Os Estados Unidos na África: impedir a emancipação, manter o domínio (1957-2026)
Para preservar seus interesses, o imperialismo pretendeu impedir um panafricanismo progressista capaz de combater sua dominação
Foto: Kwame Nkrumah em Londres em 1965. (Roger Jackson/Hulton Archive)
Via CADTM
No limiar da onda de independências africanas no final da década de 1950, os Estados Unidos se viram diante de uma situação inédita. Os impérios coloniais europeus, que dominavam grande parte do continente desde o final do século XIX, estavam se desintegrando rapidamente. Em menos de duas décadas, dezenas de novos Estados alcançaram a soberania. Aos olhos de muitos líderes africanos, essa independência política constituía, no entanto, apenas um primeiro passo.
Líderes como Kwame Nkrumah, em Gana; Patrice Lumumba, no Congo; Ahmed Ben Bella, na Argélia; Julius Nyerere, na Tanzânia; Modibo Keïta no Mali, Sékou Touré na Guiné-Conacri defendem a ideia de que uma verdadeira emancipação pressupõe também o controle dos recursos naturais, a industrialização, a cooperação entre os Estados africanos e a redução da dependência em relação às antigas potências coloniais. Mais tarde, Thomas Sankara, em Burkina Faso, acrescentou a isso a questão da anulação da dívida.
Para Washington, essas transformações ocorrem em um contexto dominado pela Guerra Fria. Os líderes norte-americanos opõem-se ao não alinhamento, ao panafricanismo e ao socialismo africano, bem como a tudo o que ponha em risco seu acesso aos recursos estratégicos do continente. Essa política assume diversas formas, dependendo do período. Na década de 1960, ela se manifestou, notadamente, por meio de operações clandestinas, apoio a certos golpes de Estado e respaldo a líderes considerados mais favoráveis aos interesses ocidentais.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram vários regimes autoritários considerados baluartes contra a expansão soviética ou contra os movimentos revolucionários. Após o colapso da União Soviética, a luta contra o terrorismo tornou-se o principal quadro de seu envolvimento militar na África. Por fim, ao longo da década de 2020, o governo Biden e, posteriormente, o segundo governo Trump voltaram a colocar a África no centro da competição estratégica com a China, priorizando o controle de minerais essenciais, as infraestruturas de transporte e a segurança das cadeias de abastecimento.
O objetivo deste estudo não é traçar um panorama completo das relações entre os Estados Unidos e cada um dos países africanos. Trata-se, antes, de analisar as principais constantes da política americana no continente por meio de alguns episódios particularmente reveladores: a luta contra os líderes panafricanistas da década de 1960, o apoio concedido a aliados estratégicos como Mobutu ou ao regime sul-africano do apartheid, o surgimento do AFRICOM após 2001 e, mais recentemente, a reorientação da política americana diante da ascensão da China.
I. As independências africanas e a luta contra o pan-africanismo (1957-1969)
A independência do Gana, em março de 1957, marca uma virada decisiva na história do continente africano. Pela primeira vez, uma colônia da África Subsaariana alcança a soberania sob a liderança de um movimento nacionalista de massas. Seu principal líder, Kwame Nkrumah, não se contentou em celebrar o nascimento de um novo Estado. Logo em seu discurso de independência, ele afirmou que “a independência do Gana só faz sentido se estiver ligada à libertação total da África”.
Um ano depois, a Guiné de Sékou Touré oferece outro exemplo particularmente significativo. Em 28 de setembro de 1958, durante o referendo organizado pela França do general de Gaulle, os guineenses rejeitam a Constituição da Quinta República e, com ela, o projeto da “Comunidade Francesa”, que visava manter as colônias africanas em um quadro institucional dominado por Paris. Sékou Touré, líder do Partido Democrático da Guiné (PDG), recusa uma independência limitada à autonomia interna e afirma o direito de seu povo à soberania plena e total. A Guiné proclama sua independência em 2 de outubro de 1958.
Essa ruptura foi imediatamente sancionada pela França. No momento da saída da administração colonial, as autoridades francesas desmontaram ou levaram consigo uma parte significativa dos equipamentos e recursos materiais de que a colônia dispunha, chegando ao ponto de tornar inutilizáveis certos edifícios e instalações. A Guiné viu-se, assim, confrontada, logo no início, com as consequências econômicas e administrativas de sua escolha política.
Sékou Touré, no entanto, insere a Guiné no movimento de luta contra o colonialismo e no não-alinhamento. Assim como Nkrumah, ele considera que a independência política só faz sentido se abrir caminho para uma verdadeira autonomia econômica e para a cooperação entre os povos africanos. A Guiné oferece, em particular, seu apoio aos movimentos de libertação que lutam contra o domínio colonial, sobretudo nas colônias portuguesas, e torna-se um local de acolhimento para diversos militantes e organizações anticolonialistas.
As trajetórias de Gana e da Guiné apresentam, portanto, diferenças, mas expressam uma mesma aspiração: transformar a independência jurídica em emancipação real. É precisamente essa perspectiva que preocupa as antigas potências coloniais e, de maneira mais ampla, os Estados Unidos, que buscam preservar uma ordem econômica internacional favorável às potências ocidentais.
Essas posições resumem a ambição que animava uma parte significativa dos líderes africanos da época. A independência não deve levar à fragmentação do continente em Estados fracos e dependentes, mas à construção de uma solidariedade política, econômica e cultural capaz de resistir às antigas potências coloniais e às novas formas de dominação.
Nkrumah tornou-se rapidamente a figura mais influente dessa corrente panafricanista. Ele organizou em Acra conferências que reuniram líderes africanos, ativistas anticolonialistas e representantes dos movimentos de libertação ainda em luta contra a dominação portuguesa, britânica ou francesa.
