Eleições russas: política e economia estagnadas, guerra sem fim
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Eleições russas: política e economia estagnadas, guerra sem fim

Sobre a situação econômica russa no contexto das recentes eleições do país

Michael Roberts 24 set 2026, 10:38

Foto: Eleitor deixa a cabine de votação após votar durante as eleições parlamentares em Podolsk, região de Moscou, Rússia. (Pavel Bednyakov/Reprodução)

Via The Next Recession

Texto publicado antes das recentes eleições russas analisando a situação econômica do país perante a agressão militar contra a Ucrânia.

A Rússia realiza eleições para seu parlamento (Duma) a partir de hoje. Esta também será a primeira eleição legislativa na Rússia a ocorrer em meio à atual guerra na Ucrânia. Em disputa estão 450 cadeiras na câmara baixa da Assembleia Federal. Metade das cadeiras (225) é eleita por representação proporcional em listas partidárias, com um limite eleitoral de 5% dos votos. A outra metade é eleita em 225 distritos uninominais por votação majoritária.

O Rússia Unida, partido do presidente Putin, vencerá novamente, mas talvez sem a supermaioria (310 cadeiras) de que precisa para fazer mudanças constitucionais sem depender do apoio de outros partidos. A maioria dos partidos de oposição apoia, em maior ou menor grau, a presidência de Putin. Os comunistas geralmente ficam em segundo lugar, mas podem ter um desempenho pior desta vez, pois há outro grupo comunista, o “Rússia Justa”, que pode conquistar parte dos votos.

Há apenas um partido contrário à guerra na Ucrânia, o partido “liberal” Yabloko. O Yabloko atrai uma pequena camada de jovens que querem expressar sua oposição votando contra o Rússia Unida. Inicialmente, o Yabloko foi autorizado a participar da eleição proporcional por listas partidárias, mas posteriormente foi excluído, e muitos de seus candidatos nos distritos uninominais também foram impedidos de concorrer.

Onze integrantes do Yabloko tornaram-se réus em processos criminais, e 12 membros do partido foram incluídos no registro de agentes estrangeiros, entre eles o presidente do partido, Nikolay Rybakov, e seus vice-presidentes Boris Vishnevskiy, Vladimir Dorokhov e Lev Shlosberg. Outro vice de Rybakov, Maxim Kruglov, foi condenado a sete anos de prisão pelo Tribunal Zamoskvoretsky de Moscou, em 24 de junho de 2026, por publicar nas redes sociais informações sobre vítimas civis na Ucrânia durante a invasão russa, inclusive em Mariupol e Bucha. Mas ainda há um punhado de candidatos do Yabloko concorrendo. Os panfletos eleitorais do Yabloko são disputados, embora os distribuidores possam ser detidos temporariamente pela polícia por três horas, apenas para interromper sua agitação política.

O mais famoso dissidente contrário à guerra é o marxista Boris Kagarlitsky, preso em julho de 2023 e atualmente cumprindo uma pena de cinco anos em uma colônia penal. Mas há outros. Em novembro de 2025, integrantes de um pequeno círculo de estudos marxistas na cidade de Ufa foram condenados a 24 anos de prisão, acusados de “terrorismo” e de “conspiração para derrubar o governo” por lerem obras de Marx.

Mas a maioria dos eleitores ainda apoia a guerra e, com o resultado das eleições para a Duma sendo inevitável, a apatia predomina e a estagnação política é a ordem do dia. A economia russa reflete essa estagnação política. A guerra na Ucrânia caminha para completar seu quinto ano sem que haja uma solução à vista. No início da guerra, analistas ocidentais previram um rápido colapso da economia e do rublo. Eles continuam prevendo uma catástrofe cinco anos depois. Mas a economia russa sobreviveu e tem todas as condições para permanecer suficientemente estável para continuar a guerra ao longo de 2026 e além. A Rússia possui um estoque relativamente baixo de dívida e os impostos podem ser novamente aumentados. O banco central pode emitir moeda, e o governo pode continuar nacionalizando empresas para fortalecer a economia de guerra.

