Revés eleitoral na Colômbia abre uma nova fase de luta
Embora a situação no país seja muito fluida e incerta, as tensões estão aumentando rapidamente entre esquerda e direita na Colômbia, e entre os países latino-americanos e os Estados Unidos
Foto: Votação nas recentes eleições presidenciais colombianas. (Transparencia Electoral/Reprodução)
Via New Politics
A derrota apertadíssima da esquerda na eleição presidencial do Peru e a rejeição, pela esquerda, da legitimidade da eleição do cidadão norte-americano e candidato de ultradireita Abelardo de la Espriella na Colômbia prepararam o terreno para um novo período de conflito social e de classe na América Latina.
A temperatura política na Colômbia continua a subir após os contestados resultados eleitorais oficiais que tornaram o candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella o presumível presidente eleito.
O presidente Gustavo Petro rejeitou os resultados eleitorais e convocou manifestações nacionais para o dia 20 de julho, data em que o novo Congresso tomará posse. Ele escreveu no X:
O presidente da Colômbia não reconhece a legitimidade do governo que assume. Abelardo não venceu as eleições.(…)
A maioria nacional é chamada, neste 20 de julho, a erguer o grito de independência nacional em todas as praças públicas.
Desde as eleições
Em 24 de junho, três dias após o segundo turno da eleição presidencial da Colômbia, o senador Iván Cepeda, candidato presidencial do Pacto Histórico e da Aliança pela Vida, de esquerda, reconheceu a derrota para Abelardo de la Espriella, candidato de direita e agora presumível presidente eleito da Colômbia.
Cepeda declarou: “Nesta etapa da apuração das urnas e da votação, decidi aceitar os resultados desse processo. Eles indicam que Abelardo de la Espriella é o novo presidente da República. Faço isso como um ato de responsabilidade democrática… No entanto, aceitar o resultado eleitoral não significa abrir mão da verdade nem calar-se diante de fatos que consideramos graves e que marcaram esta campanha presidencial.”
Depois, apenas seis dias mais tarde, Cepeda exigiu que de la Espriella renunciasse à sua cidadania norte-americana e aos seus vínculos com agências de inteligência e policiais dos EUA como condição para assumir a presidência da Colômbia. De la Espriella é cidadão colombiano de nascimento, cidadão naturalizado dos Estados Unidos — tendo jurado renunciar a qualquer lealdade a outros países — e também cidadão italiano.
Cepeda pediu que as autoridades judiciais agissem para proteger a soberania colombiana e convocou a população do país a praticar a desobediência civil pacífica caso de la Espriella não renuncie aos seus vínculos com os EUA.
A rejeição dos resultados eleitorais por parte do presidente Gustavo Petro e a convocação para manifestações começaram com esta declaração:
Temos todas as informações sobre o servidor de IP localizado em Los Angeles, Califórnia, de propriedade dos irmãos Bautista, que foi integrado à operação de apuração de votos. Foram utilizados algoritmos que alteraram substancialmente a contagem de votos em favor de Abelardo. Os algoritmos que fraudaram os resultados eleitorais foram usados com as listas de eleitores registrados que nunca votam, substituindo-os por eleitores que podiam votar múltiplas vezes ou por eleitores sem registro nas seções eleitorais.
As seções eleitorais no exterior, onde Abelardo obteve 177 mil votos a mais que Cepeda, tinham mesários vindos da Colômbia que não eram residentes nos EUA ou na Espanha, o que é ilegal. Essas seções eleitorais também incluíam eleitores trazidos para a Copa do Mundo, que conseguiram votar sete vezes usando os nomes de pessoas que nunca votam.
O mesmo ocorreu em várias regiões de Antioquia e Medellín, em Norte de Santander, e em seções eleitorais no norte de Bogotá… A empresa que forneceu aos irmãos Bautista os algoritmos fraudulentos e outro tipo de apoio é uma firma israelense de inteligência privada chamada BlackCube.
O opaco software de coleta e apuração de votos pertence a uma empresa privada conhecida como Thomas Greg and Sons. A empresa é de propriedade da família Bautista, colombianos atualmente radicados nos Estados Unidos. Eles mantêm laços estreitos com políticos do establishment de direita tanto nos Estados Unidos quanto na Colômbia, e alguns deles já foram condenados por crimes financeiros nos EUA.
