Quem disse que a Terra é nossa?
Ailton Krenak

Quem disse que a Terra é nossa?

Em “Caminhos para a cultura do Bem Viver”, Ailton Krenak questiona a ideia de que a humanidade está separada da natureza e propõe outra maneira de habitar o mundo

Vanderlei Tenório 20 ago 2026, 11:44

Foto: Reprodução

O que significa viver bem? A pergunta parece simples, mas talvez tenha se tornado difícil justamente porque aprendemos a respondê-la olhando quase exclusivamente para nós mesmos. Pensamos em conforto, segurança, saúde, dinheiro, tempo livre. Calculamos o que nos falta e imaginamos o que precisaríamos conquistar para que a vida finalmente pudesse ser considerada boa. Raramente incluímos nessa conta aquilo que está ao nosso redor.

É a partir desse deslocamento que Ailton Krenak constrói Caminhos para a cultura do Bem Viver, publicado em 2020. O livreto nasceu de uma conversa com Bruno Maia e Nina Arouca, realizada em 17 de junho daquele ano, durante a Semana do Bem Viver da Escola Parque, no Rio de Janeiro.

Na ocasião, sob o título “O Bem Viver e o sentido da natureza”, Krenak falou a estudantes, professores, universitários e ao público em geral sobre uma questão que atravessa boa parte de sua obra: a dificuldade de imaginar a existência humana sem colocá-la no centro de tudo.

Krenak é uma das principais vozes do pensamento indígena contemporâneo. Escritor, jornalista, poeta, ativista socioambiental e líder indígena, participou da organização da Aliança dos Povos da Floresta, que reuniu comunidades indígenas e ribeirinhas na defesa da Amazônia. 

Doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora e comendador da Ordem do Mérito Cultural, tornou-se conhecido por livros como Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020) e O amanhã não está à venda (2020).

Há, nesses trabalhos, uma mesma desconfiança em relação à maneira como a sociedade moderna aprendeu a organizar a própria existência. Não se trata apenas de criticar o excesso de consumo, o desmatamento ou a crise climática. Antes disso, Krenak questiona a premissa que torna todas essas práticas possíveis: a crença de que os seres humanos constituem uma coisa e o restante do mundo, outra.

A natureza não está lá fora

A separação parece tão natural que raramente paramos para examiná-la. De um lado, imaginamos as pessoas, as cidades, as fábricas, as casas e tudo aquilo que identificamos como resultado da atividade humana. Do outro, colocamos a natureza, como se ela estivesse em algum lugar distante, disponível para ser observada, utilizada ou protegida. A própria expressão “meio ambiente” carrega essa distância: parece designar aquilo que nos cerca, mas não aquilo de que somos feitos.

Krenak começa justamente por contestar essa fronteira. Para ele, não estamos diante da natureza, como espectadores diante de uma paisagem. Estamos dentro dela. Dependemos dos rios, do solo, das plantas, dos animais, do ar e de uma quantidade de processos que acontecem independentemente da nossa vontade. A separação, portanto, não é uma realidade, mas uma maneira específica de organizar o pensamento.

Essa maneira de pensar tem consequências práticas. Quando a floresta deixa de ser percebida como parte de uma rede de relações e passa a ser compreendida principalmente pelo que pode fornecer, torna-se mais fácil transformá-la em madeira. O mesmo acontece com a água, quando um rio é reduzido ao seu potencial de abastecimento ou geração de energia, e com a terra, quando deixa de ser território para se tornar apenas propriedade.

O mundo começa, então, a ser medido pela sua utilidade. Parece uma diferença pequena, mas muda tudo o que vem depois. Uma árvore continua a ser uma árvore, mas passa a carregar um valor econômico antes mesmo de ser derrubada. Um rio continua a correr, mas pode ser avaliado pela quantidade de energia que consegue produzir. Uma montanha pode ser admirada como paisagem e, ao mesmo tempo, ser estudada pela quantidade de minério que guarda no subsolo.

Em Caminhos para a cultura do Bem Viver, Krenak propõe interromper esse automatismo. No capítulo “Conexão”, sugere uma experiência: aproximar-se de algum elemento da natureza, observá-lo, tocá-lo, percebê-lo. A proposta pode parecer polianesca diante da dimensão dos problemas ambientais, mas é precisamente aí que está a sua força. Antes de discutir políticas ambientais ou modelos econômicos, é preciso recuperar a capacidade de perceber que existe uma relação anterior ao uso.

