JN expõe fragilidades de Zema e Caiado
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JN expõe fragilidades de Zema e Caiado

Entrevistas revelaram candidatos da direita presos à agenda bolsonarista, com defesa de anistia para golpistas, ataques ao STF e dificuldades para explicar propostas econômicas e sociais

Tatiana Py Dutra 26 ago 2026, 10:04

Foto: Reprodução

As entrevistas de Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) no Jornal Nacional expuseram, em dois dias consecutivos, as dificuldades dos candidatos da direita que tentam se apresentar como alternativas a Lula e, ao mesmo tempo, disputar o eleitorado que permanece ligado ao bolsonarismo. Em vez de consolidarem uma imagem de gestores preparados para ocupar a Presidência, os dois episódios foram marcados por declarações controversas, respostas evasivas e posições que os aproximam da extrema direita.

Zema foi o primeiro a ocupar a bancada da Globo, na segunda-feira (24). A entrevista ganhou rapidamente as redes sociais por uma gafe sobre violência contra as mulheres. Questionado por Renata Vasconcellos sobre o aumento dos feminicídios em Minas Gerais e sobre quais medidas adotaria caso chegasse à Presidência, o ex-governador afirmou: “Eu tenho uma série de programas contra as mulheres que inclusive levei adiante.” Em seguida, passou a enumerar ações que, na realidade, seriam destinadas à proteção das mulheres, como delegacias especializadas, casas de acolhimento e monitoramento eletrônico de agressores.

O episódio poderia ser tratado apenas como um erro verbal, mas acabou funcionando como uma síntese involuntária de uma entrevista na qual Zema teve dificuldade para escapar de temas que o aproximam da agenda bolsonarista. O candidato voltou a defender anistia para os condenados pelos ataques de 8 de Janeiro e negou que os atos tenham configurado uma tentativa de golpe de Estado. Também atacou decisões do Supremo Tribunal Federal e criticou a possibilidade de obrigatoriedade da vacinação.

A posição sobre vacinas foi especialmente reveladora. Embora tenha afirmado que tomou as doses contra a Covid-19 e que, quando governador, recomendou a imunização de crianças, Zema sustentou que o Estado não deveria obrigar ninguém a se vacinar. A declaração foi criticada por reproduzir um argumento caro ao movimento antivacina e por colocar uma suposta defesa irrestrita da liberdade individual acima das responsabilidades coletivas de proteção à saúde pública.

A entrevista também trouxe à tona uma contradição recorrente da direita liberal brasileira: o discurso de austeridade fiscal convive com medidas favoráveis às estruturas de poder. Questionado sobre o aumento de aproximadamente 300% nos salários do governador, vice-governador e secretários de Minas Gerais, Zema justificou a decisão afirmando que era necessário remunerar melhor os ocupantes dos cargos. Disse ainda que não teria se beneficiado pessoalmente porque doa seu salário às Apaes.

Na segurança pública, sua resposta também foi marcada por uma política de endurecimento penal. Zema defendeu a criação de um “superpresídio” para líderes de organizações criminosas, apostando em uma resposta de encarceramento que se encaixa na tradição da direita de transformar o combate à violência em uma disputa por medidas cada vez mais punitivas.

A repercussão foi tão negativa que chegou a atingir o próprio Novo. João Amoêdo, fundador do partido, criticou o desempenho do candidato e chegou a afirmar que “não aparecer é a melhor coisa que pode acontecer ao partido”, em referência às aparições públicas de Zema.

Caiado tenta se diferenciar, mas também abraça o bolsonarismo

Na terça-feira (25), foi a vez de Ronaldo Caiado. O candidato do PSD tentou construir uma imagem diferente da de Zema: a de um político experiente, com trajetória administrativa e capacidade de enfrentar o crime organizado. Mas a entrevista também revelou limites importantes de seu discurso.

Um dos principais pontos foi a defesa de uma anistia ampla aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro, incluindo Jair Bolsonaro. Para justificar a proposta, Caiado comparou a anistia às decisões do STF que anularam as condenações de Lula. A comparação, porém, mistura situações juridicamente distintas: as decisões relativas ao atual presidente não equivaleram a uma anistia coletiva e tiveram como fundamento questões relacionadas à competência da vara judicial que julgou os processos.

O recurso à comparação com Lula revela uma estratégia política evidente: Caiado procura disputar espaço no campo conservador sem abandonar uma das principais bandeiras do bolsonarismo – a tentativa de transformar a responsabilização dos envolvidos no 8 de Janeiro em uma suposta perseguição política.

Na segurança pública, entretanto, Caiado apresentou uma proposta que busca marcar alguma diferença. Disse que não autorizaria a entrada de militares dos Estados Unidos no Brasil para combater facções e defendeu que o problema fosse enfrentado pelos países da região. Propôs a criação da SulPol, uma força de cooperação policial sul-americana, e indicou o promotor Lincoln Gakiya para comandar uma eventual pasta da Segurança Pública.

O problema apareceu quando a entrevista avançou para a economia. Pressionado sobre reforma da Previdência e ajuste fiscal, Caiado não apresentou detalhes suficientes sobre como pretende equilibrar as contas públicas. O candidato falou em limitar o crescimento dos gastos públicos, mas evitou explicar de maneira concreta como faria esse ajuste sem atingir políticas públicas e direitos sociais.

Foi justamente nesse ponto que a imagem de gestor eficiente propagada por Caiado encontrou seu principal obstáculo: prometer responsabilidade fiscal é muito mais fácil do que explicar quem pagará a conta dela.

Uma direita sem projeto além do antipetismo

As duas entrevistas ajudam a revelar um problema maior da direita brasileira em 2026. Zema e Caiado tentam ocupar o espaço de uma oposição conservadora capaz de substituir Bolsonaro, mas têm dificuldade de apresentar uma agenda que não seja construída em torno do antipetismo, do ataque ao STF e da tentativa de revisar as consequências judiciais do 8 de Janeiro.

Zema chegou ao JN depois de desistir do debate da Band justamente sob a justificativa de que precisava se preparar para a entrevista. Sua campanha havia tratado a participação na Globo como uma oportunidade importante para apresentar o candidato nacionalmente. O resultado, contudo, foi uma sucessão de declarações que reforçaram sua proximidade ideológica com o bolsonarismo e deram munição para críticas dentro e fora do próprio partido.

Caiado teve um desempenho menos marcado por gafes, mas também não conseguiu transformar a entrevista em uma demonstração inequívoca de força. Além das respostas consideradas evasivas, a postura diante dos jornalistas foi alvo de críticas. A repercussão destacou momentos de tensão e interrupções durante a conversa, com Renata Vasconcellos tendo de disputar espaço para formular as perguntas.

Há, portanto, uma diferença de estilo, mas uma proximidade de conteúdo. 

Zema parece ter saído mais desgastado, porque acumulou momentos de forte repercussão negativa, como a fala sobre os “programas contra as mulheres”, além de posições controversas sobre vacinação e 8 de Janeiro. Caiado conseguiu apresentar uma imagem mais organizada em temas como segurança pública, mas tampouco escapou da agenda bolsonarista ao defender anistia aos envolvidos nos ataques às instituições democráticas.

No fim, as duas sabatinas deixaram uma pergunta incômoda para a direita: se a promessa é oferecer uma alternativa ao bolsonarismo, por que os candidatos continuam precisando recorrer às principais bandeiras de Bolsonaro para conquistar seu eleitorado? As entrevistas sugerem que Zema e Caiado ainda não encontraram uma resposta convincente.


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