Separadamente, Petro anunciou que o governo descobriu provas de que um proeminente apoiador de Trump nos Estados Unidos, chamado Dan Newlin, havia doado ilegalmente US$ 1,8 milhão à campanha de de la Espriella. Newlin é advogado criminalista com escritórios na Flórida, em Illinois e em Medellín, na Colômbia. Trump o havia indicado para ser embaixador dos EUA na Colômbia, mas a indicação foi rejeitada pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado, dominado pelo Partido Republicano.
A posição política de de la Espriella está se deteriorando rapidamente antes mesmo de ele tomar posse. Agora, ele afirma que sua primeira medida no governo será baixar um decreto para criar uma “força de defesa urbana”, que remete à Convivir, o disfarce legal usado no passado pelas milícias paramilitares e esquadrões da morte colombianos.
Embora a situação no país seja muito fluida e incerta, as tensões estão aumentando rapidamente entre esquerda e direita na Colômbia, e entre os países latino-americanos e os Estados Unidos.
Quem realmente venceu a eleição?
A apuração oficial do Conselho Nacional Eleitoral deu a Abelardo de la Espriella 12.959.542 votos, menos de 1% a mais que os 12.708.712 votos do senador Iván Cepeda. O comparecimento de 63,6% foi recorde no país.
Os resultados oficiais finais e completos foram anunciados mesmo já havendo mais de 57 mil contestações de irregularidades — como compra de votos e fraude eletrônica — antes mesmo do próprio anúncio de Petro.
Os generalizados incidentes de vários tipos de fraude e irregularidades já haviam levado muitos apoiadores do Pacto Histórico a questionar a concessão de derrota de Cepeda.
Luis Guillermo Pérez Casas, líder do Pacto Histórico, está à frente do esforço para reunir provas em todo o país através do e-mail acciondenulidad2026@gmail.com. Casas é advogado de direitos humanos e já atuou como Secretário-Geral para as Américas da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH). Até agora, quase 200 mil colombianos se inscreveram para ajudar nesse esforço.
Uma ampla variedade de irregularidades e fraudes foi registrada, além daquelas relacionadas diretamente à intervenção dos EUA. Incluem-se votos de pessoas mortas e de crianças, fotografias de votos usadas para cobrar pagamentos de compradores de votos, funcionários da secretaria de registro eleitoral impedindo fiscais de partido de exercerem suas funções, e alterações feitas em certificações de votação depois de já terem sido registradas.
Se a apuração não for revertida, de la Espriella tomará posse em 7 de agosto. Até lá, o atual presidente de esquerda, Gustavo Petro, permanecerá no cargo, embora já tenha iniciado o processo de transição para entregar o governo a de la Espriella.
Segundo a Constituição colombiana, o candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial torna-se automaticamente membro do Senado recém-eleito do país. Ainda assim, a direita já fala em tentar impedir que Cepeda assuma sua cadeira no Senado, caso ele não reconheça os resultados oficiais da eleição. Se empossado, Cepeda se tornará Presidente do Senado (com poderes semelhantes aos do líder da maioria no Senado dos EUA), já que o Pacto Histórico detém a maior bancada do Senado. Os membros do novo Senado e da nova Câmara de Representantes tomarão posse em 20 de julho.
Um país polarizado e dividido
Esta eleição deu continuidade a tendências já visíveis na eleição anterior: enquanto o sistema multipartidário sobrevive no Legislativo e nos governos departamentais e municipais, o sistema multipartidário colombiano está colapsando rumo a um novo bipartidarismo nas eleições presidenciais, com o desaparecimento do centro.
O novo sistema binário não é uma repetição do velho sistema formado pelo Partido Liberal e pelo Partido Conservador. Esses antigos partidos eram liderados por diferentes setores da classe dominante, que haviam evoluído desde antes da luta do país pela independência. Seu domínio corrupto, mas também marcado pela violência, foi transformado com a promulgação da Constituição de 1991 do país.
Em vez disso, esses dois antigos partidos e as diversas facções e máquinas políticas que os compunham estão hoje se fundindo em uma nova conglomeração da classe dominante de direita.
Eles ainda se odeiam tanto quanto sempre se odiaram, mas, mais do que se odeiam entre si, temem o poder crescente da classe trabalhadora e dos oprimidos. Esse poder está se consolidando no novo partido político chamado Pacto Histórico.
