Ranking sexual de estudantes provoca protesto em universidade de Presidente Prudente
Manifestação em frente à Unoeste cobrou responsabilização e proteção às estudantes; Polícia Civil abriu investigação sobre a criação e circulação de lista com fotos e avaliações de teor sexual
Foto: Reprodução
Estudantes e integrantes de movimentos de defesa dos direitos das mulheres realizaram, na noite de quinta-feira (20), uma manifestação em frente ao Campus II da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), em Presidente Prudente (SP), após a denúncia de criação e circulação de um “ranking” com fotografias de estudantes acompanhadas de avaliações de caráter sexual e depreciativo.
O material teria sido compartilhado em um grupo privado de aplicativo de mensagens. Segundo as informações encaminhadas à Polícia Civil, as fotografias das estudantes foram retiradas de perfis públicos nas redes sociais e utilizadas, sem autorização, para montar a lista. Entre as expressões atribuídas às mulheres estavam termos como “deliciosíssima”, “comível” e “arrebentaria”.
O episódio provocou revolta entre estudantes e movimentos feministas, que levaram cartazes e bandeiras contra a violência e a objetificação das mulheres para a manifestação realizada no horário de início das aulas do período noturno.
Para Diolinda Souza, integrante do Movimento de Esquerda Socialista (MES) do PSOL, que participou do ato, o episódio precisa ser compreendido para além da ação individual de quem produziu ou compartilhou o material.
“No ato ontem, tratamos com muita responsabilidade a gravidade das denúncias que vieram à público. Também apontamos que práticas de classificação, exposição, é objetificação de mulheres não são fatos isolados. Elas estão relacionadas a disseminação da cultura Red Pills no Oeste Paulista! A Unoeste tem que dar explicações!!”, afirmou.
Não é “brincadeira”: é objetificação e violência
A criação de listas que classificam mulheres segundo aparência ou suposta disponibilidade sexual não pode ser tratada como uma simples “brincadeira” entre estudantes. A prática transforma pessoas em objetos de avaliação, retira delas o controle sobre a própria imagem e reforça uma cultura na qual mulheres são reduzidas ao corpo e ao interesse sexual masculino.
A chamada cultura “red pill”, mencionada durante a manifestação, reúne comunidades virtuais de homens que difundem, entre outros discursos, a ideia de que os homens seriam vítimas de uma suposta estrutura social dominada pelas mulheres. Em determinados grupos, essa visão se combina à objetificação feminina e à defesa de uma hierarquia entre homens e mulheres.
O movimento feminista A Frente pela Vida das Mulheres classificou o episódio como “misoginia organizada” e afirmou que a elaboração de rankings sexuais reproduz uma lógica de objetificação. A entidade também relacionou o episódio ao conceito de “Valor Sexual de Mercado”, segundo o qual mulheres seriam tratadas como mercadorias avaliadas por aparência, comportamento e suposta disponibilidade sexual.
O problema se torna ainda mais grave porque as imagens utilizadas pertenciam a perfis públicos, mas isso não significa que pudessem ser apropriadas para qualquer finalidade. Tornar uma fotografia pública não equivale a autorizar sua utilização para constranger, sexualizar, humilhar ou expor alguém.
Polícia Civil investiga
A denúncia foi registrada na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Presidente Prudente. A Polícia Civil confirmou a abertura de investigação e informou que o caso está em fase inicial. Até o momento, não há pessoas indiciadas.
O inquérito deverá buscar identificar quem criou o ranking, quem participou de sua elaboração e quem compartilhou o conteúdo. A investigação também deverá reunir elementos para determinar a extensão da circulação das imagens e eventuais responsabilidades.
A orientação das entidades que acompanham o caso é para que as estudantes preservem provas, como capturas de tela, mensagens e informações sobre os grupos em que o material circulou, evitando, ao mesmo tempo, ampliar a exposição das vítimas.
Casos semelhantes já provocaram medidas disciplinares em instituições de ensino brasileiras. Em março deste ano, por exemplo, estudantes do campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) foram suspensos após a criação e o compartilhamento de um ranking sexual com fotografias de alunas.
Universidade diz que apuração terá “prioridade e rigor”
A Unoeste informou que recebeu a denúncia na quinta-feira (20) e iniciou imediatamente uma apuração interna, com “prioridade e rigor”. A universidade afirmou que, depois de identificadas as responsabilidades individuais, serão aplicadas as sanções previstas em suas normas institucionais.
A instituição também declarou estar acolhendo, amparando e ouvindo as acadêmicas envolvidas, com o objetivo de preservar a integridade, a privacidade e a dignidade das estudantes.
“A Unoeste repudia qualquer forma de exposição, assédio, constrangimento ou desrespeito à dignidade de integrantes de sua comunidade acadêmica. Também reforça a importância de não compartilhar imagens, nomes ou conteúdos relacionados ao caso, pois pode ampliar a exposição e os danos às pessoas envolvidas”, afirmou a universidade.
A instituição disse ainda manter canais seguros e sigilosos para denúncias, inclusive com possibilidade de anonimato e preservação da identidade dos denunciantes.
A manifestação, portanto, não se limita à cobrança por punições individuais. Ela coloca em debate uma questão mais profunda: que tipo de ambiente acadêmico se pretende construir e quais limites uma comunidade universitária deve estabelecer diante da violência de gênero praticada também nos espaços digitais.
Para as mulheres que tiveram suas imagens utilizadas no ranking, o impacto não termina quando o conteúdo deixa de circular em um determinado grupo. A exposição, o constrangimento e o medo de que as imagens continuem sendo compartilhadas fazem parte da violência produzida pela prática. Por isso, além da investigação policial, o caso exige acolhimento das estudantes, responsabilização dos envolvidos e medidas capazes de impedir que episódios semelhantes sejam naturalizados ou tratados como mera “zoeira” universitária.