Em Washington, essa evolução suscita uma oposição crescente. Os Estados Unidos apoiaram oficialmente o princípio da descolonização, sobretudo para enfraquecer os antigos impérios europeus. No entanto, não desejam ver surgir governos capazes de questionar a ordem econômica internacional dominada pelas grandes potências capitalistas e imperialistas. O problema não é apenas ideológico. O Gana controla importantes exportações de cacau, enquanto outros países africanos dispõem de recursos estratégicos essenciais para a indústria ocidental: cobre, cobalto, urânio, manganês, cromo ou petróleo.
O governo Eisenhower espera, num primeiro momento, manter boas relações com Nkrumah. Este realizou uma visita oficial aos Estados Unidos em 1958 e contou com certa simpatia da opinião pública americana. No entanto, suas posições a favor do não alinhamento, sua aproximação com o Egito de Nasser, a China Popular e a União Soviética, bem como seu apoio aos movimentos revolucionários africanos, alimentaram a animosidade de Washington.
A deterioração das relações se acelerou no início da década de 1960. Gana enfrentava dificuldades econômicas crescentes, enquanto a oposição interna se fortalecia. Em fevereiro de 1966, enquanto Nkrumah se encontrava em viagem à China e ao Vietnã do Norte, um golpe militar o derrubou. Arquivos desclassificados revelam que a CIA tinha conhecimento dos planos dos golpistas e mantinha contatos estreitos com os opositores ao regime, enquanto altas autoridades americanas desejavam a derrubada de Nkrumah por forças pró-ocidentais. Para muitos líderes africanos, a queda de Nkrumah surgiu como um aviso: os projetos de autonomia continental esbarravam na hostilidade das grandes potências ocidentais.
O episódio do Gana, no entanto, constitui apenas um complemento a uma crise muito mais grave: a do Congo. O Congo Belga conquistou sua independência graças a grandes mobilizações populares em 30 de junho de 1960. Seu imenso território abriga alguns dos recursos minerais mais importantes do mundo, notadamente o cobre e o cobalto de Katanga, bem como o urânio de Shinkolobwe, que havia sido utilizado na fabricação das bombas atômicas americanas durante a Segunda Guerra Mundial. O novo primeiro-ministro, Patrice Lumumba, personifica a esperança de uma independência verdadeiramente soberana.
Durante a cerimônia oficial em Léopoldville, na presença do rei Balduíno, Lumumba proferiu um discurso que rompeu com a retórica de gratidão esperada pelas autoridades belgas. Ele denunciou as humilhações da colonização e afirmou a vontade do povo congolês de controlar seu próprio destino. Esse discurso provocou imediatamente uma forte oposição em Bruxelas e em Washington.
Poucos dias após a independência, o exército congolês se amotina, enquanto a província de Katanga, liderada por Moïse Tshombe e apoiada pelos interesses mineradores belgas, se separa. Lumumba solicita a ajuda da ONU para preservar a unidade do país. Diante da insuficiência dessa ajuda, ele recorre à União Soviética para obter apoio logístico.
Documentos desclassificados revelam que o governo Eisenhower considerava, na época, Lumumba uma séria ameaça aos interesses ocidentais na África Central. A CIA recebeu a missão de afastá-lo do poder. Vários planos de assassinato foram cogitados.
Em setembro de 1960, o presidente Joseph Kasa-Vubu anuncia sua destituição, enquanto o coronel Joseph-Désiré Mobutu assume o controle do exército com o apoio dos Estados Unidos e da Bélgica.
Preso, transferido para Katanga e posteriormente entregue às autoridades separatistas, Lumumba foi executado em 17 de janeiro de 1961.1
Por muito tempo, os governos belga e americano minimizaram sua responsabilidade nesse assassinato. As investigações parlamentares belgas e americanas, bem como os trabalhos de numerosos historiadores, já comprovaram o envolvimento das autoridades belgas e o papel central desempenhado pela CIA nos esforços para eliminar politicamente Lumumba.
O impacto desse evento ultrapassa em muito as fronteiras do Congo. Para grande parte da opinião pública africana e do movimento dos não-alinhados, o assassinato de Lumumba tornou-se o símbolo da intervenção das potências ocidentais contra os líderes que buscavam controlar as riquezas de seus países e conduzir uma política independente.
Ao mesmo tempo, outras experiências de soberania africana também despertavam a desconfiança dos Estados Unidos. No Mali, Modibo Keïta empreende uma política de planejamento econômico, desenvolve as empresas públicas e busca reduzir a dependência em relação à antiga potência colonial francesa. Na Tanzânia, Julius Nyerere elabora o projeto da Ujamaa, uma forma de socialismo africano baseada nas comunidades rurais, ao mesmo tempo em que apoia ativamente os movimentos de libertação da África Austral.
Na Argélia, Ahmed Ben Bella transformou Argel na capital do Terceiro Mundo revolucionário, acolhendo militantes anticolonialistas e revolucionários, Che Guevara e representantes do FLN vietnamita, do MPLA angolano e do PAIGC da Guiné-Bissau2 ou ainda do ANC sul-africano. Em todos os casos, as autoridades americanas agem para combater, por todos os meios, a formação de uma rede transnacional de solidariedade tricontinental (África-Ásia-América Latina) anti-imperialista e revolucionária.