O Pacto Histórico é a encarnação atual de uma série de coalizões eleitorais de esquerda, formadas mais por razões ligadas às exigências da lei eleitoral e pelo objetivo de eleger lideranças de esquerda do que por qualquer desejo sério de criar um partido unificado da classe trabalhadora e dos oprimidos. Apesar de sua história frequentemente reativa, improvisada e pouco planejada, o Pacto se tornou uma aproximação bastante próxima de um partido de massas da classe trabalhadora e dos oprimidos. Sua base eleitoral é composta majoritariamente pela classe trabalhadora urbana, e as organizações que o apoiam incluem os sindicatos do país, boa parte de sua população indígena e afrodescendente, e amplos setores dos movimentos feminista, LGBTQ+ e ambientalista.
Uma boa aproximação da curva ascendente de crescimento da esquerda na Colômbia pode ser vista em seus resultados nas eleições presidenciais, conforme a tabela abaixo.
| Ano | Candidato | Partido | Primeiro Turno | Segundo Turno | ||
| votos | % | Votos | % | |||
| 2002 | Luis Eduardo Garzón | Polo Democrático Independiente | 680.000 | 6,16% | ||
| 2006 | Carlos Gaviria Polo | Democrático Alternativa | 2.613.000 | 22,03% | ||
| 2010 | Gustavo Petro | Polo Democrático Alternativa | 1.331.000 | 9,14% | ||
| 2014 | Clara López | Polo Democrático Alternativa | 1.958.518 | 15,22% | ||
| 2018 | Gustavo Petro | Colombia Humana | 4.855.069 | 25,09% | 8.040.449 | 41,77% |
| 2022 | Gustavo Petro | Colombia Humana/Pacto Histórico | 8.542.020 | 40,34% | 11.292.758 | 50,42% |
| 2026 | Iván Cepeda | Pacto Histórico/Aliança pela Vida | 9.688.361 | 40,90% | 12.708.712 | 48,70% |
Vale notar que, em 2010 e 2014, o Partido Verde lançou candidatos presidenciais que tiraram votos dos candidatos do Polo Democrático (em 2010, Antanas Mockus recebeu 3.134.000 votos, ou 21,51%; e em 2014, Enrique Peñalosa recebeu 1.064.000 votos, ou 8,27%). Essas foram as únicas eleições em que os Verdes lançaram campanhas presidenciais no país.
O gabinete de “Los que Siempre” (Aqueles que sempre estiveram lá)
Muito se falou sobre a campanha de de la Espriella, bem produzida, com uso de redes sociais e inteligência artificial, e slogans de campanha inteligentes. Embora tudo isso seja verdade, as chaves de sua vitória residem no fato de que ele era uma incógnita que parecia conservadora e de direita. Nos bastidores, sem publicidade, sua campanha uniu a máquina política dos partidos de direita para mobilizar as camadas conservadoras da classe média colombiana.
Ele fez campanha como um outsider político, usando como modelo as campanhas de Donald Trump nos EUA, Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina, e Rodolfo Hernández, aqui na Colômbia (o candidato da direita colombiana que perdeu a eleição presidencial de 2022). Assim como nessas campanhas, de la Espriella está longe de ser um outsider, mas era uma folha em branco para o público. Seu passado obscuro como testa de ferro do grupo paramilitar AUC, como advogado de traficantes de drogas, lavadores de dinheiro e políticos corruptos, e como estreito colaborador da DEA e do FBI, só começou a vir à tona perto do fim da campanha.
Sua campanha foi construída sobre mentiras. Um homem que se declarava ateu passou a abraçar a religião e a apelar especialmente para as crescentes igrejas evangélicas do país. Ele colocou dois de seus líderes em seu novo gabinete.
Sabendo que a pequena burguesia conservadora do país havia dado as costas à liderança tradicional de direita, ele prometeu que não faria acordos com os partidos políticos tradicionais e formaria um governo de “los que nunca” (“aqueles que nunca”, algo como “os despossuídos” em português). O slogan era uma promessa de livrar o país dos políticos de direita corruptos, mantendo-se fiel aos valores conservadores.
Sua escolha de vice-presidente já deveria ter avisado seus eleitores de que se tratava de uma mentira.
O novo vice-presidente, José Manuel Restrepo, é um aristocrata colombiano, descendente de três presidentes, que foi Ministro da Fazenda no governo de Iván Duque, marcado por escândalos. Restrepo parece ser o líder de fato do novo governo. Desde a eleição, de la Espriella sumiu da vida pública, enquanto Restrepo está constantemente na mídia e lidera a equipe de transição do novo governo.
