Tarifa de 25% dos EUA amplia tensão comercial com o Brasil
Medida anunciada pelo governo Donald Trump atinge principalmente bens manufaturados e industriais, preserva parte das principais exportações do agronegócio e aprofunda um impasse diplomático que o governo Lula considera de natureza política
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A decisão do governo de Donald Trump de impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos inaugura uma nova fase de tensão nas relações comerciais entre os dois países. Embora uma extensa lista de exceções tenha preservado produtos estratégicos para a pauta exportadora brasileira – como café, carne bovina, petróleo, aeronaves e minério de ferro -, a medida representa um duro golpe para diversos segmentos industriais e pode reduzir a competitividade de empresas brasileiras no maior mercado consumidor do mundo.
A tarifa passa a valer em 22 de julho e decorre de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O mecanismo permite que Washington imponha sanções comerciais quando considera que outro país adota práticas que prejudicam empresas norte-americanas.
Na avaliação do governo brasileiro, porém, a decisão ultrapassa o campo estritamente comercial. Integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty sustentam que as justificativas apresentadas pelo governo Trump misturam temas econômicos, regulatórios e políticos, envolvendo desde o funcionamento do PIX até decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), regulação das plataformas digitais, política ambiental e combate à desinformação.
Indústria concentra as maiores perdas
Apesar da repercussão inicial sugerir um impacto generalizado sobre o agronegócio, a lista definitiva divulgada pelo USTR preservou boa parte dos produtos responsáveis pelo superávit brasileiro nas vendas aos Estados Unidos.
Ficaram fora da tarifa:
- carne bovina;
- café em grão e torrado;
- café solúvel;
- mel orgânico certificado;
- tilápia e diversos pescados;
- suco de laranja;
- castanhas;
- petróleo;
- minério de ferro;
- aeronaves;
- celulares;
- computadores;
- semicondutores;
- fertilizantes;
- medicamentos;
- produtos farmacêuticos;
- diversos minerais estratégicos.
As isenções foram comemoradas por entidades do agronegócio e por setores exportadores que participaram das audiências públicas promovidas pelo USTR nos dias 6 e 7 de julho. Representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), da Fiesp e de associações ligadas ao café, mel e pescados defenderam que a sobretaxa prejudicaria tanto empresas brasileiras quanto consumidores norte-americanos.
Mesmo assim, a indústria brasileira deve concentrar os maiores prejuízos. Entre os produtos que passam a pagar a tarifa de 25% estão:
- máquinas agrícolas;
- equipamentos elétricos;
- bens de capital;
- manufaturados em geral;
- vestuário;
- calçados;
- papel;
- ferramentas;
- equipamentos para mineração;
- açúcar orgânico;
- diversos produtos químicos;
- itens industriais processados.
Economistas avaliam que esses segmentos tendem a enfrentar perda de competitividade frente a concorrentes de outros países que não sofreram sanções semelhantes. Em alguns casos, empresas norte-americanas poderão substituir fornecedores brasileiros por fabricantes mexicanos, canadenses ou asiáticos.
Outro efeito esperado é a redução das margens de lucro das empresas exportadoras brasileiras, que terão de decidir entre absorver parte da tarifa ou repassar o custo aos compradores americanos.
Por que café e carne ficaram de fora?
Embora o governo Trump tenha adotado um discurso duro contra o Brasil ao longo da investigação, a lista de exceções demonstra que Washington também precisou considerar os impactos econômicos internos. Produtos como carne bovina, café e petróleo desempenham papel importante no abastecimento da economia americana. Especialistas em comércio internacional observam que a exclusão desses itens evita pressões inflacionárias sobre consumidores e empresas dos Estados Unidos.
No caso do café, por exemplo, os EUA dependem amplamente das importações brasileiras, principal fornecedor mundial do produto. A imposição da tarifa poderia elevar significativamente os preços ao consumidor.