Um dos alvos é a figura de Mehdi Ben Barka. Opositor marroquino e ex-presidente da Assembleia Nacional, Ben Barka tornou-se um dos principais organizadores da Conferência Tricontinental prevista para o Havana em 1966. Seu projeto visava aproximar os movimentos revolucionários da África, da Ásia e da América Latina em uma perspectiva anti-imperialista global. Seu sequestro em Paris, em outubro de 1965, em uma operação envolvendo os serviços de segurança marroquinos e franceses, provocou fortes reações internacionais. Existem indícios sérios de que os serviços americanos estavam a par da operação contra Mehdi Ben Barka e haviam infiltrado nos serviços de segurança marroquinos.
Na sequência de solicitações formuladas no âmbito da legislação americana sobre acesso a documentos administrativos (FOIA), a CIA reconheceu, em 1976, possuir mais de 1.800 documentos relativos a Ben Barka e ao seu caso.
No final da década de 1960, o balanço já era pesado para a corrente panafricanista radical. Lumumba havia sido assassinado, Nkrumah derrubado, Ben Bella afastado do poder pelo golpe de Estado de Boumediene, Nasser havia perdido a Guerra dos Seis Dias iniciada por Israel em 1967, enquanto vários outros líderes enfrentavam pressões econômicas, diplomáticas ou militares. A Organização da Unidade Africana, criada em 1963, sobrevive, mas suas ambições federalistas estão consideravelmente reduzidas.
Para Washington, esse período constitui um importante sucesso estratégico. Os Estados Unidos conseguiram impedir a formação de um bloco panafricano capaz de conduzir uma política econômica coordenada e de pôr em causa o acesso ocidental aos recursos do continente. Mas essa vitória dá início a uma nova fase: a do apoio a regimes aliados encarregados de garantir a estabilidade da ordem regional durante a Guerra Fria.
Depois de ter contribuído para afastar ou eliminar vários líderes panafricanistas, Washington empenha-se em consolidar uma ordem regional baseada em aliados considerados confiáveis. Ao mesmo tempo, os movimentos de libertação da África Austral tornam-se um dos principais teatros da Guerra Fria no continente.
II. De Mobutu à África do Sul racista: consolidando uma ordem regional favorável aos interesses de Washington (1965-1991)
O objetivo de Washington já não é apenas impedir o surgimento de governos considerados hostis, mas consolidar um ambiente político estável que garanta a defesa dos interesses ocidentais em uma região onde se concentram importantes recursos minerais e energéticos. Essa estratégia levou os Estados Unidos a apoiar diversos regimes autoritários apresentados como baluartes contra o comunismo. O caso mais emblemático é o do Congo, que passou a se chamar Zaire em 1971.
Após seu primeiro golpe de Estado, em setembro de 1960, e sua tomada definitiva do poder,em novembro de 1965 o general Joseph-Désiré Mobutu impôs-se gradualmente como um dos principais aliados africanos de Washington. Durante quase três décadas, seu regime recebeu considerável apoio militar, financeiro e diplomático dos Estados Unidos, aos quais se somaram a Bélgica e, posteriormente, a França. Apesar da corrupção sistêmica, da severa repressão à oposição e do desvio de uma parte significativa das receitas mineradoras, Mobutu contou com o apoio constante dos sucessivos governos americanos.
Esse apoio não se explica apenas pelo anticomunismo declarado do líder zairense. O Zaire ocupa uma posição geográfica central na África e possui recursos estratégicos de primeira importância. O cobre e o cobalto de Katanga são indispensáveis para diversas indústrias ocidentais, enquanto o país constitui uma base logística essencial para as operações conduzidas contra os movimentos de libertação da África Austral. Para Washington, a estabilidade do regime de Mobutu surge como uma condição para a preservação do equilíbrio regional.
Ao longo dos anos, Mobutu transforma o Estado em um sistema de clientelismo, no qual os recursos públicos alimentam um enriquecimento pessoal considerável. Enquanto a dívida externa aumenta e as infraestruturas se deterioram, o presidente zairense acumula uma fortuna privada estimada em vários bilhões de dólares. O Banco Mundial e o FMI, no entanto, continuaram a apoiar seu governo durante grande parte da Guerra Fria, ilustrando a primazia das considerações geopolíticas sobre as exigências de boa governança frequentemente invocadas em outros contextos.
O apoio de Washington a Mobutu insere-se em uma estratégia mais ampla de defesa da ordem capitalista e imperialista na África, seja na forma colonial ou neocolonial.
Isso fica demonstrado por seu apoio a Portugal, que se recusou obstinadamente a conceder a independência às suas colônias africanas. Sob o governo de António de Oliveira Salazar e, posteriormente, de Marcelo Caetano, Lisboa travou longas guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, a fim de preservar o que considerava suas províncias ultramarinas. Os Estados Unidos protegem seu aliado português. De fato, Portugal ocupa uma posição estratégica na OTAN, e os Estados Unidos atribuem especial importância à manutenção de suas instalações militares no arquipélago dos Açores, essencial para as ligações aéreas e navais entre a América do Norte, a Europa e o Oriente Médio.
Essa prioridade estratégica levou Washington a aceitar, na prática, a prolongação das guerras coloniais portuguesas até a Revolução dos Cravos de 1974. A cumplicidade de Washington com o Portugal colonialista e a África do Sul do apartheid é ilustrada também pela recusa do Banco Mundial, dominado pelos Estados Unidos, em aplicar as sanções decretadas pela ONU contra o regime de Lisboa e o de Pretória.3 É preciso também destacar o apoio financeiro do FMI à África do Sul na década de 1970.4
De fato, na mesma época, a África do Sul ocupava um lugar igualmente importante nos cálculos estratégicos dos Estados Unidos. Desde a chegada ao poder do Partido Nacional, em 1948, o regime do apartheid impunha uma segregação racial institucionalizada que suscitava uma condenação crescente no cenário internacional. Os governos americanos denunciam oficialmente essa política, especialmente nos fóruns das Nações Unidas. Mas essa condenação permanece, por muito tempo, limitada em suas consequências práticas.
