Três questões centrais para as eleições que começam – e como encará-las
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Três questões centrais para as eleições que começam – e como encará-las

Vamos começar uma batalha dura. Votamos taticamente em Lula contra a extrema direita e o imperialismo, afirmando nosso programa antifascista e anticapitalista

Israel Dutra 14 ago 2026, 18:51

Foto: Trump e Flávio Bolsonaro na Casa Branca. (Truth Social/Reprodução)

As eleições estão começando. A disputa política já domina a situação, vide o noticiário: Flávio teria sido filiado ao partido Missão, ataques entre Lula e Flávio, disputas judiciais, pesquisas que indicam a disputa apertada.

Apesar de certa apatia, alguns grandes temas estão em discussão: a questão da soberania, a luta contra a escala 6×1, a luta das mulheres contra a misoginia e a violência política de gênero. São estas as bandeiras centrais, as quais o PSOL deve ser pólo ativo na mobilização e engajamento na disputa eleitoral.

Além dessas questões, há três, a depender de como vai evoluir sua dinâmica, que irão marcar o debate político e determinar as eleições: [a] a interferência dos Estados Unidos e Trump no processo, [b] a questão das redes sociais e das big techs; [c] como o agravamento da crise climática no Brasil irá impactar as eleições, a partir das previsões do Super El Niño. Nossa tarefa é buscar dialogar com essas três questões, antecipando e prevendo cenários, para a intervenção política, durante o processo eleitoral.

Trump não deixa dúvidas

Que os Estados Unidos estão intervindo, de forma mais ostensiva ou não, no processo político latino-americano, é um fato. Trump, derrotado no Oriente Médio, volta suas baterias contra a América Latina, com o presidente argentino, Milei, sendo seu principal articulador. Celebra a vitória de seus parceiros diretos no Peru e Colômbia, com Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella.

Depois, de forma inequívoca, Trump atacou o Brasil, via tarifaço, depois com a crise dos vistos, sempre ameaçando o Pix, a soberania nacional e a indústria nacional. Agora, escalou no vídeo que foi denunciado por Jamil Chade, onde Trump alenta a invasão da Venezuela e a nova doutrina Monroe (agora “Donroe”), ameaçando que os Estados Unidos vão aprofundar sua “ocupação” da região. A operação, dirigida pelo Secretário de Defesa Pete Hegseth desde o centro de treinamento militar do Panamá, agora prepara invasões terrestres ao continente latino-americano, com o pretexto de combater o narcotráfico.

Está se preparando uma disputa de alta intensidade, com o neocolonialismo disposto a ir até o final em suas ameaças. É o momento de unidade de ação com Lula, fortalecendo sua campanha nas eleições e defendendo que o governo tome medidas assertivas contra os ataques imperialistas, como a aplicação coerente da “reciprocidade”, a proibição de ações de desestabilização interna promovida por big techs e a punição exemplar de traidores que conspiram com o governo Trump, entre outros exemplos.

O digital no centro da eleição

O julgamento do STF sobre a utilização da Inteligência Artificial (IA) nas próximas eleições, de certa forma, será definidor também da capacidade da capacidade do bolsonarismo aliado às big techs influenciarem as eleições. Tal decisão, que deveria ser tomada na última quinta-feira (13), mas foi adiada, é resultado da utilização de um vídeo de Jair Bolsonaro feito por IA declarando seu apoio à Flávio, mesmo com o ex-presidente terminantemente proibido de se expressar publicamente devido a sua condenação por tentativa de golpe de estado.

Tal questão não é menor porque, caso a IA seja totalmente liberada, as consequências serão imprevisíveis tanto de uma maneira mais superficial, vídeos de apoio realizados dentro dos mesmos campos políticos, como de forma mais profunda, com a IA objetivamente servindo como tecnologia amplificadora de fake news. Além da importância de uma decisão o mais restritiva possível pelo tribunal, é central também que os mecanismos de fiscalização e punição às transgressões sejam fortalecidos, já que notadamente as multas eleitorais são irrisórias perante os montantes dos fundos eletorais recebidos pelos partidos.