A palavra “conexão” ganha ainda outro significado numa época em que quase todas as relações passam por dispositivos eletrônicos. Estamos permanentemente ligados a redes, plataformas e pessoas que podem estar a milhares de quilômetros de distância.

Ainda assim, podemos passar um dia inteiro sem prestar atenção ao solo sobre o qual caminhamos ou ao rio que atravessa a cidade. Krenak recupera um sentido de conexão que não depende de tecnologia: o vínculo físico e sensível com aquilo que torna a nossa existência possível.

Uma árvore não é apenas madeira

A distância entre humanidade e natureza também permite que a exploração pareça menos problemática. É mais fácil retirar alguma coisa de um lugar quando deixamos de percebê-lo como parte de uma relação e passamos a tratá-lo como depósito de matérias-primas.

A linguagem econômica ajuda nesse processo. Falamos em recursos naturais, reservas, produção e extração. A palavra “recurso” já contém uma finalidade: algo existe porque pode ser utilizado.

O problema, para Krenak, não está apenas na quantidade que retiramos da natureza, mas na própria lógica que determina o que consideramos necessário. A sociedade de consumo precisa de uma produção contínua, e a produção contínua depende de que os objetos sejam comprados, substituídos e descartados. O que ainda funciona pode tornar-se velho; o que ainda satisfaz uma necessidade pode ser apresentado como insuficiente.

A obsolescência programada é uma das expressões mais claras desse mecanismo, mas não é a única. A publicidade transforma desejos em necessidades, a tecnologia acelera a substituição de produtos e o mercado encontra constantemente novas formas de atribuir valor àquilo que antes parecia suficiente. A consequência é uma economia que depende de uma certa insatisfação permanente.

Reciclar é necessário. Reutilizar também. Reduzir o desperdício é igualmente importante. Mas essas medidas não respondem sozinhas à questão colocada por Krenak. Se a sociedade continua organizada em torno de uma produção crescente e de um consumo crescente, o problema não desaparece porque aprendemos a separar corretamente o lixo.

A pergunta precisa ser feita antes da lata de reciclagem: por que precisamos produzir e consumir tanto?

O Bem Viver aparece, nesse ponto, como uma crítica à ideia de crescimento ilimitado. Em vez de perguntar quanto ainda podemos retirar da Terra, propõe considerar os limites daquilo que podemos retirar sem destruir as relações que sustentam a vida. Não é apenas uma mudança no comportamento do consumidor. É uma discussão sobre o modelo que transforma consumo em condição de funcionamento da própria sociedade.

Viver bem não é viver melhor

É fácil confundir o Bem Viver com uma versão mais sofisticada do bem-estar. Afinal, a sociedade contemporânea já possui um mercado inteiro dedicado à promessa de uma vida melhor. Há produtos para dormir melhor, dietas para comer melhor, aplicativos para organizar melhor o tempo e experiências para desligar-se do mundo durante algumas horas. Até a natureza pode ser transformada em serviço: uma caminhada numa floresta, uma paisagem num resort, um retiro longe da cidade.

Krenak está falando de outra coisa. O Bem Viver, associado a concepções indígenas e andinas como Buen Vivir e Sumak Kawsay, não parte da ideia de que cada indivíduo deve encontrar a melhor versão possível de si mesmo. A questão é coletiva. Uma vida não pode ser considerada boa quando depende da destruição das condições que permitem a outras vidas existir.

É aí que aparece uma diferença importante entre bem-estar e Bem Viver. O primeiro pode ser medido individualmente: quanto conforto tenho, quanto posso consumir, quanto tempo livre possuo. O segundo exige uma pergunta que ultrapassa o indivíduo: de que relações depende aquilo que considero uma vida boa?

A resposta não é confortável. Uma pessoa pode viver num lugar seguro, ter acesso a produtos e serviços e usufruir de um elevado padrão de consumo enquanto comunidades inteiras suportam os custos ambientais desse mesmo modelo. O conforto de uns pode depender da precariedade de outros. A prosperidade de um território pode significar a destruição de outro.

O Bem Viver introduz, portanto, a reciprocidade como princípio. Recebemos da Terra, mas não somos os seus proprietários absolutos. Dependemos de outras pessoas e de outras espécies, e essa dependência não representa uma fraqueza. É a própria condição da vida.

A pergunta “como posso viver melhor?” passa a ser insuficiente. É preciso perguntar como construir uma vida boa que não exija que alguém, em algum lugar, pague a conta.