Se a escolha de Restrepo não bastou para alertar a base eleitoral de de la Espriella sobre seu jogo de “isca e troca”, suas nomeações para o gabinete deixaram isso claro. Seus ministros recém-nomeados serviram, em sua maioria, nos governos de direita de Álvaro Uribe e Iván Duque, e membros-chave vêm da elite de duas das mais corruptas dinastias familiares da direita colombiana: a família Char, de Barranquilla, que hoje controla o partido conhecido como Cambio Radical, e a família Pastrana, que domina o Partido Conservador. O patriarca desse partido é o ex-presidente Andrés Pastrana, famoso por suas 33 menções nos arquivos Epstein.
O gabinete de “Los que Siempre” (Aqueles que sempre estiveram lá)
| Facção | Nome | Ministério | Observações |
| Família Char | Elsa Noguera | Ministra dos Transportes | O marido é um traficante de drogas condenado |
| Família Char | Rodrigo Lara Restrepo | Ministro do Interior | Seu pai foi Ministro da Justiça, assassinado por ordem de Pablo Escobar. |
| Família Char | Mauricio Gómez | Ministro do Comércio Exterior | |
| Família Pastrana | Miguel Gómez Martínez | Ministro da Fazenda | Neto de Laureano Gómez, o presidente mais extremista de direita da história da Colômbia. |
| Máquina de Uribe | Iván Cancino González | Ministro da Justiça | (Uribe, Gilinski, Odebrecht) |
| Máquina de Uribe | Lorena Angarita | Ministra de Tecnologia, Informação e Comunicações | Ativista de internet e candidata ao Senado sem formação ou qualificações aparentes |
| Máquina de Uribe | Paloma Valencia | Minas e Energia | Candidata presidencial oficial do Centro Democrático de Álvaro Uribe |
| Evangélicos | Viviane Morales | Ministra da Educação | Ex-Procuradora-Geral |
| Evangélicos | Jaime Andrés Beltrán | Ministro da Habitação | Ex-prefeito de Bucaramanga, destituído do cargo por violar leis eleitorais. |
| Partido Salvación Nacional | General da reserva Jorge Eduardo Mora López | Ministro da Defesa | Militar de carreira, com laços estreitos com a DEA. Afastado da cadeia de comando por Petro após ser investigado — mas não condenado — por corrupção. Candidato ao Senado pelo Partido Salvación Nacional, de extrema-direita. |
| Sem filiação | Fabio Alberto Arjona Hincapié | Ministro do Meio Ambiente | Um suposto ambientalista que apoia o fracking e a mineração a céu aberto em áreas sensíveis dos Andes |
Planos e ameaças
De la Espriella fez muitas promessas e ameaças que envolvem o uso agressivo de decretos executivos em vez de recorrer aos processos legislativos, a começar por sua tentativa de usar o processo de transição para promover uma caça às bruxas contra membros do governo atual.
Grande parte do que ele quer fazer exige ação legislativa segundo a Constituição colombiana, e outras metas são simplesmente inconstitucionais. Embora sua campanha afirme que todos os partidos do Legislativo, exceto o Pacto Histórico e a Aliança Verde, concordaram em apoiar o novo governo, isso não foi confirmado por todas as lideranças partidárias, e mesmo que confirmem, é pouco provável que consigam controlar todos os seus próprios parlamentares.
De la Espriella diz que quer diminuir o tamanho do Estado, transferir poderes e receitas do governo central para os governos departamentais e municipais — notoriamente corruptos —, incentivar o investimento privado, a mineração e os combustíveis fósseis, e lançar uma grande ofensiva contra grupos armados e organizações do narcotráfico. Tudo isso nos primeiros 100 dias de governo.
Ele também planeja retomar a erradicação aérea de coca com o uso de bioherbicidas, construir 10 megaprisões no estilo Bukele, revogar decretos que restringem o uso das Forças Armadas contra a população civil, subsidiar o sistema privado de saúde com mais 10 trilhões de pesos colombianos, e lançar uma caça às bruxas contra Gustavo Petro, funcionários que serviram em seu governo, e o Pacto Histórico.
Além dessas medidas divulgadas publicamente, de la Espriella propôs reverter as reformas previdenciária e agrária do governo Petro e, apesar de suas declarações públicas em sentido contrário, espera-se que tente reverter os grandes avanços no salário-mínimo obtidos sob o governo Petro, bem como as melhorias feitas na educação pública.
De onde vieram os votos?
Independentemente de a eleição de de la Espriella ser legítima e de quantos votos tenham sido falsamente atribuídos a ele, a Colômbia está claramente dividida em quatro grandes setores políticos: os aproximadamente 16 milhões de pessoas aptas a votar que não votaram; os quase 10 milhões de eleitores politicamente ativos da classe trabalhadora e dos oprimidos que apoiaram o Pacto Histórico no primeiro turno; os 12 milhões de eleitores politicamente ativos da classe média e média-alta que votaram na direita no primeiro turno das eleições; e cerca de 2 milhões de eleitores politicamente ativos indecisos.
