Antes das eleições legislativas, Putin silencia a oposição
putinvolga_0

Antes das eleições legislativas, Putin silencia a oposição

Todos os níveis da hierarquia burocrática russa têm a missão de conduzir um eleitorado leal e dependente às urnas e, se necessário, ajustar os resultados da votação de 20 de setembro

Ilya Budraitskis 11 set 2026, 08:00

Foto: Vladimir Putin em visita a uma fábrica de automóveis em Nizhny Novgorod. (Kirill Zykov, RIA Novosti)

A 20 de setembro, os russos serão chamados às urnas para eleger um novo Parlamento, a Duma Estatal, bem como os dirigentes de várias regiões. Desde a década de 2000, este tipo de evento eleitoral transformou-se num ritual com resultados previsíveis, destinado a confirmar o apoio incondicional da população ao presidente e a todas as suas decisões.

O mecanismo está bem oleado. Na véspera de cada eleição nacional, o Kremlin estabelece às autoridades locais objetivos precisos em matéria de participação eleitoral e de resultados para o partido Rússia Unida. Este partido, que constitui a espinha dorsal do sistema de Putin, tem garantida a obtenção de uma maioria constitucional, ou seja, dois terços dos assentos da Duma. Os resultados dos quatro partidos da oposição, cujos futuros deputados têm de ser previamente aprovados pelas autoridades, também são conhecidos de antemão.

Todos os níveis da hierarquia burocrática, desde os governadores e governadoras até às direções das escolas, têm a missão de pôr em prática este cenário, com o objetivo de conduzir um eleitorado leal e dependente às urnas e, se necessário, ajustar os resultados da votação.

Tendo desempenhado repetidamente as funções de observador eleitoral na Rússia, o autor deste artigo teve oportunidade de testemunhar uma impressionante variedade de fraudes por parte do poder, quer fossem diretas, quer dissimuladas. No entanto, desde 2021, as autoridades dispõem de uma nova e poderosa ferramenta de manipulação: o voto online, que elimina praticamente o anonimato dos eleitores e eleitoras e se revela opaco a qualquer controlo independente.

A ligação entre o partido Rússia Unida e Vladimir Putin é um elemento-chave deste mecanismo. No entanto, o líder e o seu partido não estão, claramente, em pé de igualdade. Segundo a propaganda oficial, a missão de Vladimir Putin consiste, de facto, em salvar incessantemente a nação de ameaças existenciais e em defender a sua soberania. Coloca-se, assim, acima dos partidos e une toda a sociedade.

A fraqueza calculada do partido presidencial

Consequentemente, os resultados de Vladimir Putin nas sucessivas eleições presidenciais têm de ser sempre claramente superiores aos do Rússia Unida nas eleições legislativas. Este partido, que agrupa praticamente toda a burocracia estatal, deve permanecer sempre um instrumento dócil ao serviço da vontade do líder, ao mesmo tempo que assume a responsabilidade pelas decisões governamentais que se revelam impopulares.

Se o nível de descontentamento público for elevado na altura das eleições, a popularidade do Rússia Unida pode ser afetada, mas certamente não a de Vladimir Putin propriamente dito. A fraqueza do Rússia Unida, um partido desprovido de personalidades carismáticas e totalmente dependente do aparelho do Estado, é, portanto, cuidadosamente calculada.

Este mecanismo de domínio político apresenta, no entanto, falhas, que a oposição já tentou explorar. Em 2011, em particular, Alexei Navalny apelou ao voto em qualquer partido que não fosse o Rússia Unida. A fraude eleitoral daí resultante foi tão flagrante que desencadeou as maiores manifestações alguma vez organizadas contra o regime de Vladimir Putin.

Esta experiência ensinou às autoridades que mesmo os partidos da oposição controlados podem constituir uma ameaça ao cenário ditado de cima. As últimas eleições legislativas, em setembro de 2021, decorreram assim num clima de ameaças e repressão particularmente pesado, ainda agravado após a invasão em grande escala da Ucrânia.

A guerra iniciada em 2022 alterou radicalmente a natureza do regime russo. Só nos primeiros meses, foram aprovadas numerosas leis repressivas, impondo a censura mais severa e prevendo longas penas de prisão para qualquer crítica a Vladimir Putin ou às ações militares russas. O poder da propaganda estatal visava criar a imagem de uma sociedade monolítica, unida no seu apoio à guerra e ao presidente.

Caça aos “antiguerra”

Os representantes de todos os partidos parlamentares, quer se trate da Rússia Unida ou dos quatro partidos da oposição, envolveram-se numa escalada de retórica imperialista agressiva e de anátemas contra os “traidores” internos. As opiniões contra a guerra foram praticamente banidas da sociedade, e setores importantes da população que as partilhavam foram intimidados e silenciados.

No entanto, essas pessoas não desapareceram. Ao longo dos últimos anos, procuraram utilizar todas as vias legais para fazer ouvir a sua voz. No final de 2023, Boris Nadejdine, um político liberal pouco conhecido, anunciou assim a sua candidatura às eleições presidenciais, fazendo campanha sob slogans vagos que apelavam ao fim das hostilidades na Ucrânia e a uma rotação do poder na Rússia. Em apenas algumas semanas, foram recolhidas mais de 200 mil assinaturas a seu favor, enquanto surgiram equipas de apoio por todo o país.