O planeta não precisa de nós

Há uma ironia na maneira como costumamos falar da crise ambiental. Dizemos que precisamos salvar o planeta, como se a Terra estivesse à espera da nossa intervenção para continuar a existir. A frase soa litúrgica, mas parte de uma premissa bastante humana: a de que somos os protagonistas da história e que o destino do planeta depende das nossas decisões.

Krenak inverte essa relação. A Terra já existia antes de nós e continuará a existir sem nós. O que está em risco não é a sobrevivência do planeta como corpo celeste, mas a possibilidade de a espécie humana continuar a encontrar nele condições favoráveis à própria existência.

É nesse contexto que a ideia de Gaia ganha importância. A Terra deixa de aparecer como um cenário passivo e passa a ser entendida como um sistema vivo, composto por relações, ciclos e movimentos que não obedecem aos interesses humanos. A floresta, o solo, os oceanos e a atmosfera não são peças independentes de uma máquina colocada à nossa disposição.

A dificuldade está em que construímos uma economia que age como se fossem. O desmatamento, a exploração mineral, a contaminação dos rios e a emissão de gases de efeito estufa não são acontecimentos isolados. Fazem parte de um modo de produção que precisa expandir-se para continuar a funcionar. O limite físico do planeta aparece, nesse modelo, como um problema a ser contornado.

Mas não há tecnologia capaz de transformar um planeta finito em infinito.

A questão, por isso, não é saber se a Terra sobreviverá à humanidade. A questão é quanto tempo conseguiremos continuar a tratá-la como se não houvesse consequências para a nossa própria existência.

A vida não cabe numa propriedade

No Brasil, a discussão ganha outra dimensão porque o conflito entre diferentes maneiras de compreender a terra atravessa a própria história do país. Para muitos povos indígenas, território não é apenas uma superfície delimitada por uma escritura. É lugar de memória, pertencimento, ancestralidade, alimento, espiritualidade e continuidade.

Essa diferença ajuda a entender por que a destruição de um território produz consequências que não podem ser medidas apenas em hectares. Quando uma floresta desaparece, não se perdem somente árvores. Desaparecem relações construídas ao longo de gerações e formas de conhecimento que dependem daquela paisagem para existir.

A colonização impôs uma nova maneira de organizar o território. A terra passou a ser dividida, apropriada e incorporada a um sistema econômico baseado na exploração de seus recursos. A natureza foi sendo transformada em propriedade e matéria-prima, enquanto outros modos de relação com o território eram tratados como obstáculos ao desenvolvimento.

Krenak não apresenta a ancestralidade como uma fotografia de um passado ao qual seria possível regressar. O passado indígena interessa porque oferece outras perguntas para o presente. Se outras sociedades conseguiram organizar a vida sem colocar a acumulação no centro de tudo, o que ainda podemos aprender com elas?

A pergunta é especialmente relevante num momento em que a crise ambiental começa a revelar os limites do modelo dominante. Talvez o problema não seja apenas encontrar uma tecnologia menos poluente ou um produto mais sustentável, mas admitir que existem outras maneiras de definir aquilo que entendemos por desenvolvimento.

A pergunta que fica

Caminhos para a cultura do Bem Viver não oferece um manual para resolver a crise ambiental. Não há uma lista de comportamentos individuais capazes de compensar séculos de exploração, nem uma promessa de que algumas escolhas de consumo serão suficientes para reorganizar a relação entre humanidade e natureza.

A força da proposta está em outro lugar. Krenak desloca a pergunta. Em vez de perguntar como podemos salvar a natureza, pergunta por que construímos uma sociedade na qual precisamos imaginar que somos os seus salvadores. Em vez de perguntar quanto ainda podemos retirar da Terra, nos obriga a pensar sobre os limites daquilo que podemos retirar. E, em vez de imaginar a felicidade como uma conquista individual, recoloca a vida dentro de uma rede de relações.

Talvez o Bem Viver não seja uma resposta para a pergunta “como viver bem?”, mas uma maneira de torná-la mais difícil.

Porque, se a vida humana depende de outras vidas, viver bem não pode significar apenas viver melhor do que os outros. Se a nossa existência depende da Terra, não faz sentido tratá-la como propriedade descartável. E se o planeta continuará sem nós, talvez seja prudente abandonar a ideia de que somos os seus donos.

No fim, resta a pergunta: quem disse que a Terra é nossa? Durante muito tempo, agimos como se a resposta fosse conhecida. Krenak sugere que talvez o problema esteja justamente em nunca termos parado para perguntar.

O livreto está disponível gratuitamente em PDF aqui.


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