Para além da IA, as redes sociais e ferramentas de comunicação mediadas pelas big techs também devem ser estritamente reguladas. A recente proibição das lives na plataforma Discord foi um passo importante, dado o papel desta ferramenta na difusão de conteúdos criminosos que criam um terreno fértil para a extrema direita, mas ainda é muito pouco perante o risco de atos antidemocráticos. A regulação e fiscalização severa de plataformas como o Instagram, o Facebook, o X e similares poderão fazer a diferença para garantir o resultado democrático em uma eleição bastante acirrada.

Diante da crise climática

A questão climática é outro elemento que pode ter papel central nas eleições. O evento chamado Super El Niño já dá seus sinais em diversos estados e tende a se amplificar nos próximos meses, gerando também incertezas. Não é exagero afirmar que uma catástrofe das proporções das enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 poderia impactar diretamente os resultados eleitorais.

Tais eventos extremos se tornarão cada vez mais comuns e nossa tarefa perante tal cenário é dupla: defender ações de mitigação de danos, mas principalmente atacar as causas das mudanças climáticas. Por um lado, isso significa lutar por ações que deem retaguarda aos mais atingidos por tais eventos, especialmente os setores racializados e mais vulneráveis da população e, por outro, nomear diretamente os responsáveis pela situação: a indústria do extrativismo predatório, dos combustíveis fósseis, e seus defensores negacionistas da extrema direita. E agora, na sua nova versão, a instalação de datas centers por todo país.

Com uma camada cada vez maior da população sentido diretamente os efeitos da emergência climática, nossa tarefa é politizar a indignação popular através das verdades científicas para demonstrar como os grandes capitalistas são os verdadeiros responsáveis por tais catástrofes, apontando um programa socialista radical como resposta para um problema impossível de ser resolvidos dentro dos limites desse sistema, como a COP30 demonstrou nitidamente.

Lutar pra vencer

Trocando em miúdos: a eleição terá um caráter plebiscitário. Se no passado, os argentinos consagraram a máxima “Braden ou Peron” para refletir a polarização eleitoral contra o embaixador ianque à época, hoje teríamos algo como “Trump ou Lula”.

A campanha deve mobilizar ao redor de temas concretos e não só pedir o voto como a ação consciente de milhões para conter esse avanço. Essa é uma linha para vencer e que vamos levar até o ato de lançamento de Lula no estádio Vila Euclides, repetindo o slogan “Fora Trump da América Latina”.

Para vencer a eleição é necessário destravar a luta da 6×1, fazer valer a força das mulheres contra a misognia e a violência, defender um plano de emergência climática.

Mas a luta não terminará com Bolsonaro derrotado e Lula reeleito. É preciso lutar e vencer muito mais: os próximos anos exigem uma nova localização do Brasil para fazer frente a ofensiva neocolonial. Para tanto é necessário romper com atual modelo agroexportador, que há décadas repete o ciclo de “Dependência- reprimarização- desindustrialização- decadência”.

Precisamos insistir na soberania digital, com investimento e controle públicos em alta tecnologia, aliando-se a inciativas por fora das big techs e do imperialismo estadunidense, como explica Sergio Amadeo. Na soberania alimentar, para acabar com a fome no país e baixar os custos dos alimentos. E na soberania ambiental, para defender nossas reservas, rios e terras, com vistas a construir outro modelo econômico. O PSOL e sua ala esquerda tem a tarefa de tomar em suas mão as tarefas democráticas e nacionais, que a burguesia brasileira nunca foi capaz de resolver, numa atualização programática.

E para além de palavras, há esforços em curso. A consolidação de diretrizes programáticas ecossocialistas entre as fundações do PSOL e da Rede indicam como se preparar para a catástrofe que nos aguarda. E os ciclos de debates programáticos que o PSOL e os candidatos do MES vem fazendo são um exemplo para buscar a força social necessária para impulsionar esse movimento, que vai muito além das eleições.

Vamos começar uma batalha dura. Votamos taticamente em Lula, mas não confiamos em seu programa e sua estratégica de conciliação de classes. Vide a sustentação do ministro Múcio, que já deveria ter sido demitido, com suas declarações a favor dos inimigos da pátria.


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