisa enfrentar seus fantasmas e ter uma posição clara sobre o tema, sob pena de entregar novamente esta pauta para a extrema direita mais corrupta, porém mais cínica. Somente assim teremos credibilidade para exigir que as investigações do escândalo do Bolsomaster vão até o final e cheguem nos seus prováveis operadores principais: o núcleo duro político do bolsonarismo. E tal desenvolvimento do caso poderá ser definidor para a vitória de Lula.