Por outro lado, depois de um período de expansão baseado na enorme transferência de recursos para uma economia de armamentos, o crescimento econômico desacelerou nos últimos um ou dois anos, a inflação continua elevada e os investimentos civis foram drenados pelo esforço de guerra. A economia russa entrou em 2026 mais fraca do que estava um ano antes, com o crescimento em queda e os preços do petróleo bem abaixo das projeções consideradas no orçamento. Na prática, a economia russa, como muitas outras da OCDE, encontra-se em “estagflação” (situação em que a inflação permanece elevada, mas a produção fica estagnada). O “keynesianismo militar” da Rússia já não está produzindo os mesmos resultados de antes.

O crescimento econômico no primeiro semestre foi metade do ritmo registrado um ano antes e quase sete vezes mais lento do que durante o boom econômico de guerra de 2023-24. A guerra no Irã elevou temporariamente as receitas russas provenientes do petróleo ao nível mais alto desde o início da guerra na Ucrânia, permitindo que os gastos do orçamento federal aumentassem 16%, com cerca de um terço destinado às forças armadas e à produção de armamentos. Como resultado, o setor industrial-militar da Rússia continuou a se expandir.

A produção industrial civil, entretanto, continua em contração, caindo 3,2% em relação ao ano anterior e 4,6% em comparação com os níveis de 2024, segundo estimativas de maio do Centro de Análise Macroeconômica e Previsão de Curto Prazo.

Em seu “cenário-base”, o Ministério do Desenvolvimento Econômico da Rússia reduziu sua previsão de crescimento do PIB russo em 2026 de 1,3% para 0,4%, e para 2027, de 2,8% para 1,4%. Portanto, não há colapso, mas também não há boom. O banco central prevê um crescimento real do PIB de 0,5% neste ano, subindo para 1,2% em 2027. As pequenas empresas, que já enfrentam dificuldades, continuarão sobrecarregadas por impostos mais elevados e terão dificuldades para obter crédito. Há uma grave escassez de mão de obra para sustentar as empresas. De fato, 68,7% das pequenas e médias empresas relataram perda de receitas em 2026; é provável que muitas encerrem suas atividades.

A taxa anual de inflação da Rússia subiu para 6,3% em agosto de 2026, o nível mais alto desde novembro de 2025, contra 6% no mês anterior. A inflação permanece persistentemente elevada, mantendo as taxas de juros em níveis altos e pressionando pequenas empresas e famílias.

No entanto, os aumentos médios dos salários continuam superando os aumentos de preços, de modo que, para muitos trabalhadores, especialmente aqueles empregados nos setores de armamentos, a renda real continua aumentando.

Quanto ao impacto da guerra, circulam rumores durante as eleições para a Duma de que o governo poderia anunciar uma mobilização forçada para compensar as perdas de soldados. Putin negou que isso vá acontecer. Isso certamente aumentaria o sentimento antiguerra. Enquanto isso, os gastos com a guerra já superam 7% do PIB anual. Apesar do aumento da arrecadação tributária, o forte crescimento dos gastos para financiar a guerra está consumindo o fundo soberano de riqueza da Rússia.

Mas a economia russa ainda dispõe de recursos suficientes para manter a guerra e há poucas razões para esperar algum colapso. Será uma questão diferente se, e quando, a guerra terminar. A produção bélica é, em essência, improdutiva para a acumulação de capital no longo prazo. Quando a guerra terminar, a economia russa voltará à acumulação de capital civil. Nesse momento, seus setores produtivos ficarão expostos. Uma recessão no pós-guerra é muito provável.

A economia russa continua fundamentalmente vinculada aos recursos naturais. Ela depende mais da extração do que da indústria manufatureira. A Rússia continua tecnologicamente atrasada e dependente de importações de alta tecnologia. O país não é um participante relevante em nenhuma das tecnologias de ponta, da inteligência artificial à biotecnologia. Até agora, não produziu tecnologias adequadas a um mercado competitivo de exportação, para além dos setores de armamentos e energia nuclear. A mensagem subjacente é que a economia russa e sua política permanecerão estagnadas durante o restante desta década.


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