Rachas de família ameaçam o bolsonarismo
Disputas entre Flávio, Michelle, Carlos e Eduardo Bolsonaro já contaminam eleições no DF, Santa Catarina e Ceará e expõem as fissuras de um grupo que tenta se vender como unido
Foto: Vittor Sales/Divulgação
As disputas entre os filhos de Jair Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro começam a produzir efeitos que vão além das brigas familiares. Segundo análise da colunista Letícia Casado, do UOL, os conflitos internos do clã preocupam setores do bolsonarismo e podem comprometer candidaturas do PL nas eleições de outubro, especialmente no Distrito Federal, em Santa Catarina e no Ceará.
As crises seguem um roteiro conhecido: ataques públicos, manifestações de aliados nas redes sociais e, depois, tentativas de reconciliação. O problema, aponta a coluna, é que os gestos de paz não necessariamente eliminam as disputas nos bastidores – nem convencem uma parcela da própria direita.
No centro das desavenças estão Flávio, Michelle e Carlos Bolsonaro, todos envolvidos diretamente nas disputas eleitorais, além de Eduardo Bolsonaro, que permanece nos Estados Unidos, mas continua interferindo nas estratégias e nos posicionamentos dos irmãos.
O cenário expõe uma contradição importante do bolsonarismo: enquanto o grupo tenta apresentar uma imagem de unidade diante da eleição presidencial, os interesses eleitorais particulares e a disputa por espaço político dentro da própria família produzem sucessivos rachas.
Eduardo contra Michelle no Distrito Federal
Um dos episódios mais recentes ocorreu no Distrito Federal. Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado, voltou a ser alvo de ataques do blogueiro Allan dos Santos, que defendeu nas redes sociais os nomes de Bia Kicis (PL) e Sebastião Coelho (Novo) para as duas vagas ao Senado.
A manifestação ganhou ainda mais peso porque Eduardo Bolsonaro curtiu e endossou a publicação, acrescentando: “Triste, mas verdadeiro”.
Segundo Letícia Casado, o entorno de Michelle identificou desde o fim de junho uma ameaça à candidatura da ex-primeira-dama. Naquele momento, ela e Flávio entraram em rota de colisão por causa da formação do palanque do PL no Ceará.
A disputa chegou às redes sociais, onde eleitores bolsonaristas passaram a defender o chamado voto duplo em Bia Kicis e Sebastião Coelho, justamente os dois nomes que voltaram a receber o apoio de Allan dos Santos.
Apesar do movimento, Michelle ainda aparece na frente nas pesquisas. Levantamento da Quaest citado pela coluna aponta 25% das intenções de voto, contra 17% de Leila do Vôlei (PDT), 9% de Bia Kicis e 2% de Sebastião Coelho.
O problema para Michelle é que uma campanha de desgaste patrocinada por setores do próprio bolsonarismo pode alterar esse cenário até outubro. É nesse contexto que devem ser entendidos os acenos de reconciliação entre ela e Flávio.
No fim de julho, Flávio publicou um vídeo pedindo desculpas, e Michelle respondeu aceitando o gesto. Oficialmente, a crise estaria encerrada. Nos bastidores, porém, a situação era bem mais tensa.
A coluna relata que o texto do vídeo de Flávio foi elaborado com participação das duas equipes e que Michelle chegou a reforçar sua segurança diante dos ataques que sofreu nas redes sociais.
A crise também teve impacto eleitoral. As pesquisas apontaram dificuldades para Flávio avançar justamente entre segmentos nos quais Michelle possui maior capacidade de mobilização: mulheres e eleitores evangélicos.
Carlos, Campagnolo e o racha em Santa Catarina
Em Santa Catarina, outro conflito revela as dificuldades do PL para administrar ambições eleitorais que se sobrepõem.
No início de agosto, Flávio Bolsonaro fez uma cobrança pública à deputada estadual Ana Campagnolo. Popular entre a direita catarinense e próxima da deputada federal Carol de Toni, Campagnolo se recusou a gravar um vídeo pedindo votos para Carlos Bolsonaro. O episódio acabou circulando nas redes sociais.