Considerações geopolíticas e econômicas pesam fortemente nessa atitude. A África do Sul dispõe de importantes reservas de ouro, platina, cromo, manganês e outros minerais indispensáveis à indústria ocidental. Ela também controla o Cabo da Boa Esperança, rota marítima essencial quando o Canal de Suez está fechado. Acima de tudo, Pretória é vista por Washington como um parceiro importante na luta contra os movimentos apoiados pela União Soviética e por Cuba na África Austral. Essa convergência tornou-se particularmente visível durante os governos de Richard Nixon e Ronald Reagan.
A partir do início da década de 1980, a política denominada de “engajamento construtivo”, defendida pelo secretário de Estado adjunto Chester Crocker, privilegiou o diálogo com Pretória em vez de sanções econômicas que, segundo Washington, poderiam fortalecer os movimentos revolucionários. Essa orientação suscitou críticas veementes tanto no Congresso dos Estados Unidos quanto no movimento internacional de luta contra o apartheid. Em 1986, o Congresso aprovou finalmente a Comprehensive Anti-Apartheid Act, impondo sanções contra a África do Sul, apesar do veto do presidente Reagan.
A Libéria constitui outro exemplo revelador do apoio prestado por Washington a um regime autoritário durante a Guerra Fria. Em 12 de abril de 1980, o sargento-chefe Samuel K. Doe derrubou e assassinou o presidente William Tolbert durante um golpe de Estado militar. Washington considerou o regime de Doe como um importante aliado anticomunista na África Ocidental. O governo Reagan fortaleceu consideravelmente essa relação. Em 1981, os Estados Unidos enviaram 100 Boinas Verdes e um contratorpedeiro à Libéria para manifestar seu apoio ao governo militar de Doe, enquanto a ajuda econômica e militar americana aumentou consideravelmente durante a primeira metade da década de 1980.
No entanto, é na Angola que as contradições da política americana se tornam mais evidentes. Quando Portugal se retirou, em 1975, três movimentos reivindicavam o poder: o MPLA, o FNLA e a UNITA. Rapidamente, a guerra civil angolana tornou-se um conflito internacional. O MPLA recebe o apoio de Cuba e da União Soviética, enquanto o FNLA e, sobretudo, a UNITA de Jonas Savimbi contam com o apoio dos Estados Unidos, do Zaire de Mobutu e da África do Sul. Já em 1975, o governo Ford autorizou uma ampla operação clandestina da CIA, conhecida como IA Feature5, destinada a impedir a vitória do MPLA. Apesar dessa intervenção, o envio de dezenas de milhares de soldados cubanos permitiu ao governo angolano manter Luanda e garantir sua sobrevivência.
Nos anos seguintes, a UNITA continuou sendo um dos principais beneficiários da ajuda americana na África. O governo Reagan amplia ainda mais esse apoio no âmbito da “doutrina Reagan”, que visa apoiar os movimentos armados que combatem governos aliados de Moscou. Jonas Savimbi é recebido em Washington como um líder da resistência anticomunista, enquanto as operações militares sul-africanas continuam em território angolano.
A solidariedade internacionalista de Cuba
Para Cuba, ao contrário, a intervenção em Angola responde a uma lógica profundamente diferente. Fidel Castro considera o envolvimento cubano como um ato de solidariedade internacionalista para com os movimentos de libertação africanos. Entre 1975 e 1991, cerca de 400 mil soldados cubanos serviram sucessivamente em Angola. Sua presença contribuiu para impedir o colapso do MPLA diante das ofensivas da UNITA e do exército sul-africano.
O confronto atingiu seu ponto culminante na batalha de Cuito Cuanavale, entre 1987 e 1988, vencida pelos cubanos e seus aliados, o que alterou profundamente as relações de força regionais.6 Os acordos que se seguiram levaram à retirada gradual das tropas cubanas, mas também à independência da Namíbia e à retirada das forças sul-africanas desse território.
Nelson Mandela ressaltaria em várias ocasiões que a resistência angolana e a intervenção cubana desempenharam um papel decisivo no enfraquecimento do regime do apartheid. Segundo ele, a derrota militar sul-africana em Angola contribuiu para tornar inevitável o início das negociações que, alguns anos mais tarde, resultariam na libertação dos presos políticos e no fim da segregação institucionalizada.
Enquanto essas transformações revolucionavam a África Austral, uma nova geração de líderes africanos tentava relançar o projeto de soberania econômica do continente. Entre eles, Thomas Sankara ocupa um lugar singular. Ao assumir o poder em Burkina Faso, em agosto de 1983, Sankara empreendeu profundas reformas sociais, agrárias e administrativas. Ele incentivou a autossuficiência alimentar, combateu a corrupção, conduziu uma política ambiciosa em favor da emancipação das mulheres e criticou abertamente os mecanismos de dependência financeira que vinculam os Estados africanos aos credores do Norte.
Thomas Sankara, a dívida e o questionamento da ordem econômica internacional
No cerne dessa contestação está a questão da dívida externa. Para Sankara, a questão da dívida não constitui apenas um problema financeiro. Ela representa um instrumento político que limita a soberania dos Estados africanos. Segundo ele, aceitar indefinidamente o pagamento de dívidas contraídas em condições muitas vezes impostas pelas antigas potências coloniais equivale a manter uma forma de dependência após o fim oficial da colonização.
Esse é o sentido de seu famoso discurso proferido em 29 de julho de 1987 perante a Organização da Unidade Africana, em Adis Abeba.7 Diante dos líderes africanos reunidos na capital etíope, Sankara apela a uma ação coletiva do continente contra o sistema da dívida. Ele afirma, em particular, que, se o Burkina Faso fosse o único país a se recusar a pagar, ficaria isolado e ameaçado, mas que, se todos os Estados africanos agissem em conjunto, poderiam obrigar os credores a rever suas exigências. Nesse discurso, Sankara associa diretamente a questão da dívida à do desenvolvimento e da soberania, declarando: “A dívida não pode ser paga, porque, se não pagarmos, nossos credores não morrerão. Mas, se pagarmos, seremos nós que morreremos.”
Thomas Sankara associa diretamente a questão da dívida à do desenvolvimento e da soberania
Além da frase de efeito, sua intervenção defende uma concepção global de desenvolvimento: combate à pobreza, soberania alimentar, investimento em serviços públicos, emancipação das mulheres e rejeição às políticas impostas pelo exterior. Algumas semanas depois, em 15 de outubro de 1987, Sankara foi assassinado durante o golpe de Estado que levou Blaise Compaoré ao poder.
As circunstâncias exatas de seu assassinato continuam sendo objeto de debates, mas as principais responsabilidades dos atores burquinenses envolvidos no golpe de Estado já estão amplamente comprovadas. O envolvimento direto dos Estados Unidos não foi comprovado, ao contrário do que ocorreu no caso de Lumumba ou em certas operações da CIA na África Central e Austral. No entanto, o desaparecimento de Sankara ocorre no momento em que seu discurso sobre a dívida e sua vontade de romper com as políticas de ajuste estrutural contestavam diretamente a ordem econômica internacional defendida pelas instituições financeiras dominadas pelas potências ocidentais.
A experiência sankarista constitui, assim, um dos últimos grandes episódios do período da Guerra Fria em que um líder africano tentou combinar soberania política, transformação social e questionamento dos mecanismos econômicos herdados da dominação colonial.
Marrocos: apoio à monarquia e às reivindicações sobre o Saara Ocidental
Desde a independência de Marrocos em 1956, os Estados Unidos mantêm uma relação privilegiada com a monarquia alauíta. Durante a Guerra Fria, Washington considerava o reino um aliado estável diante dos movimentos nacionalistas radicais, socialistas ou revolucionários que contestavam a ordem regional dominada pelas potências ocidentais.
Sob o reinado de Hassan II, apesar de um regime autoritário marcado por forte repressão política durante os “anos de chumbo”, a monarquia marroquina contou com apoio político e militar dos Estados Unidos. A defesa dos interesses estratégicos dos Estados Unidos prevaleceu, mais uma vez, sobre os princípios democráticos professados.
Essa proximidade também se manifesta na questão do Saara Ocidental. Após a retirada espanhola em 1975 e a organização da “Marcha Verde”, o Marrocos assumiu o controle de grande parte do território, provocando um conflito com a Frente Polisário, apoiada pela Argélia. Durante a guerra do Saara Ocidental, Washington prestou um importante apoio político e militar a Rabat, considerando o Marrocos como um parceiro estratégico na luta contra a influência soviética no Norte da África.
Em dezembro de 2020, o governo Trump deu mais um passo ao reconhecer oficialmente a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental no âmbito dos Acordos de Abraão. Essa decisão representa um alinhamento direto com as reivindicações de Rabat e rompe com a posição internacional baseada na organização de um processo de autodeterminação sob a égide da ONU.
O caso marroquino confirma uma constante da política americana na África: os Estados Unidos têm regularmente privilegiado monarquias e regimes autoritários considerados parceiros confiáveis, em detrimento dos movimentos populares, das reivindicações democráticas e dos princípios de autodeterminação.
III. Da “guerra contra o terrorismo” à rivalidade com a China: as novas formas da estratégia de Washington na África (1991-2026)
Após a Guerra Fria: a África na estratégia americana, entre marginalização e intervenções militares
O fim da Guerra Fria alterou profundamente o lugar da África na política externa dos Estados Unidos. Durante várias décadas, o continente fora considerado principalmente sob a ótica da rivalidade com a União Soviética. O desaparecimento desta, em 1991, pareceu reduzir sua importância estratégica para Washington. Alguns responsáveis americanos chegam a considerar que a África se torna uma preocupação secundária em um mundo agora dominado pela vitória americana e pelo surgimento de um “momento unipolar”.
Esse período, no entanto, não significou uma retirada dos Estados Unidos. Estes permaneceram profundamente envolvidos nos assuntos africanos, mas os meios de intervenção evoluíram. O apoio direto a regimes aliados — uma característica marcante de sua estratégia durante a Guerra Fria — foi gradualmente dando lugar, em parte, a formas de influência mais difusas: condicionalidade da ajuda, alavancagem da dívida e dos recursos financeiros, pressões diplomáticas e, após o 11 de setembro, uma presença militar crescente e operações conduzidas em nome da luta contra o terrorismo.
A intervenção norte-americana na Somália em 1992-1993 constituiu um dos primeiros exemplos dessa nova fase. Inicialmente apresentada como uma operação humanitária destinada a facilitar o envio de ajuda alimentar, ela se transformou em uma intervenção militar contra as milícias locais. A batalha de Mogadíscio, em outubro de 1993, durante a qual 18 soldados americanos foram mortos, levou o governo Clinton a reduzir consideravelmente seu envolvimento direto.
O trauma somali exerceu uma influência duradoura sobre a política americana na África: Washington passou, a partir de então, a dar maior ênfase a formas indiretas de intervenção, notadamente o recurso a forças especiais, o treinamento e o armamento das forças de segurança africanas, as parcerias em matéria de segurança e, cada vez mais, os programas destinados a moldar os ambientes políticos africanos.
A década de 1990 também foi marcada pelo genocídio em Ruanda, em 1994, e pelas guerras que, posteriormente, assolaram a região dos Grandes Lagos. A cautela dos Estados Unidos durante o genocídio ruandês, após a experiência na Somália, foi amplamente criticada. Ao mesmo tempo, Washington busca fortalecer suas relações com certos Estados africanos considerados parceiros confiáveis, notadamente o Egito, o Marrocos, Uganda, Ruanda e a Etiópia.
O caso do Sudão: da hostilidade em relação ao regime de Bashir à cooperação pragmática e, posteriormente, ao apoio cauteloso à transição democrática
O Sudão também ilustra as contradições da política americana na África. Após sua chegada ao poder por meio de um golpe de Estado em 1989, Omar al-Bashir instaurou um regime autoritário baseado no domínio das Forças Armadas, no islamismo político e na repressão em massa aos opositores.
Durante a década de 1990, o governo sudanês manteve relações estreitas com movimentos islâmicos internacionais, notadamente com Osama bin Laden, que permaneceu no Sudão entre 1992 e 1996.
Na década de 1990, Washington endureceu sua política em relação a Cartum: os Estados Unidos incluíram o Sudão na lista de países que apoiam o terrorismo em 1993 e impuseram amplas sanções econômicas ao regime em 1997. Após os atentados de 1998 contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia, o confronto com Washington se acentuou ainda mais.
No entanto, a política americana em relação ao Sudão sofreu uma mudança no início dos anos 2000. Diante das guerras civis que assolavam o país e, em especial, do conflito em Darfur a partir de 2003, Washington condenou oficialmente os crimes cometidos pelas forças governamentais e suas milícias aliadas. Mas, paralelamente, os governos americanos procuram manter um diálogo com Cartum a fim de promover a estabilidade regional, a luta contra o terrorismo e o processo que culminou na independência do Sudão do Sul em 2011.
A virada em matéria de segurança: a criação do AFRICOM e a militarização da intervenção dos Estados Unidos na África
Os atentados de 11 de setembro de 2001 conferiram à África um novo lugar nas preocupações estratégicas dos Estados Unidos, mas essa mudança já havia começado vários anos antes. Os atentados a bomba contra as embaixadas americanas em Nairóbi, no Quênia, e em Dar es Salaam, na Tanzânia, em 7 de agosto de 1998, marcaram uma virada importante. Esses atentados, perpetrados pela Al-Qaeda, causaram 224 mortos e mais de 4.500 feridos. Embora as embaixadas americanas fossem os alvos, a grande maioria das vítimas eram quenianos e tanzanianos: apenas 12 delas eram americanas.
Esses atentados demonstraram que a África não era simplesmente um palco periférico do iniciante conflito jihadista transnacional, mas também um local onde as populações locais estavam diretamente expostas à sua violência. Esses ataques levaram a um reforço substancial da cooperação antiterrorista dos Estados Unidos com os governos da África Oriental e contribuíram para preparar o terreno para a mudança muito mais ampla em matéria de segurança que se seguiu ao 11 de setembro de 2001.
Os ataques de 11 de setembro, de fato, integraram a África à “guerra mundial contra o terrorismo” liderada pelos Estados Unidos. Os grupos armados islâmicos presentes na Somália, no Sahel, na bacia do Lago Chade e em outras regiões da África Oriental tornaram-se alvos cada vez mais importantes.
Essa evolução levou à criação, em 2007, do Comando dos Estados Unidos para a África (AFRICOM), que se tornou plenamente operacional em 2008. Pela primeira vez, todo o continente africano — com exceção do Egito, que está sob a alçada do Comando do Oriente Médio — passou a estar sob a responsabilidade de um comando militar americano específico.
AFRICOM: uma estrutura militar dos EUA para o continente africano
A criação do AFRICOM ilustra uma grande transformação. Durante a Guerra Fria, a África era administrada principalmente a partir de Washington por meio de alianças políticas, ajuda militar e operações secretas. Passou, então, a ser integrada a uma estrutura militar permanente. O AFRICOM implementou programas de treinamento para as forças armadas africanas, exercícios militares conjuntos, operações de inteligência, missões das forças especiais, bem como capacidades de vigilância aérea e de drones.
A base norte-americana de Camp Lemonnier, em Djibuti, tornou-se um dos principais centros militares dos Estados Unidos na África. Localizada próxima ao mar Vermelho e ao golfo de Áden, constitui uma plataforma estratégica para a vigilância e as operações militares na África Oriental, no Oriente Médio e ao longo das principais rotas marítimas.
A política dos Estados Unidos no Sahel tornou-se outro pilar importante dessa estratégia. Após a intervenção francesa no Mali em 2013 contra grupos armados jihadistas, os Estados Unidos forneceram apoio logístico, bem como recursos de inteligência e vigilância. A construção da base de drones de Agadez no Níger ilustrou o crescente envolvimento dos Estados Unidos na região.
No entanto, essa militarização produziu resultados mistos. Apesar de duas décadas de operações internacionais, os grupos armados continuam a ganhar terreno em várias regiões. Os golpes de Estado no Mali (2020 e 2021), em Burkina Faso (2022) e no Níger (2023) revelam uma profunda crise da estratégia ocidental no Sahel. As novas autoridades militares denunciaram a presença francesa e, em alguns casos, buscaram estabelecer novas parcerias, notadamente com a Rússia. No Níger, a crise evidenciou de forma particularmente clara os limites dessa estratégia. Após o golpe de Estado de julho de 2023, as novas autoridades militares exigiram a retirada das forças francesas e americanas. Washington acabou sendo obrigada a retirar suas tropas de Niamey e, em agosto de 2024, de sua principal base de drones em Agadez.
