Brasil reduz a fome, mas desigualdade persiste
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Brasil reduz a fome, mas desigualdade persiste

Relatório mostra avanços em emprego e segurança alimentar, mas 1% mais rico ainda recebe 31,5 vezes mais que metade da população

Tatiana Py Dutra 13 ago 2026, 08:42

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Brasil conseguiu avançar em indicadores importantes de emprego, renda, pobreza e segurança alimentar em 2025, mas continua convivendo com uma desigualdade social de dimensões brutais. É o que revela o Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, elaborado em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Dos indicadores analisados, 71% apresentaram melhora no ano passado, enquanto 16% pioraram e 13% permaneceram estáveis. Os resultados positivos aparecem principalmente no mercado de trabalho e na redução da fome e da pobreza. O problema é que a melhora média da economia não significou uma distribuição proporcional dos ganhos.

O rendimento médio real dos brasileiros chegou a R$ 3.376 em 2025, alta de 5,3% em relação ao ano anterior. Mas a fotografia da média esconde desigualdades profundas de gênero e raça. O rendimento das mulheres correspondeu a apenas 72,2% do recebido pelos homens, enquanto a situação das mulheres negras é ainda mais desigual.

Com rendimento médio de R$ 2.184, as mulheres negras receberam 57,8% menos que os homens não negros, cujo rendimento médio alcançou R$ 5.172.

“Esse dado confirma, mais uma vez, que têm consolidado as desigualdades históricas entre as raças no país”, afirma o relatório.

A riqueza continua concentrada

A principal evidência da persistência da desigualdade está no abismo entre o topo e a base da pirâmide social. Os 2,1 milhões de brasileiros que integram o 1% mais rico têm rendimento médio 31,5 vezes superior ao dos 106,4 milhões que compõem os 50% mais pobres.

Embora a proporção seja inferior à observada em 2022, o indicador permanece praticamente estagnado. Em relação a 2024, a diferença aumentou 1,3 ponto percentual, sinal de que o crescimento da renda não foi acompanhado por uma mudança estrutural na distribuição da riqueza.

A desigualdade também varia entre as regiões. No Sudeste, onde está concentrada grande parcela da atividade econômica nacional, o rendimento do 1% mais rico é 30,3 vezes maior que o dos 50% mais pobres. No Sul, a proporção é de 21,8 vezes.

O maior agravamento ocorreu no Centro-Oeste: a distância passou de 25 para 29,3 vezes entre 2024 e 2025. Nordeste e Sul, por outro lado, registraram redução da desigualdade no período.

Os números expõem um dos problemas históricos do capitalismo brasileiro: mesmo quando o mercado de trabalho melhora e a renda média cresce, os frutos do crescimento continuam distribuídos de maneira profundamente desigual.

Mulheres negras seguem na parte mais baixa da pirâmide

A desigualdade brasileira também tem cor e gênero. O rendimento das mulheres negras permanece no patamar mais baixo entre os principais grupos analisados pelo estudo.

A diferença em relação aos homens não negros chega a quase R$ 3 mil mensais. Não se trata apenas de uma disparidade salarial individual, mas de uma estrutura social que combina racismo, desigualdade de oportunidades, precarização e divisão desigual do trabalho. O mesmo padrão aparece quando o relatório analisa a segurança alimentar.

Entre 2023 e 2024, a proporção da população vivendo em domicílios submetidos a insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% para 7,7%. O resultado está associado à retomada de políticas públicas de combate à fome.

É uma melhora importante – e que demonstra o impacto de políticas estatais de proteção social. Mas também revela que combater a fome exige mais do que crescimento econômico: exige ação pública deliberada para fazer a renda e os direitos chegarem a quem mais precisa.

Racismo também determina quem passa fome

A redução da insegurança alimentar não ocorreu de forma igual. Entre as mulheres negras, 10% vivem em domicílios submetidos a insegurança alimentar moderada ou grave, mais que o dobro dos 4,6% registrados entre mulheres não negras. Entre os homens, a taxa é de 9,7% para negros e 4,7% para não negros.

“Esses indicadores demonstram que o racismo continua sendo um importante determinante da insegurança alimentar”, afirma o Observatório.

A desigualdade também aparece entre as crianças. Em 2025, a desnutrição infantil atingiu 3,4% da população analisada, mas com diferenças expressivas: 3,3% entre crianças não negras, 4% entre negras e 7,3% entre indígenas.

Para o relatório, a disparidade não pode ser explicada apenas pela renda.

“[A desigualdade alimentar] resulta da combinação entre racismo estrutural, exclusão territorial, acesso desigual às políticas públicas, fragilidade dos sistemas locais de abastecimento e insuficiente reconhecimento dos modos próprios de produção de alimentos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais”, conclui o estudo.

O Norte permanece como a região mais atingida pela insegurança alimentar: 14,9% da população vive em domicílios submetidos a insegurança alimentar moderada ou grave. No Sul, o índice é de 3,7%.

Imposto de Renda e redistribuição

O relatório também destaca a importância da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil como uma medida capaz de ampliar a capacidade redistributiva do Estado. A mudança representa um passo em direção a um sistema tributário menos regressivo, embora, segundo o próprio estudo, esteja longe de ser suficiente para enfrentar a concentração histórica de renda.

“Talvez essa tenha sido uma de suas maiores vitórias: o sistema tributário, frequentemente apresentado como uma engrenagem inacessível ao debate público”, afirma o Observatório.

O diagnóstico produzido pelo estudo é, portanto, contraditório apenas na aparência: o Brasil pode melhorar simultaneamente em emprego, renda média e segurança alimentar e, ainda assim, continuar profundamente desigual.

A queda do desemprego e da fome mostra que políticas públicas têm capacidade de transformar concretamente a vida da população. Mas a permanência – e em alguns casos o agravamento – do abismo entre ricos e pobres evidencia os limites de um modelo econômico que permite que uma pequena parcela da sociedade concentre uma fatia desproporcional da riqueza produzida por milhões.

Os números do Observatório deixam uma mensagem incômoda: reduzir a pobreza não é o mesmo que superar a desigualdade. Para isso, é necessário enfrentar as estruturas que concentram renda, patrimônio, oportunidades e poder – e fazer da redistribuição uma política permanente de Estado.


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