Oficialmente, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro mantêm uma relação amistosa. Mas, segundo reportagem do UOL, a proximidade demonstrada publicamente em um evento do PL no Estado é vista com desconfiança por setores da política local. Para alguns interlocutores, a aparente harmonia seria mais uma “encenação” do que uma demonstração de unidade.
O problema nasceu de uma disputa eleitoral concreta. Desde o final de 2025, a decisão de Carlos de concorrer ao Senado por Santa Catarina provocou um racha na base do governador Jorginho Mello (PL).
Havia um acordo para que as duas vagas ao Senado fossem disputadas por Esperidião Amin (Progressistas) e Carol de Toni. Com a entrada de Carlos Bolsonaro, passaram a existir três nomes para apenas duas cadeiras.
Uma ala do PL chegou a tentar retirar Carol da disputa. Ela ameaçou deixar a legenda e migrar para o Novo. Michelle, por sua vez, declarou publicamente que continuaria apoiando Carol mesmo que ela trocasse de partido.
O episódio mostra como a disputa pelo poder dentro da própria direita pode se sobrepor ao discurso de unidade que o bolsonarismo procura sustentar nacionalmente.
A situação de Ana Campagnolo adiciona outra camada ao conflito. A deputada é próxima de Nikolas Ferreira (PL-MG), político que também é alvo frequente das críticas de Eduardo Bolsonaro. Nikolas, por sua vez, mantém proximidade com Michelle, que já o chamou de “Zero Seis”, em referência aos apelidos utilizados para os filhos de Jair Bolsonaro.
Na pesquisa Quaest mais recente para o Senado catarinense, Esperidião Amin aparece em primeiro lugar, com 19%, seguido por Carlos Bolsonaro, com 16%. Carol de Toni tem 12% e, nesse cenário, ficaria fora do Senado.
No Ceará, a disputa já cobrou seu preço
O conflito entre Flávio e Michelle no Ceará é outro exemplo de como as disputas internas podem produzir consequências eleitorais. A relação entre a ex-primeira dama e os filhos de Jair Bolsonaro é marcada há anos por episódios de tensão. Em 24 de junho, ela publicou um vídeo criticando a atuação do “zero um” na montagem do palanque do PL no Ceará.
O motivo era a disputa em torno da candidatura ao Senado. Flávio prevaleceu, e o nome escolhido pelo partido foi Alcides Fernandes.
A crise, contudo, não ficou restrita à família. Ela repercutiu na campanha presidencial de Flávio e também atingiu a candidatura do PL ao Senado no Estado. Na última pesquisa Datafolha citada no levantamento, Alcides Fernandes aparecia em quarto lugar, com 7% das intenções de voto, distante da disputa pelas duas vagas disponíveis.
O episódio ajuda a dimensionar o custo político das disputas internas: uma briga que começou dentro da família Bolsonaro acabou contaminando uma eleição estadual e, ao mesmo tempo, alimentando questionamentos sobre a capacidade de Flávio de organizar uma candidatura presidencial nacional.
Uma direita que tenta esconder suas próprias fissuras
O entorno de Flávio Bolsonaro minimiza os conflitos e sustenta que as disputas familiares não terão impacto nas urnas. A avaliação oficial é de que Michelle segue empenhada na campanha presidencial, será eleita no Distrito Federal e que Santa Catarina continua sendo o Estado mais bolsonarista do país.
Também há quem sustente, dentro do grupo, que a diversidade de opiniões fortalece a direita e que não existem fissuras relevantes na coalizão construída em torno de Flávio. Os fatos relatados pela coluna de Letícia Casado, porém, contam uma história menos confortável.
As disputas por candidaturas ao Senado, os ataques públicos, as intervenções de Eduardo a partir dos Estados Unidos e os sucessivos movimentos de reconciliação revelam um grupo político no qual a disputa por poder é cada vez mais difícil de esconder.
Quando essa estrutura entra em conflito consigo mesma, os efeitos inevitavelmente chegam às urnas.
E, enquanto o bolsonarismo tenta vender a imagem de uma direita disciplinada e unida para enfrentar a esquerda, suas próprias candidaturas expõem uma realidade diferente: a família que construiu sua força política em torno da ideia de unidade começa a tropeçar nas disputas pelo próprio espólio eleitoral de Bolsonaro.