Boris Nadejdine acabou por ser impedido de participar nas eleições sob um pretexto puramente formal. Temendo ser detido, viu-se obrigado a abandonar a Rússia e reside atualmente em França. Em março de 2024, nas eleições a que o opositor pretendia candidatar-se, Vladimir Putin foi eleito presidente para o seu sexto mandato, tendo obtido 87% dos votos. Os seus rivais, provenientes dos partidos da oposição parlamentar, tinham jurado lealdade ao “líder nacional” em plena campanha eleitoral.

A partir desse momento, tornou-se evidente que a suposta maioria esmagadora de apoiantes da guerra era uma ficção. Mesmo entre o eleitorado do presidente, muitas pessoas esperavam um fim rápido da guerra e um regresso à vida normal, enquanto a percentagem de nacionalistas imperialistas movidos por motivações ideológicas nunca ultrapassou os 10 a 15% da população.

Nos últimos dois anos, a prossecução de uma ação militar cada vez mais sangrenta tornou-se a nova norma. As esperanças de um eventual acordo com Trump, anteriormente muito difundidas na Rússia graças à própria retórica oficial, desmoronaram-se definitivamente.

Nas suas recentes declarações, Vladimir Putin indicou claramente que a perspetiva imediata é a de uma escalada do conflito, o qual só poderá terminar nos termos da Rússia — ou seja, através da submissão política total da Ucrânia. A recente visita dos emissários do presidente dos Estados Unidos nada muda nisso…

Tal como Vladimir Putin anunciou no final de agosto no seu discurso de abertura do congresso do partido Rússia Unida, as próximas eleições “serão a expressão da vontade coletiva de milhões de pessoas e do seu desejo de garantir a soberania e a segurança da Rússia”. Assim, a previsível vitória do partido presidencial servirá de mandato para prosseguir a guerra e agravar o preço que a população terá de pagar por ela.

Apoio crescente ao Iabloko

Este ano, mais do que nunca, os russos sentiram plenamente o impacto da guerra nas suas vidas quotidianas. Os ataques com drones ucranianos às refinarias de petróleo provocaram uma crise de combustível e filas de várias horas nos postos de abastecimento. Os ataques contra os armazéns da Wildberries, o maior retalhista online do país, praticamente arruinaram dezenas de milhares de pequenos empresários que ali armazenavam as suas mercadorias.

A economia de guerra levou a cortes sem precedentes nas despesas sociais, a fim de financiar a produção militar e os salários dos soldados. As restrições cada vez mais severas impostas ao acesso à Internet e a imposição agressiva dos chamados “valores tradicionais” contribuem para um pessimismo generalizado.

A maioria da população, anteriormente despolitizada e fiel ao regime, cujos valores fundamentais sempre foram a previsibilidade e a estabilidade, sente-se cada vez mais insatisfeita. O potencial para uma contestação significativa tornou-se evidente no início de agosto, quando o apoio ao partido Iabloko, cujo slogan principal é “Pela paz e pela liberdade”, atingiu um pico no início da campanha eleitoral.

Fundado no início da década de 1990, o Iabloko reunia políticos liberais dispostos a respeitar as regras do sistema de Putin, ou seja, a abster-se de qualquer concorrência política séria e de qualquer crítica virulenta ao Kremlin. Em 2022, foi, de facto, o único partido legal a condenar o lançamento da “operação militar especial” na Ucrânia. No entanto, os seus dirigentes agiram com grande cautela e evitaram apelar diretamente a manifestações.

As autoridades consideravam, aliás, que o Iabloko não representava qualquer ameaça e que a sua participação nas eleições, com resultados insignificantes, lhes conferiria maior legitimidade. O Iabloko nunca obteve mais do que 1 a 2% nas eleições nacionais. Este ano, porém, as palavras “paz” e “liberdade” tiveram um efeito eletrizante. Em apenas alguns dias, as redes sociais foram inundadas de mensagens de apoio ao Iabloko. As sondagens (que, evidentemente, devem ser interpretadas com cautela) indicavam que o partido poderia chegar a obter até 15% dos votos.

Duas semanas após o início da campanha eleitoral, a 10 de agosto, um tribunal proibiu, de forma precipitada, o partido de se candidatar, enquanto uma onda de repressão se abateu sobre os seus membros. Um dos líderes mais proeminentes do partido, Lev Chlosberg, foi condenado, a 17 de agosto, a onze anos de prisão por comentários contra a guerra publicados nas redes sociais.

A repressão alargou-se posteriormente ao Partido Comunista e aos seus candidatos mais proeminentes e mais opostos ao regime, incluindo a figura muito popular de Nikolai Bondarenko, a quem foi proibida a candidatura com base num pretexto falacioso. Embora o Partido Comunista, no seu conjunto, tenha sistematicamente adotado posições a favor da guerra e de Vladimir Putin, é visto por uma parte da sociedade como a única alternativa legal ao Rússia Unida e, por isso, como o potencial destinatário dos votos de protesto.

Na verdade, o desejo crescente de paz no seio da sociedade russa está cada vez menos em sintonia com a propaganda de Putin de uma nação unida em torno da guerra e do seu líder. Para o senhor do Kremlin, esta imagem enganadora é uma forma de não ter de arcar sozinho com o peso de uma decisão que, no entanto, foi pessoal. Mas o fosso só se aprofunda entre os mitos que ele constrói e a realidade de uma sociedade desorientada, profundamente cansada da guerra absurda travada contra a Ucrânia.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 09 set 2026

Sinal amarelo – retomar a iniciativa contra a manobra no STF

O golpismo e Trump vão jogar pesado para evitar a vitória de Lula. O lado de cá, das trabalhadoras e trabalhadores, precisa responder à altura
Sinal amarelo – retomar a iniciativa contra a manobra no STF
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores