Governos estaduais têm disputa acirrada
Pesquisas recentes apontam cenários indefinidos em Pernambuco, Rio Grande do Sul e Bahia e mostram força da direita em parte do país; eleição estadual também pode influenciar a correlação de forças nacional
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
A pouco menos de três semanas do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, as disputas pelos governos estaduais começam a ganhar contornos mais definidos – mas alguns dos principais colégios eleitorais ainda apresentam cenários de alta incerteza. Levantamentos recentes mostram eleições particularmente acirradas em Pernambuco, Rio Grande do Sul e Bahia, enquanto Ceará e Pará também concentram disputas relevantes.
Os resultados revelam um mapa estadual bastante fragmentado e mostram que a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não se reproduz automaticamente nos estados. Em alguns deles, alianças locais atravessam as divisões nacionais e colocam candidatos de diferentes campos políticos no mesmo palanque.
Pernambuco: empate absoluto
A pesquisa mais recente, divulgada nesta terça-feira (15) pelo RealTime Big Data, mostra uma das disputas mais equilibradas do país. João Campos (PSB) aparece com 44% e Raquel Lyra (PSD), com 43% no primeiro turno. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados.
O levantamento ouviu 1,6 mil eleitores entre 10 e 14 de setembro e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na pesquisa espontânea, quando os nomes não são apresentados, Raquel e João também aparecem empatados, com 25% cada. O cenário permanece rigorosamente igual no segundo turno: 44% para João Campos e 44% para Raquel Lyra.
O dado chama atenção também pela quantidade de eleitores que ainda não definiu seu voto. Na pesquisa espontânea, 35% não souberam ou não responderam, indicando espaço considerável para mudanças até outubro.
A disputa pernambucana tem ainda uma particularidade: João Campos representa o PSB, enquanto Raquel Lyra está no PSD, partido que abriga diferentes correntes e alianças no cenário nacional. Assim, a eleição estadual não pode ser lida simplesmente como um confronto entre lulismo e bolsonarismo.
Rio Grande do Sul: Brizola e Zucco empatam
No Rio Grande do Sul, a corrida também entrou em uma zona de máxima competitividade. Pesquisa RealTime Big Data divulgada em 10 de setembro mostra Luciano Zucco (PL) com 36% e Juliana Brizola (PDT) com 35% no primeiro turno. Gabriel Souza (MDB) aparece em terceiro, com 22%. Com margem de erro de dois pontos percentuais, Zucco e Brizola estão tecnicamente empatados.
O resultado representa uma mudança importante em relação ao levantamento anterior do mesmo instituto. Duas semanas antes, Juliana Brizola tinha 38%, contra 32% de Zucco. Ou seja, a vantagem que a candidata apresentava desapareceu no intervalo entre as pesquisas. O segundo turno reproduz o empate: 44% para Zucco e 44% para Juliana Brizola.
Gabriel Souza, entretanto, continua sendo um personagem central da disputa. Embora esteja atrás dos dois líderes no primeiro turno, o candidato do MDB aparece com 22% e poderia ser decisivo caso avance para uma eventual segunda rodada.
O cenário gaúcho é especialmente relevante porque coloca frente a frente um nome identificado com o campo bolsonarista e uma candidata do PDT, partido historicamente ligado ao trabalhismo. A eleição também ocorre em um estado onde a direita mantém forte presença eleitoral desde 2018, mas onde o campo progressista e de centro-esquerda continua competitivo.
Bahia: outro empate no Nordeste
Na Bahia, o cenário é igualmente apertado. A pesquisa mais recente do RealTime Big Data, realizada entre 4 e 8 de setembro, mostra Jerônimo Rodrigues (PT) com 45% e ACM Neto (União Brasil) com 44%. A diferença de apenas um ponto percentual está dentro da margem de erro de dois pontos, configurando empate técnico. No segundo turno, o quadro permanece praticamente idêntico: Jerônimo tem 46% e ACM Neto, 45%.
O resultado coloca em evidência uma das disputas mais importantes do Nordeste. A Bahia é um dos principais redutos eleitorais do PT e de Lula, mas ACM Neto mantém uma base política expressiva no estado e já demonstrou capacidade de mobilização eleitoral.
Na pesquisa espontânea, porém, o nível de indefinição é elevado: Jerônimo aparece com 20%, ACM Neto com 19% e 49% dos entrevistados não souberam ou não responderam.
Isso significa que, apesar de a disputa parecer polarizada entre os dois principais candidatos, uma parcela expressiva do eleitorado ainda não transformou sua preferência em uma escolha consolidada.
Ceará: pesquisas divergem sobre o tamanho da disputa
O Ceará apresenta uma situação diferente. Os três levantamentos mais recentes confirmam Ciro Gomes (PSDB) na liderança, mas divergem sobre o tamanho de sua vantagem sobre o atual governador, Elmano de Freitas (PT).
Na Quaest, divulgada em 4 de setembro, Ciro aparece com 45%, contra 34% de Elmano. O Datafolha, realizado entre 31 de agosto e 2 de setembro, apontou 46% a 37%.
Já a Atlas/Focus encontrou um cenário muito mais equilibrado: 48,4% para Ciro e 45,8% para Elmano, diferença de apenas 2,6 pontos e próxima da margem de erro de dois pontos.
A divergência é importante. Embora Ciro esteja numericamente à frente nos três levantamentos, a Atlas/Focus indica uma disputa muito mais competitiva do que a registrada por Quaest e Datafolha.
No segundo turno, a diferença também varia. A Atlas/Focus aponta Ciro com 50% e Elmano com 46,1%; o Datafolha registra 50% a 42%; e a Quaest, 49% a 36%.
O Ceará também apresenta uma configuração política peculiar. Ciro Gomes disputa pelo PSDB, enquanto Elmano tenta a reeleição pelo PT, mas as alianças estaduais atravessam as fronteiras tradicionais da política nacional. O próprio Ciro reúne forças que, no plano federal, estão em campos distintos.
Pará: eleição dividida entre Norte e Sul
No Pará, a disputa também é tecnicamente equilibrada, embora a pesquisa mais recente disponível seja mais antiga que as realizadas nos demais estados destacados.
Levantamento Genial/Quaest realizado em julho colocou Hana Ghassan (MDB) com 24% e Dr. Daniel (Podemos) com 20% no primeiro turno. Considerando a margem de erro de três pontos, os dois aparecem tecnicamente empatados. No segundo turno, Hana tinha 36% e Daniel, 35%.
A eleição paraense chama atenção por outro motivo: a disputa estadual não está reproduzindo integralmente a polarização Lula x Flávio Bolsonaro.
Hana, que assumiu o governo após a saída de Helder Barbalho para disputar o Senado, tem o apoio da tradicional família Barbalho. Dr. Daniel, por sua vez, tenta ampliar sua presença para além da região metropolitana de Belém.
O Pará apresenta ainda uma divisão geográfica e política relevante. Segundo análise citada pela Folha, o norte do estado tem perfil mais lulista, enquanto o sul, marcado pela presença do agronegócio, da mineração e do garimpo, apresentou comportamento mais favorável ao bolsonarismo na eleição anterior.
O peso do agronegócio aparece também na campanha: os dois principais candidatos vêm fazendo acenos ao setor e defendendo medidas relacionadas a benefícios fiscais e infraestrutura rodoviária.
São Paulo é exceção entre os grandes colégios
Enquanto alguns dos principais estados têm disputas apertadas, São Paulo apresenta um quadro bastante diferente. As pesquisas mais recentes mostram o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) com vantagem confortável sobre Fernando Haddad (PT). No RealTime Big Data, divulgado com entrevistas realizadas entre 9 e 12 de setembro, Tarcísio aparece com 53% contra 36% de Haddad no primeiro turno.
O Datafolha, com entrevistas de 8 a 10 de setembro, apontou 49% para Tarcísio e 29% para Haddad. Já o Paraná Pesquisas registrou 49,7% contra 34,5%.
Os números indicam que, ao menos neste momento, São Paulo não está entre as disputas estaduais mais acirradas.
Um mapa estadual ainda em aberto
O retrato das pesquisas mostra, portanto, um país eleitoralmente fragmentado. Pernambuco, Rio Grande do Sul e Bahia aparecem como os principais exemplos de disputas em que praticamente qualquer oscilação pode alterar a liderança, enquanto Ceará apresenta divergências importantes entre os institutos.
O cenário também revela uma dificuldade para o campo progressista: a popularidade ou a força eleitoral de Lula não se converte automaticamente em vantagem para candidatos identificados com a esquerda ou com o centro-esquerda. Em estados como Bahia e Pernambuco, entretanto, candidatos apoiados por forças próximas ao lulismo permanecem competitivos.
No Rio Grande do Sul, a situação é ainda mais emblemática: uma disputa que chegou a ter Juliana Brizola seis pontos à frente passou, em duas semanas, para um empate técnico com o candidato do PL.
Já no Ceará, a possibilidade de uma eleição mais apertada depende de qual pesquisa se mostrar mais próxima do comportamento efetivo do eleitorado.
A eleição estadual também terá impacto sobre a disputa nacional. Governadores eleitos em outubro formarão parte importante da correlação de forças entre governo federal e oposição a partir de 2027. Além disso, os palanques estaduais ajudam a definir estruturas partidárias, bancadas parlamentares e capacidade de mobilização política.
Com o primeiro turno se aproximando, portanto, a disputa pelos governos estaduais deixa de ser um conjunto de eleições paralelas e passa a ser peça central na definição do mapa político brasileiro dos próximos quatro anos.