Obama, Trump e Biden: entre discursos de parceria e o retorno da competição entre as grandes potências
O governo Obama tenta mudar a imagem da política americana na África. O presidente americano dá maior ênfase ao desenvolvimento econômico, à governança e às parcerias com a sociedade civil. Essa nova abordagem, no entanto, não significa um abandono das prioridades estratégicas. Sob Obama, o AFRICOM dá continuidade às suas operações e o governo americano continua a considerar a estabilidade em matéria de segurança como uma condição prévia para o desenvolvimento econômico.
A presidência de Trump (2017-2021) introduz um tom diferente. O continente africano ocupa um lugar menos importante na comunicação presidencial, mas a estratégia americana começa a ser cada vez mais estruturada em torno da competição com a China. A publicação, em 2018, da estratégia americana para a África pelo conselheiro de segurança nacional John Bolton afirma explicitamente que Washington deseja impedir que Pequim e Moscou utilizem seus investimentos econômicos e militares para ampliar sua influência.
Essa evolução torna-se ainda mais clara sob o governo de Joe Biden. Diante da expansão chinesa na África, especialmente no âmbito das Novas Rotas da Seda, Washington busca propor uma alternativa. A cúpula Estados Unidos-África, realizada em Washington em dezembro de 2022, marca essa vontade de reengajamento. O governo Biden enfatiza: os investimentos privados; as infraestruturas; as cadeias de abastecimento e os minerais críticos necessários às tecnologias verdes e digitais. Essa nova orientação fica clara com o corredor de Lobito.
O corredor de Lobito: os minerais africanos no centro da rivalidade sino-americana
O projeto do corredor de Lobito constitui, provavelmente, o exemplo mais simbólico da nova política americana na África. Essa infraestrutura ferroviária conecta as regiões mineradoras do sul da República Democrática do Congo e da Zâmbia ao porto angolano de Lobito, no Oceano Atlântico. Seu objetivo é facilitar a exportação de minerais estratégicos, notadamente o cobre e o cobalto. Esses recursos tornaram-se essenciais para as indústrias do século XXI: baterias elétricas; veículos elétricos; tecnologias digitais; infraestruturas energéticas.
No entanto, a China ocupa uma posição dominante em vários segmentos dessas cadeias de valor. Empresas chinesas controlam uma parte significativa da extração e, sobretudo, da transformação do cobalto congolês. Para Washington, apoiar o projeto de Lobito responde, portanto, a um duplo objetivo: oferecer uma alternativa às infraestruturas chinesas e garantir o acesso ocidental aos minerais indispensáveis para a transição energética. O projeto é apresentado oficialmente como uma parceria mutuamente benéfica com os países africanos envolvidos. Mas ele também ilustra a nova lógica da competição geopolítica: as infraestruturas tornam-se instrumentos de influência, assim como as bases militares o foram durante a Guerra Fria.
Trump II e a National Security Strategy 2025: rivalidade com a China, controle de recursos e externalização das fronteiras ocidentais na África
O retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025 transforma a África em um palco explícito do confronto entre os Estados Unidos e a China: Washington busca conter a influência de Pequim, garantir o acesso aos recursos estratégicos da África e impedir que a China consolide sua posição econômica e geopolítica no continente.
Essa evolução explica o interesse crescente de Washington pelos minerais da RDC, pelo cobre da Zâmbia, pelo corredor de Lobito e pelas parcerias com certos Estados africanos produtores de recursos estratégicos. Explica também a importância crescente atribuída às relações com Ruanda e a República Democrática do Congo. Os acordos entre Kigali e Kinshasa, apoiados por Washington, são apresentados como tendo o objetivo de reduzir as tensões no leste da RDC e promover a estabilidade regional. No entanto, na realidade, eles se inscrevem em um contexto mais amplo, no qual os Estados Unidos buscam garantir o acesso a recursos minerais estratégicos, notadamente o coltan, o cobalto e os minerais necessários às novas tecnologias.
Trump também introduziu uma nova dimensão na pressão exercida pelos Estados Unidos sobre os governos africanos: persuadi-los a aceitar migrantes expulsos dos Estados Unidos, incluindo pessoas que não são cidadãos dos países que os acolhem. À semelhança do que fazem os governos dos países da Europa Ocidental, o governo Trump tem recorrido cada vez mais às chamadas “expulsões para países terceiros”, buscando celebrar acordos com governos africanos para que estes acolham as pessoas que Washington deseja expulsar do território americano. Ruanda concordou em acolher pessoas deportadas em troca de apoio financeiro dos Estados Unidos, enquanto Eswatini também concordou em acolher pessoas deportadas dos Estados Unidos. Outros governos africanos, notadamente o Sudão do Sul e Uganda, foram envolvidos em discussões sobre acordos semelhantes.
Esses acordos ilustram uma transformação mais ampla nas relações entre Washington e os governos africanos. Os Estados Unidos buscam cada vez mais externalizar os custos humanos e políticos de sua política migratória, transferindo a responsabilidade pelas pessoas deportadas para países mais pobres, por vezes em troca de ajuda financeira ou outros benefícios.
Em alguns casos, as pessoas deportadas não têm qualquer vínculo prévio com o país africano que as acolhe. Isso estende à política migratória a lógica já perceptível na cooperação em matéria de segurança: os Estados africanos são cada vez mais chamados a desempenhar funções que atendam aos interesses estratégicos dos Estados Unidos além de suas próprias fronteiras.