Situação semelhante ocorre com a carne bovina. Apesar das críticas recentes do governo Trump aos frigoríficos brasileiros e da investigação sobre concentração de mercado, a exclusão do produto reduz o risco de aumento nos preços da proteína animal em território americano.
As justificativas apresentadas pelos Estados Unidos
O relatório final do USTR afirma que determinadas políticas brasileiras “oneram ou restringem” o comércio norte-americano. Entre os principais pontos questionados estão o funcionamento do PIX, o acesso ao mercado brasileiro de etanol, decisões judiciais envolvendo plataformas digitais, acordos comerciais firmados pelo Brasil com outros países;
fiscalização ambiental, proteção à propriedade intelectual, combate à pirataria e
políticas anticorrupção.
O documento também faz críticas à atuação brasileira em temas relacionados ao desmatamento ilegal e menciona decisões envolvendo a Operação Lava Jato. Sobre o PIX, o USTR sustenta que o sistema favoreceria soluções nacionais em detrimento de empresas privadas americanas de pagamentos.
O governo brasileiro rejeita essa interpretação e argumenta que o PIX é uma infraestrutura pública aberta à participação de instituições financeiras nacionais e estrangeiras, inclusive companhias dos Estados Unidos.
Especialistas em sistemas de pagamentos ouvidos por diversos veículos de imprensa e pesquisadores da área afirmam que não há evidências técnicas de que o PIX configure uma barreira comercial incompatível com regras internacionais.
Governo Lula vê motivação política
Desde a abertura da investigação, integrantes do governo Lula sustentam que a disputa extrapola o comércio. Segundo o Itamaraty, temas como decisões do STF, regulação das redes sociais e o funcionamento do PIX pertencem à soberania regulatória brasileira e não podem servir como fundamento para sanções comerciais.
O governo também afirma que respondeu tecnicamente, ponto por ponto, às alegações apresentadas pelo USTR e manteve negociações diplomáticas até a divulgação da decisão final.
Além disso, empresas americanas e entidades empresariais dos próprios Estados Unidos enviaram manifestações ao USTR alertando que muitos produtos brasileiros não possuem substitutos competitivos e que a tarifa aumentaria custos para a indústria americana. Mesmo assim, Washington decidiu manter parte das sanções.
A dimensão política da disputa
Embora o USTR afirme que a decisão decorre exclusivamente da investigação comercial iniciada em 2025, o contexto político ampliou o debate em torno da medida. Nas últimas semanas, Donald Trump voltou a fazer críticas públicas ao governo Lula, ao STF e às decisões relacionadas à regulação das plataformas digitais. O presidente norte-americano também tem aproximado seu discurso do campo político representado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Especialistas em relações internacionais observam que, embora a Seção 301 seja um instrumento comercial previsto na legislação americana, sua aplicação frequentemente incorpora objetivos estratégicos e diplomáticos. O próprio governo Trump utilizou o mecanismo durante seu primeiro mandato em disputas com a China e outros parceiros comerciais.
O que pode acontecer agora
Além da tarifa de 25%, o Brasil ainda pode enfrentar uma sobretaxa adicional de 12,5% em outro processo conduzido pelos Estados Unidos, relacionado ao combate à circulação de produtos fabricados com trabalho forçado. Caso ambas as medidas incidam sobre os mesmos bens, parte das exportações brasileiras poderá enfrentar uma carga tarifária total de até 37,5%.
O governo Lula estuda os próximos passos. Entre as possibilidades estão a continuidade das negociações diplomáticas, a contestação das medidas nos mecanismos internacionais cabíveis e a eventual aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso para permitir respostas a barreiras comerciais consideradas discriminatórias.
Enquanto isso, exportadores brasileiros acompanham a implementação das tarifas e avaliam seus efeitos sobre contratos, investimentos e cadeias produtivas. A preservação de produtos estratégicos ameniza parte do impacto econômico imediato, mas a taxação sobre bens industriais amplia a incerteza para um setor que já enfrenta forte concorrência internacional e depende do mercado norte-americano para agregar valor às exportações brasileiras.