Uma análise atenta das estatísticas e dos mapas revela que os votos do Pacto Histórico vieram dos bairros pobres e da classe trabalhadora das grandes cidades e das regiões afrocolombiana e indígena do país. Em contraste, os votos da direita vêm dos bairros de classe média e média-alta das grandes cidades, e das pequenas cidades e vilarejos da região andina do país, ainda dominados pelas velhas máquinas políticas. Essas mesmas áreas também respondem por boa parte da população politicamente inativa. Eleitores indecisos podem ser encontrados em toda parte, mas se concentram principalmente nos bairros de classe média das grandes cidades.
Esta eleição revelou duas grandes mudanças no eleitorado. Primeiro, muitos pessoas que nunca haviam votado compareceram às urnas, e a maioria desses novos eleitores apoiou o Pacto Histórico. Segundo, as classes médias migraram para a direita. As margens de vitória do Pacto Histórico diminuíram em algumas cidades, incluindo Bogotá, e em distritos de classe média e média-alta em todo o país.
Essa mudança pode ser atribuída a vários fatores. Primeiro, apesar da queda nos índices de criminalidade, a grande mídia passou quatro anos amplificando cada crime cometido em cada cidade do país e culpando o governo Petro por eles. Em segundo lugar, o programa de Paz Total de Petro fracassou em promover o desarmamento e a desmobilização dos grupos armados que controlam o narcotráfico ilegal e algumas áreas rurais isoladas do país. Terceiro, o conflito entre o governo Petro e a indústria privada de saúde resultou em atrasos e negativas de atendimento entre pacientes que pagam por planos de saúde premium, o que irritou boa parte da classe média.
Quarto, o grande aumento do salário-mínimo fez subir as taxas mensais de administração em condomínios e aumentou a remuneração dos milhões de mulheres que trabalham como empregadas domésticas e faxineiras. Isso enfureceu esses eleitores, mesmo que muitos se sentissem constrangidos em admiti-lo.
De 1970 a 2026
Esta eleição ecoa o tumultuado roubo eleitoral de 1970, mas é muito diferente em muitos aspectos. De 1958 a 1974, os dois partidos tradicionais da classe dominante colombiana, os Conservadores e os Liberais, governaram o país em um acordo de partilha de poder mais ou menos amistoso. Cada partido concordava em deixar o outro governar e ficar com a maior parte dos espólios do poder durante quatro anos, para depois assumir sua própria vez de saquear os cofres públicos.
Esse acordo foi chamado de Frente Nacional. Em 1970, era a vez do Partido Conservador vencer a eleição presidencial, de modo que o Partido Liberal não lançou candidato à Presidência. Para infelicidade dos dois partidos, o ex-ditador militar Gustavo Rojas Pinilla, que havia sido afastado do poder pelo acordo do Frente Nacional, decidiu concorrer contra o candidato conservador, Misael Pastrana. Pinilla estava vencendo a eleição quando o governo parou de divulgar os resultados, decretou estado de emergência e, em seguida, declarou que Pastrana havia vencido a eleição. Nos dias seguintes à eleição, houve confrontos nas ruas, e escolas e comércios fecharam.
Três anos depois, um novo movimento guerrilheiro, o Movimento 19 de Abril (M-19), foi formado em reação ao roubo eleitoral. Seu objetivo mais importante era lutar pelo direito democrático simples de “um homem, um voto”. Ainda jovem, Gustavo Petro ingressou no M-19, e pouco depois, Iván Cepeda entrou no partido político legal em que o movimento se transformou após se desmobilizar em 1990. Tanto o Pacto Histórico quanto a Aliança Verde descendem, em aspectos importantes, do M-19.
Desta vez, a direita terá muito mais dificuldade para roubar a eleição. Em primeiro lugar, Gustavo Petro ainda é presidente e comandante-em-chefe das Forças Armadas, da polícia e das agências de inteligência colombianas. Embora a direita ainda mantenha uma rede poderosa dentro das Forças Armadas, da polícia e da burocracia governamental, está longe de ter o controle que exercia em 1970. Por outro lado, a esquerda colombiana agora tem um partido de massas que não existia em 1970, e boa parte da esquerda já deixou para trás seu terrível desvio pelo “guerrilheirismo”.