Não se deve perder de vista que a Casa Branca está intensificando o uso do Banco Mundial e do FMI para consolidar sua influência na África, ao mesmo tempo em que aprofunda as políticas neoliberais já amplamente aplicadas desde a década de 1980.
A África do Sul: novo ponto de tensão com Washington
A relação com a África do Sul ilustra, por fim, uma transformação significativa. Durante a Guerra Fria, Pretória era considerada por Washington como um parceiro estratégico anticomunista. Hoje, o país tornou-se um ator do Sul Global, membro do BRICS e importante parceiro econômico da China.
A política externa sul-africana, notadamente sua proximidade com Pequim e Moscou, seu papel no BRICS e sua ação perante a Corte Internacional de Justiça a respeito de Gaza, provocam fortes tensões com Washington.
Sob o segundo mandato de Trump, essas tensões se acentuam. Donald Trump acusa o governo sul-africano de conduzir políticas hostis aos interesses dos africâneres e ameaça utilizar instrumentos econômicos contra Pretória. Elon Musk, natural da África do Sul, também intervém publicamente nesses debates, repercutindo os ataques contra o governo sul-africano. Diante da agressividade verbal de Trump e de sua chantagem com sanções alfandegárias, o governo sul-africano tende a fazer concessões que o inquilino da Casa Branca, no entanto, considera insuficientes.
Conclusão
Desde o fim da Guerra Fria, os instrumentos do poder dos Estados Unidos na África mudaram, mas seus objetivos fundamentais permanecem. As operações clandestinas e o apoio a regimes autoritários ou ditatoriais considerados favoráveis aos interesses de Washington continuam; a presença militar americana se consolidou e novas parcerias de segurança foram estabelecidas. Diante da crescente influência da China, Washington busca agora reconquistar parte do terreno econômico e estratégico perdido no continente.
Para garantir seu acesso a recursos essenciais e preservar seus interesses geopolíticos, Washington também pretende impedir qualquer ressurgimento de um panafricanismo progressista capaz de pôr em causa esse domínio. As diversas potências que atuam na África têm interesse em que ocorram conflitos na região, a fim de enfraquecer a capacidade de resistência e de unidade dos povos.
Se os povos africanos desejam conquistar as condições para um desenvolvimento verdadeiramente soberano, que garanta a realização dos direitos humanos e respeite a Natureza, deverão opor-se às pretensões de Washington, bem como às das demais grandes potências, sejam elas ocidentais ou orientais. Trata-se de romper com a lógica da submissão, da dependência e da acomodação em relação às potências que continuam a considerar a África, antes de tudo, como um espaço de rivalidade geopolítica e como uma reserva de matérias-primas, extraídas por uma mão de obra mal remunerada, à custa de consequências humanas, sociais e ecológicas catastróficas.
A verdadeira alternativa passa pela reconquista da soberania dos povos africanos sobre seus recursos, suas escolhas políticas e seu futuro.
O autor agradece a Sushovan Dhar, Christian Dubucq e David Otieno pela revisão e pelos conselhos.
Notas
- Éric Toussaint, Em memória de Patrice Lumumba, assassinado em 17 de janeiro de 1961, CADTM, publicado em 17 de janeiro de 2026, https://www.cadtm.org/Em-memoria-de-Patrice-Lumumba-assassinado-em-17-de-janeiro-de-1961, consultado em 27 de agosto de 2026. ↩︎
- O PAIGC desempenhou um papel fundamental na libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Seu líder, Amílcar Cabral, uma das figuras panafricanistas e revolucionárias mais proeminentes da África, foi assassinado em Conakry em janeiro de 1973. ↩︎
- Éric Toussaint, Banco Mundial: Uma História Crítica, Syllepse, Paris, 2022, capítulo 3, páginas 86-88, https://www.syllepse.net/banque-mondiale-une-histoire-critique-_r_65_i_881.html, consultado em 27 de agosto de 2026. ↩︎
- Eric Toussaint e Patrick Bond, África do Sul: O apoio do Banco Mundial e do FMI ao regime do apartheid, CADTM, publicado em 24 de abril de 2019, https://www.cadtm.org/Afrique-du-Sud-Le-soutien-de-la-Banque-mondiale-et-du-FMI-au-regime-de-l, consultado em 27 de agosto de 2026. ↩︎
- Veja o documento desclassificado elaborado pela CIA: CIA’s secret war in Angola, publicado em 12 de outubro de 2004, https://www.cia.gov/readingroom/docs/CIA-RDP88-01314R000100660020-1.pdf, consultado em 27 de agosto de 2026. ↩︎
- Em 2026, enquanto Cuba via sua sobrevivência ameaçada pela falta de hidrocarbonetos devido ao bloqueio imposto por Washington, os dirigentes angolanos, herdeiros do MPLA, demonstram total falta de reciprocidade e solidariedade com Cuba ao não enviar petróleo para a ilha caribenha. Os dirigentes angolanos, cujo principal parceiro econômico é a China, desejam manter as melhores relações possíveis com Washington, mesmo que isso signifique abandonar totalmente aqueles que os ajudaram ao preço de enormes sacrifícios na década de 1980. ↩︎
- Veja o vídeo do discurso de Thomas Sankara https://www.youtube.com/watch?v=DfzoToJEnu8&t=21s, acessado em 27 de agosto de 2026. Leia o texto do discurso: https://www.cadtm.org/un-front-uni-contre-la-dette, acessado em 27 de agosto de 2026. ↩︎